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Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume. Olha, vamos começar o nosso episódio?
Let's go.
Sidekick! Bora. Cemente, espinho e rosa da semana. Queremos começar por aqui?
Começamos assim? Ok. Da semana? Eu fiz do mês.
Sim, dos últimos tempos. Pode ser duas, três semanas.
A minha rosa foi ter atingido os 10 mil seguidores.
Bem!
Let's go. Estou feliz, porque tu sabes que é só um número, mas ao mesmo tempo não é só um número pra quem quer trabalhar com o digital, que é o meu caso. E estou feliz, porque no fundo é o resultado de um trabalho que está a ser feito há muito tempo. Estou feliz.
É uma conquista que achas que muda alguma coisa em validar aquilo que tens feito?
Sim, sem dúvida que é mais uma validação do meu trabalho e acho que me posiciona num sítio melhor para trabalhar com marcas.
Eu percebo, porque não me lembro de quando atingi os 10 mil. Já foi há muitos anos. Mas lembro-me que foi o ano passado quando atingi os 100 mil, ou foi este ano. E lembro que isso foi durante muitos meses a olhar. Mas depois, imagina, quando cheguei lá foi tipo: "E agora? Tenho que pôr outro marco." Até senti uma quebra em termos de me apetecer fazer conteúdo com tanta regularidade e tanta consistência, porque o marco seguinte está tão longe.
Para ti, qual é o marco seguinte? 200?
Sim.
Ya. Agora é duro.
Mas isto dos números é complicado.
Até porque agora que sou agenciado e estou mais dentro do meio, eu sei que há marcas que não trabalham. Um microinfluenciador é considerado a partir dos 10 K para as marcas. Ou seja, abaixo disso, tu nem és bem considerado um influencer.
Sim, nós temos muita tendência de dizer: "Não podemos ligar tanto a números", mas em tudo na nossa vida, números conta sempre e no nosso trabalho ainda mais.
Tudo é mensurável e acima de tudo é isso. É só um número, mas ao mesmo tempo não é. E para mim é, no fundo, e tu sabes que eu tive e ainda tenho alguns bloqueios naquilo que toca à criação de conteúdo vertical. Portanto, estou feliz e orgulhoso do trabalho. E foi isso.
Muito bem. A minha rosa. Exato. Olha, eu estava a tentar fazer uma rosa específica, um momento específico e não consegui, porque acho que este último mês ou estas últimas duas semanas, foi a última vez que eu gravei com a Inês, que normalmente fazemos essa avaliação de duas em duas semanas, eu acho que tem estado tudo bem. E a minha rosa é a minha vida estar bem neste momento.
Ok.
Porque eu sinto que estou com um ótimo equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Sinto que estou a ter muito mais tempo. É que eu estive mesmo a fazer esta análise comparando com a minha vida em Lisboa. Sinto que estou a ter muito mais tempo com amigos, muito mais tempo com a família, sinto-me cada vez mais próxima de pessoas da minha família, seja próxima, seja primos, etc. Sinto que estou a ter muito tempo para exercícios, desafios que eu vou fazendo e também estou bem ao nível profissional, sinto-me realizada. Portanto, eu acho que a minha rosa é a minha vida no Porto estar bem.
Acho que isso é uma rosa incrível.
Ya. Mas não há um momento. Mas também, lá está, tem de haver sempre um momento, tem de haver sempre um alto?
Não.
Ou há uma fase em que...
A nossa vida é sempre altos e baixos.
E vamos falar muito disso neste episódio também, que é uma reflexão que eu estive a fazer em terapia e que também queria a tua opinião. Mas qual é que foi o teu espinho?
O meu espinho. Esta foi um bocado mais difícil de pensar, mas acho que foi sentir quebra de confiança de uma pessoa próxima.
Ui, ok, que específico.
Ya. E tu sabes que eu tenho uma ligação muito forte, digamos assim, com a confiança. É difícil eu confiar a 100% numa pessoa. Depois quando há uma quebra de confiança de uma pessoa próxima, isso para mim torna-se um espinho difícil.
E isso abala outras áreas da tua vida? Sentes que impacta a tua performance profissional e assim?
Impacta. Impacta o meu mood. Ou seja, já é difícil fazer a gestão entre ter um emprego convencional e a parte do digital. Eu não sei como é que tu lidas com isso no dia a dia, mas eu para mostrar a minha personalidade no digital.
Tens de estar bem.
É que eu quero mostrar, eu tenho que estar bem. E há dias em que um gajo não está bem e afeta, claro.
Totalmente. Imagina, se eu tenho uma discussão com alguém ou há uma relação que está pior, isso está diretamente relacionado com a quantidade de vezes que eu vou aparecer, com a forma como eu vou aparecer. Já não me vai apetecer falar tanto, ser tão expansiva, porque eu acho que para tu trazeres a tua personalidade também tens que estar mesmo confiante e numa boa fase, não é?
É verdade. São espinhos difíceis esses.
Olha, o meu espinho, e é também uma coisa que eu quero explorar neste episódio, é aceitar que, contrariamente àquilo que eu disse em cima, de que estou bem equilibrada, é aceitar, estou a ter dificuldade em aceitar ter dias meh, sinto que quero estar sempre-- como estou com uma rotina boa, quando tenho dias em que estou piorzinha, fico tipo: "Isto não devia acontecer."
Pergunta: o que é estar piorzinha? Se calhar é só um dia mais normal, em que não está-
É um dia menos preenchido, menos dinâmico.
Isso acontece-me muito, mas nem todos os dias vão ser megapreenchidos e nem todos os dias vais estar a gravar campanhas e nem todos os dias vais ter um desafio. Às vezes o dia é só um dia.
Sim, eu comecei um psicólogo novo há pouco tempo e ele disse-me assim: "Mariana, tu estás a ter dificuldade em aceitar que a vida é aborrecida." E isto tem de entrar de alguma forma, porque eu estou tão habituada que quando estou em ritmo acelerado e está muita coisa a acontecer, é quando eu estou bem.
Mas já viste que nós precisamos bué desse. E eu acho que o digital também traz muito isso, principalmente na tua escala, em que tu tens muitos trabalhos, muitas campanhas, tens outro sentido de responsabilidade para com a tua audiência. Parece que tens que estar sempre a desafiar-te a ti mesma. E às vezes a vida também não é isso, não é? Digo eu, não sei. Para ti, um dia meh é um dia em que se calhar vais ficar a editar mais conteúdos em vez de produzires. Não é?
Um dia mais por casa, que vejo menos pessoas, tenho menos compromissos fora de casa.
Porque tu falas muito que eu acho que tu fazes um excelente equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal, mas tu também precisas muito de estar sempre a trabalhar. E é uma coisa que tu tens aí trabalhado.
E quando não estou sempre a trabalhar, estou à procura de fazer Ironmans e meias maratonas para estar ali a sofrer.
Ya. É engraçado, eu tenho muito isso com o trabalho. No desporto eu não faço essas maluqueiras, é só o ginásio. Mas também sou assim.
E eu comecei a perceber que isto sou sempre eu à procura desta sensação, mesmo no desporto. É porque no meu trabalho, se calhar, estou numa fase mais chill, então eu vou querer dedicar-me mais tempo, fazer uma coisa que me puxe.
Mas isso não é bom para nós, sabes disso, não é?
Eu sei.
Porque a médio e longo prazo não vai ser fixe. Porque há fases da vida, alturas em que o trabalho acalma, as coisas abrandam e nós também temos que aprender a tirar proveito desses momentos. E está aqui a falar um gajo que não o sabe fazer, atenção, não estou a falar com propriedade, mas é uma nota para mim e para ti. Nós estamos sempre à procura do estímulo e eu acho que isto é muito também devido ao mundo em que vivemos das redes sociais. Acho que é bué provocado por isso.
Estás num dia, se calhar até estás mais parado, mais por casa, se calhar nem saíste ainda de casa, nem foste treinar e vais aos stories e vês gente a fazer bué cenas desde as 07:00 a.m e ficas tipo: "Bem, estou a ficar para trás."
Ya.
Tu sentes isso ao comparares-te com outras pessoas que trabalham com o digital ou que já estão a fazer aquilo que tu te imaginas a fazer?
Especificamente essa questão do ficar para trás, acho que não sinto tanto. Há uma comparação, mas eu tento sempre desviar essa pressão de mim mesmo. Imagina que eu sigo um criador de conteúdo que só vive disto e que o trabalho dele é criar conteúdo e fazer um podcast. Imagina que seria um objetivo. E ele já foi treinar de manhã. Mas eu de manhã tive que ir para o escritório. Eu já fiz as pazes comigo mesmo naquilo que diz respeito ao fato de que, neste momento da minha vida, eu estou focado numa área específica, que é fazer crescer o meu podcast e o meu digital. É nisso que eu estou a pôr as fichas todas. Então eu sei que para eu conseguir atingir esse objetivo, há coisas que vão ter que ficar de lado, como por exemplo, treinar todos os dias, que sabes que era uma coisa que eu fazia sempre quando tinha só um emprego. Eu agora não treino as cinco vezes por semana que queria, se calhar treino duas ou três, mas sei que não fui treinar porque estou a trabalhar. Então pensa: "Este gajo está a treinar bué, ok, bacana. Mas caga, tu estás noutra fase."
Isso é um pensamento consciente e racional, mas acho que às vezes também não conseguimos ser tão racionais assim.
Não, às vezes não. Às vezes tu olhas e pensas: "Brutal, este gajo, que fixe."
Quem me dera ter a vida dele.
Era isso que eu ia aí. Mas isso é uma coisa minha desde sempre, não tem a ver com o digital, mesmo antes das redes sociais. Imagina, vou-te dar um exemplo um bocado fútil e estúpido, mas só para perceberes. Eu quero muito ter um Porsche, é um sonho de vida, quero bué, eu adoro Porsche. E tenho amigos que já compraram um Porsche. E eu nunca sinto inveja. Eu fico feliz por ele ou por outra pessoa qualquer de fora e eu sei que um dia vou chegar lá. E eu penso: "Ok, vou ter que galgar mais agora, mas eu um dia vou chegar lá." Eu penso mais assim. Nunca fui um gajo muito de me comparar, mas às vezes acontece, principalmente com malta que tem podcast e que está a seguir um percurso parecido àquele que eu quero fazer ou igual. Sim, há sempre uma comparação e vou sempre ver o que este gajo está a fazer de bem, o que este gajo está a fazer de mal ou que eu não me identifico tanto, mas esse sentimento de inveja eu não sinto.
Mas isso é muito bom, porque eu acho que a comparação é o que mais nos dilacera no dia a dia.
Mata-nos.
Principalmente com as redes sociais.
Mata-nos bué. Mas também há um shift que muda, pelo menos eu senti. Quando tu passas a criar conteúdo, em vez de consumir, claro que eu consumo, eu sou consumidor de conteúdo, mas eu estou muito mais preocupado em pensar no que é que vai ser o meu próximo conteúdo, que agora eu faço um esforço para pensar nisso.
Eu acho é que tu, se calhar, como não tens tanto tempo livre, não pensas tanto.
Isso é um bom ponto.
Eu acho que é bué real. Imagina, eu também estava a falar com o meu psicólogo sobre isto, porque eu quando estava com a Flare e com tanto trabalho em cima de mim, eu não tinha tempo para pensar e não me surgiam estas questões. Será que é a idade a bater e a crise dos 20 e não sei o quê, que me está a trazer questões ao de cima? O que eu quero fazer da vida, comparar-me com mais gente, ou é eu neste momento estar numa fase em que tenho mais tempo para pensar e mais poder de escolha, porque na altura é tipo: "bora fazer isto acontecer, preciso ganhar dinheiro" e é tipo, o caminho estava interessado.
O que tu acabaste de me dizer fez-me um grande clique, sabes o que foi? Sabes o que eu tive dificuldade, e eu disse está bocado em off, em pensar na minha rosa, espinho e semente da semana? É porque eu não paro para pensar.
Porque é uma exercício simples.
Bué simples. Sabes quando é que eu pensei? Eu estava com essa back of mind durante a semana toda. E foi há bocado no banho. Eu estava a tomar banho.
E agora tem de ser, já não tenho tempo.
Já não tenho tempo e pensei: "Agora é o único momento em que eu vou estar só comigo." E eu pensei: "Mas pensa, não pode ser assim tão difícil chegar a uma coisa boa, uma má e uma cena do futuro." E se calhar tu tens bué razão.
Eu acho bué que quanto mais tempo livre tens, mais pensas e mais questões surgem.
Ya.
Mas é importante pensar. E nós passamos também muito tempo a fugir desse tempo.
É verdade.
Por isso é que nós não conseguimos estar desligados a 100%. Tu já viste que a nova geração agora não consegue estar a ver um filme e só ver o filme, tem que estar a ver o filme no telemóvel Nós não conseguimos só fazer uma coisa, não conseguimos ir fazer um passeio sem estar com estímulos. Se tu fores pensar, ou estás com um podcast ou estás com música. E eu própria sofro desse mal. Por isso é que eu também tento ao máximo ter momento de journaling. Imagina, eu estou a preparar o pequeno-almoço com um podcast. Vais desligar o podcast e agora vais pensar. E forço-me a isso, mas é difícil.
Pois é. Eu não me lembro da última vez que me arranjei em casa de manhã, porque a primeira coisa que eu faço é por música. Já estou a ser estimulado. Estou no banho e já estou a ser estimulado. Estou a ouvir música, acabo de me arranjar, passo para o pequeno-almoço, meto um podcast ou meto uma série. Muito curioso isso. Eu só passo tempo comigo mesmo a conduzir.
Eu ouvi o Pedro Teixeira da Mota há pouco tempo a falar disto e eu cheguei à conclusão que eu faço isso muitas vezes inconscientemente, que é estar a conduzir sem nada, sem música, sem podcast. Eu faço isto muitas vezes, já inconscientemente. E quando ele falou, eu: "Realmente eu faço isso e penso muito no carro a conduzir."
Mas tu gostas de conduzir sem música?
Às vezes eu até prefiro, não sei.
Porque eu lembro-me desse episódio. Isso já foi há algum tempo.
Não, mas é que para mim bateu, porque era uma coisa que eu fazia sem pensar.
Mas eu tenho que ter música, só que eu abstraio da música. A cena é: eu a conduzir não curto ouvir podcast, é mais ouvir música. Eu penso muito, mas estou com música. O carro em silêncio, não curto.
Isso lá está, depende da pessoa. Mas acho que é importante teres pelo menos um momento do dia em que forçares estar a não ter estímulos. Seja a escrever, seja a ler, seja só a pensar, fazer uma caminhada.
E aí começam as ansiedades.
Qual é a tua semente?
A minha semente. Esta foi a que eu tive mais dificuldade, eu vou te dar uma resposta um bocado vaga, mas é aquilo que eu sinto, é um bocadinho à semelhança da tua rosa. Eu acho que não há nenhuma semente específica destes últimos tempos.
Mas é uma coisa que tu queiras levar para a frente, a semente.
Mas eu acho que o que eu quero levar para a frente é uma coisa que eu já plantei há algum tempo, ou que eu tenho vindo a plantar e tenho vindo a regar, que é este meu compromisso com o meu trabalho fora do meu emprego, o digital, o podcast, o obrigar-me a quebrar imensos preconceitos que eu tinha na minha cabeça, o arriscar. E eu tenho feito isso. Aliás, tu sabes que eu partilho muito contigo as minhas dúvidas, as minhas questões em relação ao arriscar. E acho que podia estar a fazer um trabalho muito melhor.
Já deste o primeiro passo.
Já dei os primeiros passos, portanto, a minha semente é esta, é continuar focado, a trabalhar, a ser mais consistente ainda e deixar que as coisas aconteçam.
E está a resultar, entretanto já começaste a sentir também mais resultados, seja ir para agência, não sei o quê. Isso também te dá outra vontade de: é por aqui o caminho.
Sem dúvida, porque começa a haver também aquela validação que também é precisa, porque no último ano e meio fui trabalhar.
E tens de justificar o porquê de teres posto isso em primeiro lugar antes de treinar. Mudaste as tuas prioridades, isso também tens de ter esse step in the back para justificar esse compromisso.
E porque é uma coisa que me dá prazer. Às vezes parece que não estou a trabalhar, mas estou. Acho que essa é a minha semente.
A minha é uma coisa que eu não sei porque é que manda acontecer, mas eu gosto muito de ler, sempre gostei, e ando com muita dificuldade. Então a minha semente é voltar a ler. E eu acho que o que manda acontecer é que quase todos os livros que eu tenho em casa para ler são mentalidade, desenvolvimento pessoal, muito na mesma vibe, e eu acho que preciso começar a ler outras coisas.
Tu já leste o que eu te emprestei no "Amiga, faz parte"?
Não. Mas eu tentei.
Tu tentaste esse?
É que eu não estou a conseguir ler nada. Eu não sei o que é que se anda a passar.
Será que precisas de um romance ou de outro tipo de literatura?
Talvez para desbloquear qualquer coisa.
Eu também houve uma altura, eu leio quase zero hoje em dia, o que é uma tristeza, porque eu lia muito quando ia para a cama, para ganhar o sono. Só que, lá está, como andamos sempre neste ritmo, eu chego à cama e eu leio duas páginas. Não dá para ler, quando tu lês só duas páginas, tu já não fazes o acompanhamento do livro. E eu não ando a ler nada, mas houve uma altura que eu lia muito e também estava a perder o gosto de ler porque só lia livros técnicos. E depois comecei a ler policiais.
Mas eu acho que eu não ando é a dar espaço no meu dia a dia para isso acontecer, porque imagina, eu nunca fui de ler antes de ir dormir, porque são livros técnicos, é um momento pessoal assim densos, eu não consigo ler antes de dormir, porque fico cansada. Então eu reservava tempo durante o dia e olhava muito para isto, faz parte do meu trabalho, eu vou falar disto no podcast, eu preciso disto para o meu trabalho também, e reservava tempo durante o dia. Isso não anda a acontecer, então acho que também sou eu que ando a descurar um bocadinho dessa rotina, porque eu também faço muitos vídeos à volta disso, então eu olhava muito isto como eu tenho de ler e comecei o ano com o desafio de ler um livro por semana.
Mas o que substituíste o tempo que guardavas para ler?
Por nada. Se calhar, mais telemóvel. Não sei. Mais séries. Tive uma fase em que andava a ver muito pouco séries, livros e filmes, e agora ando mais nisso. Acho que é uma fase, mas gostava de voltar porque eu sei que me faz bem. Mesmo para discurso e saberes mais coisas, e eu falo tantos tópicos aqui.
Quando tu lês, eu também noto isso. Quando eu leio, quando eu estou a ler regularmente, parece que o discurso sai mais fluido, porque a tua cabeça está com as palavras todas na cabeça, parece que está ali tudo no micro-ondas a girar.
E tu continuas a fazer terapia?
Sim. Desde 2020, já cinco anos e qualquer coisa.
Tu achas que os psicólogos fazem sentido por fases ou faz sentido um psicólogo que te acompanhe na vida toda?
Boa pergunta Não te sei responder, porque eu tive um psicólogo na minha adolescência, quando tive aquela questão do transtorno obsessivo-compulsivo e tudo mais, e depois fui eu que procurei em adulto o meu psicólogo atual. E eu dei match com ele. Ou seja, nem sequer penso ter outro psicólogo, porque eu dei efetivamente match e gosto da abordagem dele e da forma como ele leva as consultas. E é curioso perguntares-me isso, porque já tive amigos a perguntar: "Mas não é normal, estás há cinco anos em terapia, então tu não tens alta?" Porque há muitas pessoas que olham para a terapia como um medicamento ou como um tratamento. "Ok, agora eu ando numa fase mais ansiosa, ando com este problema maior, vou ao psicólogo fazer um tratamento qualquer, comum de outra doença qualquer, e depois tens alta." O meu terapeuta nunca me falou disto e eu nunca senti necessidade de ter alta. E eu já o questionei sobre isso. E ele diz que, no meu caso específico, faz sentido eu continuar a ser acompanhado. E eu também acho. Até te digo, o ano passado houve uma altura em que ele me perguntou se eu não queria-
Dar uma pausa.
Não. Se eu não queria aumentar a consulta. E olha que já estou com ele há cinco anos, já vou percebendo. Ele não fez aquilo para me ter mais dinheiro ao bolso, é porque eu estava numa fase em que eu estava a precisar. Portanto, a minha experiência pessoal é dizer que acho que não vejo por fases, mas depende muito da pessoa.
Porque eu sinto que já tive várias experiências em que fez mesmo sentido aquela pessoa naquela fase e deixou de fazer. Não sei se sou eu que tenho dificuldade. Este meu novo psicólogo até goza comigo de dizer: "Nós vamos fazer quatro ou cinco consultas, tu vais dar o vado." Não sei se sou eu que tenho esta tendência. Mas eu estou a gostar muito deste e nesta fase está a fazer sentido, mas eu tive coaching e coisas assim que fizeram sentido numa fase e que deixaram de fazer.
Como é que tu sabes que é o momento de procurar outro psicólogo?
Quando eu sinto que não me está a acrescentar, mas se calhar isso são coisas da minha cabeça.
Mas quando tu sentes, se calhar isso tem a ver com aquele estímulo que estavas a comentar há bocado que precisamos constantemente. Eu não sei se é isto ou se é o trigger que te levou a tocar.
Eu estou lá para melhorar.
Está bem, mas às vezes a melhoria leva tempo, porque há coisas que não estão tomadas na tua cabeça. Eu digo-te isto porque há fases da minha terapia em que eu sinto que em três ou quatro sessões, eu saio dali sem nenhum insight novo. O momento Eureka não veio.
Eu não deixava chegar à quarta.
A sério?
Mas isso se calhar é de mim. Pode ser errado.
Não é errado, acho que não é errado, não há certo. Acho que tens que fazer aquilo que faz sentido para ti. Mas eu, há alturas, há fases em que eu estou ali a escavar um tema específico que não me desbloqueia e eu continuo a sentir-me da mesma forma, a comportar-me da mesma forma. E há um dia, fruto dessas três ou quatro sessões que não aconteceram nada, em que de repente desbloqueou. Acho que ao longo destes cinco anos nunca houve nenhum momento em que eu pensasse sequer trocar.
Porque eu até estava a gostar da última, que estava a fazer EMDR.
Não sei o que é isso.
Aquilo das bolinhas, já te falei disso.
Já. Ok.
E chegou ali um momento, à segunda consulta que eu senti isso, que não me acrescentou isso aí. Mas se calhar estou a desistir fácil. Mas eu tive várias destas ao longo da vida e por acaso agora estou a gostar, vamos ver se me aguento.
Quantas é que foram?
Agora tive duas.
Estás na lua de mel.
Estou super na lua, mas eu sei lá, tipo: "Oh, meu Deus, sim, esta pessoa percebe-me."
E tu a contar tudo de novo outra vez, tipo grana seca ou não? Ou tu já só contas a partir da fase que tu queres?
Eu gosto de falar.
Eu sei que gostas, mas tu dás background, tipo infância, ou vais só de onde queres?
Eu fui lá, eu quero tratar isto e isto. Eu sou bué pragmática, bué racional. Olhe, eu tenho esta questão e esta questão que eu quero resolver e isto é por causa disto e isto é por causa disto. Eu vou lá tipo, agora trate.
Que isso.
Se calhar depois para escavar mais é preciso mais tempo. Mas ao longo das consultas também vão escavando depois para outras coisas, não tens de na primeira contar tudo.
Claro. Não, é porque ele já sabe tudo sobre mim, entendes? E eu vou trazendo, tal como tu, eu às vezes chego lá e digo: "Luís, eu preciso de desbloquear isto específico." E ele depois começa a levar-me para onde ele acha que vai. Normalmente, ele está certo e leva-me para o sítio que me faz desbloquear a questão. Mas há um trabalho, ele tem a obrigação de me trazer.
Mas se calhar nunca foi a pessoa certa para mim.
Entendo. Pode ser.
E como é que tu lidas? Tens dias maus também?
Foda-se.
Como é que lidas com eles?
Com os dias maus?
Sim. O que é para ti um dia mau?
É um dia em que eu estou ansioso, estou irritado.
Mas como é que chegas a esse ponto?
Vários motivos. Pouco descanso, frustração no trabalho, as coisas não andarem ao ritmo que eu gostaria que elas andassem, às vezes. Problemas pessoais como aquele que te comentei há pouco. É muito por aí. O trabalho tem um impacto muito grande no meu dia a dia e há dias em que eu estou frustrado, porque quero chegar a todo lado. Eu acho que a minha maior fonte de frustração, que me leva a ter um dia mau, muitas das vezes, é eu querer chegar a todas as vertentes da minha vida que existem neste momento, ser exímio em todas elas, e há sempre alguma coisa que falha.
Então, mas estavas a dizer que definias bem as tuas prioridades. Na teoria?
Não. Quando é que eu disse isso?
Ou seja, de vou treinar menos e está tudo bem.
Não, essas pazes comigo estão bem feitas, mas as prioridades muitas das vezes são imprevisíveis no sentido em que, ok, eu treinar, eu estou a falhar comigo mesmo, está certo, caguei.
Então é o falhar com as outras pessoas.
É o falhar com o trabalho. E eu tenho dois empregos, no fundo. Porque eu encaro tudo isto digital, e tu sabes, e podcast e tudo mais, como um trabalho. Sim, estou-me a falhar só a mim, mas como eu encaro como trabalho, não estou a falhar só a mim. Então o outro emprego aí é que eu não posso falhar mesmo. Quando tu estás tão comprometido com duas coisas, há sempre uma que acaba por sair prejudicada.
Achas que quando deixares de ter o teu trabalho a full time, se um dia isso acontecer, para estares a trabalhar no teu sonho, não vais ter dias maus?
Vou, porque se depois As coisas más vão vir de outra forma.
Mas de que forma é que olhas para isso, para o sonho? Achas que quando lá chegares vais dizer: "A vida é uma maravilha"?
Não, a vida nunca é uma maravilha. E eu vejo por ti, que tu fazes isto a full time e tu também partilhas comigo as tuas dores. As dores mudam, mas vai sempre haver dias maus e dias bons. Simplesmente a fonte de frustração, a fonte da tristeza, a fonte da ansiedade vai mudar. Eu agora estou seguro, tenho um emprego. Estou seguro.
Sim, estás na instabilidade.
Mas depois vem aquela cena de: "E se para o mês que vem eu não faço campanhas? E se eu digo alguma coisa?" Porque depois a responsabilidade muda. E se eu agora digo alguma coisa no podcast que as pessoas vão cancelar? A fonte vai mudar, mas tu vais sempre ter dias maus, tu também tens dias maus e tu estás a trabalhar naquilo que é o teu sonho. E quando eu lá chegar, eu também vou ter dias maus.
E como é que lidas com esses dias?
Não sou muito bom em lidar com eles, mas tento compartimentar as coisas e dizer a mim mesmo: "É o que é, o que tu podes fazer para mudar isto? Podes fazer alguma coisa? Não. Vais ter que fazer mesmo contra a tua vontade? Sim. Então pronto, vais fazer, vais respirar fundo, fazes e daqui a bocado isto passa." Tento dar o conselho a mim mesmo que daria a um amigo que estivesse a passar pela mesma situação. Só que às vezes quando estás tu a fazer, estás mesmo às vezes irritado, mesmo chateado.
Sabes o que o meu psicólogo me disse? Que muitas vezes eu olho para estes dias como dias maus e não são. Por quê? Porque isto significa que eu estou a ter dias muito bons para poder medir estes dias, que são dias normais, como dias maus. E é mudar um bocadinho a perspetiva, de que tu estás a ter esses dias que para ti são maus, mas se fores ver, não é assim tão mau.
Claro que não é, há coisas muito piores.
Não é assim tão mau. Muda um bocadinho a perspetiva e isso está a acontecer porque nos outros dias estás a ter esses picos altos. Durante muito tempo tentei encontrar a vida assim e ela nunca vai ser. Para eu conseguir estar assim eixada em certos dias e estou a fazer coisas mesmo fixes, tenho também de ter alguns dias em que estou tipo...
Claro, para valorizar os outros. E porque a maior parte dos nossos problemas são problemas de primeiro mundo.
Mas válidos.
Válidos, porque é a nossa realidade, também costumo dizer sempre isso. E podemos sempre apoiar-nos naquele clichê que é: há sempre alguém pior que tu. Não é que eu pense muito assim. Lidar com dias maus, uma boa pergunta.
Isto tem estado muito na minha cabeça, não sei se vocês também sentem isso, os homens, mas eu sinto que as mulheres sentem muito mais isso por causa do ciclo. Eu tenho sempre uma altura do mês em que eu estou a passar por dias maus, mas imagina, são maus de verdade.
Mas o que é que é mau? É a tua cabeça, estás bué ansiosa?
É a cabeça. Eu vou lá e digo: "Faz bué sentido."
O que é que é para ti um dia mau? O que é que tu sentes? É frustração, é ansiedade?
Eu sinto ansiedade. Sinto ansiedade, sinto que são dias em que não me apetece tanto sair de casa, não me apetece ver pessoas, parece que fico ali numa bolha.
E depois ficas só contigo.
E não consigo publicar, e depois fico chateada comigo, e depois até sou capaz, se calhar, nem de treinar e fico chateada comigo. E é tudo uma bola de neve. Mas existem uns três, quatro dias no mês que eu sei que vão ser duros.
Nós não temos isso por fases. Por norma, a maior parte das vezes, diria que 90% dos meus dias maus é causado por fatores externos, que estão ligados ao meu dia a dia, à minha vida, mas fatores externos.
Pois, eu acho que se calhar os fatores externos também nos afetam, mas intensifica nessa fase, que estás mais vulnerável emocionalmente, as tuas hormonas estão mais wild, percebes?
Percebo.
Olha, queria entrar aqui naquilo que também estávamos a falar um bocadinho antes de sucessos e "missing performance" e não sei quê. Queria te perguntar, queria saber a tua perspetiva também sobre isto. Se achas que temos de estar sempre a correr atrás do próximo. Imagina, tu agora o teu objetivo é esse, então tu estás bué motivado para isso. E quando lá chegares, depois vais ter de arranjar outro. Como é que tu vês esta fome de querer sempre mais? Achas que vais chegar ali a um ponto em que dá o clique e é tipo: "Bem, a vida se calhar é só criar família, estar na minha, chill"?
Sabes que eu olho para isso como a minha vida. Eu já percebi, eu já me conheço bem o suficiente para saber que eu sou esta pessoa. Não vai haver um dia em que eu vou chegar e vou dizer, acho eu, porque as pessoas mudam, deixa-me fazer o disclaimer que daqui a uns anos eu--
Achas que é uma condição tua?
É uma condição minha, eu preciso disso. Muitas das vezes, lá está, estas dúvidas, eu penso para mim: "Mas eu não consigo parar, mas eu estou sempre a pensar em trabalho, mas eu tenho que estar sempre constantemente neste ritmo acelerado." E depois percebi, isto faz parte de quem eu sou e está tudo certo. Eu sou assim, é que eu sou feliz a ser assim e não me imagino a ser de outra forma. Então como é que eu olho para isso? Eu olho só como a vida. Não faz sentido eu estar aqui no conforto de viver uma vida average. E para mim uma vida average pode ser uma vida espetacular para outra pessoa qualquer. Tem a ver com a forma como cada pessoa individualmente olha para a vida. Eu olho desta forma. Eu sou feliz a correr atrás, eu sou feliz a trabalhar, eu sou feliz a conquistar. E há muitas coisas que eu quero fazer e eu não vou conseguir ir para a cama descansado se não estiver nesta correria. Portanto, eu olho para isso como a vida, simplesmente. Eu sou esta pessoa.
Imaginas-te a chegar aos 45, reformar-te e ficar de papo ao ar, a viajar e a jogar golfe?
Consigo imaginar-me a ter as coisas muito orientadas e se calhar nessa altura já ter pessoas Que mantenham o barco por mim, mas eu vou ter que estar sempre envolvido, eu vou ter sempre que trabalhar. Eu preciso disso para viver. Eu sou feliz a trabalhar, a fazer coisas, a construir coisas.
Trabalhar ou andar atrás de desafios na vida.
Sim.
Pode ser trabalhar, pode ser investimentos, pode ser outra coisa qualquer.
Sim, porque depois as coisas vão mudando e há muitas coisas além do digital que eu quero fazer. Tenho ideias de negócios, tenho coisas que quero fazer. Eu sou assim. Aliás, basta olhar para este ano. Eu estou no digital, mas tenho estúdio, e isso dá muito prazer.
Mas não significa que quem esteja num trabalho normal, estável e que goste desse equilíbrio, que esteja mal.
De todo. Foi o que eu disse, depende da forma como cada pessoa individualmente olha para a vida. Para mim, só isso não chega. E eu descobri isso.
Sabes que eu sinto que mudei um bocadinho o jogo da minha vida, de sair da marca para tentar encontrar mais equilíbrio e mais calma. E aquilo que eu cheguei à conclusão foi que eu agora me meto em High Rocks e coisas assim, para ir buscar essa fome, porque sinto falta no meu dia a dia. Porque o meu digital, eu estou bem, estou estável, não me traz esse desafio.
Ok.
Percebes?
Sentes que já lá chegaste?
Ao ponto que eu queria, sim. Sinto que agora não é para cima, é para os lados.
Diversificar.
Sim.
Giro.
Então sinto que, a nível profissional, estou numa fase em que me estou a deixar estar, enquanto ando para os lados. E vou buscar esta fome a outras coisas, que isto acontece inconscientemente. O eu ter me metido na corrida, é porque eu preciso de mais. E aquilo que eu sentia, por exemplo, quando eu estava na ginástica, de trabalhar para isso, o meu psicólogo disse-me: "A forma como estás a encarar o desporto agora, é como estavas a encarar a ginástica. E tu estás a entrar num loop que estás obcecada com isso. E temos de acalmar um bocado", porque eu acho que estou a canalizar toda essa minha vontade de fazer mais, agora no desporto, que antes estava na marca. Percebes? Portanto, eu também sinto que preciso disso.
Mas é engraçado tu sentires que já lá chegaste, e há bocado tu falaste na introdução da pergunta do sucesso. Eu tenho objetivos bem definidos, mas eu não sei se quando chegar lá, vou sentir que cheguei. "Ok, agora cheguei." É um processo, diria.
Depende o que é que é para ti o conforto. Ou seja, eu quando comecei a trabalhar nisto, tinha como objetivo fazer o salário que me sustentasse. A partir daí passa a ser outro patamar, não é? E vais sempre aumentando o patamar. Mas chega a um ponto em que tu estás confortável com aquilo que estás a fazer, porque tens muito tempo livre, mas estás estável. E a partir daí é que sabes que tens espaço para poder fazer outras coisas. E acho que para mim é aí é que tu chegaste. Tens liberdade e podes explorar outras coisas também.
Eu acho que era nesse momento que eu me punha noutra coisa, tal como tu.
Como eu quero. Que ainda não o fiz, mas sim. Estou nesse ponto em que eu sei que posso.
Tu imaginas-te, tu vês-te mais como esta pessoa que está sempre atrás e quer mais, ou vais chegar a um ponto em que tu agora vais pensar: "Ok, time to settle down e vou começar a construir uma família"?
Sempre me vi como uma, e ele perguntou-me isto: "Como é que as pessoas te descrevem?" E eu: "Uma pessoa megadinâmica, que faz um monte de coisas ao mesmo tempo." "E como é que tu te vês?" "Eu vejo-me assim também." Sempre me vi como essa pessoa, mas acho que também a idade, se calhar, começa a valorizar outras coisas. E começa também a querer ter paz, e a querer ter calma e ter tempo. Por isso é que ainda não me meti em mais nada.
E estás a lidar bem com isso? Com essa paz?
Tem dias.
Pois.
Por isso é que nos dias em que eu estou com muita paz, eu estou mal, eu estou no sufoco a semana toda. Qual é o próximo?
Mas tu que queres ser mãe, só para concluir, para depois avançares, tu que queres ser mãe, acho que depois também tendo um filho, vai preencher muito o teu dia e tu já não vais sentir essa paz, porque uma mãe não tem descanso.
Olha, tem um amigo meu, que está ali sentado atrás do computador, que por acaso, olha, eu acho que tu devias ter um microfone, Vasco, para dar aqui inputs. Juro, acho mesmo que devias ter. Ele uma vez disse uma coisa, não sei se ouviu em algum lado, mas depois de um episódio que eu fiz aqui com a Inês, ele disse-me assim: "Se tens menos de 35 anos e falas em equilíbrio entre vida pessoal e profissional, estás a rodear-te das pessoas erradas."
Calma, pausa, que eu vi este story. Foi o Vasco. Tu falaste isto num story.
O que tu achas sobre isto?
Acho que ele anda a consumir demasiado conteúdo na internet. Não, estou a brincar, porque o meu algoritmo também me entrega essas merdas.
Hustle culture.
O que eu acho sobre isso? Mais uma vez, e vou me repetir, mas é o que eu sinto. Depende da pessoa que tu queres ser. E o Vasco é este gajo que quer conquistar e quer chegar a certos patamares profissionalmente, que eu identifico-me um bocado com essa forma de estar na vida, não me identifico tanto com a questão da idade. Não tem a ver com a idade, tem a ver com aquilo que tu queres atingir.
Sim, tirando a idade da equação, imagina que tens 40 anos. Tirando a idade da equação, só o conceito.
O conceito. O conceito faz-me sentido, só vai estar certo ou errado, dependendo da pessoa que o assuma ou não. Esse conceito, para mim, é a forma como eu vivo a vida. Se tu me falares de work-life balance. E o que é o work-life balance? Isso é uma questão muito individual. Work-life balance, para mim, como eu sou feliz a fazer o que eu faço, para mim, passar o fim de semana a trabalhar pode fazer parte do meu work-life balance. Pode ser assim, só que eu me sinto equilibrado E para outras pessoas, se no fim de semana não tiverem tempo para ir dar uma volta ao parque, verem um filme inteiro, ir comer um gelado ao lanche, não estão equilibrados.
Está bem, mas estás a dizer que não tiveste tempo para pensar. Não tiveste um tempinho só para pensar.
Mas esse equilíbrio-
É porque tinhas tempo e não o fizeste, foi isso?
Não. Claro que tens sempre tempo, eu deixei para a última. Mas este equilíbrio caótico faz-me sentido para mim. Eu sou feliz assim. Eu já tentei viver a vida de outra forma e muitas das vezes, e tu sabes, eu permito-me estar com amigos também, eu às vezes também paro, não sou nenhum robô. Só que muitas das vezes eu tenho que escolher muito bem os momentos em que paro, porque depois às vezes vou aproveitar esses momentos.
Back in your mind.
E estou a sentir-me culpado logo. E isso não é equilíbrio para mim. Então já não estou feliz. O conceito é muito abstrato e vai sempre depender muito. Desculpa a resposta não ser fechada, mas acho mesmo que depende da pessoa que esteja a ler. Eu identifico-me, mas acho que isso é uma linha ténue, porque depois são aquelas escolhas certas.
Ainda estávamos há pouco a falar também, enquanto estávamos a almoçar, sobre esta questão. Eu acho que isto também vai muito do que é sucesso para ti. Porque toda esta hustle culture é andar atrás de faturar cada vez mais e milhões, etc. Mas é isso que tu valorizas? É isso que tu queres ter? É uma equipa gigantesca, muitos problemas para lidar, ou preferes faturar menos, ter menos sucesso aos olhos da sociedade, mas tirares mais para ti, estares mais calmo e teres tempo para outras coisas? O que é sucesso para ti? É alimentar ego? É mostrar para os outros o que estás a fazer? Ou é realmente construíres uma vida no teu dia a dia que tu gostes, teres tempo para as coisas que tu gostas, conseguires ter tempo para criar uma família? O que tu valorizas, o que para ti é sucesso?
Para mim, sucesso será quando eu estiver a fazer algo de que eu gosto muito e que tiro muito prazer, como estava a comentar há pouco, que esta parte toda do meu segundo emprego me dá, e ao mesmo tempo, fazer muito dinheiro com isso. E o sucesso para mim também passa muito por conectar-me com pessoas, com as pessoas que me rodeio. Digo-te isto porque, para mim, desde que fui agenciado, por exemplo, a diferença na forma como eu encaro o trabalho mudou tanto, Mariana. Porque eu sou uma pessoa de pessoas. Para mim, não faz sentido fazer esta jornada sozinho. Não faz. Eu sou um cara que precisa de estar rodeado de pessoas para nos ajudarmos a elevar uns aos outros. E foi por isso que eu comecei o podcast. Eu quando trago os meus convidados, quando te trouxe a ti, eu saí mais rico daquela conversa. E espero que tu também tenhas saído mais rica daquela conversa, porque no fundo estamos a partilhar conhecimentos, experiências, insights, o que seja, que te vai fazer olhar para a vida de outra forma e a mim também. E eu sou esta pessoa. Para mim, o sucesso é fazer algo que gosto e com o qual me identifico a 100%, trabalhar para mim, isso também é algo que faz parte do sucesso, fazer muito dinheiro e conectar-me com as pessoas que estão à minha volta e que elas cresçam comigo também.
Fizeste uma ponte perfeita para o próximo tema que é amizades e pessoas novas. Queria te perguntar o quão importante é que tu achas que nesta fase que estás a viver, mas também fazendo paralelismo com outras pessoas na vida que tenham outros hobbies e outros objetivos. Quão importante é tu rodeares-te de pessoas novas nesta fase e pessoas certas que estejam a fazer a mesma coisa que tu, para conseguires lá chegar? Seja em termos de negócios, seja, por exemplo, queres começar a correr, a ser mais saudável, etc. Quão importante é tu também rodeares de pessoas que também gostem das mesmas coisas que tu e façam as mesmas coisas que tu?
É muito importante, começando pela parte profissional. Eu tenho alguns amigos influencers, mas foi importante ter conhecido outras pessoas ao longo do caminho, porque vibram na mesma frequência que eu. Os meus amigos mais próximos são todos pessoas que não estão ligadas a este meio. Então, imagina, desde que te conheci e nós ficamos amigos, fomos desenvolvendo uma relação de amizade, primeiro, és uma pessoa que eu adoro e acrescentas-me na vida de uma forma geral. Mas profissionalmente nós partilhamos muitas coisas um com o outro. E tu nessa vertente tens muito mais para aportar à minha vida do que eu, não é? Porque tu estás aí há mais tempo. Embora eu também sinta que te aporto algum valor noutras vertentes. Mas é muito importante. A tua amizade e a tua guidance, muitas vezes é muito importante. Eu já disse sim só depois de falar contigo. E tu sabes quais foram os sim. E os sim estão se a revelar muito transformadores na minha vida. Portanto, é muito importante.
Porque pessoas do teu passado, se calhar, não conseguem entender, mesmo que tu expliques.
Não estão, não vivem, não sabem. É muito importante.
Não, concordo 100%. Eu acho que quando eu comecei, e também foi por isso que na altura eu quis ir para Lisboa também, 100% que foi para estar rodeada destas pessoas. Não foi por Lisboa em si. Foi para conseguir entrar no meio e ter acesso a estas pessoas e a estas conversas. E estamos a falar digital, mas fazendo paralelismo com qualquer área.
Qualquer área, concordo.
Tu tens muito contato com pessoas no teu podcast, mas tu fazes esforço para fazer novas amizades, porque também tu falas muito sobre não teres muito tempo para alimentar as tuas amizades no geral. Como é que tu arranjas tempo para alimentar novas, criar novas amizades, como é que fazes essa gestão?
Da mesma forma que sacrifico o treino pelo trabalho. Às vezes sacrifico as minhas amizades mais duradouras para poder estar com estas amizades novas que nesta fase fazem mais sentido. E às vezes oiço uma boca.
E tem corrido bem?
Não, oiço uma boca ou outra. Só que eu acho que os verdadeiros amigos percebem isso. E não é que isto seja uma questão de interesse, mas imagina, tu vais a Lisboa poucas vezes Vais uma vez por mês. Sempre que há a oportunidade, eu faço questão de estar contigo. Mas não é só para ir para ali despejar as minhas frustrações ou as minhas dúvidas do digital. Isso acaba sempre por ser tema de conversa, mais às vezes até por mensagens e chamadas. Quando estamos juntos acabamos por falar de coisas mais triviais e quotidianas. Faz parte, porque tu estás a vibrar numa frequência que agora é o meu dia a dia, então é normal que eu tenha muito assunto contigo, que eu queira estar contigo. E quem é teu amigo de verdade? Eu não deixei de ser amigo dos meus amigos, continuo a ligar-lhes com a mesma frequência, continuo a mandar-lhes mensagens com a mesma frequência. Fisicamente e presencialmente tem falhado um pouco mais.
É uma questão mais difícil.
Mas eu continuo sempre para lá para os meus amigos e eles sabem. E os que realmente importam não se chateiam com isso.
Tu antes tiveste várias amizades que te puxassem para trás ou essas amizades terminaram? Como é que sentes a relação que tens com as pessoas à tua volta?
Olha, eu desde que me lancei no podcast, o que eu senti, e não estava à espera, foi um grande apoio das pessoas que me rodeiam. Mesmo as que eu estava menos à espera, eu noto que eles genuinamente torcem positivamente para que dê certo.
Isso é que são as amizades certas, não é?
Claro, pronto, mas tu pensas sempre e são pessoas que fazem questão. Isto para mim não é um parâmetro de boa amizade ou não. Tu não tens que ouvir o meu trabalho e eu estou tranquilo com isso, mas noto que eles fazem questão de ouvir, porque querem acompanhar, querem dar feedback construtivo. Já senti no passado pessoas que pudessem funcionar um bocadinho como âncora, mas eu também acho que tenho uma boa capacidade de as identificar rapidamente e vou à minha vida.
Tens facilidade em cortar amizades?
Tenho.
Sempre tiveste?
Não. Foi algo trabalhado.
Se calhar também é porque agora tens menos tempo, então prioridades, deixa-me gerir melhor o meu tempo. Não vou perder aqui tempo numa relação que não me está a alimentar, que não me está a acrescentar.
Não sabes por quê? Porque como já estive aí, não só com relações de amizade, mas também muito até com namoradas, eu já sei quando chego ao ponto de: isto já não vai dar. Só que como eu no passado já tentei tanto, quando já sabia que não ia dar, e estás ali e tu sabes que isso não vai dar, mas tentas e tentas.
Tu não estás a desistir facilmente.
Não.
Achas que não?
Não. Eu acho que não desisto facilmente, estou a te falar sério. Pelo menos esta é a percepção que eu tenho, não desisto.
Tu te arrependeste?
De?
De alguma desistência. De algum corte.
De um. Há um corte que eu fiz com um amigo específico, mas foi numa idade, eu era muito novo e eu estava a querer libertar-me de coisas da minha vida, que ele estava muito por dentro de, e como eu queria limpar toda aquela minha fase da vida, eu meti-o no barco e ele era muito meu amigo e não merecia que eu lhe tivesse feito isso. E eu afastei-me dele de um dia para o outro, simplesmente sem lhe dar nenhuma justificação.
Arrependes-te e não tentarias agora voltar?
Ele sabe que eu me arrependo e hoje em dia temos uma relação de amizade, mas ele entretanto emigrou, portanto, eu estou pouquíssimo com ele e falo pouquíssimo com ele. Mas esse é se calhar um arrependimento que eu já fiz questão de endireitar, ele sabe disso, mas a nível de amores e tudo mais, estou tranquilo. Todas as desistências foram bastante conscientes. Por isso, porque eu acho que eu não desisto à primeira, mesmo. Às vezes até estico para um limite que não devia ter esticado.
Eu acho que tive uma fase da minha vida em que estava a cortar amizades demasiado rápido, porque estava tão focada na carreira que é tipo: isto é a prioridade número um. Quando não me está a acrescentar, então vou cortar logo. E por acaso no outro dia fiz este exercício de pensar em pessoas que se calhar eu até gostava de reconectar. E estou a tentar aos pouquinhos.
Isso é fixe, teres tido essa consciência.
Acho que também era demasiado nova e valorizava outras coisas e começo a chegar a um ponto que é tipo, não sei, surgem estes pensamentos, mas eu gostava de ter esta pessoa no meu casamento, se casar. Gostava de mostrar o meu filho a esta pessoa.
Que giro.
E isto pesa. Não sei, surgem estes pensamentos no outro dia e comecei a fazer uma lista.
A sério?
Sim. E não é que eu tenha muito tempo para alimentar ainda mais amizades do que a que tenho, e tenho muitas amizades novas, muitas. Mas não sei, deu-me esta vontade.
Como é que uma amizade nova se estabelece na tua vida?
Imagina, conheci num contexto profissional e deu um clique. Então bora, parte de mim ou da outra pessoa, bora combinar qualquer coisa só os dois, fora e ter um café ou whatever. E a partir daí, eu acho que acontece naturalmente. Se esta pessoa for de Lisboa, próxima vez, se me apetecer, tenho que sentir vontade de. E isto também é uma coisa que me acontece às vezes, mesmo com amizades antigas, que imagina, combinamos um café e eu sinto que não me apetece. É logo o barómetro para se quero continuar ou não. Mas lá está, também pode ser uma fase que a pessoa esteja a passar. Antigamente, eu era esta pessoa logo, corto logo. Hoje em dia já, calma, vamos ver as coisas, vamos tentar outra vez, dar outra oportunidade. Mas em termos de amizades novas, eu acho que nesta fase é ter muitos pontos em comum. Imagina se a pessoa correr, se fizer as mesmas coisas que eu, é muito mais fácil, porque nós vamos ter atividades em conjunto, não só ir jantar ou ir tomar café. Fazer parte do dia a dia. Acho que isso faz diferença. Mas eu estou numa fase, desde que me mudei para o Porto, que sinto que estou com menos amizades novas.
Mas tu estavas a falar e eu estava aqui a pensar: eu não tenho assim tantas amizades novas. Não é qualquer pessoa que entra na minha vida e acho que na tua também não.
Não, eu tenho bastante nos últimos anos, muitas amizades novas, mas hoje em dia já não tenho tantas, porque acho que também já fui encontrando as minhas pessoas. Mesmo no Porto, sinto que já tenho um núcleo bom e sinto que cada vez mais há menos espaço para. Na minha vida.
Ya.
Conheci imensa gente nova, filtrei, tenho novas amizades.
Mas são amizades ou conhecidos?
São amizades.
Ok, amizades mesmo.
Quanto mais eu alimento cada uma destas amizades, menos tempo eu vou ter para depois criar novas. Portanto, se calhar as novas já podem não ser amizades, podem ser já os conhecidos.
Porque eu tenho conhecido muita gente. Os que viram amigos é uma percentagem. Fiquei teu amiga, fiquei amigo da Lara. Dou-me muito bem com muitas pessoas que fui conhecendo, mas ao ponto de combinar um almoço, combinar um jantar, é diferente.
Mas eu sempre fui a pessoa que todos os dias da semana tinha-- eu sempre valorizei muito isso.
Eu sou o oposto.
A parte social, muito. Mesmo quando eu estava em Lisboa, e até há pouco tempo, era todos os dias da minha semana eu tinha um jantar ou qualquer coisa com alguém.
Isso não te cansa?
Não.
Ok.
Eu fico com mais energia quando estou com pessoas.
Ok.
Sou o oposto.
Se calhar numa fase posterior da minha vida, isso talvez me passe a acontecer mais. Eu, se marcar um jantar, fujo bué da minha rotina. Ou seja, eu teria que abdicar de treinar para ir jantar. É a falta de tempo livre, eu acho que é isto.
Eu ficando em casa sozinha, eu sei que preciso, eu não gosto.
Ah!
Eu não gosto de ter um jantar sozinha a ver uma série.
Eu gosto.
Eu sei que preciso, mas eu prefiro mil vezes ter companhia e jantar fora e fazer coisas e estar fora de casa. Por isso é que eu tenho os meus maus quando estou por casa.
Isso não é só porque quando vais jantar fora, isso automaticamente, por exemplo, dá uma story?
Não, zero.
Não é nada a ver com isso?
Zero.
Ok.
Zero. Não, é mesmo porque, não sei, se calhar tenho um bocado de dificuldade de estar sozinha, não sei.
A ideia que eu tenho de ti é que não tens, mas se calhar até tens, porque é duro um gajo estar só com ele mesmo.
Imagina, o meu trabalho também é passar o dia todo sozinha. Então eu gosto de ter um plano ao final do dia. Sempre.
É a cena da falta de tempo livre. Eu como tenho o meu dia ocupado sim ou sim, eu quero chegar ao final do dia-
Eu treino sozinha, eu estou o dia todo sozinha a trabalhar, muitas vezes em casa o dia todo. Se eu depois for jantar sozinha, é triste, é um dia triste. Preciso de falar com pessoas.
Na forma como a tua rotina está montada, eu entendo o que me estás a dizer.
Se calhar, lá está, na altura, por exemplo, em Lisboa, passava muito do meu dia fora de casa, muitos eventos, muita coisa. E eu aí era: "Por favor, preciso de uma noite para mim". Eu acho que depende. Se o teu dia for muito dinâmico e muito contacto com pessoas, se calhar não precisas tanto disso.
Eu vou para o escritório, quero chegar a casa e desligar-me de pessoas. É o que eu mais quero.
Achas que o sucesso é mérito próprio ou reflexo do ambiente certo?
Acho que é uma mistura dos dois. Mas eu acho que nós também temos alguma responsabilidade em saber identificar qual é o ambiente certo onde nos inserir e com quem nos rodearmos. Contudo, isto é uma ferramenta que tu só aprendes com experiência de vida, eu acho.
E estás sempre a aprender.
E estás sempre a aprender. É engraçado tu falares-me disso, porque eu vinha a conduzir para aqui e olha lá o paralelismo que eu estava a fazer. Que cena! Eu estava a montar um Lego da vida este fim de semana. E eu estava a pensar: eu adoro montar Lego porque, no seguimento de pensar numa coisa que eu tenha feito por mim nos últimos tempos, eu adoro montar Legos e não compro um Lego à bué, porque os Legos são muito caros. Só que é um momento tão prazeroso para mim, eu adoro, porque eu adoro ver coisas a ser construídas do zero e construir. É a vida, no fundo. Só que o Lego é uma coisa que vem com instruções. Só que para aquelas instruções terem sido feitas, há muita tentativa e erro que nós não imaginamos por parte dos designers da Lego. E aquilo vem para ti um produto já, tu segues o passo A, B, C e D e tu vais chegar ao Lego. E eu pensava: a vida seria tão mais fácil se nós tivéssemos instruções. Um paralelismo estúpido. E nós, a vida é um Lego. Só que é um Lego em que tu nunca sabes se aquela peça que tu vais colocar ali vai ser certa ou não. E também é uma tentativa e erro. E eu acho que à medida que o tempo vai passando, tu vais tendo uma intuição que te leva a acreditar que aquela peça está bem posta.
Vais-te conhecendo melhor.
Ya. Não sei se isto fez sentido, se calhar divaguei um bocado com o Lego e não sei o quê.
Não, fez bué sentido.
Mas acho muito isso. Isto para te dizer, acho que é um trabalho próprio. É uma mistura dos dois, Mariana. E tu, o que é que achas? Por acaso quero saber a tua opinião nesta.
Acho que é 100% um mix dos dois. Ainda estava a refletir sobre isto há uns dias, porque acho que, por exemplo, tudo aquilo que eu consegui hoje em dia, sei que consegui porque durante a faculdade apeteceu-me fazer vídeos e submeti-me ao julgamento e não quero saber, vou fazer na mesma, vou fazer por mim. Mas também sei que tive as condições certas de quando me despedi, saber que tenho também um apoio por trás, ter os meus pais a empreender e a mostrar-me o exemplo também. Portanto, todo o apoio que eu sempre tive sei que também tem muito a ver com isso, as pessoas que eu fui conhecendo. Lá está, o ir para Lisboa foi uma decisão minha, o ter aquelas pessoas todas que me ajudaram a lá chegar também faz parte do contexto, mas a decisão de ir para Lisboa foi minha. Ou seja, vai ser sempre, e se olhar para cada vertente da minha vida, cada fase, é sempre um mix das duas coisas. E eu arrisquei e submeti-me às coisas, mas eu também tive a sorte de chegar às pessoas certas e unir-me às pessoas certas.
Que às vezes não é bem sorte, é também a forma como te posicionas, a forma como comunicas. Eu acredito muito na cena de se tu és uma pessoa boa, acho que vais acabar por atrair pessoas boas. Outras vezes não.
Mas eu acho mesmo que em qualquer área, a parte social conta muito.
Muito.
Com quem tu estás, mesmo estando numa empresa, tu subires nessa empresa, tu chegares a outros níveis, é tu seres uma pessoa de pessoas. Eu acho que isto conta muito na nossa sociedade, muito mais do que tu seres o melhor em tudo que tu fazes.
É verdade.
Não é?
Acho mesmo isso.
Antes de terminarmos, isto vai ser um desvio gigantesco, eu não sei se já apareceu no teu TikTok agora, se calhar é o meu algoritmo que está a filtrar, mas isto é um artigo da Vogue que saiu a semana passada. Viste?
Falaram-me disso hoje.
A sério?
Não, foi a minha prima que me falou disso ontem.
Está em todo o lado este artigo.
Ok, vai, vou ter que te falar.
Eu vou explicar o artigo para quem ainda não o viu, mas o título é: "Having a boyfriend is embarrassing now". Ter um namorado é algo que tu deves esconder. Eu vou ler o que o artigo diz, mas basicamente, a autora observa que nas redes sociais, quando alguém começa a dizer "o meu namorado", muitas vezes silencia ou se afastam. Existe uma certa espécie de fadiga cultural face à vida de casal exibida. Historicamente, e ela justifica desta forma, as mulheres eram socialmente valorizadas por estarem num relacionamento. É quase como se fosse um prémio. As mulheres terem um relacionamento são melhor vistas pela sociedade, porque conseguiram isso e o objetivo da mulher é criar uma família e ter filhos. Historicamente é isto. E agora temos a fase em que a mulher é independente e faz tudo por si. E o que a autora sugere é que, mais profundamente do que ser um embaraço ter namorado, é um sinal que as normas dos relacionamentos estão a alterar um bocadinho e que a mulher quer ser vista com o homem ser um acrescento e não tanto a bolha de só ser aquele relacionamento. Estás a perceber?
Não percebi a parte do acrescento, todo o resto percebi.
É um sinal de que as normas estão a alterar, estão a ser reavaliadas. Por um lado, existe o desejo dos benefícios sociais em casal, por outro, a relutância em parecer obsessiva, ser uma girlfriend girl, seres labeled como uma girlfriend girl. Em resumo, não se trata de dizer que ter um namorado é intrinsecamente mau, mas de apontar que o contexto cultural mudou, de estar em casal já não é uma auto evidentemente garante status ou validação social da mesma forma. E isto entra noutra camada que é: a mulher quando estava sozinha durante muito tempo, sempre foi associada à coitadinha. "Vais arranjar um namorado um dia, não te preocupes". Isto inverte os papéis de: não, ela é solteira, por escolha própria. E está tudo certo com isso. E eu acho que esta vertente é fixe. Imagina, este artigo saiu a semana passada e só pessoas a fazer TikToks à volta disto.
Como deves calcular, eu não fazia ideia disso. Foi a minha prima que me falou. Isso não me apareceu. E ela falou-me disso muito high level ontem à noite, eu estava cansadíssimo, não dei a devida atenção e agora tu deste mais pormenores.
Mas conseguiste perceber o que é que o artigo diz?
Consigo. Eu acho que o facto de alguém ter escrito isso, agora indo em cima numa revista como é a Vogue, isso vai agora ficar bué presente na cabeça das pessoas. Não sei se é tendo em conta a minha realidade, porque eu sou enviesado pelo conteúdo que consumo e da minha geração, que é um bocadinho acima da tua, eu não concordo em nada com isso.
Mas achas que é por seres homem? Porque imagina, havia muitas pessoas a reagir a isto e a fazer TikToks e a dizer do gênero: "Eu quando penso, por exemplo, naquela CEO, aquela empreendedora, e depois percebo que ela tem namorado, fico tipo: 'ah'"
Já não a admiro tanto?
Sim, é este tipo de...
Isso é uma parvoíce.
É isto que as pessoas andam a dizer. Que é mesmo estúpido.
Não acho que faça sentido nenhum. Até acho que nós, enquanto homens e mulheres, atingimos o pináculo daquilo que é o nosso potencial quando estamos 100% felizes numa relação. Quando tu encontras a tua pessoa, todas as vertentes da tua vida eu acho que exponenciam para cima. Tem que ser a tua pessoa, não pode ser uma pessoa errada. Isto é o que eu acho, é a opinião que eu tenho.
Achas que isto é tentar desvalorizar os homens?
O que eu noto hoje em dia? Noto que as mulheres querem bué independência, são muito independentes, eu acho isso bacano. E aquilo que tu disseste: a mulher sente-se mais alinhada com ela mesma e feliz em ser solteira. Isso é fixe, seja para um homem ou para uma mulher. Se tu queres estar solteiro ou solteira, fixe, está. Agora, eu acho que constantemente estamos a viver esta cena de provocar, eu estou a escolher bem as palavras, porque é um tema sensível, mas acho que as mulheres querem bué valorizar-se em detrimento de uma desvalorização do homem. Não sei se tu sentes isto, mas depois no fim do dia, sinto que querem ser dependentes. E sabes por quê? Deixa-me só acrescentar, porque eu não concordo em nada com esse artigo a nível social, por quê? Mariana, vai ver qualquer perfil de um influencer qualquer. Os posts que mais batem são quando tu anuncias um casamento ou um filho.
Mas nós estamos a falar de pessoas normais, não estamos a falar de influencers.
Mas mesmo pessoas normais. Tu estás na tua vidinha, tens 2000 seguidores e publicas pouco. Vais de férias com a tua namorada para as Maldivas, metes um post partilhado com um anel no dedo, disse sim. Esse post vai ser o post dela e dele com mais likes de sempre. Lá está, eu estou enviesado pela minha realidade. Eu acho que tu perdes valor enquanto ser humano, esquece as partilhas. Acho que tu perdes valor enquanto ser humano e perdes potencial e perdes tudo mais quando estás na relação errada. 100% de acordo. Agora, tu, Mariana Ribeiro, que és uma mulher independente, pagas as tuas contas, tens a tua casa, tens a tua carreira, agora de repente assumes um namorado e és desvalorizada por isso?
Porque imagina, a questão é As mulheres sempre foram vistas como menos por não estarem numa relação, enquanto que os homens nunca tiveram essa pressão. E hoje em dia as mulheres estão a tentar que isso não seja uma pressão, daí as coisas estarem a inverter. O homem não entra na equação porque o homem nunca passou nem por uma, nem por outra.
Eu consigo entender o que estás a dizer.
Um homem da tua idade não sente tanta pressão como uma mulher exatamente da tua idade solteira. Por quê? Porque relógio biológico, etc. Porque enquanto sociedade as coisas estão a mudar, a mulher está a ganhar o seu espaço, mas historicamente, a mulher sempre foi muito mais vista para: "O teu papel é ser mãe, é ser cuidadora". As coisas estão a mudar.
Historicamente, isso é verdade, mas eu acho que a maior parte dos homens não procura uma mulher cuidadora. Já que falaste dele, vou aproveitar como exemplo. Olha a dinâmica de casal do Vasco e da Bia. Eles estão juntos e a Bia é bué hands on. Está aqui, trabalha, faz bué coisas e acho que o Vasco, em grande parte, a admira muito por isso. Se a Bia estivesse em casa a limpar a casa e não fizesse nada, se calhar o Vasco não ia ter tanta admiração por ela.
E achas que esta pressão então vem de mulheres para mulheres?
Eu acho que essa pressão é mais uma trend do TikTok.
A pressão que as mulheres sentem é uma trend da TikTok? Nunca ouviste falar?
Não, mas podes publicar isto sem problema. O que eu quero dizer é: esse título clickbait é mais uma trend do TikTok. Eu acho que a ideia geral que esse artigo está a passar, na minha realidade e na forma como eu olho para as coisas, acho que é mais uma trend TikTok. Agora, a pressão que as mulheres sentem não é uma trend TikTok, eu sei que isso é uma realidade.
Estou a esquecer.
É por isso que, só para concluir, eu sei que na idade em que estou, uma mulher de 32 ou 33 ou 34 anos que eu conheça, se calhar vai querer acelerar muito mais as coisas do que uma de 25 ou 26. É normal. E isso não é uma trend TikTok, porque isso é o corpo humano a falar. Se aquela mulher quer ter filhos, se calhar vai ter muito mais pressa do que uma pessoa de 25 anos como eu, obviamente.
É isso, porque vocês conseguem ser pais até muito mais tarde.
Mas esse não foi o ponto da tua pergunta. O ponto da pergunta era discutirmos o título do artigo.
O título e o conteúdo.
O título e o conteúdo. Se as mulheres estão a pensar assim, na minha perspetiva, é uma parvoíce. Acho que de forma alguma estares numa relação te diminui ou até te eleva. É a tua vida.
Sim, eu concordo 100%, porque o que este artigo diz é que quando tu entras numa relação consome-te tanto que passas a ser isso e deixas de ser a tua individualidade. Mas acho que isto também lá está, está a levar para um extremo que não é saudável.
Isso tem a ver com aquele gráfico que são dois círculos, quando os círculos se sobrepõem. Quando tu estás numa relação, a minha opinião é que estás a ver aquele meio que se sobrepõe um ao outro. Ali é a vossa relação, mas todo o outro, que é uma parte muito maior do círculo, é a tua individualidade. Se a relação for saudável e os dois estiverem num espaço bom, a relação, mais uma vez, só acrescenta. E a tua individualidade continua a ser altamente respeitada e sempre superior à relação. Mas as coisas introduzem-se e cruzam-se e está tudo bem, porque é isso que é uma relação.
Concordo. Última pergunta, que tu disseste que estiveste a pensar: o que tem feito bem ultimamente, sem ser produtivo? O que tu tens feito?
Eu não sei bem responder isso, Mariana.
Tu foste aos Legos?
Sim, eu montei. Posso usar esse exemplo. Passar tempo com pessoas de quem gosto e conseguir, naquele meio, fazer as minhas coisas todas, mas pronto. Neste momento eu vou desligar do trabalho, vou limpar a cabeça e deixa-me só conversar com esta pessoa. O Lego é um exemplo. Pus o telemóvel de lado e fomos montar um Lego. E tenho feito o esforço de quando estou com alguém, cagar no telemóvel.
Eu tenho duas coisas que eu tenho feito. Estou a tentar fazer, que é cozinhar sozinha em casa e fiz isto no outro dia e fiquei tipo: "Bem, por que eu não faço isto mais vezes?" Eu adoro cozinhar. Então pus lo-fi a tocar, outonal, velas acesas e eu a cozinhar sozinha, só assim, chill.
Grande vibe.
Vibe outonal. E olha, soube-me tão bem. E é que eu adoro cozinhar, só que não tiro tempo para isso. E gosto de estar sozinha a cozinhar. Portanto, quero passar a fazer isso mais vezes, mas sem dúvida, foi aquele momento mais meditativo. E correr sem ter um objetivo. Ir só correr sozinha, sem ir com pessoas e ir sozinha sem um objetivo. Sem objetivo, no fundo, imagina: vou correr sete quilómetros, mas não tenho um objetivo de tempo, não estou a treinar para alguma coisa.
Só correr.
Só correr.
Ok.
Portanto, são duas coisas que eu acho que consigo entrar neste estado mais meditativo. Não estou a querer ser mais produtiva, só me estou a querer mexer, no caso da corrida ou cozinhar.
Cozinhei no outro dia, agora que estavas a falar, cozinhei assim dessa forma, não foi com lo-fi, foi com outro tipo de música, mas realmente soube bué bem e não tinha pensado que podia ter sido um momento de prazer e até foi. Bem visto. Vou fazer mais vezes.
Está feito. Gostei muito de te ter aqui.
Eu também.
Quando vieres ao Porto novamente, podes te sentar neste sofá outra vez, sempre que quiseres.
Vou sempre aceitar com todo o gosto. Gostei muito.
Estamos aí.
Estamos aí. Let's go!
Não é fácil, eu sei. Mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?