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O que metemos no prato muda e muito a forma como vivemos e é por isso que contamos sempre com a nutricionista Mariana Chaves. Seja bem-vindo a mais uma edição de "Aprender a Comer: A Sua Pergunta". Olá, Mariana.
Olá, Maria.
Boa sexta-feira.
É sexta-feira.
E planos para este fim de semana, Mariana, conta-nos tudo.
Aproveitar o sol, estar com os meus filhos.
Tão bom, fazes muito bem. Vamos falar de coisas sérias agora, porque este é um programa sério.
Exatamente.
A nossa ouvinte Leonor escreveu-nos para marianachaves@observador.pt, enviou a seguinte pergunta: "Quem está habituada a fazer jejum intermitente de 14 a 16 horas", ainda é qualquer coisinha, "saltando o pequeno-almoço, deve deixar de o fazer quando estiver grávida? Existe risco de prejudicar o bebê?" O que é que dizes, Mariana?
Olha, que bom que a Leonor expôs esta pergunta, que já me perguntaram pessoalmente várias vezes e acho que ainda não tinha sido perguntada aqui no "Aprender a Comer".
Então, estamos cá para desmistificar de uma vez por todas.
É isso mesmo. E a recomendação é interromper de imediato o jejum intermitente na gravidez. E digo isto de uma forma muito clara: a gravidez não é a altura para se fazer períodos longos de jejum, sem comer, muito menos de forma regular. Não é a altura. Há alturas para isso. 14 até 16 é mais do que as 12 horas que toda a gente deve fazer. E a evidência que temos, evidência científica, sugere aqui uma associação entre saltar o pequeno-almoço ou prolongar demasiado o jejum e vários riscos, tanto para a mãe como para o bebê.
Mas por quê? Se normalmente o jejum de 12 horas, por exemplo, está associado a benefícios, o que é que muda agora no corpo da mulher grávida?
O de 12 horas é o limite na mulher grávida. Atenção, aqui a Leonor falava-nos em 14, 16, que é muito exigente, e durante a gravidez, o corpo entra mais rapidamente em jejum do que fora da gravidez. Há até um conceito muito interessante que é chamado fome acelerada, que muitas grávidas que nos estiverem a ouvir, ok?
Não são aqueles desejos.
Não, mas é de repente uma vontade de comer súbita. E isto significa que mesmo após poucas horas sem comer, a grávida começa mais depressa a gastar as reservas que tem de glicose e a procurar fontes alternativas de energia. Está com fome. Isto acontece porque está um bebê a desenvolver-se dentro dela, e o feto e a placenta estão continuamente a consumir a glicose da mãe. Portanto, quando a mãe passa muitas horas sem comer, não é só a mãe estar a aguentar-se sem pequeno-almoço. Muito mais do que isto, o organismo está a tentar alimentar dois ao mesmo tempo e está a falhar nessa sua função.
Eu tenho que ver o que se passa comigo, porque eu também sofro dessa fome acelerada e não estou grávida. Mas Mariana, quando falamos nessa falta de glicose, o que é que está a acontecer efetivamente no organismo?
A glicose começa a falhar e o corpo da mãe começa a fazer o quê? O da mãe, e nós também acabamos por fazer isto quando não temos hidrato de carbono disponível e glicose disponível. Passamos a quebrar a gordura e a produzir cetonas ou corpos cetônicos, que funcionam como combustível alternativo no nosso corpo.
À comida.
Sim, alternativa à glicose. Portanto, o nosso corpo vai utilizar como fonte de energia ou a glicose ou os corpos cetônicos. O problema é que essas cetonas atravessam livremente a placenta e chegam à circulação fetal. E o cérebro do bebê até consegue usá-las, mas os níveis elevados de cetonas maternas têm sido associados a efeitos negativos no desenvolvimento neurológico do bebê. Portanto, não é opção, de todo.
Não é apenas uma questão de desconforto ou fome da mãe.
Sim, não é, de todo. Exatamente. Vai muito além disso. Investigação mostra que saltar o pequeno-almoço durante a gravidez está associado a maior risco de muitas coisas, entre elas diabetes gestacional também, pré-eclâmpsia e hipertensão. Também se associa a menor peso do bebê a nascer. É mesmo complexo. Há evidências também a sugerir que o jejum intermitente na gravidez pode ter impacto na saúde dos filhos a longo prazo, no crescimento, no desenvolvimento cognitivo. Portanto, não estamos a falar nada de uma moda alimentar, não tem nada a ver com a resistência que a mãe tinha antes, com estar adaptada, com sentir-se bem. É um momento que realmente deve alimentar-se bem e mais vezes ao dia.
Mesmo mulheres que já estejam habituadas e que dizem: "Mas eu sempre me senti muito bem a fazer jejum na gravidez", isto deixa de contar.
Deixa de ser o principal critério. A mulher pode sentir-se muito bem com o jejum fora da gravidez. E nós até já falámos várias vezes sobre este tema do jejum. Jejum 12 horas, temos um programa que se chama "Jejum Intermitente", claro. Outro que se chama "Três Dúvidas sobre o Jejum Intermitente", ou "Deveríamos Todos Experimentar Fazer Jejum?", é outro dos programas.
Há para todos os gostos.
Claro, mas na gravidez, não. Contexto completamente diferente, necessidades energéticas e hormonais diferentes. Portanto, aquilo que funcionava antes, deixa de funcionar agora.
E então até aquele teto das 12 horas pode ser um bocado dúbio. Existe algum número de horas de jejum recomendado para uma mulher grávida?
Sim, não existe um objetivo recomendado de número de horas, mas o mais importante é fazer refeições regulares e frequentes ao longo do dia, incluindo pequenos lanches entre as refeições principais, e sabemos que deve respeitar o jejum do sono. E por isso fala-se em mais ou menos oito a 10 horas, no limite, às 12 horas.
Se conseguir dormir 12 horas, já é muito bom.
Extraordinário. Mas isso não é uma meta de jejum, é apenas o intervalo normal da noite, dentro de uma rotina alimentar saudável e estável.
Na prática, no que é que isto se traduz? O que é que uma grávida deve fazer em concreto?
A prioridade é manter uma rotina alimentar. Tem alguns requisitos, tem que ter alimentos ricos em cálcio, por exemplo, em determinada quantidade, dependendo do trimestre em que está. Não pode passar demasiadas horas sem comer, nem sem beber. A hidratação é fundamental no período da gravidez. Dar aqui um objetivo, por exemplo, de três litros, seria espetacular. Estamos a falar em pequeno-almoço, meio da manhã, almoço, lanche, jantar, portanto, pequenos snacks, que vão ajudar a manter a glicemia estável e que são uma estratégia segura e importante, como perceberam agora. Porque há umas necessidades mesmo, a dita fome súbita, mas é mesmo realidade de necessidade. Não se pode estar longos períodos na gravidez sem ter fonte de energia. Portanto, ter os snacks, os frutos secos, os iogurtes, as frutas são sempre boa ideia. E a mensagem, Maria, é tempo para tudo. Gravidez não é altura para estas excentricidades.
Está esclarecida a questão da nossa ouvinte Leonor. Se anda às voltas com a alimentação ou precisa de uma orientação mais clara, fale conosco. O e-mail é simples: marianachaves@observador.pt. Mariana, da nossa parte é tudo. Vamos aproveitar a nossa sexta-feira?
Vamos a isso.
Bom fim de semana, voltamos na terça-feira com mais um "Aprender a Comer". Até lá, Mariana.
Bom fim de semana, Maria. Até lá.