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Muito bem-vindos ao sétimo episódio especial de As Histórias da Bíblia. Nós estamos aqui todas as semanas, às quintas-feiras, pra responder a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia. Têm sido muitos aqueles que nos ouvem todas as semanas e também que nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Muito obrigado a todos aqueles que têm enviado e-mails e também àqueles que têm deixado comentários e perguntas no YouTube e nas plataformas de podcast. Nós estamos aqui aos domingos, às 9h, na Rádio Observador e em podcast, também às quintas-feiras, para um episódio mais curto, esse exclusivamente em podcast, para responder às dúvidas que os ouvintes quiserem enviar aos padres João Bastos e Daniel Nascimento sobre a Bíblia. Ora bem, nós no episódio do último domingo estivemos a falar sobre o Jesus da História e a tentar perceber se ele corresponde ou não ao Jesus da Bíblia. Se não ouviu na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast, todas as plataformas, também no site do Observador. Esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte Nuno Caramelo. Enviou-nos esta pergunta por e-mail: "Boa tarde. Gostava, se fosse possível, que fosse explicada a parábola do filho pródigo, tão bonita, mas tão desafiante à compreensão." Daniel, o nosso ouvinte refere-se a uma das parábolas mais famosas de Jesus, uma história que surge no Evangelho de Lucas, no 15º capítulo. Se quiser, podes começar por contar-nos esta história, contar aqui aos nossos ouvintes o que é dito neste texto.

Sim, esta parábola insere-se neste capítulo 15 de São Lucas, que nos conta três parábolas. Esta é a terceira. Basicamente, é uma pequena história, como as parábolas geralmente são, uma pequena história tirada de um contexto conhecido, ou seja, com famílias, com vida rural, uma história com personagens que são entendíveis pelos ouvintes de Jesus. No fundo, é um pai com dois filhos. Um pai tem dois filhos, o filho mais novo quer liberdade, quer independência, quer sair da casa do pai, pede a herança ainda em vida do pai e vai à procura de se divertir, de ter sucesso sozinho e acaba por gastar o dinheiro, gasta tudo, bate no fundo do poço e pensa: "Bem, se calhar vou voltar à casa do pai, porque posso ainda pedir trabalho, ao menos lá os empregados têm o que comer." E pensa fazer isso. Volta, mas antes de sequer ter a oportunidade de pedir desculpa ao pai, o pai vai ao seu encontro, abraça-o, mete-lhe um anel no dedo, faz uma festa e quer recebê-lo, porque este filho estava morto e voltou à vida. A parábola continua com o outro filho, o filho mais velho, que ao ver esta festa, ao voltar à casa, fica incomodado e não quer entrar na festa. O pai sai da casa, sai da festa e vai ter com o seu filho e tenta convencê-lo a entrar. E ele diz: "Não, mas eu sempre estive aqui e nunca fizeste uma festa comigo, nunca me deste nem um cabrito. E eu que sempre estive aqui a trabalhar pra ti, agora mataste o borrego para festejar que esse teu filho voltou à casa." E o pai diz basicamente a mesma coisa: "Tínhamos que fazer uma festa. Tu sempre estiveste comigo, mas ele estava morto e voltou à vida, por isso temos que celebrar." E, portanto, é uma parábola que nos fala, até mais do que propriamente o caráter esbanjador, efêmero e imaturo do filho mais novo, da misericórdia do pai. E, portanto, eu diria que há aqui duas chaves de leitura importantes pra isto. Uma tem a ver com a própria característica de parábolas. Às vezes temos a tentação de dizer: "Parábola é uma historiazinha simples pra Jesus se fazer entender."

Com uma lição de moral no fim.

É como se fosse: "Bem, esta gente não é capaz de entender um pensamento complexo, portanto, deixa-me cá contar uma história básica pra crianças, que assim eles percebem." Não é isso. São histórias simples, que falam da vida familiar ou da vida na agricultura, da vida no campo, mas são quase sempre histórias profundas e que convidam o ouvinte a envolver-se na história, porque até da forma que eu descrevi, não tem um final. Isto é muito claro nesta parábola. Ou seja, a parábola não nos diz se o filho mais novo verdadeiramente se converteu, se deixou tocar pela misericórdia do pai e se esse gesto primeiro de misericórdia do pai, porque recordemos, o texto diz-nos que ele ensaiou esta desculpa para voltar pra casa, não nos diz da sinceridade da sua conversão.

Aparece no texto ele a dizer: "Vou voltar ao meu pai e dizer isto e aquilo."

O texto não nos diz se, de fato, diante desse gesto de generosidade suprema do pai, se ele se converte. E também não nos diz, no caso do filho mais velho, se o pai o consegue convencer a entrar na festa. Não nos diz. E, portanto, há aqui uma espécie de dois finais abertos, no caso das duas atitudes: do filho que volta pra casa do pai e do filho que sempre esteve, mas no fundo nunca esteve. E essa chave de leitura também nos é fornecida pela introdução, porque Jesus conta-nos essa parábola, porque estavam cobradores de impostos e pecadores pra o ouvirem e eram criticados pelos fariseus e doutores da lei. No fundo, podemos fazer aqui uma espécie de aplicação. Os fariseus e doutores da lei, ou seja, essa elite religiosa, gente que era suposto estar na casa do pai, ou seja, que estudava a lei, que conhecia a lei Talvez esta parábola nos diga que é a postura farisaica. Estes que sempre estiveram, mas não estão dispostos a encontrar lugar pra misericórdia na sua vida, são o filho mais velho. Estes cobradores de impostos e pecadores são talvez uma imagem deste filho mais novo, que está longe, mas quis voltar. E, portanto, mais do que louvar os pecadores por serem pecadores, os pecadores são louvados porque embora sejam pecadores, acabam por fazer este movimento de regresso à casa. Enquanto que o que está em casa, talvez esteja, mas não esteja, talvez esteja, mas de coração endurecido. E, portanto, esta ideia de convite ao leitor: e tu, qual é a tua postura, qual é a tua atitude? Com que filho te identificas? Ou se calhar, em fases da vida diferente, foste cada um destes filhos. Portanto, este desafio, este final aberto, esta interpelação ao leitor da parábola, ou ouvinte da parábola, parece uma grande força deste texto.

Eu tendo a perceber, como diz o nosso ouvinte, que a parábola realmente é desafiante à compreensão, porque nós podemos chegar ao fim da história e pensar: "Epá, mas o filho mais velho tem razão. Então, realmente chega ali, nunca traiu a confiança do pai e o outro é que tem direito à festa?"

Claro. Mas a parábola não vai por esse ponto. Não é essa a questão. É talvez percebermos que este filho nunca se sentiu filho, até pelo vocabulário que utiliza, sente-se mais servo do que filho.

Claro.

E até pelas palavras que diz face ao irmão. Não diz "o meu irmão", diz "esse teu filho".

Exatamente. João, como é que lês este texto?

Se calhar, depois da leitura do Daniel, não tenho assim muito a acrescentar. Se calhar só uma dica pras parábolas, foi uma coisa que eu ouvi nos meus recentes anos na faculdade, que era uma ajuda, até mesmo em Lucas, são estas estruturas tripartidas, triangulares. Ou seja, temos aqui na parábola do filho pródigo, um pai, um filho, outro filho. Na parábola do bom samaritano, temos o bom samaritano, temos o homem que está na beira da estrada e aqueles que passam adiante. Se calhar uma forma de as ler é procurar estas triangulações, não como no futebol, mas triangulações na escritura para também nos podermos situar. Acho que o São Lucas faz quase uma espécie de armadilha, não tática do quadrado, mas do triângulo, para nos, como dizia o Daniel, parece-me que é muito interessante isto na parábola, nos armadilhar e nos deixar sem fuga. Criar um beco sem saída.

Para o ouvinte tentar perceber com qual das personagens é que-

E com qual das personagens-- sim, mas acima de tudo também assumir o risco de entrarmos num beco sem saída. Ou seja, a parábola não é pra se resolver, nem pra ter uma lição de moral. A parábola é pra nós entrarmos no trauma e no choque que a parábola gera.

Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder à dúvida enviada pelo nosso ouvinte Nuno Caramelo. Uma dúvida sobre esta parábola do filho pródigo, ou também às vezes chamada a parábola do pai misericordioso, uma das parábolas mais conhecidas da história de Jesus Cristo, que surge no Evangelho de Lucas. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast As Histórias da Bíblia, escreva-nos para o nosso e-mail, é ashistoriasdabiblia@observador.pt. Vou repetir: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Pode também deixar um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir ou no site do Observador. Nós estamos de regresso no domingo com mais um episódio da nossa segunda temporada. Vamos falar sobre Maria Madalena, uma mulher com muito má fama, que, na verdade, foi uma das personagens mais injustiçadas da história da Bíblia. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.