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Já temos conosco o Pedro Lino e era inevitável, depois do conflito no Médio Oriente com os ataques ao Irão, Pedro, falar daquilo que podemos esperar dos mercados nos próximos tempos.
É verdade. Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. Este foi um conflito que aumentou a tensão geopolítica e normalmente quando temos estas tensões, existe mais estresse, mais receio, mais incerteza e por isso muitas vezes as pessoas pensam: "Bem, devo vender, os mercados vão baixar, devo esperar até ter mais clareza, o que eu faço?". Acho que primeiro devemos colocar este evento numa perspectiva histórica, que é: nós já passamos por isto. Foi a Guerra do Golfo, o 11 de Setembro, guerras no Médio Oriente, inclusive entre Israel e Hamas, Israel e Hezbollah, a invasão da Ucrânia, tensão entre as grandes potências, recordo China e Taiwan. Ou seja, isto não é novo e na maioria dos casos existe uma reação no curto prazo, ou seja, os mercados corrigem. Por exemplo, no ano passado, quando foram as tarifas, que é outra incerteza, os mercados baixaram 20%, mas depois estamos a ver que eles voltam a recuperar. Por quê? Porque a incerteza depois volta a ser reduzida. Ou seja, aqui tudo depende se vamos ter um conflito mais centrado no curto prazo ou mais no longo prazo. Mas esta volatilidade é sempre normal, natural, e os mercados muitas vezes reagem rapidamente, porque os mercados somos nós.
Claro.
E quando nós temos receio, toda gente quer vender, é muito emotivo, e daí estas oscilações e estas volatilidades maiores.
Claro, e há algumas razões que levam os investidores a ficar ansiosos, não é?
Sim, a principal é a incerteza. E depois os mercados não gostam de surpresas, e esta foi uma delas. Depois, é o medo da escalada do conflito, que está neste momento a aumentar e a atingir outros países. E este receio tem a ver com a questão do preço do petróleo e do gás, principalmente na Europa, a subirem, que se for de uma forma permanente, pode afetar a atividade econômica e a inflação. E depois, estamos expostos a este midiatismo, que agora só se fala neste conflito.
Claro, o que ajuda a criar tensão.
Ajuda, exatamente. Ajuda as pessoas a ficarem mais ansiosas, mais receosas, quando infelizmente isto é normal, é mesmo assim. Estamos perante agora a escalada do conflito e estas notícias muitas vezes até não são necessariamente boas, porque afetam as nossas emoções.
Pedro, perante esta instabilidade e este receio, o que os investidores devem fazer?
Em momentos de tensão, a prioridade é evitar decisões impulsivas, que é: "vou vender tudo" ou "não quero já saber de investimentos". Vender no momento com o maior medo é a pior decisão que se pode fazer. Por isso, não reagir emocionalmente. Depois, relembrar o que nos levou ao investimento. O horizonte temporal é um horizonte de cinco anos, 10 anos, 20 anos. Historicamente, estes conflitos tendem a diluir-se. Por isso, os investimentos de longo prazo não devem ser geridos com base nestes eventos de dias ou de semanas. Depois, verificar a diversificação. E é nesses momentos, às vezes de maior volatilidade, que as pessoas olham para os seus investimentos e veem: "ah, afinal eu estava muito concentrado aqui ou muito concentrado ali".
Num setor ou outro.
Ou num setor ou outro.
Ou geograficamente também.
E geograficamente. E a diversificação é muito importante, porque permite-nos absorver um pouco estes choques. Por fim, acho que é evitar prever eventos políticos, que ninguém consegue prever nada.
O que vai acontecer amanhã.
O que vai acontecer amanhã.
Nem tentar adivinhar os máximos e mínimos do mercado.
Quanto mais, se vai durar duas semanas, quatro semanas, não se pode prever. O que eu acho que se pode prever é que este é um momento de maior risco, tal como já houve outros, que se mostraram ser muito boas oportunidades de investimento a longo prazo.
Para comprar, aproveitando a baixa para comprar.
Sim.
Depois, obviamente, terá que tentar perceber qual é o impacto econômico real destes conflitos, não é?
Sim. E neste caso, se for algo que dure no máximo um mês, como está previsto, um mês e meio, poderá ter impactos mais limitados, mas a incerteza surge relativamente ao preço da energia, o petróleo e gás. Como digo, a Europa é mais afetada, porque depende mais das importações que faz do Médio Oriente. Transportes e logísticas, parece não que o canal do Estreito de Ormuz fechou e há muitos navios que estão parados e isto afeta toda a cadeia de produção e transporte a nível mundial. E depois é a perceção de risco, porque aquela área, eu relembro, muitas pessoas iam viver para o Dubai, para o Qatar, muitos europeus, e agora a perceção de risco disparou naquelas áreas.
Nessas áreas, e estamos a ver pessoas a regressar.
Sim, e por isso pode haver efeitos. Onde? Na energia, na defesa, matérias-primas.
Aí positivos.
Aí positivos. Ou seja, os Estados vão ter que gastar mais e o que estamos a ver é as ações da defesa a subirem bastante, algumas ações da energia também a subirem, principalmente por causa do petróleo, e depois tudo que está ligado à segurança. Por isso, na verdade, se tivermos um portfólio diversificado, acabamos também por estar expostos a estas empresas que beneficiam.
Certo. Há pouco, Pedro, já falaste que pode ser uma oportunidade até aproveitar estas baixas fortes do mercado para comprar mais barato. É isso?
Sim. Tem sido sempre assim. Foi assim no Covid, na invasão da Ucrânia, em todos os eventos de curto prazo. Estas costumam ser quedas temporárias e é aproveitarmos, quando temos empresas sólidas, aproveitar para reforçar, reavaliar setores estratégicos e estar sempre atento a que os ativos a longo prazo tendem a valorizar. E estes momentos de incerteza são sempre os momentos em que os investidores de longo prazo devem reforçar os seus investimentos.
Muito bem. Mensagem final, então.
É que os eventos geopolíticos criam ruído de curto prazo. E isto é um facto, mas os mercados tendem a refletir o quê? O crescimento econômico a longo prazo, a inovação, a produtividade, o aumento dos resultados. Por isso, os conflitos passam, as economias e as empresas ajustam-se. E é isso que acaba por ser refletido no mercado de capitais a longo prazo.
Muito bem. E agora vamos ficar à espera dos tais acontecimentos que não conseguimos prever nos próximos dias. Pedro Lino e as tarifas para a semana, seguramente, ou quase certeza, para falarem tanto mesmo assunto.
Sim, certeza.
Obrigado.
Obrigado, Paulo, e bom fim de semana.