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O Jesus histórico é o mesmo Jesus da Bíblia? Este é o décimo episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que ciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa. Eu sou o João Bastos, padre e colunista do Observador.

Esta semana temos um episódio desafiante. Vamos falar de Jesus, o grande protagonista do Novo Testamento e uma figura que, para crentes e não crentes, mudou a história da humanidade. De tal forma que passamos a contar o tempo a partir do seu nascimento. Jesus apareceu na história há cerca de 2000 anos, num território que ao longo dos séculos tinha sido dominado por múltiplos impérios: os babilónios, os persas, os gregos, e que na altura em que Jesus nasceu estava ocupado pelo Império Romano, que ditava as leis civis, enquanto as duras leis religiosas eram ditadas pela hierarquia judaica. Foi nesse contexto que Jesus apareceu como agitador, subvertendo a lógica do pensamento religioso judaico, pregando o amor aos inimigos e reunindo uma multidão de seguidores. A atitude subversiva e blasfema para os judeus valeu-lhe a pena de morte. A partir daí, deu-se um movimento imparável. Os seguidores de Jesus, acreditando que ele ressuscitou três dias depois de morrer crucificado, fundaram uma comunidade religiosa primitiva. Após três séculos de clandestinidade, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano. Hoje em dia, um terço da população mundial é cristã. Afinal, quem foi este homem que deu origem à maior religião da história da humanidade? Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, antes de irmos para o tema deste episódio, vou ser rápido, porque vamos ter um episódio em grande, quero apenas lembrar que os nossos ouvintes nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós respondemos a estas perguntas e a estes comentários todas as semanas num episódio extra, que sai às quintas-feiras, dura cerca de 10 minutos e fica apenas em podcast. Já sabe, pode enviar uma pergunta para ashistoriasdabiblia@observador.pt e vamos procurar responder-lhe nesse episódio, que fica apenas disponível em podcast. Portanto, não se esqueça de seguir o programa na aplicação que usa para nos ouvir, para ter uma notificação sempre que sair um novo episódio. Na próxima quinta-feira, vamos responder a uma pergunta sobre a parábola do filho pródigo, uma das mais famosas parábolas da Bíblia. Pode ouvir a resposta na próxima quinta-feira. E esta semana temos um episódio um pouco diferente dos outros. Vamos falar de Jesus, Jesus Cristo, mas na verdade, já tivemos vários episódios em que andámos à volta desta personagem. Por exemplo, na primeira temporada, tivemos um episódio sobre os quatro evangelhos, outro sobre as parábolas de Jesus, outro especificamente sobre a ressurreição de Jesus. Nesta segunda temporada, já falámos bastante de Jesus no episódio sobre João Batista e também no último episódio sobre Maria e José. A proposta neste episódio é tentarmos ir por outro caminho. Vamos em busca daquilo que podemos dizer sobre o Jesus histórico. Isto porque mesmo entre os não crentes, parece não haver grandes dúvidas que há 2000 anos, naquela região do Médio Oriente, viveu um homem importante chamado Jesus. Disto não há dúvidas, mesmo que haja dúvidas, como falámos no último episódio, sobre a dimensão transcendental ou misteriosa do seu nascimento e também da sua morte. Neste episódio, vamos tentar perceber o que sabemos sobre o Jesus histórico, o que conseguimos reconstituir sobre a vida dele, sobre a mensagem subversiva que pregou num contexto religioso e político bastante complexo, como reuniu seguidores e como fez inimigos, como acabou condenado à morte e como nos séculos seguintes, já num contexto religioso e eclesial, os cristãos reconstruíram a vida deste homem. João, vou começar por ti. Queres tentar começar por sintetizar o que sabemos sobre quem foi esta pessoa, este Jesus de Nazaré, que não há grandes dúvidas que existiu mesmo?

Partindo daquilo que foi o episódio anterior, sabemos onde é que ele viveu. Nasceu já é muito dúbio. Aliás, na primeira temporada dissemos que ele, com quase toda a certeza, terá nascido em Belém. Terá sido possivelmente trilíngue, portanto o aramaico seria a sua língua-mãe, teria um conhecimento também de hebraico e de grego. Agora, se calhar, o interessante é reformular a tua pergunta e fazer outra que é: como é que nós sabemos o que sabemos? Porque nós podemos dizer que realmente, a certo senso comum, que se diz que há series de factos e de vestígios sobre Jesus, o que é verdade. O que é verdade, não, o que é mentira, peço desculpa. O que há é muita profusão e nós precisamos, às vezes, de descobrir qual destes factos e qual destes vestígios são mais ou menos fiáveis. Mas vou dar aqui um exemplo. Por exemplo, o manuscrito mais antigo do Novo Testamento, o famoso P52, que eu creio que é do Evangelho de São João, data de cerca de 125 depois de Cristo, ou seja, está separado do original possivelmente três décadas, mais ou menos o intervalo, que é mais ou menos sem paralelo na história da antiguidade. Se nós pensarmos que o manuscrito mais completo de Homero é nove séculos posterior a esta figura de Homero, e se nós pensarmos que a poética de Aristóteles O manuscrito mais antigo que temos é 14 séculos posterior à redação da "Poética" por Aristóteles. Nós podemos concluir que sabemos muito mais de Jesus de Nazaré, desde o início da sua vida e ao longo da sua vida, de forma mais abundante do que sobre qualquer outra personagem da antiguidade, à exceção, possivelmente, de Alexandre, o Grande. Nós temos referências, mesmo que marginais, em textos romanos. Temos algumas referências também de fontes judaicas. Temos Flávio Josefo, diz que Jesus, em certa altura, foi acusado de feitiçaria e de ter desviado Israel. Portanto, nós percebemos claramente que Jesus existiu.

E que teve uma importância grande.

Teve uma importância, alguma coisa relacionada com a religião judaica e até com uma fama de curandeiro. Temos as fontes cristãs, mas se calhar até é interessante perceber como é que nós podemos daqui entender o que é verdade e o que é mentira. Já referimos no episódio anterior e em outros episódios, um historiador americano recente chamado John Paul Meier, que dá vários critérios e eu só vou enumerar três. Primeiro, a ideia de que existe uma atestação múltipla, ou seja, algo que é confirmado por duas fontes independentes. Imaginemos um evangelho e uma fonte judaica. O caso, por exemplo, da pregação do Reino de Deus. Outro critério, que é o critério do embaraço. Aquilo que cria dificuldades aos próprios discípulos e aos primeiros cristãos, tem alta probabilidade de ser histórico, se está relatado. Exemplo, o batismo de Jesus, que parece colocar Jesus numa posição subalterna em relação a João.

Não tinha nenhum interesse em contar isso, inventar isso.

Exatamente, não tinha o interesse, por exemplo, de dizer que Jesus não era casado. Isto na época era um quebra-cabeças para a figura messiânica como era Jesus. E depois, o próprio critério de originalidade. O facto de Jesus ter dito coisas que são totalmente disruptivas na época, como "deixai que os mortos sepultem os seus mortos", que era um atentado à moral religiosa da época, são claramente elementos fortes de veracidade e historicidade. Último ponto, nós temos que fazer um luto da biografia. Nós não sabemos o aspecto físico de Jesus, muitas vezes os seus sentimentos, o desenvolvimento psicológico que às vezes temos quando pegamos, por exemplo, na biografia do Churchill ou de George Washington. Nós isso não possuímos e nunca vamos possuir e é bom que comecemos a fazer um luto disso.

Temos que aceitar.

Temos que aceitar. É melhor aceitar, porque senão vai doer mais.

Daniel, o que os textos bíblicos, agora olhando especificamente para a Bíblia, nos dizem sobre o contexto histórico da época em que apareceu Jesus? Nós sabemos que a região politicamente era dominada pelos romanos. Sabemos também que havia uma hierarquia judaica que ditava as normas religiosas e, portanto, sabemos mais ou menos qual foi o contexto político-religioso em que esta personagem aparece.

Antes de responder, só complementar aqui o que o João dizia, que Jesus existiu, nenhum historiador sério duvida disso, mas não só que existiu, mas que existiu e teve um grande impacto. Ou seja, que Jesus foi alguém que marcou profundamente os seus discípulos e a sociedade onde estava, é algo indubitável. Depois, se o acontecimento X, Y ou Z pode remeter a Jesus, se ressuscitou, isso depois são outros assuntos, mas este impacto da figura de Jesus é algo claro e óbvio. Num contexto, como dizias, era romano, os romanos dominaram aquela zona a partir do primeiro século antes de Cristo, mas a situação política é complexa. Uma leitura dos evangelhos já nos permite perceber isso, também outras fontes judaicas da época. Há, de facto, uma ocupação romana, mas também há uma certa autonomia. Durante certo tempo há uma espécie de reis clientes, digamos, reis, umas testas de ferro, ou seja, reis que estão mancomunados com Roma, como é o caso de Herodes, o famoso Herodes, o Grande, este Herodes malvado, digamos assim, que nos aparece em todos os filmes sobre o nascimento de Jesus, que é de facto um homem que fez ali um acordo com os romanos, que inicialmente tinha apostado no cavalo errado, no Marco António, mas depois vira-se ali para o Octávio e assegura esse poder. Mas os filhos de Herodes já não conseguem ter esse poder. O país está dividido em regiões, na Judeia, na Galileia. Por exemplo, na Judeia, o Herodes Arquelau, que era o filho, acaba por ser deposto e quando chegamos à época de Jesus, como todos sabemos, já não é um herodiano que tem ali o poder, mas um procurador romano, que todos conhecemos, que é Pôncio Pilatos. Portanto, há aqui também um misto de autoridades civis/políticas e sociais, porque vemos aqui autoridades judaicas ligadas ao templo, ligadas às elites sacerdotais, os saduceus, e depois também fariseus, escribas, doutores da lei, portanto, uma multiplicidade de um judaísmo ali da época que complica a análise mais sociológica.

E Jesus começa justamente a dar nas vistas porque prega uma mensagem que subverte a lógica religiosa dos judeus.

Sim.

Esta ideia de amar os inimigos seria chocante pra mentalidade daquele tempo.

Sim, e a mensagem de Jesus não é nova, não é bem isto. Não é totalmente nova, ou seja, Jesus fala uma linguagem que é entendida, pega em temas que são relevantes. A questão do sábado, questões de puro e impuro, debates com fariseus, que são as elites intelectuais, os estudiosos do templo. Portanto, Jesus vai pegar nesses temas, mas vai aprofundá-los, subvertê-los, apresentá-los de outra forma. Esse amar os inimigos É um tema que de certa forma já está nas escrituras judaicas. O amar o próximo, sobretudo, é algo que já está nas escrituras judaicas e Jesus quando faz esse seu resumo, quando reduz a multiplicidade das leis judaicas a dois preceitos, amar a Deus e amar o próximo, vai fazer uma arrumação essencial daquilo que é a tradição judaica numa perspectiva nova. Nesse particular, o amar o próximo, no contexto classicamente hebraico, é o próximo, o irmão pertencente a Israel, do mesmo povo. Enquanto Jesus, através de parábolas, por exemplo, o bom samaritano, vai alargar e aprofundar essa ideia.

Vai mudar o conceito de próximo. João, rapidamente Jesus começa também a reunir uma multidão de seguidores, isso é um aspecto que aparece não só nos evangelhos, mas também nalgumas fontes extrabíblicas, e ao mesmo tempo a atrair inimigos, que vai acabar por ser condenado à morte. Quem é que seriam estas pessoas, os seguidores e os inimigos de Jesus?

Que Jesus era uma pessoa extremamente popular, isso não há dúvida, como já referiu o Daniel, e que isso, como disseste, gerou apoiantes e contestatários, é verdade. Sabemos que o grupo de apoiantes de Jesus é muito mais retalhado e plural do que propriamente aquela ideia de que haviam os discípulos. Ou seja, haveria ali um núcleo à volta dos 12, depois discípulos, uns mais permanentes, outros menos, e pessoas com quem Jesus se relacionava ocasionalmente, estava aqui a passar pelas povoações. A ideia de que existe ali um grupo monolítico de pessoas com uma mesma identidade também não é muito clara. Há ali vários tipos de pertença e de relação ao próprio Jesus.

Alguns que vão andando com ele, depois há umas multidões que o ouvem quando ele passa.

Exatamente, ou multidões que o seguem de vez em quando, depois deixam de seguir. Multidões no sentido de pessoas que seguem e deixam de seguir, etc. A parte dos contestatários, é preciso reafirmar aquilo que o Daniel disse. O judaísmo do tempo de Jesus é muito plural, pode-se até falar de judaísmos e não de judaísmo. E nós estamos aqui a falar das seguintes famílias: os escribas, que eram os catequistas do povo, que sabiam ler e aplicar a lei à vida quotidiana e são os primeiros a entrar em competição com Jesus. São uma espécie das chamadas jovens do judaísmo com quem Jesus começa por debater. Temos depois os fariseus, que eram os concorrentes naturais de Jesus, mas que precisam de ser um bocadinho retirados daquele papel de demônio que às vezes nós temos. Jesus diz que, se calhar, nós temos uma hostilidade aos fariseus. Jesus não, alguns historiadores dizem que nós temos uma hostilidade desnecessária aos fariseus, muito embora os fariseus tivessem um ramo mais extremo, que era os zelotas, ao qual Jesus até já foi inserido recentemente, no século XXI, por um famoso livro de "Jesus, o Zelota", um bocadinho desonesto intelectualmente. Temos os herodianos, que como o Daniel disse, pertenciam à volta do séquito de Herodes e que eram mais do que uma escola de pensamento, uma espécie de espiões políticos para denunciar qualquer rebelião contra o poder estabelecido. E os saduceus, que vão ser muito importantes no processo de Jesus, de morte, que representam, de certa maneira, a elite sacerdotal e a família dos sumos sacerdotes da época.

Muito bem, nós já vamos voltar pra segunda parte de "As Histórias da Bíblia" e vamos tentar perceber como é que a vida de Jesus foi contada e recontada ao longo de 2000 anos de história. É já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Esta semana estamos a falar sobre Jesus, o grande protagonista do Novo Testamento e uma figura que mudou a história da humanidade. Daniel, uma das principais fontes, ou talvez a principal fonte que temos ainda hoje sobre a vida de Jesus, são os famosos quatro evangelhos, estes textos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que surgem na Bíblia. Embora eles sejam a principal fonte de informação, eles também parecem ter algumas fragilidades, por exemplo, ignoram praticamente os primeiros 30 anos da vida de Jesus. Até têm algumas incoerências entre si, alguns episódios que não batem certo uns textos com os outros. Consegues ajudar-nos a perceber este gênero literário? Não estamos propriamente a falar de uma biografia no sentido contemporâneo do termo.

O mais fácil seria dizer que o gênero literário é este, ser evangelho, e isso limitava. Mas, claro, eu acho que são biografias, temos que ter esta consciência que também quando falamos de biografias na antiguidade, não estamos a falar das biografias de figuras completas, com uma pretensão de serem exaustivas. Se formos ver Plutarco, Suetônio, pra falar aqui de dois exemplos de autores que escreveram biografias, têm um tipo de preocupações também específicas. No caso dos evangelhos, tem muito a ver também da mensagem que os autores querem passar, dos destinatários, a quem querem chegar e falar da vida de Jesus.

E eram, na altura, os povos daquela região, daquele tempo, e, portanto, os evangelhos foram escritos a pensar nessa primeira conversão.

Sim.

Muito bem, João, a certa altura nós vemos Jesus

Começar a ser perseguido pelos judeus, depois vai ser morto pelos romanos. Podemos perguntar-nos: quem é que ficou mais irritado com Jesus? Foi a hierarquia religiosa judaica, que o acusava de blasfémia? Foram os romanos, que começavam a ficar preocupados com a agitação social? Foram os dois? O que aconteceu ali?

Para responder a isso, até uma precisão de uma questão da primeira parte. Nós associamos, até na linguagem popular, estamos a falar disso em off, o farisaísmo a ser hipócrita. Associamos um conjunto de pessoas que nós já falámos aqui como inimigos de Jesus ao máximo da hipocrisia. Ora, os evangelhos, já referimos isso, são muito mais plurais, na medida em que Jesus tem disputas com fariseus, mas posteriormente está com eles à mesa. Agora, quem não podia ver mesmo Jesus eram os saduceus, esta elite política sacerdotal religiosa do templo, e talvez terão ficado mais furibundos ainda, falamos disso quando falamos da morte e da ressurreição de Jesus, com o escândalo que foi a visita de Jesus ao templo, onde Jesus fez claramente uma queixa contra o estado em que o templo se encontrava.

Quando expulsa os vendedores.

Exatamente, quando expulsa os vendedores. E isto vai ligar a uma questão política, se nós analisarmos a questão do Caifás. O Caifás era o sumo sacerdote, mas era sumo sacerdote há 19 anos. Nós temos que ele é sumo sacerdote do ano 18 ao ano 37 depois de Cristo. Ora, estes cargos eram totalmente instáveis e dependiam de alianças e do favor romano e mudavam com frequência. Se pensarmos que o predecessor de Caifás, Ananás, não a fruta, foi destituído por uma decisão precipitada, com muita facilidade, portanto, não esteve muito tempo naquele cargo. O facto de Caifás sobreviver 19 anos no topo daquela hierarquia, sob a ocupação romana, mostra que claramente era alguém, não um fanático cego, mas com muita habilidade diplomática e que terá conseguido transformar a ideia de que Jesus era o Messias para Jesus está-se a fazer de rei e, portanto, a usurpar o poder romano. E isso terá chamado a atenção do poder romano e terá sido, aliás, a acusação que vingou historicamente, na medida em que no topo da cruz de Jesus não está escrito "Jesus, o blasfemo", nem "Jesus, aquele que foi o falso profeta" ou "que violou o sábado", ou "que atacou o templo", está "Jesus, rei dos judeus". E é claramente esta relação que se cria entre o poder religioso e o poder político que dinamita a vida de Jesus e que depois será ainda hoje recontada na história da paixão.

Sim, na antiguidade não se pode fazer esta separação muito moderna entre o religioso e o político. Neste caso, em particular.

E os judeus não tinham claramente o direito, isso é claro nas narrativas do evangelho, de dar a morte a ninguém. Portanto, Caifás teve esta claramente necessidade de traduzir uma acusação religiosa numa acusação compreensível para os cânones do direito romano.

Para que os romanos pudessem aplicar a pena.

Exato, porque por blasfemo não ia lá.

Não ia lá. Daniel, os evangelhos foram escritos ainda durante o primeiro século, ou seja, nas décadas imediatamente após a morte de Jesus. Terá necessariamente ter sido uma pessoa extraordinária, como falámos no início, uma pessoa muito impactante, para ter motivado toda aquela multidão de seguidores. O que nós conseguimos reconstituir sobre esse impacto de Jesus, sobre a mensagem que anunciou, sobre o modo como impactou aquela multidão? O impacto foi imenso e isso levou a que os seus discípulos, esta igreja nascente, como aliás vemos claramente no livro dos Atos dos Apóstolos, vemos claramente nas cartas de Paulo, que são até os escritos mais antigos do Novo Testamento. Portanto, deste grupo de escritos que compõem o Novo Testamento, que estão todos dentro do primeiro século, as cartas de Paulo são aqueles mais antigos, logo ali nos inícios da década de 50. E, portanto, sabemos que esta expansão deste carisma, ou seja, deste núcleo essencial da mensagem cristã, que no caso de Paulo sublinha sobretudo a vitória sobre a morte, a ressurreição, a vida de Jesus, no sentido de que Jesus está vivo. E isso começou a espalhar-se, e começou a espalhar-se graças a estes discípulos que foram criando comunidades e foram espalhando e implantando esta mensagem por vários sítios, primeiro em Israel, primeiro nesta evangelização aos judeus e depois passou mais ou menos naturalmente para os gentios, ou seja, para os não judeus. É difícil reconstruir com precisão, mas os autores geralmente vão falando depois de textos escritos com intencionalidade catequética que vão sendo postos por escrito nestas primeiras décadas. E depois, quando passa esta geração, quando estes que conheceram Jesus vão morrendo à medida que vão passando estas décadas, vai-se sentindo mais esta necessidade também para os fins das comunidades cristãs, para o uso dessas comunidades cristãs, ter relatos mais estruturados e completos. E aí aparecem os evangelhos, provavelmente no final da década de 60.

É uma forma de fixar uma versão definitiva daquilo.

Exatamente. Mesmo o evangelho mais antigo, que de forma quase unânime é considerado ser o de Marcos, que é também o mais curto, também tem um bocadinho estas camadas. Há alguma tradição oral, eventualmente coisas que foram ficando escritas até lá, mas depois que foram fixadas e organizadas, o material organizado

Por essas alturas.

Ao longo dos séculos que se seguiram, Jesus tornou-se, evidentemente, uma das figuras mais importantes da história da humanidade. Aliás, como eu dizia logo no início do episódio, a humanidade começou a contar o tempo, a dada altura, a partir do nascimento de Jesus. Os seguidores dele deram origem a esta religião, o cristianismo, que se tornou a primeira religião oficial do Império Romano e depois a maior religião do mundo. Como já dissemos, não parece haver grandes dúvidas, até entre os não crentes, de que Jesus de Nazaré existiu mesmo. Porém, por vezes podemos sentir-nos tentados a dizer que uma coisa é o Jesus histórico, o tal homem cuja existência a arqueologia e a história podem demonstrar. Outra coisa é este Jesus da Bíblia, dos milagres, da ressurreição. Aliás, por exemplo, o grande trabalho de Joseph Ratzinger, escrito já durante o pontificado como Bento XVI, é precisamente esta trilogia chamada "Jesus de Nazaré", esta grande obra deste teólogo alemão que foi papa. E ele procura justamente argumentar contra esta ideia de separar os dois Jesuses, digamos assim. Ou seja, contra a ideia de que há um Jesus histórico e um Jesus da Bíblia. João, mas essas duas ideias são compatíveis? Quem olhar pra história a partir de uma perspectiva puramente racionalista consegue aceitar um Jesus histórico sem aceitar a dimensão divina da pessoa? Como é que se concilia isto?

Quem olha pra história de uma perspectiva racionalista não aceita nada além de si próprio. Portanto, também não é muito fácil. Essa é a grande questão teológica ligada à figura de Jesus no século XX. É uma tentação antiga e que nasce na ideia do Iluminismo de: "nós agora vamos conseguir descobrir o Jesus fora da devoção, fora da dimensão doutrinal, o Jesus de carne e osso, o Jesus verdadeiro, face ao Jesus que foi inventado pelos dogmas, pela ressurreição, pelos milagres, como tu disseste". Ora, acho que há aqui dois riscos, que é: primeiro, achar que a história não é importante. Não, para os cristãos, a história é importante. E quando um cristianismo se refugia no fidaísmo com medo de investigação histórica e crítica, está a desconfiar de si próprio, porque realmente aquilo que os evangelhos falam é de uma história que nós podemos minimamente comprovar. Agora, nós também, se quisermos só falar de história, temos aqui um problema, que aliás o Joseph Ratzinger, no início de "Jesus de Nazaré", no primeiro volume, fala disso, que é: as sucessivas reconstruções do Jesus histórico parece que se contradizem entre si. Portanto, à procura do fato verdadeiro, parece que as pessoas só encontram aquilo que realmente procuram e não o fato em si. Portanto, eu acho que o mais interessante é isto: os evangelhos não são uma crônica neutra, nem uma invenção piedosa sobre Jesus. São uma história, mas como toda a história, é já uma história habitada por uma interpretação. Ou seja, nós nunca acedemos ao fato, nem conseguimos contar um fato, pura e simplesmente de maneira clara e pura. Nós interpretamos e contamos sempre um fato a partir de um ponto de vista. E não me parece claro que o ponto de vista cristão seja menos legítimo que o ponto de vista não cristão. É um ponto de vista e por isso os evangelhos têm esse ponto de vista. Agora, é necessário nós termos a abordagem histórica e a abordagem histórica não é incompatível, tal como a razão não é incompatível com a fé, também a história não é incompatível com a abordagem crente aos evangelhos, nem a abordagem crente é uma espécie de construção posterior. Isso é uma visão mitológica e errada, até desonesta, sobre aquilo que os evangelhos fazem.

Já no episódio anterior aludimos a esta ideia de que temos sempre preconceitos, pré-conceitos, conceitos iniciais destes assuntos que vamos falar. E esta primeira grande busca do Jesus histórico, encetada no Iluminismo, a partir do século XVIII, com figuras como Reimarus, o primeiro a estudar isto, von Harnack e outros, que procuraram despir o Jesus bíblico dos milagres e tudo aquilo que contradizia o racionalismo alemão do século XVIII e XIX. O resultado é um Jesus que se parece muito com um alemão do século XIX. Portanto, às tantas, o que se procura, o que se encontra acaba por ser o que já está à partida como a meta desejada. À medida que isso depois foi sendo superado, a dada altura, sublinhou-se mais a descontinuidade de Jesus face a este contexto histórico. O João já referiu isto. Ou seja, aquilo que está nos textos não parece ser produto numa continuidade apenas do que vinha de trás, e parece ser desconfortável para os que seguiram. Mas as linhas mais recentes, sobretudo as últimas décadas do século XX e atualmente século XXI, é também sublinhar mais o contexto, a inserção de Jesus no contexto judaico. Portanto, perceber Jesus no contexto do judaísmo do século I, que já tecia de plural, porque Jesus não é um extraterrestre, não vem utilizar aqui categorias que não seriam entendíveis pelos seus contemporâneos, mas inserido neste contexto, também não é um judeu qualquer, é um judeu disruptivo e que vem abrir grandes horizontes de interpretação da Bíblia.

E a Bíblia e a arqueologia contam duas histórias compatíveis sobre esta personagem?

Não sei se a arqueologia conta grande coisa sobre Jesus. A arqueologia, até na história do desenvolvimento da disciplina, às vezes era considerada uma espécie de arqueologia bíblica, no sentido de procurar comprovar arqueologicamente aquilo que já se tinha assumido como verdade na Bíblia.

E não é assim, de facto, não é uma postura apologética. Mas a arqueologia vai nos dando mais dados para permitir encontrar. Hoje conseguimos perceber que, por exemplo, aquela zona em Jerusalém, onde está construída a Basílica do Santo Sepulcro, de facto era uma pedreira, uma zona que tinha sepulcros, que era utilizada para isso e que era fora, naquele tempo, das muralhas da cidade. A arqueologia pode nos dizer isso e nós podemos reconhecer que é verosímil aquele facto do sepultamento de Jesus ali. Não nos dá uma garantia absoluta. Desde que saibamos respeitar os limites das ciências, acho que são perfeitamente compatíveis.

Só retomar uma pergunta que fiz na primeira parte do episódio, mas como tínhamos menos tempo, acabámos por ficar a correr. João, na primeira parte falámos dos seguidores e dos adversários de Jesus, daquelas primeiras multidões que ele começou a conquistar, mas também dos muitos contestatários. A verdade é que depois da morte de Jesus, continua a haver uma pequena comunidade de seguidores, mas há o episódio dos discípulos de Emaús, que até conta uma certa desilusão com o que se passou ali. E sabemos que até que o Império Romano adotasse o cristianismo como religião oficial, ainda passam cerca de 300 anos, o que significa que naquele período imediatamente após a morte de Jesus, ainda há uma grande indefinição sobre o verdadeiro impacto que aquele homem pode ter tido. Se nós viajássemos no tempo até àquele momento, não era óbvio que o cristianismo se viesse a tornar a maior religião do mundo e que Jesus, o homem, tivesse tido um impacto tão grande. O que podemos dizer sobre isso?

Claro que um crente responderia a essa pergunta dizendo: "Claro que era óbvio que isso ia acontecer, pois Jesus é filho de Deus e portanto Jesus pode tudo". Mas olhando do ponto de vista histórico, tudo isto é muito pouco inevitável. Ou seja, havia claramente muita tensão no início do cristianismo. Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos relatam também isso, uma grande dificuldade até de reconhecer Jesus depois da ressurreição. E essa dificuldade de reconhecer Jesus depois da ressurreição torna-se também a dificuldade de perceber aquele evento. Até porque temos aqui algum tempo, voltando atrás à questão do Jesus histórico e do Jesus dos Evangelhos. Falando até a questão, por exemplo, dos milagres, que acho que é uma questão que as pessoas muitas vezes relacionam com Jesus. Nós temos mais ou menos 27 milagres registados ou atribuídos a Jesus, que além de serem numerosos, são múltiplos e de várias categorias. E Jesus realmente era tido na época como alguém que praticava atos de cura. As pessoas mais ricas iam ao médico. Depois havia quem fosse visitar santuários, como nós ainda hoje vamos, às vezes, à procura de cura, ao São Bento para tirar os cravos aos meninos, e não sei o quê, dos dedos. E depois também havia pessoas populares que praticavam exorcismos e curas, e Jesus claramente estava inserido nesse meio. Agora, o que distingue Jesus, por exemplo, por aquilo que nós percebemos da documentação e dos Evangelhos? Portanto, cá está estas duas fontes, o que nós conseguimos balançar? Por exemplo, Jesus nunca pediu um pagamento por aquilo que fez. O que era comum à época. Jesus não utiliza fórmulas encantatórias ou mágicas. Isso não acontece. Não exibe os seus encantos mágicos como fosse o Luis de Matos da época, que no meio de Cafarnaum faz ali um espetáculo.

Até pede, às vezes, discrição.

Pede discrição, por exemplo. Não pretende exercer pressão sobre a divindade, nem faz aquilo que poderíamos hoje chamar uma espécie de magia negra, ou seja, lançar um feitiço, uma espécie de ato mágico contra um inimigo. Isso nunca acontece. Portanto, cá está, a partir desta confluência de Evangelhos, fontes históricas, podemos chegar a este ponto e podemos perceber claramente que aquilo que Jesus procura nesta multiplicidade de milagres é, de certa maneira, restituir aquela pessoa à sua legítima relação com Deus. Mesmo com as limitações do método histórico e com o método teológico, nós percebemos que a preocupação de Jesus não é tanto fazer ali uma cura espetacular, mas é estabelecer justiça e restabelecer uma ordem onde a pessoa se sente compreendida na sociedade da época, em relação aos outros e também em relação a si própria. Há uma expressão muito curiosa, e termino com isto mesmo, do Margarath, em que o Margarath diz: "A pessoa curada com Jesus recebe, através das palavras dele, a sua parte decisiva no milagre". Ou seja, Jesus parece estar muito preocupado em que a pessoa que é curada ou que pode ser curada, receba algo também que é seu e que não possui naquele momento. Portanto, cá está esta relação entre o Jesus da história, o Jesus da Bíblia, permite-nos fazer isto para lá do Jesus superstar que às vezes nos é vendido.

Muito bem, fica por aqui o décimo episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia". Estivemos a falar sobre Jesus e na próxima semana vamos falar sobre uma das figuras mais fascinantes, mas também mais mal compreendidas do Novo Testamento. Falaremos de Maria Madalena. Foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus, de uma mulher que, ao longo da história, teve a sua reputação manchada por uma interpretação errada dos textos bíblicos. Já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós respondemos às perguntas todas as quintas-feiras num episódio especial em podcast, um episódio que fica apenas em podcast e, portanto, não se esqueça de seguir o nosso programa nas plataformas que use habitualmente para nos ouvir, para ter a certeza que recebe uma notificação a cada episódio novo. Até para a semana aqui na Rádio Observador e até quinta-feira em podcast. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Bastos. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.