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Sejam muito bem-vindos a mais um "Brainstorming", o programa da Rádio Observador que existe e vive apenas e só para contemplar o enorme fluxo criativo de campanhas publicitárias que andam sempre bem perto de rasgar convenções. Hoje começamos por nos contradizer, isto porque dita a convenção que os jingles do Pingo Doce existem para ficar quase irritantemente nas nossas cabeças. O Natal publicitário já começou. Depois do "Quem trouxe?", temos agora "Era tão bom que tudo fosse aquilo que é". É para ouvir já a seguir no "Brainstorming". O ponto alto deste programa é uma conversa sobre jovens e política com Susana Damasceno, a fundadora e presidente da A&G Global. Primeiro, pelos vastos corredores de um supermercado. Temos o Natal com mundial, fruta fora de época. O mistério desta estranheza é o Aldi. A football tournament in December? That's gonna get right in the way of Christmas. Ronaldi. Vamos fazer isso. E no Natal costuma ficar no sofá empatorrado de bacalhau a exibir o mesmo nível de atividade física de um vegetal, mas depois recupera a energia e toca a brincar com a criançada. Pois foi muito provavelmente a pensar em si que o Aldi do Reino Unido fez uma campanha de Natal em que os legumes e frutas ganham vida, pernas e capacidade para driblar um jornal amachucado em forma de bola. Talvez não tenha sido a pensar exatamente na sua sonolência pós ceia natalícia e tenha sido mais pela estranheza que causa um mundial de futebol a começar em novembro e a acabar bem perto do Natal. O primeiro a pisar esta bola é um limão chamado Ronaldi, uma imitação mais cítrica de Ronaldo Fenômeno, com um criativo toque que nos remete para o nome da marca. E neste vídeo, que já leva mais de 1 milhão de visualizações no YouTube, são os alimentos-chave para uma ceia de Natal a praticar o famoso Joga Bonito. Feast of Football é o nome desta campanha. Futebol e vegetais para mim batem certo, não fosse eu um grande nabo aqui na coisa da bola. Este Natal, ou pelo menos até bem perto dele, o banquete é de futebol e por isso o claim da Aldi é: "Christmas, let's do it." E o Pingo Doce já o fez e voltou a fazer das suas.
Tudo sempre tão fresquinho, feito com tanto carinho. A qualidade que eu mereço, sempre, sempre ao melhor preço. Era tão bom se tudo fosse como é no Pingo Doce. Era tão bom se tudo fosse como é no Pingo Doce.
Depois do quem trouxe, temos Era tão bom que tudo fosse. Mais uma vez o Pingo Doce a criar um refrão de Natal passível de nos endoidecer, está mais uma vez bem perto de se tornar naquela musiquinha persecutória que trazemos na nossa cabeça. E se está pouco convencido quanto à criatividade do novo jingle, olhe que eu bem tentei arranjar qualquer coisa que rimasse com doce e só me ocorreu foi-se, que na verdade nem rima assim tão bem e não me parece também que seja um instrumento particularmente caro à Jerónimo Martins. O Natal é vermelho, mas de um outro ponto de vista, e esta pequena machadada política não chega por acaso. É tempo de receber Susana Damasceno, da A&G Global, uma associação não governamental que quer os jovens bem no centro da ação política. Vamos à entrevista deste "Brainstorming". E hoje no "Brainstorming" temos o prazer de conversar com a fundadora e presidente da organização não governamental Aid Global, que defende a formação da juventude na área da política. É a Susana Damasceno. Olá, Susana, bem-vinda. E antes de irmos ao que é a Aid Global, um grande desafio aqui no "Brainstorming". Que música escolheria no caso de ter que apresentar a Aid Global? Antes de conhecermos exatamente do que trata, que música escolheria?
Viva, Vicente. Obrigada pelo convite desde já. Inevitavelmente, o hino da Aid Global, escrito e composto pelo Sebastião Antunes e com grandes vozes portuguesas e moçambicanas, e que se chama "Para Quem Depois Vier".
Vamos tentar aqui perceber do que se trata esta fundação que quer contribuir para que os jovens retornem a um sítio Tenho estado longe, não sei se concorda.
É melhor desconstruir um bocadinho tudo isso, mas começando ainda pelo nosso hino, que é um grande cartão de apresentação da missão que a AED Global tem desde há 17 anos, quando nasceu, após uma experiência de voluntariado realizada por mim num orfanato em Moçambique. E desde então, são centenas de sonhadores por um mundo melhor que se juntou a nós nesta grande travessia que é a vida e aquilo que faz sentido na vida, que é trabalhar em prol dos outros, entre os quais os jovens e com os jovens. Mas por isso não deixem de ouvir o nosso hino, para quem depois vier, que vale a pena, porque tudo que queiram saber sobre a AED Global, tudo aquilo que a gente sente, tudo aquilo pelo qual nós trabalhamos, está lá. Mas nós, na AED Global, temos vários públicos-alvo, desde as crianças em idade pré-escolar em Moçambique, nas comunidades rurais, desde os jovens estudantes que ingressam na escola primária até ao 12º ano. Criamos bibliotecas escolares para os apoiar no seu percurso acadêmico, mas também trabalhamos na área do ambiente, no combate às alterações climáticas. Também trabalhamos na área da promoção da educação para a cidadania global e na educação para o desenvolvimento e também trabalhamos muito no apoio à integração de refugiados. Então o leque de trabalho da AED Global é extenso, mas a nossa grande missão, ou o nosso grande lema, é agir, integrar ou acolher e desenvolver por um mundo mais justo e sustentável, e só é possível através da educação. Então o que nós fazemos, nomeadamente neste projeto, que sei que se está a referir a ele quando diz, de uma forma provocatória, refocar os jovens na política, nesta nova forma de fazer política ou nestas múltiplas formas de fazer política. Estamos a falar de um projeto, especificamente, Jovens na Política: Participar para a Cidadania Global, que nasceu da necessidade de reforçar a mobilização dos jovens para a participação política em prol da cidadania global e do desenvolvimento sustentável. Esta já é uma segunda edição, nós estamos na segunda edição do projeto, e na primeira edição do projeto notou-se que as juventudes partidárias, que são um dos públicos-alvo deste projeto, estavam afastadas dos temas globais, como as alterações climáticas, as migrações e a cooperação para o desenvolvimento. Então, este projeto é uma resposta a essa necessidade de consciencializar através de workshops, campanhas de sensibilização e eventos. Atenção, nós fizemos duas campanhas de incentivo ao voto, quando foi a campanha presidencial, quando foram as eleições presidenciais e as eleições-
Legislativas
Legislativas, obrigada. E por isso nós estamos muito nesta questão de criar, despertar, valorizar mecanismos e estratégias para uma participação mais ativa dos jovens, colaborando para um pensamento global e uma ação local. Levámos agora a Moçambique, no mês de agosto, quatro jovens das juventudes partidárias, numa seleção criteriosa entre vários que se candidataram. Acabaram por ir dois jovens do PSD, da Juventude Partidária Socialista e da Juventude Partidária Social-Democrática. Garanto-vos que o nosso café após o jantar era bastante agitado, a ferver, porque as ideologias, as crenças.
E também na flor da idade também estará mais à tona, não é?
Mas é muito curioso, eu tenho que fazer este parêntesis, porque estes jovens dão-nos lições de diálogo, de saberem dialogar, de saberem colocar as suas posições, ao contrário do que se vê atualmente na nossa Assembleia da República, em que os discursos políticos são todos eles muito pouco corretos. E ali eu assisti a quatro jovens, dois de dois partidos, do arco do poder.
Uma minibancada contra a outra.
Uma minibancada para alimentar, mas ao mesmo tempo com muita elegância, que é isso que se está a perder na política. Então, fechando este parêntesis, dizer por que levamos estes quatro jovens, que é uma das várias atividades que este projeto promove, Jovens na Política: Participar para a Cidadania Global, que já vai na segunda edição. E levamos estes quatro jovens para que eles tivessem uma experiência de imersão numa realidade, num país em desenvolvimento. Por que Moçambique? Porque a AED Global tem uma delegação há mais de 12 anos e porque nós desenvolvemos projetos na área do desenvolvimento, com financiamentos públicos, financiamento quer da Fundação Carlos Gulbenkian, quer do Ministério dos Negócios Estrangeiros, através do Camões, o Instituto da Cooperação e da Língua. Ora, estamos a falar de jovens que, mais cedo ou mais tarde, vão ser decisores políticos e que poderão sentar-se numa cadeira onde terão que decidir sobre alterações climáticas, refugiados, desenvolvimento e todas estas agendas multilaterais que obrigatoriamente passam por isto que é a cooperação entre países. E foi muito interessante, porque marcou estes jovens ao ponto de eles chegarem em Portugal e começarem a fazer atividades para os seus pares, partilhando esta visão global e local. Nós reunimos 30 jovens do polo universitário da Universidade Eduardo Mondlane, que tem um polo sobre empreendedorismo em Chibuto, e estávamos a discutir questões globais e locais. É muito interessante perceber que, por exemplo, a questão do acesso à água é um problema em Moçambique, mas também é um problema no norte de Portugal. Mas é muito interessante perceber que as preocupações dos jovens, tanto lá e cá, acabam por ser as mesmas. A questão do lixo, da reciclagem do lixo. E esta é uma perspectiva que este projeto dá, que é trazer, de facto, o mundo para mais próximo de nós, porque quando se é político, tem que se ter uma consciência local, regional, nacional, mas também internacional, europeia e internacional. E por isso, um político tem que estar devidamente preparado para a execução das suas funções. É importante que as juventudes partidárias percebam que elas não são Ou deixaram de ser a única forma de fazer política enquanto se é jovem. Até porque o carreirismo, fazer carreira na política, começa já nas juventudes partidárias.
Que hoje em dia é mal visto, não é?
E hoje em dia já não é tão bem visto, porque o fim máximo da participação política tem que ser servir os outros e não servir-se a eles próprios. E há esta confusão muitas das vezes, mas estas novas formas de participação dos jovens, muitas das vezes são eles próprios que fazem as agendas. A questão das alterações climáticas é uma agenda que surge, naturalmente, que é um assunto que tem vindo há décadas a ser discutido, mas ele surge com maior urgência quando a Greta se mobiliza e quando toda a mobilização em prol do clima se mobiliza e se organiza para encontrar respostas imediatas e urgentes. Por isso, é muito importante conseguirmos perceber que sensibilizar os jovens para a importância de se reconhecerem como cidadãos e cidadãs do mundo é um desafio, mas muitos deles já começam a fazer este caminho, naturalmente. E este é um movimento que tem que ser respeitado, valorizado, porque toda a opinião conta quando se está a discutir e a criar políticas públicas, ações transformadoras e melhorias para um mundo mais justo, pacífico e sustentável, porque este, tal como está, está insuportável.
Precisamente olhando para a AID Global, como é que surge a ideia de criar esta organização, Susana? É também do facto de haver um vazio neste campo, nenhuma plataforma, nenhuma fundação agregadora dos jovens para os também canalizar para estas atividades e para a participação civil e de cidadania.
Eu tinha praticamente a idade de Jesus Cristo quando fundei esta organização. Claro que na altura já não tinha direito a cartão jovem.
Espero só que não tenha sido a sua cruz.
Essa é uma boa pergunta. Sabe que quando nós nos disponibilizamos a trabalhar em prol dos outros, nem sempre é fácil. É difícil, mas é possível. É preciso acreditar muito e levar as coisas para frente, umas vezes melhor, jantando bem, bem acompanhado, outras vezes nem há tempo para almoçar ou jantar. Mas nasce daquela experiência de voluntariado que eu realizei e desta consciência de todos nós somos responsáveis pelos outros.
Quer queiramos, quer não.
Quer queiramos, quer não. Por isso, tudo nos afeta. Se alguém que esteja ao nosso lado, seja o nosso vizinho, seja um familiar nosso, seja a nossa comunidade, seja o nosso município, seja o nosso país, seja a nossa Europa, tal como estamos a ver atualmente, todos nós acabamos por ser afetados.
E os problemas hoje são globais.
E os problemas são globais, as interdependências são muitas, veja-se a questão do gás, vai-nos afetar a todos. E por isso, desde que eu fiz aquela experiência de voluntariado, eu concluí que eu era responsável pelo mundo. Comecei por querer agir junto àquelas crianças, mas depois há tantas necessidades em tantos campos. E este projeto, por exemplo, nasce de uma experiência, de um testemunho, na primeira pessoa, numa assembleia municipal de Loures, onde nós tínhamos assento enquanto associação juvenil equiparada, e ouvi um jovem a dizer que os imigrantes vinham para o nosso país roubar-nos os empregos. Vá lá, não disse as mulheres. Como muitos preconceitos que andam por aí.
Seria só mais um adicional.
Seria só mais um no meio de tantos outros. E quando provas estão dadas, há estudos que comprovam que é mentira. Pelo contrário, a Europa precisa dos imigrantes. A taxa de natalidade baixou, nós não temos capacidade de aguentar o nosso sistema nacional das aposentações, nós já não vamos ter.
Temos carência de população ativa.
Temos uma carência, já não há como. Então, há necessidade de responder a trabalhos que não há pessoas capazes de o fazer, porque não existem. Por isso, a migração é boa nos dois sentidos. É boa para o país que a acolhe, que acolhe os imigrantes, e é boa para o país de onde eles saem. Por quê? Porque grande parte dos imigrantes enviam remessas para os seus países e desenvolvem a sua comunidade. E por isso, isto é preciso ser dito com tranquilidade. Agora, um político não pode fazer o seu trabalho a partir de pressupostos errados e preconceitos, tem que estar informado.
Haverá falta de criatividade na política, são modelos gastos, discursos gastos, ideias muitas vezes gastas, modelos de fazer política gastos. Será que a criatividade também passa por movimentos como aqueles que a AID Global promove, por exemplo, jovens que não pertencem às juventudes partidárias e que ainda assim conseguem ter uma participação de outras formas. Também passa o futuro da política por uma mudança criativa, digamos assim, criar uma coisa nova.
Está a mudar. As formas de fazer política estão a mudar. E vão mudar ainda mais, porque nós estamos em um período de mudança acentuada. As coisas têm que se adaptar, as redes sociais, que são a grande praça da política. E depois há toda uma nova forma de se fazer política, que é confrontativa, fora do local onde deveria ser estudada a política que se quer debater, onde deveria haver o domínio dos processos, para depois se argumentar com fatos. O problema é que, se não há esse estudo prévio, o que é que há? Banalidades
Lugares comuns.
Lugares comuns. E o que acontece? Quem são as principais vítimas deste sistema? Somos nós, os contribuintes, os cidadãos e as cidadãs. E por isso é urgente novas formas de política, é urgente mudar os políticos e é urgente que os políticos mudem, porque de uma forma ou de outra vamos todos ter que mudar.
E talvez para isso seja preciso um grito político, quem sabe até revolucionário. Se a AID Global tivesse que criar este grito, como é que acha que seria? Acho que estamos no sítio certo para fazer ouvir esse grito. Não precisa mesmo de gritar, pode ser só uma frase, Susana.
Eu acho que o nosso grito é dado diariamente pela forma honesta com que abraçamos os desafios e conseguimos envolver os jovens, neste caso, e tantas outras pessoas com quem trabalhamos. Por isso, as organizações da sociedade civil, não falo só da AID Global, são muitas, só na plataforma portuguesa das ONGD existem 64 organizações, todas nós fazemos um trabalho de grande estudo, de investimento no conhecimento técnico para apresentar políticas públicas. Houve recentemente um projeto importantíssimo ao nível das coerências das políticas. Quer dizer, nós todos contribuímos, agora está a haver alteração também à agenda da cooperação e nós estamos a dar contributos. É preciso sermos ouvidos, mas nós tentamos nos fazer ouvir. A voz da sociedade civil está sempre a empenhar-se para ser ouvida. Muitas das vezes temos um certo autismo do outro lado. Ainda mais quando se instala no poder uma maioria. E nós sabemos que as maiorias nem sempre são inclusivas. E por isso há coisas boas e há coisas menos boas. Mas o grito da AID Global é: sem investimento num conhecimento, num domínio técnico, no saber de viver, de conhecer, que foi aquilo que fizemos com estes jovens. Eu estou certa que o Ruben, a Ana, a Sofia e o Luís vão ser melhores políticos desde o dia em que saíram de Moçambique e voltaram a este país.
AID Global, estivemos à conversa com a Susana Damasceno, é presidente da organização não governamental e também fundadora. Foi um gosto, Susana. Boa sorte, bom trabalho e que a sociedade civil seja mais forte do que nunca, porque bem que precisamos. Um grande abraço.
Obrigada.
E o grande destaque desta semana no Brainstorming vai precisamente para aquilo de que nos falou a Susana Damasceno, depois de termos ficado a conhecer a AID Global pelas palavras da sua fundadora. Ouvimos um pouco do seu hino. Eu sou o Vicente Figueiro. O Brainstorming está de regresso para a semana. Até lá.
Lá onde o sol às vezes basta para um sorriso não se apagar. Onde o querer nunca se gasta e não se cansa de acreditar. Há um sonho que não para de aumentar. Cada letra é um grão por semear. Eu vou ler por ti. Tu vais ler por ti. Tu vais ler por quem acaba de nascer. Vais aprender a ensinar. Vais ensinar a aprender. Educar pra cooperar e acontecer. Incluir e preservar. Inovar pra não perder. Juntos mais fortes para quem depois vier. Para quem depois vier.