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Ao vivo, na Rádio Observador. Meu amor, este é o nosso fim. Momento do adeus. E há tanto que ainda fica em falta. Eu sei que dei tudo que dei. Que mais não soube dar. E mesmo assim ficou tanto em falta em mim. Mas eu já não me conhecia. Menos eu a cada dia. E quando vi já era tarde. Olhei pro lado e tu não estavas. Quando foi que te perdi? Como cheguei sozinha aqui? Meu amor, este é o nosso fim. Momento de partir. Mas sei que vai estar sempre presente em mim. Em tudo que plantamos, que depois vimos crescer. Em tudo que sonhámos um dia ser. Mas eu já não me conhecia. Menos eu a cada dia. E quando vi já era tarde. Olhei pro lado e tu não estavas. Quando foi que te perdi? Como cheguei sozinha aqui? Despeço-me de ti. Sem nada preparado pra te dizer. Qualquer palavra seria sempre demais ou de menos. Despeço-me de ti. Com a certeza de que a despedida veio sendo feita. Como uma manta tricô. Despeço-me de ti. Não olho pra trás. Cansei-me de procurar a alegria pra esses lados que me fazem doer o pescoço. Despeço-me de ti. Forçamos um abraço, até nos apercebermos de que não encaixamos mais um no outro. Despeço-me de ti. Abro a porta e vês-te partir. Volto aos meus afazeres sem te procurar pela casa. Sei bem que nos últimos tempos não foste senão uma visita. Meu amor, este é o nosso fim. Momento do adeus. E há tanto que ainda fica em falta.

"O nosso fim", ao vivo na Rádio Observador. A Luísa Sobral é a nossa convidada desta semana para falarmos um bocadinho do seu novo disco, oitavo na carreira, "Cartas de Desamor". Luísa, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador.

Obrigada eu pelo convite.

E muitos parabéns por estas novas canções e pelos 15 anos de carreira, que é uma coisa que os artistas fazem.

É verdade, nem tinha percebido. Só depois que a minha manager começou a dizer: "Olha, estamos em 15".

Recebeste no press como toda a gente.

Exato.

São 15 anos de carreira.

São 15.

Queria precisamente perguntar-te isso. Ao fim de 15 anos, oito discos, há aqui uma aproximação mais assumida à música tradicional portuguesa. Parece que foste agora beber mais a uma raiz mais popular. Por que isso só aconteceu agora?

Cada disco pra mim é uma experiência nova. Em cada disco eu tento fazer algo que nunca fiz. E normalmente, tem mais que ver sempre com aquilo que estou a ouvir na altura. Por exemplo, o disco "Rosa" é um disco que eu fiz superminimalista, com três sopros, e nessa altura andava a ouvir mais cantautores como a Silvia Pérez Cruz. Eu acho que aquilo que eu estou a ouvir na altura influencia muito aquilo que eu faço. E nestes últimos tempos ouvi mais Fausto, os Amário Branco, Vitorino. A minha composição começou a ir logo por esse caminho, porque nós, no fundo, somos muito influenciados por aquilo que vemos e ouvimos.

Os músicos são como as crianças, são esponjas.

Sim, exato. Mas eu acho que também faço por isso. Ou seja, se eu percebo que estou a gostar de ir por este caminho, começo a ouvir mais coisas também para me ajudarem a inspirar.

Isso aconteceu também com os convidados que tens neste disco, já lá vamos. Antes queria ir a uma canção que é também uma das minhas favoritas, o "Não Sei Quem Sou". De resto, vamos ouvi-la daqui a pouco nesta versão mais acústica para o ao vivo da Rádio Observador. Também foi o segundo single, creio, do "Cartas de Desamor". Aborda aquele momento em que paramos pra olhar pra dentro, depois de um longo período também mais dedicado, se calhar, à maternidade.

Ou à paternidade.

Ou à paternidade. Foi um processo, de alguma forma, doloroso ou libertador, escrever sobre este confronto entre o que é que éramos antes e o que é que somos agora, e ainda vamos a tempo de recomeçar?

Um bocadinho doloroso, porque eu acho que é a canção mais autobiográfica que eu alguma vez escrevi, não necessariamente mais autobiográfica, mas mais literal. Eu acho que nunca escrevi uma canção que depois me sentisse tão exposta a cantar. E aconteceu as primeiras vezes que cantei, porque eu tenho um bocado esta coisa de escrever uma canção, depois tenho logo vontade de tocar nos concertos, que tinha muita vontade, mas ao mesmo tempo tinha um bocado de vergonha. Não sei explicar, nunca me tinha acontecido.

Era demasiado familiar.

Era como se fosse: "Bom, boa noite, pessoal, vou aqui abrir o meu diário e ler para vocês". Era um bocado isso. Mas ao mesmo tempo eu pensei: tantas pessoas devem passar por isto também e não têm a capacidade de pôr isto numa canção.

O talento. Acho que é isso.

Têm outros talentes. E então eu acho que no fundo esse também é o nosso trabalho, às vezes, dar canções para as pessoas também poderem sentir-se identificadas e ao mesmo tempo sentirem que aquilo que passa pelos seus sentimentos não é único. Eu acho que isso é ótimo.

Vamos às pessoas que trabalharam contigo. Primeiro a produção, Ricardo Dias. Como é que foi este trabalho? Quanto é que mudaram as canções desde a altura em que as criaste, que imagino que seja um processo mais sozinho, até que depois tem a versão final também com o cunho do próprio Ricardo Dias.

Mudaram até bastante, mas de uma forma o Ricardo foi maravilhoso neste disco.

Ele tem muita experiência também com autores mais recres.

Sim, Vitorino, também Fausto, trabalhou com eles todos. Mas o Ricardo é muito musical. É impressionante. O que ele fazia era, muitas vezes, adicionava secções instrumentais aos meus temas. Fez isso em quase todas as canções. Então ele respeita o tema, ou seja, nunca faz demais, demasiado, aquilo nunca desvirtua, mas ele adicionou sempre algumas secções mais instrumentais com melodias maravilhosas, tão musicais, que ele tocava-me aquilo uma vez e eu na vez seguinte já cantava as melodias dele, porque são realmente muito bonitas e muito musicais. E ele trouxe mesmo muito ao meu disco, não só desse conhecimento da música tradicional portuguesa, como desta sensibilidade. Foi mesmo muito bonito vê-lo a criar. Eu sentia sempre que a minha música continuava a ser a minha música, mas muito melhor. E é muito maravilhoso quando isso acontece com o produtor.

Nas canções propriamente ditas encontramos o coletivo Sopa de Pedra, a Garota Não, o Vitorino. Há aqui também um encontro de várias gerações. Como é que pensaste estas vozes para cada uma das canções ou não foi tanto assim o método?

Não, eu conhecia as Sopa de Pedra já há algum tempo, para aí há nove anos, no Bons Sons, quando fui lá cantar. E quando cheguei para ir fazer ensaio de som, estavam elas no palco onde eu também ia cantar e fiquei deslumbrada. E pus na minha lista das coisas para fazer: incluir as Sopa de Pedra no futuro, em algum dos meus trabalhos. Mas ainda não tinha feito.

Check, este está feito.

Agora está. Só que a lista é sempre enorme.

Por acaso estavas a ver essa lista?

Todos os dias cresce.

Quantos nomes ainda tem para usar?

Nomes e coisas que quero fazer. Mas eu queria mesmo fazer alguma coisa com elas, porque achei-as maravilhosas, mas ainda não tinha feito sentido. Agora, sim, neste disco fez todo o sentido. Escrevi esta canção para elas, fiz um arranjo de vozes, que foi depois muito melhorado por elas também. Elas ainda fizeram um arranjo de percussão, depois fui para o Porto gravar com elas e descobri que não só são todas artistas maravilhosas, como pessoas maravilhosas também. Então foi muito divertido, um dia inteiro a gravar, foi muito giro. E isso surgiu daí. Depois, o Vitorino. Eu já tinha escrito esta canção para um projeto que está na gaveta ainda. Eu tenho um projeto de 12 canções de Natal para gravar com vários artistas portugueses, porque sinto que temos falta de canções de Natal.

É verdade. Boas, principalmente.

E realmente portuguesas, porque nós temos muitas versões de canções estrangeiras, mas eu percebi isso ao fazer a árvore de Natal com os meus filhos, que me faltava material.

Há uns anos saiu um disco que era o "Espanta Espíritos", que é o disco de Natal da música portuguesa. Se não conheces, eu vou mostrar-te.

Não, vou ouvir, porque eu queria pôr música para os meus filhos quando estávamos a fazer a árvore de Natal. E pensei: não tenho nada, ou seja, vai tudo dar aquelas versões.

Os standards.

Sim. Uma das canções para esse disco era esta, o "Homem Deitado". E eu já tinha mostrado a Vitorino, ele tinha dito que queria participar. Entretanto, fui para o estúdio gravar eu no disco dele, e ele: "Então, mas e como é que está o 'Homem Deitado'?" Eu pensei: está deitado. Continua, ainda se está a levantar. E eu disse: "Olha, o projeto não vai avançar, porque o financiamento não foi espetacular e então eu não posso estar a investir isso tudo". E ele disse: "Não, mas vamos gravar na mesma". Pensei: por que o "Homem Deitado" não é uma carta de desamor? É, obviamente que é. E então gravamos o "Homem Deitado". A Cátia, a Garota Não. Já sou fã da Cátia há muito tempo. Fui vê-la no CCB, no auditório pequeno, e agora ela já está a encher o grande. E a Cátia, sou mesmo muito fã de tudo o que ela escreve.

É muito talentosa.

É muito talentosa, eu digo sempre, é muito talentosa, é muito pertinente, é muito interessante. E eu pensei que realmente eu queria cantar este ser mulher com outra mulher e com uma mulher que eu admirasse muito. E então perguntei à Cátia se ela queria participar e ela disse que sim.

Olha, ainda gostava de te fazer mais perguntas. Gosto muito do trabalho que tens feito para outros artistas, compondo para outros artistas, que é uma coisa que eu acho que fazes muito bem. Ainda reparava, eu acho que é no disco da Teresinha Landeiro, que há uma canção tua, em que eu acho que se percebe logo que é tua.

Mas essa canção tem uma história mais ou menos engraçada, que é: eu escrevi essa canção para concorrer às Marchas de Lisboa, mas não ganhei E a Trezinha fez o favor de gravar para concorremos às marchas. E eu acho que fiquei em segundo lugar. E depois ela quis gravar a marcha.

E bem. Eu gosto muito dessa canção.

Eu fiquei com muita pena. Eu adorava ganhar uma Marcha de Lisboa. Ainda vou tentar concorrer outra vez.

Mais um check que falta pôr nessa lista.

Falta.

Muito rapidamente, 11 de novembro, Tivoli BBVA, em Lisboa, 16 de novembro, Casa da Música, no Porto. Como é que serão estes concertos? Quem é que vai estar contigo em palco? Já que aqui na rádio recebemos-te sozinha com a tua guitarra.

Bem, aí não vou estar sozinha. Mas eu estou muito entusiasmada para fazer estes concertos, porque eu estava a me sentir um bocadinho desmotivada em palco nos últimos anos, talvez no último ano, porque eu entrei também neste mundo da escrita de prosa e comecei a sentir que só cantar não me estava a estimular tanto. E montei um espetáculo que tem um bocadinho também de palavra dita, muito inspirado num disco que eu adorava da Maria Patânia quando era miúda, em que ela declamava Fernando Pessoa e depois cantava. E ela, na verdade, fazia isso com muitos poetas. E esses discos eram muito inspiradores pra mim. Eu ver como é que íamos da palavra dita pra palavra cantada, e como eu vivia aqueles poemas, como se eles fossem histórias, não é? E como se alguém me desse só mais um bocadinho, pra eu saber um bocadinho mais do que está por trás daquela história. E montei o espetáculo assim e também com uma parte cênica muito mais forte, porque eu queria mesmo que fosse um espetáculo e não um concerto. E estou superentusiasmada.

Boa, estão aí as datas: 11 de novembro é em Lisboa, no Tivoli, 16 de novembro, na Casa da Música, no Porto, a apresentação de "Cartas de Desamor", o disco que trouxe a Luísa Sobral esta semana à Rádio Observador. E vamos ficar também com ela ainda para esta "Não Sei Quem Sou". Muitos parabéns, muito obrigado. Até breve.

Muito obrigada, até breve. Onde fui? Quem sou eu? O que resta de mim agora? E o que foi que se perdeu? Se me olho ao espelho, é uma mãe que vejo. É alguém que canta o amor, mas que esqueceu o seu sabor. Eu não sei. Quem sou? Será que quero ver o mundo como um dia quis? Dançar pela noite dentro, fazer tudo o que não fiz. Será que ainda há tempo de uma história de amor, de uma paixão desenfreada, de amar e ser amado? Eu não sei. Quem sou? Mas se perguntar se sou feliz, direi que sim. Mas sei que não vais perguntar. E talvez seja melhor assim. Que é quando fico a pensar. Que esta tristeza entra em mim. É quando sei que não sei. Quem sou? Será que ainda sou bonita? Que alguém me vê sim. Vê beleza neste corpo que já se esqueceu de mim. Será que quero morar fora, viver noutro lugar, falar uma outra língua, ter saudades e voltar? Eu não sei. Quem sou? Mas se perguntar se sou feliz, direi que sim. Direi a mim mesma que não vejo o fim. Mas sei que não vais perguntar. E talvez seja melhor assim. Que é quando fico a pensar. Que esta tristeza entra em mim. É quando sei que não sei. Quem sou? Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.