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Ao vivo, na Rádio Observador.
O voo da garça faz sombra no chão. Algo que esvoaça, renta o coração. Lembrei-me de ti, talvez só por graça. És o que não vi, na sombra que passa. Lembrei-me de ti, tornei a lembrar. E não percebi se é sol ou luar. Se mostra, se esconde, o que é fugidio. Se é casa no monte ou vento vadio. Lembrei-me de ti, voltei a olhar. Nada está aqui que faça lembrar. Os dias sem casas, as noites de sombra. O voo das asas riscando a penumbra. Lembrei-me de ti, tornei a lembrar. E não percebi se é sol ou luar. Se mostra, se esconde, o que é fugidio. Se é casa no monte ou vento vadio. Lembrei-me de ti, tornei a lembrar. E não percebi se é sol ou luar. Se mostra, se esconde, o que é fugidio. Se é casa no monte ou vento vadio.
Pedro e Helder Moutinho, esta semana no Ao Vivo da Rádio Observador. Muito obrigado por terem vindo.
Obrigado nós.
Muitos parabéns, estão a soar incrivelmente com esta "Algo que Esvoaça", a primeira canção que nos trouxeram neste Ao Vivo. Daqui a pouco ainda vamos escutar "Partir é Morrer um Pouco", uma atuação que tem também aqui na viola o Pedro Soares. Pedro Moutinho, Helder Moutinho, estamos aqui em vésperas da apresentação de um novo espetáculo, Os Poetas Convidados. Cada um de vocês, de resto, tem aqui um percurso muito sólido, mais de duas décadas de estrada. São irmãos, partilham esta paixão pelo fado. Por que só agora este encontro mais formal e partilhado em palco? Faltava o pretexto certo, faltava alinhar agendas. Por que só agora?
O Pedro fez um espetáculo. Primeiro que tudo, ele convidou-me pra gravar um dueto com ele no disco, que é este tema, o Algo que Esvoaça. E depois fez um espetáculo no Tivoli, que teve alguns convidados, e convidou-me também pra cantar este tema, já que já existia. E acho que, por causa disso, surgiu a ideia, neste caso, do Luís Montez, por causa do Caixa Alfama e do Zé González, e fomos convidados por eles pra fazer este espetáculo, os dois juntos.
No Caixa Alfama.
No Caixa Alfama. E lembrámo-nos os dois. No fundo, de falarmos exatamente dos poetas que são os poetas tradicionais, os poetas de fado, aqueles que fazem parte da base deste caldeirão cultural todo. Mas também falarmos e salientarmos um pouco aquilo que são os poetas convidados, que são aqueles que vieram depois. Não eram poetas de fado, não eram poetas populares. Alguns, nós, os fadistas, fomos buscar aos livros, muitos deles, até no caso do Camões, já não estava cá. Fomos lá buscar.
Alfando em Pessoa, também.
Outros poetas ou letristas, como eles às vezes gostam mais de ser chamados, faziam parte de um universo mais pop, ou da música ligeira, se falarmos um bocado mais atrás, que são os chamados poetas convidados, porque são aqueles poetas que não fazem parte do núcleo duro do fado, mas que nós os fadistas fomos lá. Não nós os dois. Nós, os fadistas.
Os trouxemos.
Os trouxemos, fomos convidados.
Eu, por acaso, fiquei sempre com esta dúvida, se é diferente interpretar poetas eruditos ou estes de que falavas agora. É preciso cantar de forma diferente quando se tem palavras, se calhar, com maior peso literário na boca?
Eu acho que o que difere é o que se escrevia, quais eram as temáticas e quais eram os poemas no início do século passado dos poetas populares. Aquilo que se cantava eram coisas muito adequadas ao tempo, ao cotidiano daquela altura. Os poetas eruditos, aqueles que chegaram depois, ou até mesmo depois os letristas da pop, trouxeram outras imagens, trouxeram algumas coisas novas. Mas sempre há uma coisa muito importante no fado, que é poder contar a história e fazer com que as pessoas consigam entender aquilo que se está a dizer. Quando se trata de uma poesia popular muito mais direta, pensa-se no peso das palavras, mas se calhar não da mesma maneira de quando se pensa num poema mesmo de poesia mais erudita. Em que há metáforas muito mais fortes, e tem que se chegar a elas com força.
Se vos perguntava isso dos poetas mais eruditos, também me gostava de perguntar se com estes autores mais contemporâneos, eles também trazem uma espécie de sensibilidade, até às vezes de métrica, que é mais próxima das dores do nosso tempo. Isso faz diferença?
Sim, muita.
É uma linguagem mais próxima, se calhar, com estes autores mais contemporâneos.
Certo. Há poemas que são intemporais. Há coisas que se cantavam há 50 anos, que nós olhamos para elas e pensamos assim: "Olha, se calhar, hoje faz todo sentido voltar a cantar isso". Mas depois há outros que são muito daquele tempo próprio. E depois há aqueles, no fundo, que se escrevem agora. Falámos há pouco tempo com o João Monge sobre aquela história de escrever sobre telemóveis, sobre WhatsApp, sobre Instagram, e não sei o quê, pegar no fado e meter essas coisas. E ele deu-me um exemplo de um tema que apareceu há pouco tempo gravado pelo Chico Buarque.
Com a neta.
Com a neta, em que ele mete essas palavras todas na canção.
E que soa maravilhosamente bem.
Portanto, as coisas vão tendo. Agora, é difícil dizer assim: "Epá, mandei-te um e-mail e tu não me respondeste". É estranho.
Sim. Ou apanhei um Uber para ir.
Exatamente.
Por exemplo.
Antigamente falava-se nas tipóias, mas pronto.
Isso é engraçado.
O Pedro tem um fado, por exemplo, que diz que fez marcha atrás.
Sim, a Manuela de Freitas é uma das letristas, uma dos poetas convidados que vieram para o fado. E ela escreveu: "Naquela noite sem lua, talvez por andar perdida, entrei pela tua rua em sentido proibido. Tentei fazer marcha atrás, mas disseste divertida que o sentido tanto faz se a rua não tem saída". Cheia de trocadilhos. E o marcha atrás é aquela coisa que poeticamente é estranho.
Mas resulta.
Resulta. Também escolhi bem a música para ele, que é muito importante.
Eu por acaso tinha uma pergunta para ti, Pedro, porque no meio de tantos poetas com estética diferente, de O'Neill a João Monge, tens algum autor que consideras que, por exemplo, veste melhor a tua voz ou a tua identidade em palco?
Tenho, e é se calhar a autora que mais escreve para mim, que é a Amália Moose.
Ok. E tu tens algum, Hélder? Tens esta predileção?
É o João Monge.
É o João Monge. Ok. Estão identificadas as predileções dos fadistas Pedro e Hélder Moutinho. Vão levar a palco então este espetáculo, os poetas convidados, 17 de junho na Casa da Música, no dia 1 de julho há concerto no São Luiz, Teatro Municipal. Já definiram o alinhamento?
Já.
Com que formação também vão estar em palco? Aqui na rádio, mais reduzida, claro.
A formação é assim: guitarra portuguesa, viola e baixo acústico. Vai ser a formação tradicional do fado.
Cabem neste espetáculo outros temas de outras fases das vossas vidas artísticas, ainda assim?
Sim.
Aliás, porque nós, no fundo, vamos cantar, exatamente para falar dos poetas convidados, que também temos que cantar os poetas populares, os construtores disso tudo. E vamos cantar Gabriela Oliveira, Casconde, Henrique Rebo, Sílvia Tavares, vamos ter alguns temas.
Vasco Lima Couto. Não, Vasco não.
Vamos depois ao Ary dos Santos.
Ok.
Que é um dos primeiros. Ou João Dias, por exemplo. Vamos cantar fados mesmo daqueles tradicionais desde o início, tipo a Igreja de Santo Estêvão, por exemplo.
Ou então Mouça Pequenino.
Ou então Mouça Pequenino, que é uma coisa do João de Az Barbosa, que eu estava a me esquecer, que é importantíssimo, que é aquele que chamava o príncipe dos poetas populares, etc. Mas depois começamos a entrar já no Ary dos Santos, no Alexandre O'Neill, talvez.
É uma viagem, uma espécie de ponte também entre passado, presente e o que poderá ser o futuro do fado. Neste espetáculo do Hélder e do Pedro Moutinho, que estão esta semana no Ao Vivo, ainda vamos escutar também aqui com o Pedro Soares na viola. Partir é morrer um pouco. Dia 1 de julho então no São Luiz, em Lisboa. Antes, no dia 17 de junho, passam pela Casa da Música no Porto. Hélder, Pedro, muito obrigado por terem vindo.
Muito obrigado.
Duas grandes vozes do fado esta semana aqui no nosso Ao Vivo da Rádio Observador.
Adeus, parceiros das fadas, dos copos e das noitadas. Adeus, sombras da cidade. Adeus, langor das guitarras, canto de esperanças frustradas, alvorada de saudade. Meu coração, como louco, quer desgarrar-se do peito, transforma em soluço a voz. Partir é morrer um pouco, a alma de certo jeito, expirar dentro de nós. Vou-me às em pedaços, como aves que se não cansam, ilusões esparsas no ar. Partir é estender os braços, aos sonhos que não se alcançam, cujo destino é ficar. Deixo minha alma no cais, de longe canso sinais, feitos de pranto a correr. Quem morre não sofre mais, mas quem parte é dor demais, é bem pior que morrer. Quem morre não sofre mais, mas quem parte é dor demais, é bem pior que morrer. Já zarpam navios à barra. Adeus, ó branca Lisboa. Adeus, ó meu Tejo amigo. Abraço ao peito a guitarra, canto-te um fado e perdoa, levo a saudade comigo. Abraço ao peito a guitarra, canto-te um fado e perdoa, levo a saudade comigo. Abraço ao peito a guitarra, canto-te um fado e perdoa, levo a saudade comigo. Abraço ao peito a guitarra, canto-te um fado e perdoa. Adeus, parceiros das fadas.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.