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Ao vivo, na Rádio Observador.

No coração, saudades dos lugares que nem vi. Água das fontes que eu nem bebi, mas beberei um dia, juro. Não é só fantasia, tu também, que conheço como mais ninguém. Desfrutarás mais que o tempo contém. O amor existiria puro, bem como hoje em dia. Sensações que podem provocar emoções que ninguém pode negar. Essa beleza vale tudo, quando é tua mão que eu seguro. Quantas vezes que sonhei, ninguém vai acreditar. Se muito tempo esperei, nem vale a pena perguntar. No coração, saudades dos lugares que nem vi. Água das fontes que eu nem bebi, mas beberei um dia, juro. Não é só fantasia, tu também, que conheço como mais ninguém. Desfrutarás mais que o tempo contém. O amor existiria puro, bem como hoje em dia. Sensações que podem provocar emoções que ninguém pode negar. Essa beleza vale tudo, quando é tua mão que eu seguro. Quantas vezes que sonhei, ninguém vai acreditar. Se muitas horas esperei, esqueci-me de contar. Quantas vezes que sonhei, ninguém vai acreditar. Se muito tempo esperei, nem vale a pena perguntar.

"Nem vale a pena perguntar", música de Nil Fernandes, é o meu convidado esta semana no "Ao Vivo" e é um dos temas do seu novo disco, "29 Graus". Nil, bem-vindo à Rádio Observador.

Muito obrigado.

Muitos parabéns pelas tuas canções que tenho estado a descobrir. Por que "29 Graus"? Que título é este? Agora fiquei curioso. Podíamos começar por aqui.

É porque eu tenho 29 anos e 11 é o meu número especial.

O 11?

11. Nove mais dois é 11, então foi por causa disso também. E o meu primeiro disco chama-se "Manifesto 11". Eu nasci no dia 11 de outubro e a minha namorada também faz anos no dia 29 de agosto. Mas tem a ver com a minha idade e 29 graus porque são níveis, ou seja, eu pensei nos graus como se fossem níveis.

Etapas.

Etapas.

O Nil nasceu em Goa, já vive em Portugal há alguns anos e neste "29 Graus" temos aqui também músicas em konkani, em inglês e em português. Descubram este disco, eu estou a gostar muito de o descobrir e tanto que ele venceu o prémio Novos Talentos FNAC deste ano. O que isso significa para um artista que está ainda um pouco em início de carreira ou a dar-se a descobrir? É um dos melhores prémios no que toca à nova música nacional. Que impacto é que isto pode ter?

Isso foi um sonho. Eu lembro-me no dia em que anunciaram isso, eu estava mesmo a tremer e foi uma coisa incrível. Não tenho palavras pra explicar como é que eu senti, porque mesmo sendo uma pessoa que vem de fora, ou seja, vem de Goa, também estava à procura da minha identidade ou estava à procura de uma resposta das pessoas, ou seja, eu queria que as pessoas percebessem a minha identidade enquanto goês, porque já é uma identidade supercomplexa de perceber, e eu estava procurando isso.

Pelo menos o júri dos Novos Talentos FNAC reconheceu isso.

Sim, eu comecei a sentir que há alguém, há pessoas, há o grande público que finalmente consegue perceber quem é que eu sou.

Não é muito fácil de identificar ou de rotular a tua música. À semelhança do sítio de onde vens, também há uma grande interligação cultural e de várias culturas. A tua música toca, de facto, vários gêneros. Há canções bastante diferentes umas das outras.

Sim. Foi sempre esse o meu objetivo, captar a minha identidade em completo. Como eu disse, é uma identidade super complexa de perceber, porque a gente lá em Goa sofreu várias influências, não só da influência portuguesa com a influência étnica indiana, mas também a música americana, inglesa, dos Beatles. Eu cresci a ouvir música country, por exemplo, e foi uma mistura de influências que eu quis captar de uma forma qualquer. Também senti que o gênero jazz fusão, é por isso que eu digo que também sou um artista de jazz fusão, porque eu tenho a formação de jazz, fui formado em jazz e produção musical, mas também queria usar outras coisas que existem fora do jazz, ir às minhas raízes culturais e consolidar essas influências todas num gênero só, num estilo só.

Quando eu vi também os vídeos que já estão disponíveis no YouTube, também achei que há um lado de performance ou de performer que também existe. Depois estava a ler coisas a teu respeito e vi que Prince era uma das tuas influências.

Sim.

E achei isso bastante interessante. Mas queria falar também um pouquinho da tua relação com a guitarra. Parece-me que ela é um centro de gravidade para a tua composição. É assim?

Sim, é completamente. Porque acho que a guitarra é um instrumento que consegue captar quase tudo, todos os aspectos da música, ou seja, como o Segovia também dizia, é uma pequena orquestra dentro de um instrumento. E eu sinto isso, eu sinto que é uma orquestra e facilita o processo de composição. Há outros que preferem compor no piano, por exemplo, mas a guitarra por mim há mais possibilidades. Quando falamos sobre o ritmo, por exemplo, eu acho que o senso do ritmo é muito importante enquanto tocas guitarra. Também tem uma coisa percussiva nele. É uma orquestra dentro de um instrumento e é isso que sempre me atraiu na guitarra.

Eu também achei que, ouvindo um pouquinho das tuas canções, andas a oscilar entre peças que têm mais um formato de canção e outras que exploram mais uma liberdade instrumental, se quiseres. Daí o jazz ou o jazz de fusão, ou até o jazz rock poderem entrar em algumas das tuas labels para te catalogar. Mas quando estás a compor, qual é o ponto de partida? Como é que nascem as ideias para as tuas canções?

Eu acho que tem sempre a ver com um mundo imaginário. Não é bem imaginário, mas é um mundo, uma realidade paralela que eu tenho na minha cabeça e que eu sempre carreguei dentro de mim, que eu não sei muito bem explicar isso em palavras, mas eu sei qual é a sensação ou como eu sinto em relação a isso. Eu sempre entro naquele mundo para compor. Eu sinto que é como se fosse um sonho, uma realidade paralela.

Ok.

Se calhar também tem a ver com nostalgia, tem a ver com lugares imaginados também, que não são uma fantasia. É por isso que também na minha música "Nem Vale a Pena Perguntar", eu digo isso: "saudades dos lugares que nem vi". E é isso que eu sinto. Eu sinto que eu tenho que entrar nesse mundo.

E as coisas começam a fluir.

E as coisas começam a fluir, porque é uma sensação. Eu tento sempre encontrar aquela sensação que eu sinto nesse mundo dentro das minhas músicas. Eu tento mostrar isso através das minhas músicas.

Nil Fernandes, este teu novo disco tem uma apresentação este sábado no Maqam, em Lisboa, ao vivo na capela do Maqam.

Sim.

Como é que vai ser este concerto? Estás sozinho? É um formato banda?

Sim, vai ser em trio, com o Alexandre Pinheiro no saxofone e o Edgar Brites na percussão, dois amigos meus, músicos incríveis. Vou tocar as músicas do meu novo disco ao vivo, quase todos os temas, e também uns temas mais antigos, algumas músicas tradicionais de Goa também. Vai ser um concerto mais intimista.

Se calhar também é um formato que estás mais habituado do percurso que tens feito, pelo que percebi, às vezes a tocar em bares.

Sim. Eu estou mais acostumado a tocar com uma banda ou um quarteto. Também quando eu toco na Fábrica Bairro Alto ou num festival qualquer, é sempre com uma banda. Mas como eu quis ter alguma coisa a ver com o sítio, como é uma capela antiga, requer uma sonoridade mais acústica, acho eu. Pensei que seria interessante fazer em trio, sem bateria, mas com percussão. Vai também contar com A presença de um instrumento guexe, que é tipicamente guexe, chamado gumot.

Ok. É de cordas?

Não, é um instrumento de percussão.

Ok.

É como se fosse um tambor guexe e é muito importante na música guesa. Fui à procura de uma coisa que tinha mais a ver com o espaço, com o ambiente de uma capela e acho que vai ser muito giro. Eu estou superanimado.

Deixo aí o convite, o MACam, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, é ali na zona de Belém, não é?

É.

Na capela do MACam. Concerto para verem este sábado. Nil Fernandes é o grande vencedor do prémio Novos Talentos Fnac, edição 2026. Muitos parabéns também por esse prémio e por este "29 Graus", o novo disco, do qual vamos ouvir outra canção. Recorda-me qual é o título?

O segundo é uma música em concanês, uma música autoral que se chama "Supur Le Gor", que quer dizer uma casa pequenina.

Ok.

E acolhedora.

Vamos a isso. Há uma música que é a casa portuguesa.

Exato.

Com certeza, é um bocado a tua versão guesa desse clássico. Nil Fernandes no ao vivo esta semana aqui na Rádio Observador. Muitos parabéns, obrigado.

Muito obrigado. Og zitlo kortam tuzo. Kona chan sotmanunk nezo. Og zitlo kortam tuzo. Kona chan sotmanunk nezo. Jivitan sonsaran. Kenats punk narupkaroslo. Jivitan sonsaran. Kenats punk narupkaroslo. Tekun kalzan bandun dorta. Supur le gor moga tuka. Tekun kalzan bandun dorta. Supur le gor moga tuka. Bordi stu je soveram. Amcha furara kuvarum. Bordi stu je soveram. Amcha furara kuvarum. Son tosan onodan. Jivit moje tuka betum. Son tosan onodan. Jivit moje tuka betum. Kushal burit kandar corta. Kuja pasot moga moja. Kushal burit kandar corta. Kuja pasot moga moja.

Ao vivo na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.