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"We choose to go to the moon, not because they are easy, but because they are hard."

Roger, roll pitch.

Arranca agora o "Cabeça na Lua", o novo podcast na Rádio Observador para acompanhar a missão espacial Artemis II. Está a caminho da Lua neste preciso momento. É a primeira vez em mais de 50 anos que o homem se entrega a este tipo de viagem. A nave Orion saiu da Flórida, nos Estados Unidos, leva quatro passageiros, três norte-americanos, um canadiano. A missão vai levar 10 dias e este grupo de astronautas não vai pousar na Lua, não vai orbitá-la. O objetivo desta missão é perceber se há ou não condições para alunar daqui a dois anos. Já o objetivo deste nosso novo podcast é acompanhar essa missão. Eu sou o José Rafael Lopes, faz-me companhia o Ricardo Conde, é presidente da Agência Espacial Portuguesa. Seja muito bem-vindo. Ricardo Conde é um dos especialistas que nos vai ajudar a perceber melhor esta viagem ao espaço. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos falar deste terceiro dia de missão, com a certeza de que a manobra rumo à Lua foi concluída de forma perfeita, é o que diz a NASA. Ricardo Conde, isto significou o quê para quem segue na nave?

Boa tarde. Obrigado também pelo convite. Significa, talvez, um momento de mais tranquilidade. Este início do segundo dia, a caminho já do terceiro, significa que passou-se aquele momento em que a missão poderia ser abortada. Por exemplo, se houvesse alguma falha crítica em alguns sistemas, em particular os sistemas de propulsão, não se podia colocar, por exemplo, nesta órbita translunar, que é uma órbita que de alguma forma alinha a saída de uma órbita terrestre para a própria cápsula entrar num campo gravítico também, da conjunção de um campo gravítico entre a Terra e a Lua. E o motor, esta injeção, que tem um impulso absolutamente extraordinário, posso talvez dar aqui uma comparação, é como se fosse um carro do zero aos 100 km/h em aproximadamente dois segundos. O objetivo é ganhar uma determinada velocidade constante. Esta viagem vai demorar quatro dias e os astronautas vão entrar numa certa rotina. Até porque se olharmos para o calendário, eu tenho aqui o calendário à minha frente, vemos que os astronautas, penso que foi a partir daí que já conseguiram dormir quase oito horas seguidas. Eles têm uns slots muito bem definidos, têm o tempo livre.

É por turnos. Há sempre alguém a ficar acordado.

É. É verdade. É como se estivessem sempre atentos aos sinais de metria e uma certa alarmística para perceber se a missão decorre como previsto. A questão, neste momento, é como se a nave estivesse no seu curso normal. Digamos que é a fase menos crítica. A fase mais crítica vai ser, obviamente, quando circular a Lua, mas a fase mais crítica de todas é, obviamente, o liftoff e a reentrada, porque tem características especiais, mas podemos falar um bocadinho sobre isso.

E falaremos, certamente, tendo em conta que ao longo deste podcast vamos acompanhar esta missão Artemis II, a caminho da Lua, e esperemos também que depois tenha esse regresso à Terra. Ainda assim, a NASA fala em pequenos percalços, situações que não preocupam, diz a NASA, mas mesmo assim são momentos mais tensos. Como é que tudo isto é transmitido a quem segue na nave? Ou é quem está na nave, os astronautas, que transmitem para a Terra, Ricardo Conde?

Olha, há dois momentos. Eu diria que há dois momentos e um momento é o mais crítico, é o antes do lançamento. Os percalços aconteceram, acontecem sempre. Há uma janela temporal, por isso é que há o countdown e há as janelas de lançamento. O lançamento da missão Artemis tinha algumas janelas temporais, mas resolveu-se. Houve um problema aqui, que é de alguma forma engraçado, e tem a ver com uma anomalia na sanita, que parece uma coisa simples, mas é de facto complicada. Mas há outras, por exemplo, em termos das comunicações. Houve uma anomalia também nas comunicações, por isso é que é necessário testar constantemente. E agora nesta fase, em particular, vai ser extremamente importante as comunicações. Mas já agora posso dizer que há, ao longo, distribuídas equidistantemente, 13 estações e depois um conjunto de satélites que estão posicionados para haver uma comunicação constante, uma visibilidade constante com a Orion. Chama-se Deep Space Network. Uma delas é aqui em Madrid, em Cebreros, a outra é na Califórnia, em Goldstone, e a outra é na Austrália, em Canberra. Significa que, principalmente nesta fase da trajetória translunar, há uma necessidade. Essas grandes três são rádios cósmicos com 70 metros de diâmetro, que têm uma sensibilidade enorme e que depois têm que ter algo que às vezes nem se percebe. Por exemplo, o controle de missão saber onde está Porque neste momento, depois da órbita translunar e mesmo na órbita elíptica que estava previamente, estava posicionada acima dos satélites GPS e Galileo. Portanto, não havia uma posição relativa. Então como é que se sabe essa posição? Sabe-se através de um sistema chamado de ranging e Doppler, que é como se nós estivéssemos a apontar um laser, recebermos o feedback e afastarmos meio grau, uma décima de grau, um milésimo de grau e sabemos, de facto, pelo atraso e também pelo desvio, sabemos onde é que a nave está e se está na sua trajetória, para depois inferir-se a correção. Agora, eles são autónomos nesta fase. Obviamente que há sempre uma interação com aquilo que estão a fazer, até porque repare que o sistema Orion tem aproximadamente 6 mil sensores, o que quer dizer que recebe dados teleméricos de todos os subsistemas que estão instalados. Portanto, há sempre um apoio do centro de controle nos seus subsistemas. Há sempre uma parte que não corresponde inteiramente à intervenção da tripulação na resolução da avaria, mas há sempre um backup e um acompanhamento do centro de controle. Muitas vezes há problemas que eles nem se apercebem. Aparecem na telemetria, por exemplo, quando um sensor passa de um determinado threshold, um determinado limite, eles nem se apercebem, se não houver uma alarmística, mas no centro de controle há sempre uma maneira de isso ser evidenciado.

E já vamos falar um pouco mais, Ricardo Conde, sobre o dia a dia de um astronauta que está em viagem rumo à Lua, mas para já, ainda sobre estas partes mais técnicas da nave em si, a Orion está a seguir agora pelas leis da mecânica orbital até à Lua. Como é que funciona esta mecânica orbital, sendo que no fundo, a nave só segue em frente até o momento em que vai ser puxada pela Lua, é isso?

Exatamente. Vamos imaginar, podemos fazer aqui uma analogia. Imagine que nós temos a Terra e a Lua, que estão na sua distância relativa. Imagine que estão numa cama elástica. Ao estar numa cama elástica, a própria Terra deforma a cama elástica. Chama-se a isso a gravidade não é mais que a deformação do espaço. E a própria Lua também deforma essa cama elástica. Quando nós temos um berlinde, que neste caso é a Orion, e quando há um impulso, como aconteceu esta madrugada, sai dessa deformação do espaço, que é o campo gravítico, e vai numa determinada direção em que começa a sentir a deformação do campo gravítico da Lua. Ou seja, há aqui uma conjugação. Repare que a Terra e a Lua estão se a mover, e ao mover-se também o espaço vai ser deformado de acordo com o movimento que cada uma está a fazer. É como se o berlinde fosse pelo caminho otimizado e naquilo que é uma lógica de mínima energia.

Isso não fora é que não há propriamente um volante para corrigir direções.

Não, há momentos. Aliás, nestes quatro dias, vai haver momentos em que pode ser feita correção de trajetória. Pequena, atenção, mas há sempre a possibilidade de fazer correções de trajetórias. Daí a importância de se saber qual é a posição do veículo. Mas há sempre possibilidade de o corrigir, mas é uma correção muito pequena. Repare que quando foi injetada na órbita translunar, já foi com um determinado cone máximo, ou seja, foi dentro daquele cone, que é para exatamente aproveitar a variação do campo gravítico entre essas duas massas para fazer a viagem em mínimas condições de energia e sabermos que vai para aquela zona onde vai sentir o campo gravítico da Lua. Vai passar muito perto de um dos polos e depois afasta-se. É exatamente a analogia de um berlinde. Afasta-se, vai para o ponto mais longínquo, que é aquilo que hoje se diz que é o ponto mais longínquo que alguma vez tripulantes já foram. Penso que aproximadamente 7 mil km. E depois retorna quase perto da Lua, muito perto, no outro polo, e começa o seu surf. Vamos dizer que é um surf numa onda também muito propícia, que é o free return.

E vão a alta velocidade rumo à Lua. Ricardo Conde, há alguma forma de saber como é o dia a dia para um astronauta enquanto está em viagem e como é que não se sente a alta velocidade a que segue a nave?

Repare, o corpo humano não sente a velocidade, o corpo humano sente a diferença de velocidade. A diferença de velocidade é a aceleração. Negativas ou positivas. Por exemplo, nós vamos no avião e só sentimos ao descolar e ao aterrar, porque sentimos os G positivos e os G negativos. Quando vamos a uma velocidade de cruzeiro, e atenção que um avião comercial vai a uma velocidade de quase 900 km/h, 1.000 km/h. A velocidade é constante, nós não sentimos. Quando há uma perturbação, aí, sim, sentimos. O que é uma perturbação? Uma variação da velocidade. Portanto, os astronautas onde sentem e onde sentiram, com certeza, em dois momentos que sentiram. Aliás, mais: o primeiro, obviamente, foi o liftoff, porque o liftoff é passar do zero, velocidade zero, para acelerações de vários Gs, portanto, sentiram. Há uma aceleração, ou seja, há variação de velocidade até atingirem 40 mil km/h, uma barbaridade. À luz daquilo que nós temos aqui, os nossos veículos aqui na Terra. Mas sentiram também quando fizeram a correção de órbita, quando foi à volta da Terra entre o perigeu, para atingir o perigeu e o apogeu, porque foram acionados os motores, depois estabilizaram, a velocidade é constante, e nesta madrugada quando foi a órbita translunar. Na órbita translunar houve, como lhe disse, um impulso que atingem de 0 a 100 km/h em dois segundos. Portanto, é um impulso enorme. Só que depois a velocidade estabiliza. Repare que há um impulso inicial muito grande, mas depois gradualmente mantém-se um thrust do motor, ou seja, mantém-se um impulso, até atingir determinada velocidade, depois os motores são desligados e há uma velocidade constante e eles não sentem. A rotina é esta, há um sincronizar do seu relógio biológico, é extremamente importante, as horas de dormir. Repara, quando nós vamos também para o Polo Norte ou para o Polo Sul, nós não temos às vezes a referência, até o que se chama o sol da meia-noite. Nós não temos a referência se é meia-noite, se são duas da manhã. Nós não temos essas referências. Isso é extremamente importante haver uma sincronização. O exercício, extremamente importante. Repare que apesar de ser 10 dias, há sempre que manter a massa muscular ativa, há uma perda sempre em ambientes de microgravidade. Depois o free time, há experiências científicas. Depois há sempre uma capacidade de fazerem testes, porque nestes sistemas, repare que daqui a quatro dias vão entrar numa fase crítica, que é a fase de circundar a Lua e o retorno. Portanto, sistematicamente há, por exemplo, checks. Eu estou a olhar aqui para o calendário, aparece sempre aqui o teste de comunicações com a DSN, da Deep Space Network, portanto, a rede de estações, e há um conjunto sempre de testes que é feito. E, em particular, há algo muito importante, que é o seu suporte de vida, que é o seu fato. O fato é como se fosse uma nave, porque, por exemplo, o fato, numa regra geral, são sempre desenhados para ter um tempo de vida em caso crítico. Se há uma perda de pressão, algo que exige que se vista o fato. O fato, por exemplo, se houver algum tipo de emergência, o life support é para seis dias, portanto é mais daquilo que é, digamos, neste momento, o necessário para a missão.

E esse fato está vestido 24 horas por dia?

Não. Eu penso que neste momento, principalmente na fase inicial translunar, tiveram que vestir o fato. Agora, numa situação de rotina, não. Não é necessário. O fato é para estarem nas condições de limite da missão, porque pode acontecer alguma coisa. Por exemplo, eles têm o fato vestido na descolagem, obviamente. Têm o fato vestido quando há estes momentos de transição de órbita. Têm o fato vestido também quando vai haver a reentrada. Se olharmos também para rotinas, temos os almoços. Os almoços e jantares, nós temos que dizer que são almoços e jantares muito alinhados com aquilo que é o período de dormir. E fazem a sua rotina normal. Há um conjunto de testes, um conjunto de experiências, como eu disse, que fazem.

Há também, Ricardo Conde, problemas quase que do teor normal, porque esta tripulação está no segundo dia de viagem, terceiro dia de missão. Os astronautas ligaram pela primeira vez para a Terra, relataram auroras boreais vistas do espaço, a dizerem que é muito bonito ver a Terra a partir do espaço. E deixam também aqui umas questões mais peculiares, umas noites em gravidade zero que está a ser bem aceito por grande parte da tripulação e também uma sanita avariada e uma autoproclamada canalizadora espacial. Isto são problemas, o problema de dormir e o problema com uma casa de banho, que na Terra são situações fáceis de resolver. No espaço, ganham outra dimensão.

No espaço, os astronautas têm que ser tudo. Têm que ser também canalizadores. Repare que o problema da sanita foi devido também à questão da gravidade. Quem viajou de avião sabe como é que funciona uma sanita no avião. Aqui o conceito é parecido, mas que depois tem as questões da gravidade. Nós no avião temos ainda a gravidade, que acaba por ser quase uma extensão da nossa rotina normal na utilização de uma sanita, mas há sempre contingências. Por exemplo, vamos colocar no limite que a sanita não funcionava. Está tudo pensado. Por exemplo, se não funcionar ou houver qualquer tipo de problema e que não se conseguisse resolver. Neste caso, conseguiu-se resolver com a ajuda daquilo que é a especialidade. Repare que o desenvolvimento da sanita foi um projeto de milhões de dólares. Uma pessoa quando pensa nesta perspetiva, os simples tratamentos de esgoto e de resíduos foi, estive a ver os números, à volta de US$ 30 milhões. Portanto, não é uma sanita qualquer. Mas também avaria. Mas há sempre uma contingência. E a contingência o que é? Olhe, são sacos de plástico.

Isso vai no inventário que se leva para o espaço, sacos de plástico?

Sim, claro. Tudo é acumulado. Uma das características principais de qualquer missão é a massa total Além da massa corporal dos astronautas, tudo lá se coloca. É como a comida, por exemplo. A comida é hidrofilada, portanto, a comida não tem água. Não há comida fresca, não há frigorífico. Se bem que se pode aquecer. Mas a comida é toda hidrofilada e há água, e tem um sistema de depuração da própria água, como o ambiente também da atmosfera, mas depois para comer junta-se a água. É aquela velha receita, junta-se água. Há tortilhas, há batidos de framboesa. Não será por aí que vos estranhe muito. Com certeza não haverá um cozido à portuguesa.

Só perdem os astronautas.

Só perdem, nem sabem o que é que isso é. Mas pronto, são as rotinas e o grande objetivo é mantê-los numa determinada rotina. E atenção que nós estamos a falar de uma missão extremamente curta, porque uma rotina daquilo que é um astronauta numa estação internacional, que às vezes são três meses. Depois tem outros problemas, associados também à mobilidade, à perda da massa muscular, à tensão intracraniana. É um conjunto de coisas muito complexas.

E teremos tempo, Ricardo Conde, ao longo deste podcast, que acompanha a missão Artemis 2, de abordar precisamente essa questão e não só, todas as questões à volta desta missão espacial. O homem vai voltar à Lua, não o faz há mais de 50 anos. Já a caminho esta equipa de quatro astronautas a bordo desta missão. Muito obrigado, Ricardo Conde, pelas explicações e pela disponibilidade. Esteve a analisar esta missão espacial na Rádio Observador. Vamos acompanhar esta viagem a par e passo para garantir que nada lhe escapa. Por isso, mantenha-se atento e não seja apanhado com a cabeça na Lua.

"We choose to go to the Moon, not because they are easy, but because they are hard."