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Pedro Lino, bom dia, cá estamos de novo. Taxas de juro são essenciais, sabemos disso. A definição delas compete ao Banco Central Europeu. Tem havido muitos avanços e recuos sobre isto, em função de acontecimentos globais, como sabemos, sobretudo que têm a ver com processos inflacionistas. O que podemos dizer sobre o momento atual do ciclo dos juros?
Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, os juros nos últimos quatro anos têm oscilado bastante, muito a ver com o preço da energia, o preço do petróleo, que tem influenciado bastante e este ano vimos outra vez. Mas primeiro vamos perceber o que é a taxa de juro. A taxa de juro, na realidade, é o preço do dinheiro. Por isso, quando a economia cresce demasiado depressa e a inflação sobe, o BCE aumenta o custo do dinheiro. Por quê? Porque é uma tentativa de travar o consumo e o investimento para ver se as famílias gastam menos, as empresas investem menos e a economia abranda. O objetivo, atenção, não é criar uma recessão, não é que a economia venha abaixo, é que ela acelere, mas de uma forma mais lenta, de forma a controlar a inflação, porque se temos muita procura, temos também que dar espaço para que a oferta se adeque à procura, para que os preços não disparam, como estamos, por exemplo, a ver agora nos preços das memórias, que dispararam mais de 900%. Este é um dos exemplos típicos do porquê que o Banco Central tenta, através dos juros, controlar a inflação.
Hoje, há milhares de famílias que acompanham a evolução dos juros do BCE, porque é determinante para as vidas delas, sobretudo em termos de crédito à habitação, não é?
Sim, e cada vez mais. Este ano volta a acontecer as pessoas estarem muito focadas no que o BCE está a fazer, porque tivemos a guerra do Médio Oriente, que alterou este cenário de uma inflação mais sob controle. A inflação superou os 3%, o preço do petróleo subiu bastante, os custos de energia também, e o BCE decidiu em junho subir as taxas de juro. Em julho, não subiu. Por isso, o que aconteceu? O petróleo também tem vindo a recuar. A inflação já começou a ficar abaixo do esperado, mas eu acho que ainda há muitos responsáveis do BCE a defender uma abordagem mais por dentro. Por isso, é possível que, dependendo dos dados que vão ser conhecidos no início de setembro, que ou em setembro, ou em outubro, ainda exista mais uma subida das taxas de juros, mas já não é aquele cenário de subir até aos 3%, como era há cerca de um mês e meio.
Como se tinha colocado nessa altura.
Exatamente.
E há esta questão que se coloca: como é que o BCE toma a sua decisão? É olhar pelo retrovisor, isto é, para trás, para a estrada que já fez, ou está focado na estrada que está à frente?
Essa é uma boa questão, porque às vezes as pessoas perguntam: "Bem, mas se o petróleo já desceu, por que o BCE não começa já a baixar os juros?" E aqui é uma questão que temos que explicar. É que a política monetária funciona com atraso. Eu tomo uma decisão hoje, as taxas de juros baixam hoje, mas depois elas têm também efeitos ao longo dos próximos meses. É certo que as Euribors já se vão ajustando e já vão antecipando o cenário de subida ou descida dos juros, mas o efeito na economia não é imediato ou ele perdura no tempo. Por isso, o que o BCE olha não é só para os preços da energia, é também para algo que vai acontecer agora entre setembro e outubro, que é a renegociação dos salários para 2027. E se por acaso começar a existir uma pressão para aumentos salariais mais elevados, as empresas vão ter que repercutir esses preços nos produtos, a inflação pode tornar-se outra vez persistente. Por isso, é preciso ter muito cuidado e o que o Banco Central Europeu quer é ancorar expectativas de inflação para que isto não entre em roda livre e não se descontrole.
Claro. Sobre estas questões, o que vai dizendo o FMI?
O FMI acredita que a zona euro também vai crescer menos este ano. O choque energético também é temporário, mas deixa marcas, ou seja, menos confiança, o crescimento bastante mais fraco e inflação acima do objetivo do BCE, o que coloca o BCE numa posição difícil, porque se nos lembrarmos, o BCE tem um mandato, que é controlar a inflação e mantê-la à volta dos 2%. Não é tanto o crescimento, se bem que, obviamente, também devem ter isso em consideração, mas se baixar as taxas de juro muito cedo, a inflação pode voltar a acelerar e neste cenário de incerteza, que é temos conflito no Médio Oriente, não temos, o preço do petróleo sobe e desce 20%, provavelmente o BCE vai se manter mais conservador.
E podemos também cenarizar o que isso significa para as famílias, não é?
Sim. Para as famílias que têm o crédito à habitação, a boa notícia é que é menos provável que os juros subam até aos 3%, por isso vão subir, provavelmente, mais um bocadinho.
Mais um quarto de ponto talvez, não é?
Sim, mais um quarto de ponto, mas isso já é uma boa notícia. A notícia menos boa é que aquele cenário de taxas de juro zero que nós tínhamos até 2021, isso acabou, não é possível, e então negativas, muito menos. Para quem tem poupanças, os depósitos e as obrigações continuam a oferecer remunerações muito mais interessantes do que há cinco ou seis anos, que era zero. Mas mesmo assim, como também vimos no podcast anterior, os depósitos a prazo e até os certificados de aforro muitas vezes não compensam sequer a inflação. Quem investe em ações, as taxas de juro a longo prazo tendem a aumentar a volatilidade, mas atenção, as empresas, também como já vimos, continuam sempre a beneficiar do crescimento nominal da economia. Ou seja, se tivermos uma inflação maior, elas também vão arrecadar mais euros e por isso os resultados por ação também vão ser superiores e isso acaba por estar refletido depois no preço das ações e por isso é que vemos os mercados a subir.
A subir dessa forma. O que podemos dizer para fechar este tema?
Eu acho que entramos numa nova era das taxas de juro, o dinheiro gratuito ou negativo que nós conhecemos durante quase 10 anos, isso praticamente acabou. Mas também não devemos ter taxas muito elevadas, porque vimos que quando o BCE subiu os juros até aos 4%, que a economia derrapou completamente e por isso vamos ter que viver aqui num equilíbrio entre os 2% e os 3%. São taxas de juro mais normais, era aquilo que tínhamos no início do ano 2000, e isso obriga a fazer com que as famílias tenham que planear melhor, comparar alternativas melhores e tomar decisões financeiras mais conscientes, porque se as taxas de juro se vão manter à volta dos 2% a 3%, é completamente diferente de termos dinheiro completamente gratuito. Por isso, há que ter muito cuidado quando, principalmente, temos um crédito a muito longo prazo.
Muito bem, Pedro. Voltaremos para a semana. Obrigado, bom fim de semana.
Obrigado, bom fim de semana e quem for de férias, boas férias.
Boas férias para todos, claro.