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Ao vivo, na Rádio Observador.
O ao vivo da Rádio Observador tem esta semana um formato um pouco diferente. Vou estar à conversa durante os próximos minutos com o Fernando Alvim, na qualidade de fundador do Festival Termómetro, que realiza este domingo, 10 de maio, a sua grande final desta que é a 30ª edição do Festival Termómetro. Fernando Alvim, obrigado por teres vindo à Rádio Observador.
Olá.
Queria começar por perceber como é que se chega a uma 30ª edição deste evento. Serias uma pessoa muito diferente nos anos em que fundaste este Festival Termómetro. É, no fundo, a tua relação mais duradoura.
É verdade, é uma relação muito duradoura esta do Festival Termómetro, porque começou em 1994 e quando eu iniciei, estaria longe de perceber que ela poderia durar até 2026. Nem eu sabia que ia durar até 2026, quanto mais o festival. E a verdade é que o festival só durou porque na primeira edição, nomes muito conhecidos, ou que na altura não eram conhecidos, mas vieram a tornar-se. E eu achei que, justamente por causa disso, que devia continuar com o festival. E passado dois anos-
O sucesso da primeira edição é que motivou.
O sucesso da primeira edição foi determinante. Se não tivesse sido bem-sucedida a primeira edição, obviamente que eu não ia fazer mais. Mas eu acho que houve aqui uma espécie de sorte. Eu acho que tive sorte.
Queria olhar contigo também um bocadinho para este formato. O festival já de algum tempo para cá percorre, de alguma forma, o país, vai a cidades que até têm menos produção cultural e apresentações de música.
O objetivo é esse.
Como é que correu este ano? Foram de novo a cidades onde ainda não tinham ido?
Vou ser o máximo sincero possível. Eu acho que de ano para ano, eu sinto que há mais adesão por parte das pessoas. E isso tem alguns motivos. Um, que eu acho que é um dos motivos principais, é o fato de as redes sociais serem bastante úteis para promoção dos eventos junto das localidades, porque tu podes com precisão dizer onde é que queres promover o teu evento. E isso às vezes não se consegue nem com a rádio, nem com a televisão. As redes sociais, que têm muita coisa má, mas também têm essa coisa boa, de poderem promover eficazmente os sítios onde se realizam os eventos. E depois, porque há, em muitos locais, uma escassa oferta cultural. E o fato de haver escassez cultural faz com que qualquer evento, menor ou maior, tenha um enorme acolhimento, como se as pessoas tivessem, ao aderirem, a dizer aos promotores: "Venham, tragam mais coisas. Nós cá estaremos". Eu acho que isso tem sentido. Eu tenho sentido muito isso. Não sei se a minha análise é correta ou não, mas acho que andará perto da realidade.
Presumo que sim, também. Olhemos então um bocadinho para esses nomes históricos que já passaram pelo Termómetro e que fazem também parte da sua história, os Blind Zero, os Silence Four, os Ornatos, Ana Bacalhau, Capicua, muitos outros que já passaram pelo Festival Termómetro. De alguma forma, quando vês que estes nomes conseguem chegar depois aos coliseus em nome próprio, há uma sensação de pai orgulhoso?
Sim, eu sinto sempre orgulho. O mais curioso é que todos esses nomes que referiste se tornaram maiores que o festival.
E alguns não ganharam propriamente.
Sim. Aliás, chamamos de síndrome Miss Portugal, que durante muitos anos a Miss Portugal, quem ficava famosa não era a Miss propriamente dita, mas era a Miss Simpatia.
Miss Simpatia.
Lembro-me sempre da Helena Lauriano, ganhou a Miss Simpatia, e depois ela é que foi a grande revelação daquela ano e ninguém se lembra quem é que ganhou. E com o Termómetro, muitas vezes isso acontece. Sabes que às vezes interrogava-me: "Mas por que isso acontece? Por que a banda que fica em segundo ou em terceiro lugar é que depois ganha uma grande notoriedade?" E eu acho que isso tem muito a ver com os critérios por parte do júri, que buscam ali uma espécie de perfeição. E eu acho que as pessoas não buscam bandas perfeitas. Eu acho que é naquelas imperfeições que às vezes até se cria uma proximidade junto do público. Há que haver qualquer coisa. E eu acho que se calhar é por aí. Tu dás uma pontuação, tudo é perfeito, a forma como se apresenta. Se calhar, as pessoas procuram outras coisas, que o júri não, obrigatoriamente. Eu não estou aqui a criticar o júri.
Claro. Em 30 anos, recordas-te de algum momento mais caricato que já tenha prescrito e que possas contar em 30 anos de história de Termómetro?
Há um momento caricato. Repare-se, eu era um miúdo, eu tinha 20 anos quando criei o festival. Tinha 20, 19, nem sei. Era mesmo um miúdo. E era um miúdo que a única coisa que queria era organizar um festival de novas bandas, no único momento da minha vida em que eu deixei de fazer rádio. Portanto, nos nove meses, na minha vida, únicos, em que eu deixei de fazer rádio, eu fiquei completamente sem saber o que havia de fazer à vida. E achei que devia criar um festival de novas bandas com o objetivo que ainda hoje é o objetivo principal, que é: bora lá perceber que novas bandas existem, novos autores, como descobri-los e revelá-los. E a verdade é que numa das sessões, o Termómetro inicialmente chamava-se Unplugged, porque basicamente as bandas eram obrigadas a tocar com instrumentos acústicos. Era também um movimento do MTV Unplugged, que existia, que é de grande sucesso. Portanto, eu inspirei-me, de certa forma, no MTV Unplugged para fazer algo de parecido. Então as bandas eram obrigadas a tocar em instrumentos. E numa das eliminatórias, houve uma banda que tocou com baixo elétricoE o problema é que ganhou.
Furando o regulamento.
Furando o regulamento. Repara, eu pensava que aquilo era único. Está tudo bem, também não foi isso. Mas claro que hoje em dia não faríamos estupidezes dessas. E por causa disso, porque outras bandas souberam, os Ornatos Vilados disseram: "Ah, é? Assim não vamos à final". E os Ornatos Vilalta não vão à final, porque souberam que houve uma banda que tocou com um baixo. Com toda a razão. Eu diria que foi o maior escândalo do Termômetro nos 30 anos e foi logo no primeiro ano. A razão é esta que eu acabo de revelar.
Olhando aqui um bocadinho para a final, acontece no próximo dia 10, no Lisboa Ao Vivo, no LAV. Tem a particularidade de ser uma matinée, por alguma razão especial. Estamos todos a ficar velhos para sair à noite.
Eu acho que era isso. Deve ser essa. Essa é a primeira. A segunda é perceber que existe também uma tendência. As novas gerações estão definitivamente a cortar nas horas de saída. As novas gerações não gostam de ficar até muito tarde. Não quer dizer que de vez em quando não o faça, mas quando ficamos até às 6h, 7h da manhã.
É um martírio no outro dia.
É um martírio, é completamente antiprotivo e nós não queremos isso. E para a final do Termômetro, há muitas pessoas que vão levar os filhos. De um certo modo, eu acredito que o Termômetro possa ser também um evento familiar. E vamos ter ali novas gerações e velhas gerações. Acho que se vão ali encontrar.
Monstro, Rita Cortesão e Parque Império são os três finalistas deste ano do Festival Termômetro. Tens também a particularidade de ter sempre uma banda convidada, neste caso, Mães Solteiras é o projeto que vai atuar nesta final. Como é que se está a perspetivar estas atuações? Monstro, Rita Cortesão e Parque Império parecem coisas muito diferentes entre si.
Deixa-me só dizer que nós, depois no final, sabes que nós afastamos muito aquela ideia de uma competição.
Hoje é mais uma mostra.
Sim, é uma mostra. Quisemos distanciar totalmente essa competição. Contudo, a verdade é que há um prêmio final. No fundo, eu dou este exemplo, faço esta analogia: é como os festivais de cinema. Festival de Cannes ou o Leão de Ouro. As pessoas não vão participar nesse festival porque querem vencer o festival. Sim, isso é a cereja no topo do bolo. Vencer o festival pode ser o sonho, mas as pessoas vão lá porque sabem que é um festival ótimo para estarem presentes, onde as pessoas que vão lá são interessadas e que pode ser uma boa experiência. É exatamente aquilo que eu quero para o Termômetro. E acho que nós nos últimos anos o temos conseguido com uma coisa que mudou. Não só retiramos essa coisa da competição, como temos uma coisa que eu acho que é boa, que é: são bandas que estão em início de atividade. Nós pagamos a todas estas bandas. Todas estas bandas têm um cachê. E mesmo o prêmio, elas vão ao Nossa Live, vão a Paredes de Coura, vão a Bons Sons e também são pagas por isso. Algumas pessoas se questionarão: "Então, mas não era assim?" Não, não era assim.
Claro.
No início da atividade, qualquer atividade, há uma espécie de exploração. Há sempre uma exploração. Todos nós, no início da nossa atividade, fomos explorados. Pois bem, eu quero, ou pelo menos nós tentamos nos últimos anos, mostrar que é possível não explorar ninguém, mesmo que esse alguém esteja no início da sua carreira.
O Termômetro pode ser uma espécie de elevador social da música. Porque se colocas uma banda destas depois nestes três festivais.
Pois, eu nunca penso dessa forma, mas a verdade é que uma banda que vai a esses três festivais, forçosamente, vai ser vista por muito mais pessoas do que no próprio Termômetro. E temos muitos casos de bandas. Eu lembro-me sempre dos Silence Four, que talvez tenha sido um dos casos de maior sucesso do festival e que muito poucos anos depois de terem vencido o festival, encerraram uma das noites do Sudoeste, porque os Sportiche precisavam tocar mais cedo. Os Sportiche precisavam tocar às 10:00.
Eles abriram para Silence Four, portanto.
Basicamente, eles abriram para Silence Four, já viste. E esse concerto no Sudoeste é decisivo na carreira deles. Eles já iam numa toada muito ascendente, mas esse concerto é muito decisivo na carreira deles.
Olhemos um bocadinho para 2026, porque a relevância de um festival de música como o Termômetro, que pretende ser uma mostra de novos talentos, às vezes pode criar aqui alguma confusão às pessoas, na perspectiva de que hoje parece-me que um novo talento já não procura um contrato discográfico como procurava.
Ou está num festival destes.
Há miúdos que fazem um vídeo no TikTok e a música se torna viral, numa altura em que a viralidade dos conteúdos parece fazer muito também pela carreira dos artistas. Ainda faz sentido um festival Termômetro e o que ele oferece de diferente?
Já vês que era eu agora dizer: não, não faz sentido nenhum. Não, mas claro, eu acho que faz sentido, senão não continuava com o festival. E os argumentos que nós temos é justamente esse. Termos transparência em relação às bandas, termos honestidade na forma como nos relacionamos com elas e depois darmos boas condições. E quando falo de boas condições, é também as condições técnicas, é darmos bons auditórios, as bandas sentirem-se bem tratadas, com bom som, terem ali um público que está ali para as ver e não propriamente: "Vim aqui beber uns copos e quero lá saber destas pessoas que estão aqui a tocar". Eu acho que temos garantido isso ao longo dos anos. E acho que há uma respeitabilidade entre nós e os participantes e até o próprio público. Eu estou satisfeito com isso. E é essa só a razão de nós termos chegado a estes 30 anos. Importante também, há que dizê-lo, que sem o apoio das câmaras municipais, nós não tínhamos qualquer hipótese de fazer o festival.
Quem quiser se juntar à final do Termômetro este domingo, às 16h, no Lisboa Ao Vivo, é só aparecer.
É aparecer. Os bilhetes são muito baratos, estão à venda, temos um valor mesmo nada proibitivo. Vão ver três bandas novas para perceberem o que se anda a passar na nova música portuguesa e ainda vão estar com a banda sensação, eu diria, do momento, que são as Mães Solteiras, uma nova banda punk, que junta uma série de músicos extraordinários e que tem feito bastante furor.
Está feito o convite. Apareçam este domingo, às 16h, no Lisboa Ao Vivo, a final do Festival Termômetro, 30ª edição, a relação mais longa na vida de Fernando Alvim, o seu fundador, que esteve aqui como convidado no Ao Vivo desta semana da Rádio Observador. Obrigado, Alvim. Um abraço.
Obrigado e apareçam.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.