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Ao vivo, na Rádio Observador.

Manuel Fúria, na Rádio Observador, a mandar um grande verde veneno pra todos aqueles que conduzem ou que ouvem em casa.

Verde veneno, verde novo, verde burro, verde febre, verde azedo, verde amparo. Uma morte que alastra e se agarra às tuas mãos. Verde veneno, verde seco, verde boca, verdes olhos, verde aqui e agora, vá. Luz do que é novo, encandeia a tua flor de obsessão. Verde veneno. Verde veneno, em Lisboa, às 19h em ponto, sinto um cheiro de azeitona. Bicho que alastra pra habitar cá dentro desta minha pele. Verde lascivo, tatuado, verde exposto, verde inchado. Verde lamento, a verdeirade é um pedal de distorção. Verde veneno. Bernardo Almeida a sacar um grande som. Verde veneno, verde isto, verde aquilo, que foi feito do que eu tinha, do que eu tenho e do que eu sou. Verde veneno, verde isto, verde aquilo, que foi feito do que eu tinha, do que eu tenho e do que eu sou. Verde veneno é o tema título do novo disco do Manuel Fúria, convidado ao vivo desta semana aqui na Rádio Observador. Manuel, obrigado por teres vindo.

Obrigado eu, Nelson, pela simpatia e amabilidade em receber-me aqui nos estúdios da Rádio Observador.

Não é simpatia, é apreço pelo teu trabalho. E o "Verde Veneno" é um ótimo passo no caminho que tens feito. Muito diferente dos "Perdedores", o último projeto de 2022. Diria que esse disco tem um lado mais confessional, mais despido. No entanto, aqui no "Verde Veneno", mergulhas, de alguma forma, num mal-estar do mundo. Que veneno é este que te serviu de inspiração para este disco?

Esse veneno é muita coisa. Em primeiro lugar, esse veneno foi uma coisa dita pela Catarina, pela minha mulher, numa pequena cena da vida doméstica, na cozinha lá de casa. Não sei se foi a propósito de um lápis de cera ou de uma camisa, de uma peça de roupa. A Catarina saiu-se com a expressão verde veneno, como uma certa tonalidade de verde, um certo matiz de verde. E foi a primeira vez que eu ouvi essa expressão, nunca tinha ouvido as duas palavras associadas assim daquela maneira. E isso, de repente, pra mim, fez acender uma luz, como se diz, acendeu-se uma luz. E essa luz foi, de repente, o nome daquilo que eu andava a fazer com o disco que estava a gravar nessa altura e que viria a ser este aqui.Eu acho que havia uma nuvem de conceitos, temas, coisas que me apaixonam ou que me interessam, mais ou menos difuso, e que de repente com aquele nome ganharam um lugar, ganharam uma ordem, ganharam uma sequência, ganharam critério, ganharam, no fundo, estrutura. Isso tem a ver com a força que a expressão tem, no sentido de um certo paradoxo e de uma leitura que se pode associar à cor verde. Por um lado, uma cor de frescura, de juventude, de esperança, mas ao mesmo tempo, este veneno introduz um elemento sombrio, um elemento tóxico, que tem a ver também com a ideia de que um certo tipo de esperança tem em si já uma forma de morte, nomeadamente a esperança nas coisas do mundo e não a esperança certa, que no meu caso, a meu ver, é a esperança cristã do mundo onde estamos, mas que de algum modo estamos já a ver outro mundo.

Eu acho particular piada a estas sonoridades que se ouvem nestas novas canções, quando comparadas com outras coisas que tu fizeste ao longo da tua carreira, porque este disco parece que tem mais máquinas, que tem mais eletrónica. De alguma forma rendeste-te mais a essa sonoridade ou é também uma forma de embalar com uma sonoridade que é contrária àquilo que se está a dizer? Há aqui algumas visões mais apocalípticas que depois com aquele ritmo mais dançável, se quisermos. Há aqui uma espécie de dicotomia entre o que é dito e o que é ouvido no instrumental?

Digamos que é um disco de música de dança terminal para um tempo envenenado, por assim dizer. Mas eu acho que não foi uma coisa nova em mim, na medida em que eu sempre gostei de música de dança, de música eletrónica, e sempre foi uma vontade de algum dia, quando surgisse a oportunidade ou quando fosse a altura certa, trabalhar com máquinas e com sintetizadores de uma maneira mais completa, porque já tinha usado alguns elementos, já tinha feito algumas experiências desse tipo noutros discos.

Até no "Viva Fúria", acho que é.

No "Viva Fúria", sim, tem elementos mais... Convém perceber, para quem não me conhece ou para quem me está a ouvir pela primeira vez.

Quem está desatento, claramente.

Quem está desatento, exatamente. O meu percurso tem a ver com a tradição do rock mais direto de guitarras e depois daí fui fazendo outras experiências, sempre menos artificiais, sempre mais a ver com pessoas, instrumentos, gente a tocar, grupos, grupos grandes de pessoas a tocarem juntas.

Quer com os Golpes, quer com os Náufragos.

Com os Golpes, com os Náufragos, etc. E depois, "Os Perdedores", que é o disco anterior a este e que inaugura, no fundo, uma espécie de nova maneira de estar na música, inaugura essa relação com a música eletrónica, com os aparelhos eletrónicos. Eu acho que sim, acho que há uma espécie de síntese entre uma linguagem musical que parece ser contrária àquilo que está a ser dito nas canções, por ser uma linguagem-

Eu gosto desse exercício

...e por ser um estilo mais associado a um contexto hedonista e de busca do prazer, mais noturno, dançável, etc, que com as palavras e com os temas que eu trago, torna-se numa coisa diferente.

O disco começou por ser revelado ou apresentado com o single "Eu Devia Estar Calado", se bem me recordo. Quer essa canção em particular, quer o disco também me parece uma espécie de exercício de resistência à repetição nalgumas canções como forma de sobrevivência, quase como se as canções também fossem preces destes tempos mais modernos que estamos a viver. Concordas de alguma forma com esta análise?

Concordo, acho que isso é uma leitura razoável do que aqui está em causa. Acho que isso tem também uma cronologia de acontecimentos e tem a ver também com o disco anterior, com "Os Perdedores", que é um disco de um certo desamparo, também de uma certa libertação e do encontro de uma voz que canta ou que anuncia, ou que observa também a perda, o despojamento. Das ruínas cantadas nesse disco dos "Perdedores", depois surge "O Verde Veneno" como um exercício mais ativo, daí o tal combate. Ou seja, de alguém que está dentro das ruínas de um tempo envenenado, digamos assim, e que as observa e que as combate de uma certa maneira. Através da observação e não tanto através de uma intervenção, mais de uma infiltração.

E também o faz de alguma forma dançando na cara disso.

Exatamente.

Que é engraçado. Olha, estamos a ficar sem tempo, muito rapidamente. 14 de maio, Coliseu Club, em Lisboa, 23 de maio, no Moko, no Porto. São as duas apresentações mais oficiais deste disco agora nos próximos tempos. Estou curioso para perceber como é o formato, porque tu trazes aqui um instrumental, uma coisa um pouco até mais reduzida aqui pra Rádio Observador. Como é que isto vai funcionar em palco, estas novas canções?

Digamos que o formatoO formato é muito maleável e pode ser de várias maneiras, mas neste caso concreto destes dois concertos, é um trio. Eu estou lá na vanguarda desse trio cantando, tocando guitarra às vezes e depois tenho comigo o João Eleutério, que é produtor deste disco e que o conhece tão bem ou melhor que eu, e o Sebastião Macedo, que também cantou e participou no álbum. Os dois são polivalentes, por isso tocam tudo, têm máquinas, sintetizadores, guitarras, etc. Mas, sobretudo, o que interessa nestes concertos, eu acho que o disco não basta para perceber o que está em causa. E ao vivo é onde ele encarna, numa arena, as suas intenções e diz ao que vem de uma maneira mais completa, quase total.

Ótima forma de deixar convite a esses dois espetáculos: 14 de maio, Coliseu Club em Lisboa, 23 de maio no Hotel MoCo, no Porto. O Manuel Fúria vai apresentar este "Verde Veneno". Foi também o tema que ouvimos há pouco e agora "Fantasmas" foi esta que escolheste. Acho que quase confessavas que era uma das tuas favoritas deste disco.

É das canções que eu mais gosto, sobretudo por aquele embalo punk funk, que faz-me lembrar, vem dos A Certain Ratio ou mesmo dos Talking Heads ou dos LCD Sound System. São tipo referências e de andar a roubar a outros artistas e por isso, quando faço alguma coisa, ou é um assalto inconsciente, por isso vem de alguma coisa que eu fui acumulando e que arranjei maneira de expressar naquele momento, ou às vezes é mesmo intencional e vou mesmo roubar a alguém alguma coisa que me interesse. E esse embalo da música, quase no mesmo acorde o tempo todo.

É ótima.

Gosto muito.

Vamos conhecê-la nesta passagem do Manuel Fúria aqui pelo Ao Vivo, convidado esta semana. "Fantasmas" para o fecho e ouçam este verde veneno. Obrigado, Manuel. Parabéns.

Obrigado eu.

Manuel Fúria na Rádio Observador, convocando fantasmas.

Macumba de imagens fantasma. Fantasmas. Antes morrer do que largar da mão. Fantasmas. As famílias que ainda sobram com filhos em vez de cão é vê-los todos vidrados a prestar culto ao clarão. Fantasmas. Isto tudo são coisas que te queria contar, mas ninguém atende, já ninguém sabe falar. Fantasmas. Ninguém atende o telefone. Fantasmas. Está tudo a olhar pro telefone. Fantasmas. Ninguém atende o telefone. Fantasmas. Está tudo a olhar pro telefone. Fantasmas. Vi um retrato de São Francisco de Borja. Tinha na mão uma caveira com uma coroa real. Isso fez-me ponderar na brevidade da vida, no tempo que gastei a escolher esta camisa. O retrato estava num templo ocidental, numa igreja selvagem, à margem da rede cultural. E eu amo o silêncio que se pode encontrar. Fico vazio por dentro. Torno-me igual ao lugar. Fantasmas. Isto tudo são coisas que te queria contar, mas ninguém atende, já ninguém sabe falar. Fantasmas. Ninguém atende o telefone. Fantasmas. Está tudo a olhar pro telefone. Fantasmas. Ninguém atende o telefone. Fantasmas. Está tudo a olhar pro telefone. Fantasmas.

Ao vivo, na Rádio Observador.

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