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O que nos dizem as histórias de Job e Jonas sobre o sofrimento e a justiça divina? Este é o sétimo episódio da segunda temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.

Esta semana falamos não de uma, mas de duas personagens da Bíblia. Apesar de serem duas histórias diferentes, contadas em dois livros diferentes, elas têm algo em comum. Ambas funcionam como parábolas sobre a justiça de Deus e o sofrimento humano. Falamos de Job, o homem justo que perdeu tudo, que aguentou todas as provações até se revoltar contra Deus, e de Jonas, o profeta que fugiu de uma missão divina, passou três dias na barriga de um peixe gigante e que também se revoltou contra Deus quando este não quis exterminar os inimigos de Israel. Vamos tentar perceber como é que estas duas vidas se cruzam. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, antes de irmos ao tema do nosso episódio, quero lembrar aos nossos ouvintes que nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Temos recebido muitas perguntas, muitas sugestões. Obrigado a todos os ouvintes que nos seguem todas as semanas, aos domingos e, ao longo das últimas semanas, também às quintas-feiras. Já sabem que agora encontramo-nos aqui duas vezes por semana, além deste episódio semanal, que sai sempre aos domingos e passa na Rádio Observador depois do noticiário das 9h00 e fica sempre em podcast. Temos também um episódio extra todas as semanas, às quintas-feiras, em que em 10 minutos temos tentado responder a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. É um episódio que fica apenas em podcast, não passa na rádio. Portanto, se quer garantir que nada lhe escapa e que apanha sempre todos os episódios que vão saindo nas plataformas, é uma questão de clicar em "seguir o programa" para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. E na próxima quinta-feira vamos tentar responder a uma pergunta complicada: o que é que nos conta a Bíblia sobre o Diabo? Enfim, de que maneira é que este tema tem sido difícil de lidar para os cristãos? Não sei qual de vocês é que se vai querer voluntariar para responder a esta pergunta.

Seremos sacrificados.

Os nossos ouvintes vão poder ouvir a resposta na próxima quinta-feira. Esta semana temos em cima da mesa, como eu dizia na abertura, duas personagens bíblicas para conhecer: o famoso Job e o profeta Jonas, famosíssimo também por ter passado três dias na barriga de uma baleia. Quer dizer, toda a gente acha que é uma baleia, mas na Bíblia, na verdade, não se diz que é uma baleia. Já lá vamos. Mas antes de tentarmos perceber o que é que estas duas figuras têm em comum, se calhar tentamos conhecer cada um deles. João, queres ajudar-nos a perceber um bocadinho quem era Job? Quer dizer, a história dele surge relatada num livro que tem o seu próprio nome, o Livro de Job. É o primeiro dos chamados livros sapienciais. É um longo livro, praticamente todo escrito em poesia e tem uma característica interessante, que é: parece que não tem tempo nem espaço. Parece que não sabemos exatamente onde é que aquilo se passa ou quando é que aquilo se passa. Consegues resumir-nos mais ou menos a história desta figura?

Realmente, o Livro de Job é o primeiro dos sapienciais, são uma secção de livros da Bíblia, que são livros poéticos, muito ligados a um conjunto de sabedoria, que não é um conto histórico, não é propriamente uma epopeia, não são profecias, é um outro tipo de estilo literário. Há muitos comentadores que falam disto como uma espécie de cume e pináculo da literatura universal. E Job parece ser todos os seres humanos ao mesmo tempo, num espaço que é todos os espaços e todo o tempo. Job é apresentado logo ao início como um homem íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. É isso que o caracteriza. Não são propriamente características temporais, apesar de as características espaciais de Job, o lugar onde ele vive, mostrarem que ele nem está a habitar claramente no centro do poder e no centro das decisões e do establishment da época. Job parece ser, e isto é muito claro, uma espécie de Noé e de Abraão, no sentido da sua retidão. É um homem íntegro e isto é fundamental, porque é um homem íntegro, que se afasta do mal, que tem uma vida feliz. É um ser humano que tem uma vida cumulada de bens e é isso que permite que Satã, o demónio, diga a Deus que Job só é um homem íntegro unicamente porque é um homem que tem muitos benefícios.

Tudo lhe corre bem, basicamente.

Tudo lhe corre bem e por isso é um homem íntegro, porque no dia em que deixar de ser um homem de tudo lhe correr bem, ele vai deixar de ser um homem íntegro e vai amaldiçoar Deus. E Deus permite que isso aconteça, ou seja, vão acontecer a Job um conjunto de circunstâncias que lhe vão retirar todos os benefícios, desde os bois, aos restantes animais, à sua casa, até aos próprios filhos. Vai ficar com a vida toda despedaçada. E se isso não chegasse, o demónio vai de novo até Deus e dizer do gênero: "Pois, mas isto foi às coisas exteriores, mas no dia em que ele ficar doente E ele realmente não te vai abençoar. Vai te amaldiçoar, vai deixar de ser íntegro. E é isso que acontece a Jó. Já não bastava o que lhe aconteceu, ele fica doente, não maldiz a Deus, mas a paciência de Jó também, nós dizemos na expressão portuguesa: "Jó é um homem muito paciente, tens que ter a paciência de Jó".

Começas a esgotar-te a paciência.

A paciência de Jó também tem os seus limites, ou seja, Jó amaldiçoa o dia do seu nascimento. Aliás, Camões vai pegar na sua poesia, em Jó, para ele próprio se retratar como uma espécie de Jó recente. E é aí que surgem três amigos que tentam explicar a Jó o seu sofrimento, a partir da ideia de que se ele sofre é porque pecou e, portanto, ele está a ser devidamente castigado. Mas Jó recusa isso, ou seja, ele é e sempre foi um homem íntegro e é no falhanço destas três explicações, que Deus surge e sem explicar a Jó aquilo que está a acontecer, tenta lhe dar uma outra perspectiva, numa espécie de viagem pelo universo, pelo cosmos, e no final tudo termina bem com Jó ter quase a vida duplicada, com os seus bens também duplicados.

Então nós já vamos ao desfecho da história, mas antes, Daniel, há um aspecto curioso. Logo no início do texto, o João mencionou esse momento em que o Diabo aparece junto de Deus e quase parece fazer ali uma aposta com ele. Diz assim: "Eu aposto que Jó se perder tudo o que tem, se perder o gado, se perder a família, se perder a riqueza, deixa de ser assim um homem tão temente a Deus". Isto, de acordo com o texto, acontece numa espécie de concílio dos deuses, à falta de melhor expressão, está ali uma espécie de reunião divina em que o Diabo conversa com Deus para fazer esta aposta com ele. Isto de alguma maneira são reminiscências ainda de algum tipo de religiosidade antiga, politeísta, que ainda olhava para o céu como habitado por uma série de seres divinos com um deus principal à cabeça?

Em parte, sim, mas a tua escolha de palavras é interessante, porque falaste de Diabo, de demónio, de concílio de deuses, e o texto não nos diz bem isso. O nome utilizado é Satan, que não é exatamente uma questão de um demónio, é mais um acusador, e não é bem um concílio de deuses, mas é uma espécie de corte celestial, que é algo que é um bocadinho diferente do monoteísmo puro, que acabará por se impor, mas também não é exatamente um politeísmo. Há um deus e depois há uma espécie de figuras angélicas, à falta de melhor palavra, que são uma espécie de conselheiros ou figuras secundárias. E isto está presente em certas camadas por todo o Antigo Testamento. Portanto, é uma concepção que depois vai sendo purificada, mas que ainda encontramos aqui em alguns salmos e noutros textos. E isso nota-se nesta moldura externa do texto, como o João já nos disse. No fundo, há dois estilos aqui presentes. O livro é, sobretudo, poesia, neste diálogo e discursos de Jó e dos seus amigos, mas há um enquadramento, uma moldura, ou seja, os primeiros capítulos e o último, que são em narrativa, que são provavelmente uma espécie de história mais folclórica, devedora também de outras culturas do antigo Próximo Oriente, neste género sapiencial, que será talvez a parte mais antiga, que termina com um happy ending, com um final feliz. E, portanto, Jó passa a prova e é recompensado. E é a parte poética que vai problematizar toda esta questão. De facto, há culpa ou não de Jó? Há aqui um certo debate polémico com o tipo de literatura que temos estado a ver noutros programas, nesta tal história deuteronomista, esta conceção deuteronomista, que está muito clara, por exemplo, em Josué, nos Juízes, em que há um mal feito, Deus castiga, o homem arrepende-se e Deus reconcilia. E este esquema simplista que vai levar a que se veja o mal sempre como um castigo de algum pecado feito, que é algo que ainda está presente no Novo Testamento, por exemplo, Jesus também ataca um bocadinho essa questão. Este cego de nascença é cego por quê? Porque ele ou alguém da sua família pecou. Portanto, o mal físico visto como um castigo de algum mal.

De retribuição.

De retribuição. Portanto, isso é muito deuteronomista, de certa forma. Jó já coloca isso em causa. Se até Jó, que não fez mal, os amigos vão dizendo: "Então, mas isto é certamente o castigo de algum mal que tu fizeste". E vamos vendo que a coisa é mais complicada. Não há mal para os malvados e bem, bênção para os bondosos. A vida é muito mais complexa.

Só uma pergunta rápida que eu faço em quase todos os episódios para uma resposta sempre muito difícil. Desculpa pôr-te nesta posição, Daniel, mas o que é que conseguimos saber, mais ou menos, sobre quando é que este texto foi escrito, qual o tipo de circunstância em que pode ter sido escrito? Porque uma coisa que li muito sobre o livro de Jó é que é muito difícil de penetrar aqui nesta dinâmica.

De certa forma, acho que dou quase sempre a mesma resposta. É difícil dizer, colocar um autor.

Há grandes dificuldades, até no campo lexical. Há aqui imensas palavras que, no hebraico, só aparecem aqui, não se sabe muito bem o que querem dizer. Ainda assim, é no período persa que geralmente colocam este texto, pelo uso de certas palavras mais tardias. Portanto, não será dos textos mais antigos, será um texto pós-exílico, ainda que parece mais lógico considerar, e parece-me que será essa a opinião majoritária, esta tal moldura externa, esta tal narrativa base de Jó ser mais antiga e depois estes textos poéticos serem posteriores, pós-exílicos.

João, a larga maioria do livro de Jó, talvez 90 e tal% do livro, é esta longa conversa entre Jó e os três amigos, que dizias há pouco. Uma conversa poética. Não sei se é um diálogo ou se é uma sequência de monólogos, na verdade, porque cada um vai falando.

Sim, não há propriamente aqui um diálogo.

Mas como dizias há pouco, a discussão é simples: Jó está revoltado porque considera que é justo, não percebe porque foi punido por Deus e os amigos dizem basicamente: "Alguma coisa hás de ter feito pra isso estar a acontecer". E há pouco interrompi-te quando ias justamente para o desfecho da história. Isto vai acabar com o tal encontro entre Deus e Jó. Como este dilema se resolve, no fim?

Se calhar, é preciso também precisar que estes três amigos não são três vilões da história. Eles são bons amigos, eles atravessam o deserto para estar com o amigo e antes de começarem a falar, porque às vezes há esta ideia também de que estão ali para dar lições de moral, eles antes de começarem a falar, estão sete dias, sete noites em silêncio com o amigo.

A consolá-lo.

A consolá-lo. E eles, na verdade, o que dizem é aquilo que é a teologia ortodoxa da época, como o Daniel bem explicou, a teologia deuteronomista. Portanto, não são aqui propriamente vilões. E aquilo que eles dizem é que Deus recompensa os justos e castiga os ímpios, que é algo que ainda hoje nós temos presente no nosso dia a dia. Ou seja, se aquela pessoa teve sucesso na vida, ou é porque é muito justa, ou é porque corrompeu alguém. Quem é ímpio, ou é porque teve azar ou porque pecou muito. Por exemplo, existiu o Covid, era um castigo de Deus. O mal nunca é um absurdo. E o livro de Jó quer mostrar que o mal também tem uma dimensão de absurdo e talvez essa seja uma ideia do desfecho, porque mostra a Deus a criação e mostra, por um lado, que a criação e o mundo escapam às categorias humanas, mas também ao levá-lo pela viagem da criação, Deus parece que recentra Jó. Jó que vive centrado naquele problema, centrado em si próprio, e desloca-o de novo para o cosmos mais abrangente. E creio que é este o desfecho, que não é uma resposta. Às vezes nós temos uma resposta muito imediata pra quem sofre. Se calhar, até é uma aplicação prática da Bíblia ao dia a dia. Uma pessoa sofre, nós temos palavras: "Tens que aguentar, tens que ter força. Deus só te dá isto porque sabe que tu consegues lidar com isto. Deus só dá pesos a quem os consegue suportar". E o livro de Jó contraria claramente esta narrativa.

Muito bem, nós já voltamos pra segunda parte de "As Histórias da Bíblia" e vamos conhecer então a história da outra personagem deste episódio, Jonas. E além disso, vamos tentar perceber como é que estes dois homens se cruzam, o que estas duas vidas têm em comum. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana falamos de Jó e Jonas, duas personagens diferentes da Bíblia, mas que têm alguns pontos em comum. Na primeira parte, conhecemos a história de Jó. Agora vamos, Daniel, conhecer um bocadinho melhor a história de Jonas. É uma personagem que surge mais à frente na Bíblia, no livro de Jonas, que faz parte do grupo dos profetas menores e é basicamente, vamos admiti-lo, conhecido por ser o homem que passou três dias dentro de um peixe gigante no mar. Consegues contar-nos a história deste profeta, desta personagem?

Sim, então os nossos ouvintes estarão provavelmente a estranhar porque escolhemos personagens tão diferentes, porque Jonas aparentemente não tem nada a ver com Jó. É muito diferente. Estamos nos livros dos profetas, nestes chamados profetas menores, menores porque são livros mais pequenos. Mesmo dentro deste grupo texto é muito diferente, porque também aqui estamos um bocadinho fora da história. Não são propriamente personagens históricos. Jonas é alguém que recebe logo uma missão de ir a Nínive, é enviado por Deus a Nínive para ir anunciar a destruição, caso não se convertam. Nínive é para leste.

No Iraque, basicamente, onde seria hoje o Iraque.

Exatamente, é ir pra essa direção do Iraque. O que Jonas faz é apanhar um barco pra ir pra Espanha. Ou seja, vai na direção contrária. O texto sublinha-nos esta grande hesitação. Jonas parece que não quer ser um profeta. Jonas é um profeta que quer fugir da sua missão e, portanto, vai para esta Társis, que não se sabe exatamente onde seja, mas é para estes lados. Pode ser a Sardenha, pode ser a costa de Espanha. E vai na direção completamente oposta. O livro também é curto, também é uma grande diferença. Jó é um livro longo, este é um livro curto, que se lê rapidamente, lê-se num instante. Mas Jonas tenta fugir, apanha um barco, há uma tempestade, depois descobrem que é por Jonas estar ali no barco

Lançado fora, é engolido por um peixe gigante, diz o texto bíblico.

A tempestade será também uma-

A tempestade é uma espécie de-

Castigos de Deus

...castigo de Deus. Acaba por o peixe vomitá-lo, este peixe gigante. O texto hebraico diz peixe, a tradução grega depois diz ketos, que é um cetáceo, portanto, uma baleia. É como a baleia do Pinóquio. O Carlo Collodi terá se inspirado aqui nesta história.

Ou Moby Dick também.

Sim. E acaba por, contra a vontade, ter que ir profetizar a Nínive. Nínive é uma grande cidade.

Esse peixe é visto como uma espécie de Deus a contrariar essa fuga. Pega nele e volta a pô-lo no sítio onde ele tinha ido.

O texto vai nos dizendo que Jonas não quer, mas vai ter de cumprir esta sua missão. E vai a Nínive, que demora três dias a atravessar. Esta é a hipérbole do tamanho da cidade. E o que Jonas faz, mais uma vez, faz as coisas um bocadinho ao contrário. Não anda três dias, anda só um dia e não anuncia a possibilidade de conversão, mas diz só: "Vocês vão morrer todos, vão ser todos destruídos". Nem sequer é bom porta-voz dessa sua mensagem, nem sequer é bom profeta.

Não diz: "Arrependam-se, senão serão destruídos", diz só: "Serão destruídos".

Exatamente. Só que inverosimilmente, estranhamente, é eficaz a sua palavra e aquela gente toda, vemos aqui também este caráter maravilhoso do relato, toda a gente, desde o rei ao mais humilde servo, aos animais, toda a gente se converte, faz penitência. Era exatamente isso, como depois percebemos no texto, que Jonas não queria. Essa gente arrepende-se e Deus, misericordioso, perdoa-lhes e não destrói a cidade. Jonas fica, passa a expressão, faz birra, faz o baixinho e senta-se sobre um monte a observar aquilo tudo, zangado com Deus, porque Deus, afinal, não destruiu aquela gente que Jonas detestaria, odiaria. E entretanto, cresce ali uma planta. Nas nossas traduções aparece, penso que geralmente um rícino ou outra planta qualquer. A palavra hebraica "kikaion" não se sabe muito bem o que é. Também há de ser uma planta misteriosa, que depois murcha. E Jonas fica muito triste e, no fundo, o livro termina dizendo: "Então, mas tu estás triste com esta planta que nasce de um dia pra outro e depois morre, e assim tão efémera, e eu, Deus, não haveria de me compadecer destes meus filhos que não sabem distinguir a direita da esquerda?" No fundo, o texto destaca a misericórdia de Deus, que está aí sempre como possibilidade, está aí sempre como um caminho válido.

Muito bem, João, aqui um aspecto importante deste texto, que parece que voltará a aparecer na Bíblia mais à frente, são estes três dias que Jonas passa dentro da barriga da baleia antes de ser vomitado. Isto é uma referência que depois vai ser importante para o Novo Testamento.

Sim, no Novo Testamento, em Mateus, a ideia do sinal de Jonas. É verdade que o sinal de Jonas muitas vezes é visto como: Jonas passou três dias e três noites no ventre do cetáceo, da baleia, do grande peixe, e Jesus também está três dias e três noites enterrado no ventre da terra, no abismo, antes de ressuscitar. Mas o sinal de Jonas também tem outra dimensão, que é, como o Daniel referiu, os ninivitas arrependeram-se. E Jesus prega uma mensagem de conversão e os seus não se arrependem. O sinal de Jonas não é só os três dias e as três noites, é também esta dimensão da pregação, da recusa do estrangeiro. Jonas é alguém de fora e nós, que somos os locais, não recebemos a mensagem de um local, Jesus, neste caso.

Agora que já conhecemos estas duas histórias, mais ou menos por alto, vamos tentar perceber o que elas têm em comum. Daniel, quando estávamos a preparar este podcast, falamos de que fazia sentido dedicar um episódio a estes dois homens em simultâneo, porque ambos funcionavam, de certa maneira, como uma espécie de parábola sobre a justiça de Deus e o sofrimento humano. O que estas duas histórias partilham, afinal?

Bem, ambas mereceriam, certamente, um episódio ou dois episódios, ou um destaque melhor.

Uma temporada.

Certo. Mas sendo tão diferentes, como já vimos, são duas coisas muito distintas, dois livros muito distintos, quer no tamanho, quer no gênero literário, quer na função dos personagens. Ainda assim, ambas as histórias nos mostram este para lá do conhecimento humano, este caráter incognoscível, insuperável deste Deus que está para lá do que é a mera justiça humana, quer numa lógica de retribuição, como já falamos acerca de Jó. Fizeste mal, vais ser um desgraçado, fizeste bem, vais ser um abençoado. Jó problematiza isso. E a resposta, no fundo, de Deus é dizer: "O que é que és tu no grande panorama do universo? Onde é que tu estavas quando eu fundei os alicerces da Terra? Onde é que tu estavas quando aconteceu o Big Bang?" Poderíamos dizer. O que sabes tu, grãozinho de areia que és, num universo quase infinito?

O que sabes para pôr em causa isto?

Que capacidade é que tens tu de decidir do bem e do mal? Isso até é um episódio no "Senhor dos Anéis", na Irmandade do Anel, em que o Gandalf diz, de certa forma, isto ao Frodo. Não conseguimos ver, mesmo os mais sábios não conseguem ver todas as pontas. Se calhar há aqui um esquema maior que ainda não compreendemos. Do ponto de vista de Jonas, não sendo tão profunda e complexa a questão, parece-me muito bela esta ideia de que também a justiça de Deus é algo que, por um lado, se revela na misericórdia, que revela para com os ninivitas, e que é algo que é divino e não é humano. O Jonas estaria à espera de um castigo que Deus lhe tinha prometido, de uma retribuição. Esta ideia da retribuição: os ninivitas são malvados, portanto, devem ser castigados. Mas vemos aqui que Deus estranhamente valoriza mais este arrependimento dos malvados e permite-lhes abrir uma nova porta, uma nova oportunidade.

São duas histórias, na verdade, como se fossem dois lados da mesma moeda. Por um lado, nós temos Jó, que é o quase o ninivita da história de Jonas. Alguém que sofre e que se poderia dizer: "Se sofre é porque é pecador". Depois, em Jonas, nós temos, ao outro lado, pessoas que veem alguém sofrer, ou que é malvado, ou que não tem uma postura ética, e que podem dizer: "Pá, esteira a rebentar com eles todos, exterminá-los de cima a baixo, terraplanar esta gente, porque realmente não há remédio nenhum". E Deus não terraplana, não quer terraplanar aquela malta.

E ambos os casos são temas que são, para os cristãos, importantes na medida em que na própria vida de Jesus são trabalhados. Já referi um bocadinho, que Jesus entra em polêmica contra aqueles que veem apenas o mal moral refletindo-se no mal físico, mas também esta ideia de misericórdia de um Deus que vai se revelar e vai preferir os pecadores e os publicanos, e não os fariseus, que também de alguma forma isso já é anunciado em Jonas. Portanto, são dois livros que, de certa forma, abrem portas interessantes para leitores do Novo Testamento, mas também são duas histórias que são parcialmente corrompidas na percepção.

Que a temos.

Que a temos no Novo Testamento e até cultural. A paciência de Jó. O que se destaca em Jó não é a paciência, é uma outra coisa.

Aí refere-se, sobretudo, à paciência para aguentar as provações do início.

É, mas é uma dimensão um bocadinho secundária de toda esta polêmica de teodiceia.

Até porque Jó revolta-se.

Porque Jó, de facto, revolta-se. Aliás, isso até é devedor de alguns escritos apócrifos antes da época do Novo Testamento e, portanto, isso depois é mencionado num dos livros do Novo Testamento, com a paciência de Jó. Mas não é de todo esse o aspecto fundamental, assim como o aspecto do peixe. Esta dimensão do peixe é também um fait divers destas aventuras rocambolescas de Jonas.

Nesta história de Jonas, estavas a tocar um pouco nesse assunto agora, a atitude dele parece revelar, de certa maneira, um nacionalismo judaico, que já mencionamos noutros episódios aqui antes. Ele queria mesmo que os assírios fossem exterminados. O texto, tal como, por exemplo, quando falámos da questão dos estrangeiros no livro de Rute, este texto também pretende, de certa maneira, condenar uma atitude nacionalista judaica e dizer: "Toda a gente, no limite, tem lugar na salvação prometida por Deus e não apenas o povo escolhido"?

Sim, Rute e Jonas estão do mesmo lado da barricada nesta luta contra o nacionalismo mais exacerbado, que também tem lugar na Bíblia. Acho muito interessante vermos que a Bíblia não é uma espécie de escrito trabalhado ideologicamente para alinhar tudo na mesma direção. Encontramos também esta reconstituição de um povo no pós-exílio, com laivos mais nacionalistas, mais até diríamos xenófobos, em que se acentua a identidade do povo e a importância de guerrear contra os inimigos. Nos Livros dos Macabeus, por exemplo, isso é claríssimo. Mas também encontramos estas pérolas, como são o livro de Rute, que já vimos noutro episódio, como é este livro de Jonas, em que vemos uma outra abertura mais universalista da fé bíblica.

A própria inclusão desses livros no cânon judaico também procura sublinhar isto. João, um aspecto que também me parece ser comum a estas duas personagens, temos vindo a falar disto, é a questão da revolta contra Deus. Tanto Jó revolta-se por não perceber de onde é que vem o seu sofrimento. Jonas revolta-se porque acha que Deus não faz o que devia fazer, que era exterminar os assírios. Mas essa revolta parece sempre servir de mote para uma revelação final da grandeza de Deus. Ou seja, em ambos os casos, parece haver aqui um dispositivo literário destinado justamente a isto. Ou seja, há uma revolta, uma incompreensão por parte do protagonista, para no fim Deus dizer: "Ok, mas tu não sabes tudo sobre o tudo, tu não sabes tudo sobre o plano divino, não sabes tudo sobre as grandes dinâmicas da vida". Há aqui também um paralelo do ponto de vista até literário.

Aqui, claramente, as narrativas ambas têm uma estrutura literária até semelhante, muito embora as complexidades, como já vimos, são diferentes e, se calhar, possivelmente, este livro procura colocar o leitor a refletir em várias camadas. Nós temos aqui, talvez em primeiro lugar, as personagens que são às vezes uma espécie de procurador do leitor Aquelas perguntas que nós não conseguimos materializar, que sentimos, mas que às vezes não conseguimos verbalizar, os personagens dizem, verbalizam. Depois, há uma demora contínua na resposta. Parece que o leitor é obrigado a habitar este silêncio, esta inquietação, até alguma ansiedade e impaciência por ter uma resposta. O livro de Jó tem 42 capítulos, estamos ali: "Mas como é que isto vai acontecer? O que é que vai acontecer?"

A dada altura, há partes que nem se percebe exatamente.

Nem se percebe o que está a acontecer, o que eles estão a dizer, que parece, às vezes, não quero usar essa expressão para um livro da Bíblia, palavras colocadas ao calhas, mas quem está a ler custa a ler, porque nós não percebemos claramente o que está a acontecer. Parece aqueles livros do Faulkner que a certa altura nós não percebemos quem está a falar, o que está a acontecer à volta, etc. E depois, no final, Deus responde com uma não resposta e talvez a ideia seja: Deus não é um objeto que nós possamos possuir, conhecer e nos relacionar da mesma maneira que nós nos relacionamos aqui no estúdio com estas canecas. Há aqui algo até de kafkiano no livro. A ideia de que nós estamos, como Kafka, no processo, à porta da lei, o Joseph K. no processo, à porta da lei, e a porta da lei nunca abre. No castelo, o agrimensor chega à zona do castelo, nem o castelo quase vê e nunca consegue ser recebido pelo castelão, pelo proprietário. Há esta dimensão, claramente, de distância, de abismo, que levará até uma pessoa que já falamos aqui, o Kierkegaard, a estabelecer esta ideia do salto da fé que é preciso dar a partir destas narrativas de resposta e não resposta.

Por a história acabar, na verdade, o leitor está o tempo todo à procura de uma resolução e o desfecho nunca chega.

É como nos livros do Kafka, ou seja, nós recebemos um convite para ir ao castelo e o castelo não diz nada, parece que nunca nos convidou, ou acordamos de manhã e fomos transformados num enorme inseto, ou acordamos e alguém nos deve ter caluniado, mas não fizemos mal nenhum.

Daniel, ambas estas histórias incluem, a dada altura, uma espécie de conversa direta entre Deus e o protagonista, ou de encontro, enfim, uma dinâmica talvez difícil de compreender em termos contemporâneos, mas em ambos esses contextos, Deus acaba por lhes fazer mais ou menos a mesma pergunta. De certa maneira: "Achas bem estares assim irritado comigo, estares assim irritado contra mim quando não sabes tudo o que se passa aqui?" Há aqui também uma intenção moral nestes textos?

Sim, claramente. São textos pedagógicos nesse sentido, não apenas de uma história com uma lição de moral, porque acho que é muito mais profundo do que isso. O livro de Jonas até termina com uma pergunta, e acho que essa é uma chave de leitura interessante pra estes textos, é perceber que são textos escritos não para nos transportar para um passado que investigamos e procuramos conhecer, do que este povo fez, como é que ele se estabeleceu numa terra, etc, mas para problematizar a condição humana. Nesse sentido, têm ambos uma grande riqueza e são muito atuais, transportando-nos para um passado que nunca existiu. Enfim, não se trata de relatos históricos ou escritos com um grande sentido de verossimilhança. Mesmo estas terras de onde vem Job não sabemos colocá-las no mapa. Também aqui o próprio Jonas, enfim, há aqui uma Assíria que nunca existiu exatamente desta forma. Mas acho que se nos atrevermos a estudar e a perceber estes temas, como o João bem nos explicava, tem muito a ver com a condição humana, com os dilemas que nós temos, com os problemas que nós temos, com este: "Onde é que está Deus?", que é uma pergunta da humanidade de sempre e não apenas no passado. Portanto, acho que são dois bons exemplos no que tem aqui de maravilhoso, até nesta dramatização de um diálogo com Deus, diálogo que diz muito respeito à condição.

Eu acho que nós muitas vezes somos acusados, até da parte católica, de termos um Deus infantil. E os livros de Jó e de Jonas ajudam a tornar Deus menos infantil, fazer Deus algo até real. Alguém que está fora de uma espécie de linguagem que parece fazer Deus uma peça de museu ou um brinquedo que eu manipulo porque sou bom, porque sou mau e que por isso me permite até: "Olha, eu sou bom e, portanto, mereço e, portanto, vamos castigar estas pessoas, porque realmente são uns pagãos".

Deus não é manipulável.

Sim.

Duas coisas, uma coisa que estes dois livros dizem claramente.

Muito bem, chegamos ao fim do sétimo episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia". Na próxima semana vamos entrar no Novo Testamento, vamos falar de João Batista, o profeta do deserto que batizou Jesus. Desta vez conhecemos duas personagens de uma só vez, Job e Jonas, estas duas figuras que de certa maneira nos trazem uma parábola sobre a justiça de Deus e o sofrimento humano. Já sabem, os nossos ouvintes podem continuar a enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para o nosso mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós procuramos responder às perguntas. Não conseguiremos responder a todas, mas pelo menos vamos tentar responder a muitas delas todas as quintas-feiras num episódio especial que fica apenas em podcast e, portanto, não se esqueça de clicar em seguir o nosso podcast nas plataformas que usa habitualmente para ouvir estes programas, para lhe chegar uma notificação sempre que sair um novo episódio. Até pra semana aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.