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Sejam bem-vindos ao terceiro episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Nós todas as semanas, às quintas-feiras, respondemos a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia e têm sido muitos os que nos ouvem todas as semanas neste podcast e também que nos têm enviado perguntas, comentários, sugestões pro nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Muito obrigado a todos, também àqueles que têm deixado comentários no YouTube ou nas plataformas de podcast em que nos ouvem. Já sabem que nos encontramos todos os domingos às 09h da manhã na Rádio Observador e sempre em podcast. Estamos também aqui às quintas-feiras pra um episódio mais curto, este exclusivamente em podcast, para responder algumas dúvidas dos nossos ouvintes. Portanto, já sabem, todos aqueles que quiserem colocar perguntas aos padres João Basto e Daniel Nascimento sobre este tema da Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Nós no episódio do último domingo estivemos a falar sobre Ester, essa mulher judia que chegou à rainha da Pérsia e que depois salvou o povo judeu num episódio épico desse livro que leva o nome da própria protagonista. Se não ouviu esse episódio na Rádio Observador, pode sempre encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. E vamos agora responder a uma pergunta que nos foi enviada pelo nosso ouvinte Paulo Colaço. Enviou um e-mail ainda no final da primeira temporada e na verdade é uma pergunta que, além de ter sido formulada por este nosso ouvinte, também nos chegou por várias outras vias, por vários outros ouvintes, em conversas pessoais. Vejam lá este e-mail que o nosso ouvinte Paulo Colaço nos enviou: "Sei que o podcast está previsto pra 12 episódios, mas exorto a continuarem". Esta parte do e-mail já está .

Perfeita.

"Pois certamente haverá várias perguntas do público. As minhas, pra já, são estas: um, que diferenças há entre as várias Bíblias cristãs, nomeadamente entre a católica e a anglicana? Dois, com o estudo dos manuscritos do Mar Morto, haverá alguma hipótese de a Bíblia ser aumentada ou o texto considera-se fixado?" Ora bem, muito obrigado, Paulo. Como dizia, esta pergunta, pelo menos a primeira parte desta pergunta, já nos chegou por muita gente. Por exemplo, até de alguns ouvintes nossos que integram tradições cristãs que são minoritárias em Portugal, como a tradição protestante ou evangélica. Esses cristãos usam uma versão diferente da Bíblia dos católicos, que são a maior comunidade religiosa em Portugal. Daniel, vamos tentar perceber melhor isto. Quantas Bíblias diferentes há? Que diferenças há entre elas? Pode vir a haver mais versões diferentes da Bíblia? O que é que temos a dizer sobre isto?

O cânone bíblico, ou seja, o cânone é a lista de livros considerados inspirados e que compõem as Bíblias, é fruto de um processo histórico. Não é que logo no primeiro século estivessem Bíblias a ser impressas no tempo de São Paulo ou dos evangelistas. Portanto, foi preciso algum tempo para que a igreja nascente, para as comunidades cristãs, estou a falar aqui especificamente do cristianismo, incluindo já o Antigo Testamento, mas foi preciso algum tempo pra que as comunidades fossem considerando estes textos importantes, inspirados, e fossem fazendo estas listas. E isto demorou algum tempo. No caso do Novo Testamento, há um famoso Cânon de Muratori logo nos primeiros séculos, com alguma variação, incluindo ali alguns textos que acabaram por não ser incluídos nas nossas listas de livros inspirados, das nossas Bíblias. Mas por volta do século IV, no ano 367, já temos uma carta de Santo Atanásio que já nos fixa esta lista de 27 livros bíblicos. E esta é igual para todos os cristãos, com uma pequena exceção, que depois posso referir aqui adiante, mas o Novo Testamento é igual para católicos, para protestantes.

Ortodoxos e anglicanos.

Sim, os anglicanos. Estou aqui a incluir por simplicidade, simplificando anglicanos neste grupo de protestantes, mas sim. O cânone ortodoxo geralmente é um bocadinho mais longo e varia. Por exemplo, a Igreja Ortodoxa da Etiópia é que tem o cânone maior e inclui alguns textos como o Livro de Enoque, Jubileus, enfim, o seu cânone bíblico do Antigo Testamento, que não estão nas igrejas ocidentais. O Antigo Testamento é que geralmente é mais diferente e é aquilo que diferencia uma Bíblia católica, ou seja, de uma editora católica, e Bíblias que estão em uso nas edições de igrejas protestantes, anglicanas.

Por exemplo, a conhecida tradução de João Ferreira de Almeida, que foi a primeira tradução em língua portuguesa.

Sim, que segue o cânone protestante, calvinista. Nesse caso, o processo também é complexo, porque a lista de livros do Antigo Testamento também demorou algum tempo a ser fixada Há algumas décadas, colocava-se uma data precisa por volta do ano 90, com um tal sínodo em Yavne ou Jamnia, que teria, em âmbito judaico, pós destruição do templo, que foi no ano 70, que se teria fixado esta vista canônica, que seria a vista da Bíblia hebraica, ou seja, aquela vista mais curta, que depois é seguida pelos protestantes em geral, que não inclui estes livros que para os católicos são chamados deuterocanônicos, ou seja, sete livros: o livro de Tobit, Judite, Sabedoria, Ben Sirá, Baruc, Primeiro e Segundo Macabeus, que fazem esta distinção entre os cânones hebraico, e portanto também protestante, do Antigo Testamento, e o cânone católico. Hoje os estudiosos são unânimes em dizer que não houve propriamente um sínodo ou um concílio, isso até utilizar categorias mais cristãs do que judaicas, mas que também em campo judaico, também na definição do cânone do Antigo Testamento, isso foi um processo histórico. Por exemplo, a Septuaginta, esta tal Bíblia grega, incluiu vários livros que depois não entraram nesta vista canônica, alguns destes que eu referi, ainda mais um ou outro. E, portanto, o judaísmo foi demorando algum tempo. Nesse tal encontro de Jamnia, de fato, debateu-se a canonicidade. Alguns livros como Qohélet ou Eclesiastes, Cântico dos Cânticos ou Ezequiel, deverão ser considerados canônicos ou não. Portanto, percebemos que quer em âmbito judaico, em relação ao Antigo Testamento, ao que nós chamamos Antigo Testamento, quer em âmbito cristão, o que chamamos Novo Testamento, foi um processo histórico em que é difícil definir balizas, mas simplesmente alturas a partir das quais poderemos considerar uma vista mais ou menos fechada.

E depois, diferentes tradições, por exemplo, só para diferenciar entre a tradição protestante e a tradição católica, diferentes tradições usam diferentes cânones. Hoje em dia, essencialmente, por uma questão de identificação com uma raiz diferente, ou podemos, por exemplo, dizer que na Reforma Protestante, Lutero optou por uma versão diferente para se diferenciar de Roma, por exemplo, para se distinguir de Roma. Ou há ali um pensamento concreto sobre os textos?

Sim, essa dimensão política também terá sido relevante. O cânone católico basicamente segue a lista da Septuaginta, desta tal Bíblia grega. Alguns dirão que a Bíblia hebraica, que os judeus optando por ficar só com os livros que foram escritos em hebraico ou aramaico e não aqueles em grego, estes que eu referi, Tobit, Judite, etc, seria também em confronto polêmico com cristãos. É difícil afirmar com certeza, mas na Reforma Protestante, Lutero e depois outros seus seguidores e outros reformadores, de fato optaram por esse cânone mais curto e certamente a polêmica com a Igreja Católica terá sido um motivo relevante.

Há pouco dizias que haveria uma diferença no Novo Testamento também entre as duas versões, uma pequena diferença.

A pequena diferença é sobretudo com as igrejas ortodoxas, que têm um cânone variável. Como sabemos, as igrejas ortodoxas têm um esquema organizacional um pouquinho diferente, dependendo de certos patriarcados. Agora, nos últimos anos até temos ouvido mais falar do patriarcado de Moscovo e depois Constantinopla. Algumas igrejas incluem livros como Pastor de Hermas ou outros livros. Do que eu pesquisei, foi sobretudo a Igreja da Etiópia, que tem o Cânon maior e tem alguns livros que nos parecem um pouquinho mais estranhos.

João, alguma coisa a dizer sobre as múltiplas versões da Bíblia que podemos encontrar numa livraria?

Era aquela questão ligada que falamos em off da segunda parte da pergunta, se até que ponto agora pode haver uma evolução do Cânon e daqui a 100 anos ou 50 termos novos livros na Bíblia. Parece-me que neste momento o Cânon está fixado. Estes processos, como sempre, são processos que a certa altura param e que se estabilizam. E hoje nós temos até uma certa redescoberta da importância até de textos que não estão no Cânon e que são textos apócrifos, no sentido apócrifos dos evangelhos. Há um certo fascínio por isso, que já não é tão voyeurístico como foi há uns anos. Há claramente um interesse por esse tipo de textos, como até os próprios cristãos têm hoje já também uma veneração por textos que podem não ter sido necessariamente contemporâneos de São Paulo ou dos evangelhos, mas que são ligeiramente posteriores. Estamos a falar da carta de Clemente Romano, das cartas de Santo Inácio de Antioquia, a Didaké, a famosa carta a Diogneto, que são textos de pouco depois da transição século I, século II, e que são tão importantes para nós, são muito importantes para nós, porque são testemunhos dos primeiros cristãos e que não estão na Bíblia. Portanto, não estar na Bíblia não significa até que não tenha importância e que não haja até uma veneração pelo próprio texto.

Daniel, o nosso ouvinte pergunta-nos também sobre os manuscritos do Mar Morto e lá está, como dizia aqui o João, se haveria alguma hipótese um dia de a Bíblia ser aumentada ou se o texto está definitivamente fixado. Não sei se queres muito rapidamente só contextualizar o que são estes manuscritos do Mar Morto e o que eles nos dizem de novo ou nos podem dizer de novo sobre a Bíblia.

No Mar Morto descobriu-se nos anos 40, em grutas no deserto e ao pé de Qumran, onde se depois admitiu que haveria Quer uma espécie de comunidade monástica de essénios, quer uma biblioteca escondida, provavelmente uma biblioteca de Jerusalém, talvez escondida ali no contexto da guerra com os romanos. E aí descobriram-se muitos manuscritos hebraicos e gregos também, que incluía muitos destes livros canónicos do Antigo Testamento. Estamos a falar do primeiro século, ainda não há Novo Testamento, estamos no contexto do que chamamos Antigo Testamento. E aí descobrem-se muitos destes textos, também outros textos que não são canónicos, textos mais ligados a esta comunidade de Qumran. E não é isso que alterou o nosso paradigma canónico, que, como dizíamos, foi um processo histórico em que as igrejas e a sinagoga, por assim dizer, e o judaísmo rabínico foi também discernindo e que acabou por ficar mais ou menos fixo. Eu referi há pouco que no século IV, Santo Atanásio já apresenta os 27 livros do Antigo Testamento como temos hoje, mas só no Concílio de Trento, no século XVI, é que é fixado definitivamente toda a lista de livros bíblicos, o que significa, sobretudo no caso do que nós chamamos Antigo Testamento, alguns destes livros eram mais ou menos canónicos, eram mais utilizados num sítio, menos utilizados noutro. A canonicidade é um processo que tem as suas dificuldades do ponto de vista histórico.

Muito bem, fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder a esta dúvida enviada pelo nosso ouvinte Paulo Colaço. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast "As Histórias da Bíblia", escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt ou deixe um comentário na plataforma onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no próximo domingo com mais um episódio da segunda temporada, em que vamos falar sobre Job e Jonas, duas histórias que nos convidam a refletir sobre a justiça divina e o sofrimento humano. Na próxima quinta-feira, voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.