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Muito bem-vindos ao sexto episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Todas as semanas, às quintas-feiras, respondemos a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia e já são muitos aqueles que nos ouvem todas as semanas neste podcast e aqueles que nos têm enviado perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também quem tem deixado comentários no YouTube e nas plataformas de podcast, com perguntas e sugestões, agradecemos a todos. Já sabem que todos os domingos, às 09:00, na Rádio Observador e sempre em podcast, estamos aqui. E também às quintas-feiras, para um episódio mais curto, esse é exclusivamente em podcast, em que respondemos a estas dúvidas dos ouvintes. Já sabem, todos os que quiserem colocar perguntas aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Ora bem, no episódio do último domingo estivemos a falar sobre Maria e José, os pais de Jesus e, portanto, se não ouviu na Rádio Observador, pode sempre encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Esta semana vamos tentar responder a uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte joao@rodrigues, que nos enviou esta pergunta por e-mail. No início de junho, escreveu-nos o seguinte: "Ao longo do programa, tenho ouvido várias vezes a Bíblia ser descrita como um texto literário composto por diferentes gêneros, recursos narrativos e dispositivos literários. A minha dificuldade é perceber como se concilia esta abordagem com a necessidade de a Bíblia ser para os cristãos uma fonte de verdade. Por exemplo, não é essencial para a fé cristã acreditar na ressurreição real de Jesus Cristo? Se assim é, com que critério distinguimos aquilo que deve ser entendido como recurso literário daquilo que corresponde a acontecimentos reais e fundamentais para a fé? Esta questão leva-me também a perguntar: o que entendem por verdade neste contexto? Existem diferentes tipos de verdade que a Bíblia comunica ou estamos perante um problema de definição do próprio conceito? Espero que tenha expressado bem a minha dúvida. Já vi muitos pensadores cristãos a não se conseguirem expressar bem sobre este tópico e parece-me um ponto de pressão válido, no qual muitos ateus insistem". Ora bem, João, conseguimos responder esta pergunta, o que é a verdade? Só para enquadrar, esta pergunta toca aqui num ponto realmente muitas vezes apontado, que é: olhamos, por exemplo, para aspectos do Antigo Testamento, o Gênesis é o mais evidente, em que muitas vezes a análise diz: "Não, isto é um recurso literário, é um recurso estilístico". Depois haverá acontecimentos que para os cristãos é essencial acreditar que foram verdade. Como é que se distingue uma coisa da outra?

O ouvinte diz que já ouviu muitos pensadores cristãos que não sabiam articular muito bem uma resposta a esta pergunta. Possivelmente eu serei mais um nessa vasta lista, mas ele lança aí uma pergunta que acho que é pertinente. Se não há aqui um problema com o próprio conceito de verdade. Nós estamos muito marcados, e eu acho que positivamente, por uma cultura grega, romana, para a qual a verdade estava acima de tudo na relação sujeito-objeto. Havia uma dimensão fixa e permanente que nós tínhamos que conhecer e que era independente do sujeito. Num mundo semita, no mundo hebraico, no mundo onde o Novo e o Antigo Testamento são escritos e onde Jesus viveu, não é esta a concepção de verdade. Ou seja, a verdade tem mais a ver com a fidelidade. Não se trata tanto de um objeto, mas mede-se na medida em que existe um compromisso pessoal, fiel, de entrega entre duas pessoas. Aliás, isto é muito claro, até pela própria ideia de que Deus se entrega ao ser humano e o ser humano a Deus. Agora, é importante ver que a Bíblia talvez faça uma espécie de relação entre estas duas coisas, mas há algo que nós temos que, até pela história da interpretação bíblica e da história da Igreja, temos que recusar. Com o Galileu, isso talvez tenha sido o ponto de viragem, a ideia de que nós vamos buscar à Bíblia verdades e informações científicas. Isso não tem qualquer cabimento hoje para nós e, portanto, nós hoje estamos claramente numa escola ou numa linha de releitura da Bíblia de outra maneira. E uma das grandes chaves de leitura para isso são os gêneros literários. É preciso termos noção que os acontecimentos relatados na Bíblia, como, na verdade, qualquer acontecimento, são sempre acontecimentos interpretados. Não existe um acontecimento puro. Muitas vezes, existe muito esta ideia, até num certo campo do ateísmo, da verdade ser uma espécie de verdade pura, positivamente atingida através do positivismo de Auguste Comte. Agora, nós, depois de Freud, Nietzsche, até da fenomenologia francesa, podemos assegurar claramente que não existe nenhum acontecimento que não seja interpretado. E a Bíblia fala de acontecimentos através dos gêneros literários, que são, já em si, uma interpretação do acontecimento. Se nós quiséssemos também ser muito vastos, a Bíblia não faz ou não tem a pretensão de fazer fotografias do acontecimento, coisas vistas por fora, uma espécie de naco da vida congelada, mas procura mais o estilo radiográfico, ou seja, ver as coisas por dentro através de uma perspectiva interior, à procura da significação das coisas. Duas últimas notas. Talvez o importante é: nós queremos ler a Bíblia, queremos perceber como ler aquele episódio, que verdade, que estilo de verdade. Talvez necessitemos de logo ao início perceber quando é que aquele texto foi escrito Que estilo literário tem, a dimensão histórica, até a própria dimensão dinâmica que o texto tem, porque se nós lêssemos a Bíblia do início ao fim, vamos perceber que, por exemplo, a imagem de Deus vai mudando e sendo reconstruída. Isso é muito importante: atender à verdade do texto na medida em que o texto é um texto situado, contextualizado. E depois, talvez tenhamos que mudar o mindset, a abordagem. Mais do que defender a Bíblia, nós temos que passar a compreender a Bíblia. E muitas vezes a recusa que existe da parte de um certo ateísmo da Bíblia, vem de não a querer compreender. Também não a quer defender, mas também não a quer compreender. E nós às vezes temos que fazer um certo luto e dizer: "Eu quero é compreender este texto". E perceber que este texto também foi reinterpretado à medida que a humanidade também foi evoluindo nas suas características, em sua própria compreensão de si própria e destes tempos em que os textos foram escritos. Daniel, o que é a verdade na Bíblia?

Esta pergunta que fazes é um pouquinho à maneira de Pilatos. Todos conhecemos este diálogo no Evangelho segundo São João, em que Pilatos pergunta o que é a verdade. Isto interpretado até em tempos modernos e pós-modernos, esta ideia de que a verdade não é uma coisa atingível, eu tenho a minha verdade, tu tens a tua verdade. Há também, como reação a isto, uma certa crítica a este subjetivismo, que é um ismo excessivo que, no fundo, nos leva a não conseguir afirmar nada com certeza. Não é essa bem a perspectiva da Bíblia, como o João também nos estava aqui a explicar. É interessante que as palavras bíblicas para verdade, quer a grega, quer a hebraica, em grego é aletheia, que etimologicamente é uma ideia de desvelar algo que está tapado e tira-se o véu, para ver a sua essência. E a palavra hebraica está também ligada etimologicamente com a ideia de confiança, até com outra palavra hebraica que todos conhecemos, que é Amém. É dessa raiz. Uma ideia de confiança, de fidelidade. Isso é interessante, perceber que a verdade encontra-se não numa mera factualidade que é sempre exterior, mas em algo, porventura, mais profundo. Aqui o nosso ouvinte fala da questão da ressurreição. Como expressar em palavras algo que é único na história ou é apresentado como algo único? Até na própria palavra ressurreição, que nós traduzimos por ressurreição, vemos aqui acontecimentos diversos, quer Lázaro, que ressuscita, ou seja, estava morto e volta à vida, e depois Jesus, que ressuscita. Não é a mesma coisa. Não se está a falar do mesmo conceito, da mesma categoria. Aliás, a própria palavra ressurreição, este resurrexit, é no fundo erguer-se, colocar-se de pé. Ressurreição, na sua raiz, quer dizer alguém que se levanta. Qual é a realidade que se está aqui a exprimir? Daí esta ideia de termos, às vezes, de perceber qual é o gênero literário para exprimir uma realidade profunda. Como é que eu expresso, que palavras é que eu utilizo para exprimir a verdade de uma relação, por exemplo, de uma relação de amor, de uma relação de amizade? Não é por definições matemáticas, científicas, quimicamente puras. A Bíblia e a vida, quando falamos de verdade, temos aqui vários níveis de leitura que exigem que não fiquemos nessa exterioridade de factos comprováveis.

Penso que muitas vezes aquilo que este nosso ouvinte aqui também menciona é como aplicar um conceito de verdade ao longo das várias etapas dos vários livros da Bíblia, porque muitas vezes essa crítica pode ser feita, por exemplo, aos cristãos que creem na Bíblia e pode-se-lhes perguntar a compatibilidade, por exemplo, dos relatos da criação no Gênesis.

É o exemplo típico.

É o exemplo típico em relação à ciência, àquilo que a ciência sabe. E a resposta, que até foi dada aqui neste programa, pode ser: "Claro, mas estamos a falar de um texto mítico".

São estilos de verdade diferentes.

Exatamente.

Mas ainda assim verdade. Ou seja, eu posso afirmar que Gênesis 2 e 3, a história de Adão e Eva, é verdadeira, não no sentido de uma factualidade a que eu remonto genealogicamente, indo ano após ano, até há não sei quantos mil anos atrás, mas em relação ao que aquela história expressa sobre a condição humana. E nesse sentido é verdadeira.

Nós na altura, acho que no episódio sobre Adão e Eva, falamos de um exemplo para explicar isto, que tem a ver com, talvez eu sou o mais novo aqui, mas todos nós já contactámos na escola, estou assim um pouquinho engasgado, com aquele tempo em que havia muitos mapas. Os mapas do caminho de ferro, o mapa das montanhas. Todos os mapas são verdadeiros, mas todos eles retratam uma realidade diferente. Ninguém consegue chegar às conclusão e dizer: "Só o mapa dos rios de Portugal é que é verdadeiro", ou só o mapa do relevo em Portugal continental é que é verdadeiro. Não. Ambas as coisas são verdadeiras e é preciso também sair desta caixota em que, por um lado, estão os fidaístas em que dizem: "A Bíblia é factual, então nós temos que procurar a arca de Noé, porque se não houver a arca de Noé, a Bíblia é uma mentira, é um engano". Ou aqueles que dizem: "A Bíblia é toda uma estupidez, uma coisa inventada, um mito, sem qualquer factualidade". Também não me parece razoável. Estamos mais preocupados em defender e derrotar a Bíblia do que em compreendê-la.

E aqui o importante é fazermos exegese, e aí o E e o X, as duas primeiras letras são importantes, ou seja, tirar do texto o que ele quer dizer, respeitar os direitos do texto, para usar uma expressão de Umberto Eco, e não uma eisegese, com o eis, ou seja, eu fazer o texto dizer aquilo que eu quero que ele diga. Isso requer estudo, requer contextualização, tudo isso.

Muito bem, e importa também, por aquilo que dizem, compreender o gênero literário de cada um dos textos da Bíblia. Ficamos por aqui com este episódio especial em que procuramos responder a esta dúvida complexa enviada pelo nosso ouvinte João@Rodrigo. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast As Histórias da Bíblia, escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou então deixe um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no domingo com mais um episódio da nossa segunda temporada e vamos falar sobre Jesus, uma figura que, para crentes e não crentes, mudou o rumo da história da humanidade. Na próxima quinta-feira, voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.