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Sansão e Dalila: fúria, vingança e um corte de cabelo. Este é o quarto episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
E esta semana vamos falar de um episódio muito conhecido da Bíblia, a história de Sansão e Dalila. Uma história de violência e traição que ficou muito famosa graças ao célebre cabelo de Sansão, o segredo que lhe dava uma força sobre-humana. Dalila descobriu esse segredo, entregou Sansão aos filisteus e levou à sua morte. Mas quem era, afinal, este homem? E de onde vinha a história do cabelo? É o que vamos tentar perceber no episódio desta semana. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Antes de seguirmos para o tema do dia, tenho que lembrar que os nossos ouvintes nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Já sabem, sem acentos, portanto, ashistoriasdabiblia@observador.pt. E esta semana temos uma novidade para dar aos nossos ouvintes. Nós, a partir de agora, vamos passar a encontrar-nos duas vezes por semana. Vamos continuar a ter o nosso episódio semanal aos domingos, depois do noticiário das 9h00, na Rádio Observador e sempre em podcast, mas vamos também ter um episódio extra todas as semanas. Nós, às quintas-feiras, vamos responder a uma pergunta que seja enviada pelos nossos ouvintes, quer para o nosso e-mail, ashistoriasdabiblia@observador.pt, quer perguntas que sejam também deixadas nos comentários no YouTube e nas várias plataformas de podcast. Vão ser episódios mais curtos, nós em 10 minutos vamos tentar responder a uma pergunta sobre a Bíblia, que os ouvintes nos enviem, e esse episódio fica apenas em podcast, não passa na Rádio Observador. Já sabe, pode ouvir-nos no site do Observador ou nas plataformas de podcast habituais e para ter a certeza que não lhe escapa nada, pode clicar em seguir o programa para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. Vamos começar já esta quinta-feira e vamos tentar responder a uma pergunta que nos chegou depois do episódio sobre Caim e Abel. Basicamente, se Deus sabe tudo, por que foi perguntar a Caim onde é que estava o irmão dele? Vamos falar sobre esta omnisciência de Deus na quinta-feira, neste primeiro episódio especial com perguntas dos ouvintes, já sabem, apenas em podcast. Ora bem, vamos ao tema do episódio de hoje. Nós todos conhecemos, nem que seja por alto, a história de Sansão e Dalila, que inspirou inúmeras obras de arte ao longo dos séculos. Sabemos, pelo menos, o seguinte: Sansão era um homem que tinha uma força sobre-humana graças ao cabelo que nunca cortava. Isto é um dado que a generalidade das pessoas sabe. Sabemos também que Dalila o vai seduzir até ele revelar que esse era o segredo da força dele e os inimigos dele vão acabar por derrotá-lo, cortando-lhe o cabelo. Mas se calhar temos que perceber isto melhor. Daniel, possivelmente faz sentido começarmos por explicar o contexto em que esta história surge. Nós encontramos ela ao longo de quatro capítulos do livro dos Juízes, que é o sétimo livro da Bíblia, e este livro conta um período muito particular na história do povo bíblico, o tal período dos Juízes. Até porque Sansão seria precisamente um desses juízes. Queres ajudar-nos a perceber que período foi este?
Este livro dos Juízes começa precisamente com uma referência à morte de Josué. E Josué, como já vimos no episódio anterior, é aquele que lidera esta transição do período do deserto e a entrada na Terra Prometida. Portanto, o tempo dos Juízes é este tempo de instalação nesta terra que, de acordo com o livro de Josué, já tinha sido conquistada, mas percebemos que, afinal, não foi ainda assim tão conquistada. Ainda há muitos inimigos, sobretudo os filisteus, que são os grandes adversários ao longo do livro dos Juízes. E os livros posteriores, os livros de Samuel, onde depois aparecerá o rei David, o rei Saul, mas Samuel, o profeta Samuel, ainda é dito como o último dos juízes. Portanto, este tempo dos Juízes é o período de alguns séculos que trata destes primeiros passos desta vida de um povo que ainda não está unificado, ainda está profundamente dividido em várias tribos, que só depois mais tarde serão unificadas, graças à monarquia.
Há uma tentativa de reconstituir a cronologia que aponta mais ou menos para os anos 1400 até 1000 a.C. Até que ponto é que isto pode ser uma cronologia válida do ponto de vista histórico?
Aproximativamente, terá algum valor, mas é também muito difícil situar o Êxodo e o que é que foi o Êxodo. Isso já foi falado em vários programas. A data mais provável para aquilo que tenha sido o Êxodo, ou seja, a saída de Israel do Egito, será por volta do século XIII, 1200 e tal. E portanto, estamos aqui por volta destes anos, 1200 e tal, 1100 e tal, nestes finais do segundo milênio a.C.
João, a palavra juiz, que é usada aqui neste contexto, não tem exatamente o mesmo sentido
Que lhe daríamos hoje. Hoje, quando pensamos num juiz, pensamos num magistrado no tribunal.
Que depois de estudar muito, vai julgar pessoas através de um código claro e distinto, se calhar não seria necessariamente isso. Ou seja, o juiz aqui vem de uma expressão hebraica, que eu espero conseguir dizer mais ou menos direito, que é "shophet", que deriva do verbo hebraico "shafat". O professor de hebraico concorda. É uma espécie de campo lexical e vocabular muito mais vasto que propriamente o magistrado. Nós estamos a falar de alguém que governa, salva, liberta, media conflitos, quase um pequeno chefe tribal, que está ali como uma espécie de garante da ordem.
Já neste início, quando o Daniel estava a caracterizar um pouco este período, não falámos muito em detalhe sobre isso, mas é um período de grande caos, grande desintegração social.
Sim, os próprios juízes são também fruto desse caos e dessa agitação social. É verdade que o livro às vezes tem episódios que têm uma estrutura muito repetitiva, o que refere já algo que já vimos em outros episódios, que é uma certa estrutura cíclica do tempo, que já abordamos em outros episódios, mas também remetendo pra primeira temporada. Nós vimos que a certa altura, o povo se entendia como um povo numa terra, com uma lei, com um rei. Nós, neste momento, temos uma terra que está conquistada, mas não está. Nós não temos rei, nós não temos um exército, nós não temos propriamente uma capital.
Não há hierarquia.
Exatamente. Portanto, há aqui claramente uma fragmentação social que vai procurar ser resolvida através destas figuras que são os juízes, são figuras policromáticas, polifônicas. Uns conseguem o seu objetivo, outros não, são libertadores, mas que claramente, como disse o Daniel, estão aqui numa postura de transição para o período monárquico, e é talvez o seu lugar essencial aqui na Bíblia.
Sim, e apesar de Juízes ser um livro muito diferente de Josué, todos estes livros do Deuteronómio pra frente, até ao segundo livro dos Reis, são livros dentro deste enquadramento deuteronomista. História deuteronomista é um rótulo que se costuma aplicar a estes livros: Deuteronómio, Josué, Juízes, primeira e segunda Samuel, primeira e segunda Reis, que todos refletem um certo esquema de pecado, deslealdade para com Deus, consequentemente castigo e opressão pelos povos estrangeiros. Depois, no caso do livro dos Juízes, Deus suscita um juiz localmente, neste contexto particular desta guerra que esta tribo X ou Y está a ter contra os filhos de Deus, para poder salvar o seu povo, e aí acontece a reconciliação. Isto ciclicamente.
Exato. No livro dos Juízes aparecem 12 protagonistas que têm este título de juiz. Curiosamente, nessa lista aparece apenas uma mulher, que é Débora, e é muito conhecida por esse facto. Estes juízes, estão aqui 12, mas imagino que seja relativamente simbólico. Pode ter havido mais figuras destas, podem não ter sido necessariamente históricas. Já dissemos várias vezes, a Bíblia é um livro literário, narrativo, com uma base histórica, mas literário e narrativo. Faz-se aí da questão de Débora, realmente dentro destes 12 juízes é a única mulher, mas é preciso abrir um bocadinho a lente para entender o lugar de Débora aqui. Pode ser entendido, claramente, e há autores que o entendem como uma espécie de crítica a uma sociedade excessivamente patriarcal e, portanto, até no episódio de Débora, o facto de ela ter com ela uma espécie de general, de um chefe homem, que tem medo, e Débora é a pessoa que claramente tem coragem de ir pra frente, nós se calhar temos que abrir um bocadinho a lente e ver que Débora, como o próprio Gedeão, como o próprio Eúde, são juízes que querem mostrar que Deus escolhe pessoas marginalizadas. Débora é uma mulher, uma condição marginal à época. Eúde é quengoto, não é propriamente uma condição. Mas temos que entender isto no contexto e, por exemplo, o próprio Gedeão é uma espécie de um medricas, com síndrome do impostor. São pessoas claramente que têm algumas condições que os colocam à margem da sociedade patriarcal e que se calhar não estaríamos habituados a ver com esta frequência. Mas atenção, acabei de dar uma cena pra cortarem e dizerem que o padre associa ser mulher a ser quengoto. Portanto, é interessante.
Daniel, Sansão aparece aqui justamente nessa lista de 12 juízes, até é o último que aparece nessa história cíclica, embora, como disseste há pouco, depois Samuel venha a ser considerado o último deste período.
Se calhar vamos então tentar compreender melhor a história de Sansão e Dalila e começar por saber quem era o Sansão.
Sim, de facto. O João dizia polifónico, poliédrico, enfim, a palavra juiz tem um campo um pouquinho abrangente, porque na ação de Sansão, que é sobretudo guerrear contra filisteus, vemos coisas muito diferentes que vemos em alguns outros, por exemplo, Débora, que tem também uma função de aconselhamento e até julgamento de casos concretos do povo. Aí até se aproxima mais do que consideramos juiz. Portanto, são estes líderes carismáticos, suscitados por Deus, para situações concretas. Sansão aparece aqui muito em confronto com os filisteus, como aliás outros juízes, e estes filisteus são aqui vistos como o grande inimigo. Isto já nos situa num tempo concreto, porque embora seja sempre difícil perceber exatamente o tempo histórico, o contexto histórico, sabemos que estes filisteus aparecem por estas alturas, 1200 e tal, século XIII, e portanto será uma boa altura para balizar este tempo concreto do livro dos Juízes. E vêm estes filisteus vindos da zona do mar Egeu e vão dominar, sobretudo a zona costeira, onde hoje é, por exemplo, Gaza, Ashkelon, Ashdod, algumas cidades dos israelitas, e aí vão instalar o seu centro de poder. Como são mais evoluídos e mais avançados tecnologicamente, há uma grande superioridade aparente dos filisteus e, portanto, é nestas escaramuças concretas que os reinos se dão.
E que aparece ali Sansão, esta figura. Há aqui, pelo menos, dois dados que podemos retirar do texto. O aparecimento dele é que, tal como muitos casos ao longo da Bíblia, o nascimento dele é de certa maneira milagroso. A mãe dele seria estéril. E é uma pessoa muito especial, porque é consagrada a Deus logo desde o início, segundo a lei antiga. Parece-me que é daí que vem a história dele, por exemplo, não poder cortar o cabelo.
Sim, isso já vem anunciado por este mensageiro, por esta espécie de anjo que aparece aos seus pais, à sua mãe, em particular, e corresponde um pouquinho a um padrão que já vemos, de forma mais óbvia para nós hoje, talvez, no anúncio do anjo a Maria, no Novo Testamento, mas que já aparece também à mãe do profeta Samuel, também a Sara.
Que já falámos em Abraão.
Tem uma espécie de padrão literário que já nos anuncia algo de especial. Neste caso, há uma série de preceitos que têm a ver com consagração. Em hebraico, utiliza-se mais esta palavra nazir ou nazireu. É um termo que aqui aparece para dizer esta condição que terá o filho, Sansão, portanto, uma espécie de consagrado. Isso implica uma série de preceitos, como não beber bebida alcoólica, não passar a navalha pela cabeça, ou seja, não cortar o cabelo, que são sinais dessa consagração, que geralmente é uma coisa temporária, e isso está descrito e explicado na Torá, no Livro dos Números, no Pentateuco, mas aqui parece ser uma condição permanente. Portanto, Sansão é assim consagrado toda a sua vida e isso vai lhe proporcionar o favor divino, que no seu caso, se concretiza numa força extraordinária.
Podemos traduzir como uma espécie de enviado de Deus para aquele povo. É essa a ideia que traduz essa consagração?
Sim, é sempre uma missão. Para nós será mais fácil associar isso a uma vertente mais religiosa, enquanto o que vemos aqui no texto é sobretudo força bruta e combate muito desigual contra os filisteus. Vemos Sansão a matar ali centenas de filisteus, a utilizar aqui umas armas um pouquinho primitivas e derrota facilmente os seus inimigos. Portanto, tem alguma estranheza, mesmo dentro do Antigo Testamento, em toda a Bíblia, o episódio e a vida de Sansão é muito estranho no que tem de maravilhoso.
Muito bem, as coisas vão começar a complicar-se para Sansão quando ele se apaixonar por uma filisteia, uma mulher do tal povo inimigo que o Daniel estava a descrever. E quando ele se meter numa aposta que vai acabar por perder, mas vamos ter que deixar isso para a segunda parte deste episódio. Nós voltamos já a seguir a um curto intervalo. Até já. Segunda parte de "As Histórias da Bíblia", com os padres João Basto e Daniel Nascimento. Ora, nós, na primeira parte, estávamos a falar do contexto do período dos juízes e também do nascimento de Sansão, o nascimento milagroso e também consagrado de Sansão. João, é uma pessoa que nasce já num contexto muito particular e muito especial.
Sim, é particular. Nós fazemos, como o Daniel disse, esta relação claramente de Jesus Cristo ser uma espécie de novo Sansão. Como Sansão procurou, mesmo que imperfeitamente, libertar o povo, Jesus liberta o povo também e nasce num contexto de esterilidade, como nós já referimos. No entanto, esta questão do cabelo, que é muito conhecida, ligando ao que o Daniel já disse de Sansão ser um nazireu, alguém consagrado a Deus, mostra que se calhar o segredo de Sansão não é necessariamente o cabelo. O cabelo é uma das partes, porque o voto do nazireu, do consagrado, tinha um conjunto de prescrições. E ao longo dos episódios, Sansão vai incumprindo em vários, como a questão da pureza, mesmo da pureza sexual.
Não podia tocar nos cadáveres.
Não podia tocar nos cadáveres, da questão do próprio vinho. E quando lhe cortam o cabelo, não é que ele perca a sua forçaToda só por si, como aqueles navios que vão naufragando porque as várias comportas já estão cheias.
É o culminar da infidelidade.
É o culminar da infidelidade. Nós associamos ao cabelo, mas realmente, se Sansão abstratamente tivesse o cabelo rapado, mas tivesse os outros votos ainda invioláveis, se calhar a situação não se tinha degradado.
Muito bem. Daniel, eu estava a dizer no final da primeira parte que a história de Sansão vai começar a complicar-se quando ele se apaixona por uma mulher do povo inimigo, não é?
Sim, a história de Sansão começa logo a complicar-se. O João diz aqui uma coisa que talvez nos possa induzir em erro, porque de facto esta ideia que dizíamos aí há bem dos juízes, uma espécie de libertadores, de líderes, para libertar o povo face à opressão inimiga. Se olharmos pra história de Sansão, a gente não vê isso. Ele não parece estar a libertar o povo, ele está a lutar por si.
Sim, é uma grande diferença até de outro juiz. Ele parece estar a vingar-se pessoalmente.
Parece uma história até diferente e aqui inserida de forma mais ou menos artificial. Este Sansão é muito parecido com o Hércules da mitologia grega e até de outras coisas também da antiga Mesopotâmia, porque é um homem imaturo, quase um adolescente, uma força bruta extraordinária, e já referimos isso, que ele vence não sei quantos filisteus e pega com uma queixada de um burro, mata uns quantos. Parece ter uma força prodigiosa, mas os relatos da sua vida são sempre umas paixões, primeiro por uma mulher filisteia, mas depois é inconstante, depois é enganado por elas. É sempre muita força bruta, mas muita pouca inteligência prática pra resolver os problemas, porque os tais filisteus vão aproveitar esta paixoneta de Sansão por mulheres filisteias, que aliás, é completamente proibida à luz deste enquadramento legal, para através dessas mulheres filisteias, tentar extrair o segredo da fonte da sua força.
Então, mas vamos contar a história pra seguirmos aqui mais ou menos a narrativa que surge na Bíblia. O que acontece exatamente quando ele se apaixona por uma mulher filisteia e vai tentar casar com ela?
Exatamente. Mas depois os filisteus, como não conseguem derrotá-lo, vão comprar essa mulher pra ela tentar extrair o segredo. Por que Sansão é tão forte? Por que ele é tão invencível? E a mulher tenta extrair esse segredo e lá consegue usando as suas artimanhas.
Mas isso não é aquela história de uma espécie de uma aposta ou de uma charada com que ele engana os filisteus antes de chegarmos à história de Dalila?
Sim. A primeira é uma filisteia e isso acontece. Depois também há aqui no contexto de uma espécie de um banquete de casamento.
Exato. Esse episódio eu acho magnífico.
Dá uma charada impossível, quase que parece aquela do Tolkien, do "Hobbit", em que o Bilbo pergunta: "O que eu tenho aqui no meu bolso?" Ninguém poderia saber a resposta a isso. E aqui também a resposta certa é uma coisa que seria impossível qualquer outra pessoa saber, porque Sansão tinha derrotado ali um leão.
Exato. E ele faz uma espécie de uma charada, uma aposta com os filisteus.
Mas, de facto, ganham porque subornam essa mulher que lhe conta esse segredo. E este Sansão a ser enganado pela mulher, que tinha sido subornada pelos inimigos, é um tema que se vai repetir de forma mais famosa com a própria Dalila.
Mas ele depois desse engano, de ser enganado pela mulher e depois ser enganado pelos filisteus e acaba por perder a aposta que ele faz. É nesse momento que ele basicamente se passa da cabeça e massacra mil filisteus.
Sempre números muito exagerados.
Este caos todo é importante pra irmos construindo a personagem.
Sim, ou seja, Sansão, há este episódio da primeira filisteia com quem ele se apaixona, depois acaba por separar. Há aqui um conjunto de episódios, ele acaba por ir a Gaza. Há uma referência de que ele acaba por conviver com prostitutas durante algum tempo. Quando chega a Gaza, a primeira coisa que faz, diz o texto, é ir ter com prostitutas. Depois é que vem Dalila, cujo episódio é um bocadinho decalcado do primeiro amor com a filisteia, o que mostra claramente, como o Daniel dizia, que isto é um adolescente que não aprendeu com os erros. Quer dizer, podia ter aprendido com a primeira namorada, não aprendeu, cometeu o mesmo erro na segunda. E a própria Dalila surge aqui e diz coisas que não seriam estranhas a nós.
Mas quem era a Dalila?
A Dalila é uma filisteia, pela qual Sansão se enamora e que vai também tentar conhecer o segredo, que o Sansão tenta adiar a revelação, até ao ponto em que a Dalila diz-lhe coisas que nós certamente já teremos ouvido ou teremos amigos nossos e amigas terão contado. A Dalila chega uma altura que lhe diz: "Como podes dizer que me amas se não confias em mim?" E portanto, isso leva Sansão a ficar quase entre a espada e a parede e a ter que lhe revelar o segredo que ele diz ser o cabelo.
Mas há um aspecto interessante nessa narrativa que é: passam-se vários dias nessa relação.
Sansão mente três vezes.
Exatamente. E Dalila, eles apaixonam-se, têm ali uma relação e os filisteus, como querem capturar Sansão, vão ter com a Dalila e dizem: "Olha, tenta lá saber o segredo do Sansão".
Por uma quantia enorme de prata, subornam a Dalila.
E à primeira vez, ele diz-lhe-
São sete cordas tripa fresca.
Exatamente. E nessa noite eles aparecem pra tentar usar esse segredoE percebem que afinal tinham sido enganados. À segunda noite, ele diz-lhe outra coisa.
Sim. E os filisteus voltam a aparecer.
E o Sansão não percebe o que é que lhe vai acontecer?
Já dissemos que o rapaz é um adolescente imaturo. O que a gente vai fazer? Ele se calhar estava mesmo apaixonado e não via claramente. Já nos aconteceu. Já reparaste, ela está-te a enganar.
É uma relação tóxica.
É uma relação tóxica, podíamos meter isso no podcast.
E quando a dada altura Dalila diz: "Conta-me lá o que é que..."
Só ela é que podia ter revelado, mas ele não entende isso.
E ele diz: "Se me raparem o cabelo, venci". E nessa noite aparecem os filisteus e derrotam-no.
Derrotam-no, prendem-no, cegam-no. Tiram-lhe os olhos, a vista. E talvez seja nesse momento em que Sansão está preso a um templo, que Sansão se torna realmente, de certa maneira, um juiz, no sentido de tentar pedir realmente a Deus para o ajudar. O próprio verbo que Sansão utiliza a invocar Deus nesse momento para o ajudar, parece já distante daquela história de pura vingança pessoal que ele tinha para com os filisteus.
Os filisteus quando o capturam levam-no para o templo da cidade de Gaza. E é lá que o acorrentam.
E ele pede: "Só desta vez, Senhor, dá-me uma força para eu destruir tudo". E é aí que Sansão derruba as colunas do templo, mata milhares de filisteus.
Morre também.
Morre também. É o último sopro, a última tentativa de Sansão de, pelo menos uma vez, ser fiel a Deus.
Mas há aqui aspectos quase mágicos. Ou seja, é quando o cabelo começa a crescer que essa força volta. O texto bem vai dizendo que é Deus que está com ele ou que deixa de estar com ele e portanto, no fundo, que essa força prodigiosa vem de Deus. Mas todos estes aspectos sublinham um carácter muito folclórico, com cores que nos parecem pouco bíblicas. Parece-nos enquadrar quase mais nestes relatos um bocadinho fantásticos da tal mitologia grega ou de outros países do que propriamente no resto dos textos bíblicos.
Eu até cheguei a ler uma vez num autor que falava do Sansão como uma espécie de Robin Hood, mas de certa maneira fracassado, que se traiu a si mesmo. Sansão tem aspectos de trickster. Já falámos aqui várias vezes desta figura da pessoa que faz enigmas, prega partidas, que engana repetidamente o inimigo, mas é um trickster trágico, porque é alguém que de certa maneira falha na sua própria armadilha e portanto é alguém claramente estranho no contexto da Bíblia em geral.
Há bocado dizíamos um tipo relativamente imaturo, muito movido pelo seu... Estamos aqui mais ou menos a chegar ao desfecho da história de Sansão. Ele traído duas vezes pelas duas mulheres por quem se apaixona. Elas conseguem retirar-lhe o segredo, passá-lo aos filisteus e os inimigos finalmente apanham-no. Claro que a segunda história é mais trágica do que a primeira, porque a primeira os filisteus queriam que a mulher basicamente conseguisse extrair a Sansão a resposta do enigma que ele tinha feito na festa do casamento, basicamente pra ele perder a aposta. Agora foi mesmo pra o capturar e pra o matar. A história de Sansão parece ter um desfecho relativamente insatisfatório. Ou seja, ele realmente mata toda a gente que está no templo, mas isso não quer dizer que derrote os filisteus. Ele também acaba por morrer e a história do povo não parece estar melhor depois da intervenção de Sansão do que estava antes.
Por isso tudo percebemos que Sansão e Dalila são uma grande nota de rodapé no esquema geral da história. Ou seja, não é a dinâmica histórica e narrativa fundamental destes livros, que depois será no final deste tempo de juízes, a Samuel, que vai ungir um rei, etc. Mas são personagens tão folclóricas, tão coloridas. Quer de Sansão, nesta sua grande força, grande poder, que é invencível, mas tão ingénuo, tão infantil, de Dalila, que é esta mulher de quem se sabe pouco. É curioso, porque o texto até nos diz que Dalila é só uma mulher que habita aqui no vale de Sorec, que nem nos diz especificamente que era uma mulher que era filisteia. Mas uns versículos antes, Sansão está com uma prostituta, portanto já dá uma forma que ficamos com a ideia de que se calhar também era uma mulher de má vida, uma femme fatale. Fica um bocadinho mais o colorido de uma história fantástica do que propriamente uma grande dinâmica de fundo bíblica.
Por que será que ficou tão célebre, tão famosa? É a história do cabelo que é rocambolesca, é a personagem, é o facto de ser uma história de paixões e de amor entre Sansão e Dalila?
Talvez um bocadinho isso, tudo isso. E talvez isso nos ajude a perceber que a Bíblia não é um livro de doutrinas, de leis, de catequeses, no sentido mais de instruções específicas sobre a fé e sobre Deus, mas de histórias, de acontecimentos, de personagens. E há personagens que, ainda que sejam secundários no grande esquema dos acontecimentos, são de tal forma pitorescos que vão cativando.
Nós vivemos aos pés daqueles personagens. Eu lembro-me de ser adolescente e de meu pai me dizer coisas assim semelhantes. Nós podíamos dizer ao
Do Sansão, que é: tu não sabes a força que tens. Quando nós somos adolescentes, não sabemos ainda, muitas vezes, medir as coisas, o que dizer, o que fazer, quando ir ter com aquela pessoa. A regra, a moderação e o Sansão é um bocado o exemplo disso. Aliás, o John Milton, que escreveu "O Paraíso Perdido", o grande autor inglês, a certa altura da sua vida, traído e perseguido por Cromwell, sentiu a necessidade de escrever um poema precisamente com a ideia do Sansão, a pessoa que é traída, que como Sansão vive numa espécie de limiar. Sansão não tem companheiros, não lidera tropas, vive entre povos, naquela zona fronteiriça. Ao mesmo tempo, está entre o homem e o animal, porque tem uma força bruta animalesca, luta com leões, mas depois não sabe lidar com os seres humanos mais simples, não consegue perceber a perspicácia das relações. E creio que isso também nos ajuda a entender claramente a complexidade que, embora seja secundária, é uma complexidade antropológica.
E por isso mesmo proporciona uma espécie de modelo pra coisas tão diferentes como servir de dar o nome a operações militares de Israel do século XX e XXI, Operação Sansão, destacando a força de uma operação militar num contexto de guerra moderno, como, por exemplo, nos intérpretes cristãos ao longo dos últimos 2000 anos, sobretudo nos padres da Igreja, sempre desejosos de ver em todos os lugares da escritura algo de anúncio da vinda do Messias, algo de Cristo aí, e que veem também este sacrifício de Sansão, que manda abaixo o templo sacrificando-se a si próprio para derrotar os inimigos como uma espécie de prefiguração do sacrifício de Cristo na cruz.
São Jerónimo até diz que o Sansão está colocado entre duas colunas, como Jesus Cristo está colocado entre dois ladrões.
Entre dois ladrões. Aqui um aspecto que vinha na sequência da pergunta que o Daniel estava a fazer há bocado. O texto, apesar de morrerem todos os filisteus que estavam dentro do templo, não derrota a totalidade do povo filisteu. Essa missão é deixada para um pouco depois, para o rei David. Vai ser o rei David que vai subjugar definitivamente os filisteus. O facto da história também, de certa maneira, parecer incompleta ou acabar assim, deixando uma pista para o que vem a seguir, é uma forma deste texto deixar a tal machadada final, entre aspas, para o rei David, que depois vai ser uma figura central da história dos judeus?
Não sei, mas há uma incompletude no Livro dos Juízes, neste tempo dos juízes, que como leitores vemos que não é por aqui, falta aqui qualquer coisa, porque há constantemente um povo que é salvo, que é libertado, mas que depois volta a cair na mesma infidelidade, no mesmo pecado. E, portanto, é só nos livros seguintes em que vamos ver uma solução com ar mais de definitivo, em que há concretamente depois uma aliança específica com Deus.
Um desfecho mais concreto. João, como dissemos no episódio sobre Caim e Abel, este episódio de Sansão e Dalila, nas milhares de páginas da Bíblia, não ocupa mais do que três ou quatro páginas. É um episódio mesmo muito curto. Faço a pergunta que há pouco comecei por fazer ao Daniel: como é que esse episódio se tornou tão famoso, tão conhecido na nossa cultura, até mesmo na arte, na música, na pintura? Há tanta coisa sobre Sansão e Dalila. Os miúdos quando recebem uma Bíblia pra crianças ou quando se vê nos filmes, é dos episódios que lá aparecem. Como é que se explica isto?
Realmente, a Bíblia, como é grande literatura, talvez isto seja aquilo que vamos ter colocado numa t-shirt.
Dizemos em todos os episódios.
Tem uma dimensão narrativa que supera, não quero usar termos polêmicos, mas a Bíblia, claramente, como códice do mundo ocidental, criou uma espécie de mitologia. E estas figuras, para crentes e não crentes, mas acima de tudo para não crentes, são figuras mitológicas que, de certa maneira, representam paradigmas da existência humana. E Sansão representa um desses paradigmas. Mesmo assim, no século I, por exemplo, Flávio Josefo, que é um dos grandes historiadores judaicos, ainda, e apesar daquilo que já vimos sobre Sansão, fala de Sansão como até um certo exemplo de virtude. Ele é até referido na Carta aos Hebreus, que precisamente não é bem uma carta, como até uma pessoa dentro dos heróis da fé, até às vezes sem qualquer comentário, face aos seus defeitos. Agora, realmente, na cultura, Sansão ocupa um lugar especial, porque faz esta relação entre força e fraqueza, entre amor e traição, humilhação e redenção, que, por exemplo, o Camille Saint-Saëns, que já tinha composto também uma oratória de Natal, vai aproveitar pra uma ópera precisamente sobre Sansão e Dalila.
Famosíssima.
Famosíssima, Sansão e Dalila, podemos meter no final do episódio. Mas o mesmo John Milton, já falamos, esta ideia, claramente, que nós podemos sintetizar na pergunta: Deus abandona-me ou eu estou à espera de algo mais? E parece que realmente Sansão está aqui, como tu disseste, pela sua incompletude da história. Existe uma grande derrota, mas na verdade aquilo não dá em nada, é uma colheita que dá pouco vinho. Claramente nós lemos a história e percebemos: isto terá que ter aqui alguma continuação. É uma espécie de prequela, pode-se ler como a prequela daquilo que irá acontecer depois em Samuel 1 e 2 e por aí adiante.
Não podemos ficar só por ali. Muito bem, nós chegamos ao fim do quarto episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia" e na próxima semana vamos falar da protagonista de um pequeno livro em nome próprio, Rute, uma das mulheres mais importantes do Antigo Testamento. E já sabem, podem enviar-nos perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt e nós responderemos a essas perguntas todas as quintas-feiras num episódio especial que fica disponível apenas em podcast. Portanto, não se esqueçam de seguir o podcast "As Histórias da Bíblia" nas plataformas habituais de podcast e também no site do Observador, pra poderem ter acesso não só a estes episódios que fazemos aos domingos, mas também aos episódios especiais às quintas-feiras. Até pra semana, aqui na Rádio Observador, e até quinta-feira em podcast. "As Histórias da Bíblia" é um podcast da Rádio Observador com Daniel Nascimento e João Basto. É apresentado por mim, João Francisco Gomes, e a música do genérico é de Tiago Afonso.