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Altura de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no "Contra-Corrente" desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem de ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla.

No início deste ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que classifica o tráfico atlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade. E agora que as Nações Unidas estão reunidas, o grupo de países que quer fazer corresponder a essa resolução indenizações como nunca foram vistas ganha voz. E essa causa parece ganhar apoio, incluindo entre os países ocidentais, havendo até referências a Portugal. Mas há sinais de que a simples ideia de reparações pode agravar, e muito, as clivagens políticas já existentes. E é isso que queremos discutir no "Contra-Corrente" de hoje, até por ter acabado de sair um livro que tem exatamente como ponto de partida a resolução aprovada pelas Nações Unidas. Bom dia, José Manuel. Que reparações são essas de que se fala agora?

Bom dia. Estamos perante uma história antiga que regressa com alguma regularidade e que basicamente tem como ideia que os países que de alguma forma participaram no tráfico atlântico de escravos têm que pagar indenizações e, curiosamente, têm que pagar indenizações tanto a países de origem como a países de destino, porque de um lado estão países da União Africana e curiosamente até estão países que durante muito tempo foram protagonistas como recetores do tráfico de escravos, como alguns países islâmicos no Magrebe, muçulmanos, como estão também países de destino, nomeadamente alguns das Caraíbas. E, portanto, aquilo que se pergunta é: pagam todos, não paga ninguém, pagam como, pagam de que maneira, quem é que paga mais, quem é que paga menos e qual é a lógica? E aqui o essencial é voltar atrás, voltar a março deste ano, quando um dos países que está por trás disso, talvez o país que está mesmo por trás disso, que encabeça esta campanha, que é o Gana, fez aprovar na Assembleia Geral das Nações Unidas uma resolução em que Portugal se absteve, estranhamente se absteve, uma resolução em que considera que o tráfico atlântico de escravos foi o maior crime contra a humanidade. E aqui esta questão é importante, porque basicamente o que o Gana pretende é separar este tráfico de escravos de todos os outros tráficos de escravos que houve ao longo da história da humanidade e que foram muitos. A própria palavra escravos não vem de África, vem de eslavos. Porque um dos pontos de origem de muitos escravos durante muitos séculos foi o mundo eslavo, quer para a própria Europa Ocidental, quer sobretudo na altura para o Império Otomano. E se o tráfico atlântico de escravos teve uma dimensão indiscutivelmente muito grande, 12 milhões de escravos terão atravessado o Atlântico em direção sobretudo às Américas, alguns em direção à Europa, mas sobretudo às Américas, o tráfico no Índico, portanto, do outro lado de África, durou mais séculos, foi menos intenso em termos de concentração temporal, mas terá tocado ainda mais milhões de africanos. Isto é uma discussão longa, antiga, mas muito relevante aqui, sobretudo para o papel que Portugal pode ter. As pessoas talvez não tenham noção, mas Portugal tinha um papel central, porque foi com Portugal que tudo se iniciou e Portugal transportou, porventura, foi o país que mais escravos transportou. Talvez surpreenda muita gente saber isto, não foi o último país a acabar, Portugal chegou a andar nos mares a tentar acabar com o tráfico de escravos, porque ele, por exemplo, continuou no Brasil depois da independência do Brasil. Mas independentemente, a história não conta muito para um objetivo que é outro. E esse objetivo tem um lado que nós podemos considerar razoável e discutível, mas que não envolve só África, que tem a ver com o tema se se deve ou não devolver a países de origem obras de arte que ou foram vendidas em condições especiais ou foram mesmo objeto de roubo, digamos assim. Temos aqui situações que são todas elas muito distintas, mas que também envolvem países europeus, entre eles, nós fomos vítimas disso, das invasões francesas, por exemplo, muita coisa foi levada de Portugal, coisas importantes, outras foram cá encontradas e foram levadas para o Museu Britânico, por exemplo. Não foram propriamente pilhadas no sentido de roubadas, mas foram compradas a preço de saldo. E há casos muito relevantes, é muito famoso e se discute muito os famosos bronzes do Benim, que estão no Museu Britânico e que deveriam ser devolvidos à Nigéria. Há também os mármores do Partenon, que estão também no Museu Britânico e que a Grécia reivindica. Isto são discussões com muitas vertentes. Mas se isto é o lado da devolução, o lado mais crítico é o lado das indenizações. E aquilo que é surpreendente é que as notícias que dão sinal de que nas Nações Unidas, por estes dias, o Gana se reuniu designadamente com a Alemanha e com a França, países que têm teoricamente pouco a perder nestes movimentos, não é? Não participaram no tráfico de escravos da mesma forma. Aquilo que se diz, designadamente numa notícia da Reuters, é que o Gana está a dar indicações de que Portugal dá apoio a estas iniciativas. Eu fico na dúvida se isto é apenas por causa da flor na lapela, que é termos sido eleitos para o Conselho de Segurança e irmos presidir ao Conselho de Segurança, e que tudo isso determina a política do Ministério dos Negócios Estrangeiros, se isto corresponde a alguma discussão que o Paulo Rangel e o Ministério dos Negócios Estrangeiros algum dia tenham tido, ou se isto é mais uma daquelas loucuras em que nós entramos sem saber muito bem para onde é que vamos. E o que isso significa? Porque há aqui muitas falsificações da história, muitas instrumentalizações da história com objetivos que têm muito pouco a ver com qualquer tipo de justiça, mesmo de justiça histórica. E vale a pena recapitular isto tudo e falar um pouco disto tudo com, quem sabe, historiadores, com quem acabou de publicar um livro sobre esta matéria, e também perceber não apenas para onde é que isto pode ir, mas também para onde é que vai o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros e o nosso ministro Paulo Rangel.

Muito bem, então fica encontro marcado depois das 10h. Até já.

Encontro marcado depois, exatamente.

Até já.