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Já está conosco o Pedro Lino para mais um "Boa Moeda Investimento". Pedro, hoje fala-se muito de literacia financeira e da importância da literacia financeira. As empresas também têm um papel nisto.

Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, fala-se muito do papel da literacia financeira a título individual, particular, mas esquecemos muito que as empresas têm um papel fundamental, até porque empregam milhões de pessoas. E até o próprio Estado, que muitas vezes é esquecido e sai desta equação, também emprega cerca de 700 e tal mil pessoas.

750 mil, algo assim.

750 mil. Por isso, este papel não deve ser esquecido. E por que isso importa? Porque em Portugal, cerca de seis em cada 10 pessoas não têm poupança suficiente para fazer face a um imprevisto. Isto é dramático, porque acontece uma conta extra, algo que não estamos à espera e ou temos que nos endividar, ou não temos um fundo de emergência sequer, que já falamos. Muitos trabalhadores vivem com ansiedade financeira e ansiedade cria estresse, cria menos sono, menos tranquilidade e menos saúde. Nós já falamos aqui, acho que foi nos primeiros programas, que a estabilidade financeira está muito associada à saúde, e a saúde e o estresse estão associados ao desempenho no trabalho. Se eu tenho um colaborador que está estressado, se eu estou estressado, eu vou produzir menos, porque vou estar com preocupações se amanhã vou ter o dinheiro pra pagar ou não, e não vou estar focado no meu trabalho. E eu acho que as empresas estão a acordar pra isso e estão acordar pra este problema. Também a PwC diz que um estudo refere que a nível mundial, 50% do estresse deriva de problemas financeiros.

Do estresse das pessoas.

Do estresse das pessoas. E isso significa que temos que abordar essa parte financeira, não só ao nível particular, mas nas empresas.

E o que a literacia financeira, em contexto empresarial, pode, de facto, fazer concretamente?

É a capacidade que as empresas podem transmitir aos colaboradores de como é que eles podem organizar um orçamento anual, como é que podem ter endividamento sustentável, a poupança pra objetivos, por exemplo, pra viagens, pra educação, pra mudança de casa ou carro, proteção financeira, por exemplo, constituírem seguros, fundos de emergência, investimento pro futuro, pra reforma, filhos, literacia financeira. Isto são tudo programas de literacia que as próprias empresas podem criar dentro das empresas e programas que são fáceis, workshops, webinars, e são fáceis para que as pessoas percebam a necessidade que têm de poupar e depois de investir.

Claro. As vantagens de ter programas desses, tu há pouco já levantaste um pouco o véu, mais produtividade, porque temos colaboradores menos estressados, ou menos preocupados com questões laterais, por exemplo, não é?

Sim, bom aumento de produtividade, essa é a primeira, porque quando o colaborador está mais focado, consegue produzir mais e está mais atento. Depois, retenção de talento, porque as empresas ao criarem também este tipo de programas e benefícios, como por exemplo, formações, pagamentos em planos de poupança à reforma, contribuírem também pra reforma, adicionalmente, fazerem o que se chama o matching, criam lealdade também por parte dos colaboradores. E hoje em dia é muito importante, porque reter talento está a ser especialmente difícil. E as empresas têm que passar a ser vistas como parceiro de vida e não só como a entidade que eu vou trabalhar e depois vou-me embora.

Claro, que me pagam ordenado. Acabou.

Exato. Se criarmos um vínculo, então isso é muito importante para a retenção. E depois, eu acho que há um clima mais saudável, mesmo entre colegas e mesmo dentro da organização, porque se tivermos um colega com problemas financeiros, isso depois acaba por contagiar os outros. Por isso, haverá menos conversas negativas sobre dinheiro e temos que falar de uma forma positiva, da poupança, de investimento, como é que eu consigo determinados objetivos. E depois também a redução de conflitos internos, porque muitas vezes há um colaborador que ou ganha mais ou ganha menos. Depois, estes temas de dinheiro acabam sempre por criar estresses, porque um pode estar em maior dificuldade e depois fica numa situação de menor desconforto com o colega do lado. Por isso, acho que estes pequenos espaços que as empresas podem criar, por exemplo, a formação interna, e não tem que ser uma coisa muito longa, 30, 60 minutos, o que tem que ser é recorrente, tal como a poupança, se ela for feita pouco, mas sempre de forma consistente.

Custa menos a fazer.

Custa menos. Se dissermos às pessoas: "Ah, vamos ter um workshop de um dia inteiro". Não.

Até porque não podem em termos de dinâmica de trabalho.

Exatamente. Agora se dissermos, são 30 minutos e é uma vez por mês, provavelmente falar do orçamento familiar, fundo de emergência, PPRs, o problema da dívida, de contrair muita dívida. Depois, uma comunicação contínua às empresas que podem fazer newsletters mensais e colocar a ideia do mês, a ideia de poupança, a ideia de investir.

Claro, ir alertando para os tópicos.

Alertar, criar esse estímulo. E depois, os benefícios que as empresas podem criar, como pagamento de bônus em PPRs, ou, por exemplo, se o colaborador colocar dois euros, a empresa pode colocar mais um ou mais dois. Um incentivo a que exista esta preocupação com o investimento. Depois, temos os custos de vida e os custos de saúde, e acho importante as empresas também disponibilizarem o acesso a simuladores, porque também já falamos aqui que não é fácil nós pensarmos linearmente o que vai acontecer no futuro. E muitas vezes, o investimento envolve o efeito de capitalização, ou seja, multiplicação. E por isso, a disponibilização de simuladores, que é se eu poupar 100 € por mês, ou 25, ou 30, quanto é que eu vou ter ao fim de 10, 20 ou 30 anos? E esse papel as empresas podem fazer e o Estado também devia fazer.

Pedro, há exemplos de empresas que já têm este tipo de programas?

Sim, as grandes empresas, Microsoft, Google, têm o que se chama financial wellness, ou seja, saúde financeira, e mesmo grandes empresas já cotadas no PSI, na Bolsa Portuguesa, as maiores, têm departamentos que ajudam colaboradores em dificuldades financeiras. Por quê? Porque já perceberam que isso é importante para a estabilidade e para a retenção. Por isso, as empresas começam a criar departamentos focados nisso, na ajuda, porque percebem que resolver o problema de um colaborador é resolver o problema delas.

É claro. Há objeções comuns em relação a isto? Isto é, há resistências.

Há muita resistência. E a resistência é: nas empresas, não temos orçamento para isto. Depois, é uma coisa muito complicada. Isso é da responsabilidade de cada colaborador. E não, acho que as empresas têm que perceber que o colaborador e as empresas não podem estar dissociadas e por isso devem pensar: isto não tem que ser uma coisa cara, pode ser uma coisa simples. O CFO, se não souber, ou alguém da área financeira, pode contratar facilmente pessoas que façam este tipo de trabalho. Ou então, existe muita informação que está disponível hoje em dia de forma gratuita na internet. Por isso, temos que vencer essas resistências iniciais. E a sugestão é, por exemplo, criar um inquérito anônimo aos colaboradores e perceber se estão interessados em saber mais ou não. E eu acho que muitas-

E o quê? Claro.

Porque eu acho que vão ter a surpresa que muitos colaboradores realmente estão interessados nesta matéria, não sabem é por onde começar. E muitas vezes até têm vergonha de dizer: "Olha, eu não percebo nada de finanças". Por isso temos que quebrar essa vergonha. Depois, criar um programa trimestral ou mensal de sessões temáticas, 30 minutos. Promover também caso de sucesso dentro da empresa. Alguém conseguiu eliminar os seus créditos, e há muitos. Há muitas pessoas que, tendo estes planos recorrentes, depois conseguem eliminar as dívidas. Isso são bons exemplos.

Claro, para os colegas. Muito bem, olhámos aqui para o papel que as empresas podem e devem ter na literacia financeira dos seus trabalhadores. Foi mais um "Boa Moeda Investimento" com Pedro Lino. Voltamos para a semana.

Obrigado. Até para a semana.