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Já percebeu, está no ar o Boa Moeda, Má Moeda. Nos próximos minutos falamos daquilo que mexe com as nossas economias. Paulo, vamos à boa moeda.
Vamos lá. Ainda se lembram do IVAucher?
Sim.
Aquele sistema que descontávamos durante uns meses à nossa desvantagem.
Ainda há senhorios.
Pois. Utilizaste?
Depois recebi, não, porque era o Estado.
Nunca viste o teu dinheiro, exatamente. O Estado é que deixou de te cobrar IVA para permitir que esse montante que acumulaste depois pudesse servir para pagar metade de algumas refeições e hotéis. Era isso. Só que algum desse dinheiro que as pessoas foram acumulando ali durante os meses de verão, as pessoas deixaram que uma parte do saldo ficasse por utilizar, não utilizaram, porque o sistema era complicado e muitos estabelecimentos não aderiram, foram poucos que aderiram. E a boa notícia é que esse saldo que ficou ali acumulado vai poder ser utilizado, vai transitar para as deduções do IRS, agora no acerto de contas.
Muito mais boa moeda.
É muito bom. E portanto vai reduzir um bocadinho o imposto a pagar.
Então um bocadinho, estamos a falar de quanto? Se é um bocadinho.
É um bocadinho para cada um. Atenção, depende daquilo que cada um acumulou.
Se for centrinho.
Atenção, isto não é tudo para vocês. No total, aquilo que ficou por utilizar foram 11 milhões de euros. Os portugueses todos que acumularam e que não utilizaram 11 milhões de euros.
Portanto, há assim uma média de 1 € e pouco por cada um.
Por cada um, se fosse por todos.
Se fosse mesmo por todos.
Estás a perceber. Mas ainda por cima, calma, destes só 15% é que vão ser deduzidos à coleta de IRS. Por quê? Da coleta, isto é, do imposto a pagar.
15%? Isto é o quê? Um milhão e meio?
Um milhão e meio, um milhão e 600 mil. Muito bem, essas contas de cabeça estão muito boas.
Foi assim fácil, 15%.
É verdade.
Se fosse 18% ou 17%, já ficava difícil.
Já era mais complicado. Portanto, é 1 milhão e 600 mil € que vão ser então deduzidos. E por que só 15%? Porque eu não vou a vocês.
Por que só 15%?
Muito bem. Porque é essa a porcentagem que é tida em conta quando se faz o cálculo das deduções à coleta pela exigência de fatura, naquele sistema do e-fatura. Quando o e-fatura não é tudo transferido para deduções no IRS, são 15%. Portanto, nestas coisas não há nada que enganar. Funciona sempre, mas sempre, o princípio menos favorável ao contribuinte.
Já estamos a resvalar para a má moeda. Já no jeito da má moeda.
Nunca há picos aqui.
Nunca.
Nunca se atinge o pico. Tem essa vantagem.
Exatamente.
Paulo, então o que está na má moeda?
Má moeda, olha, o Banco Central Europeu reuniu ontem, as taxas de juro mantiveram-se, foi a decisão, já era mais que esperado. Mas a pressão é muita para que o BCE comece, de facto, a olhar para a inflação e a assumir que ela veio para ficar. Mas mesmo sem mexer nas taxas de juro, bastaram algumas palavras da presidente do BCE, Christine Lagarde, nesse sentido, para que os juros começassem a subir.
É o bater da borboleta, não é? Basta falar, antever uma subida de juros no futuro e lá está, as coisas acontecem logo.
As coisas acontecem, não é preciso fazer nada. Basta um microfone à frente. É isso mesmo. E os banqueiros centrais têm essa função, de facto, ou têm esse poder de fazer mexer os mercados com palavras. O que disse Christine Lagarde? Disse que os banqueiros centrais do euro, isto é, os presidentes ou governadores dos bancos centrais todos à volta daquela mesa, nomeadamente o português Mário Centeno, que manifestaram, disse ela, e estas foram as palavras-chave: uma preocupação unânime com a inflação, que subiu bruscamente nos meses recentes e surpreendeu ainda mais em janeiro. Isto foi o que ela disse. O que toda gente leu daqui, os mercados, que de facto estão preocupados e que vão agir futuramente subindo as taxas de juro. A partir daí, a dívida alemã viu os juros subir e as dívidas dos restantes países também foram todas atrás. No caso de Portugal, por exemplo, as obrigações a 10 anos, isto é, os empréstimos a 10 anos que o Estado tem feito, tiveram as taxas de mercado subir de 0,7 para 0,85%. Isto significa o quê? Que a partir daqui virá tudo por contaminação e por arrasto com os juros cada vez, gota a gota, juros cada vez maiores. Mesmo antes do BCE os subir, os mercados têm esta terrível mania de tentar antecipar tudo aquilo que vem lá à frente. Não podem ver nada. Neste caso, não podem ouvir nada.
Boa moeda, má moeda, sempre com o Paulo Ferreira, depois das 17:30, e à hora quiser, em podcast.