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"We choose to go to the moon, not because they are easy but because they are hard."

Roger, roll pitch.

1 da manhã, sete minutos, hora de Portugal Continental. Será nesse momento que a Integrity vai concretizar o splashdown, é o nome que se dá ao momento em que a nave pousa no oceano. A nave vai ter essa amaragem, podemos dizer assim, no Oceano Pacífico, na costa de San Diego, na Califórnia. Neste momento, a nave já está a viajar a cerca de 8500 km/h, mas vai continuar a acelerar e vai atingir os 40.000 km/h. Será o momento mais crítico de toda esta missão, o momento de maior risco para a nave e para os astronautas. No episódio de hoje, vamos explicar o que vai acontecer nas próximas horas e também nesse momento de reentrada no planeta Terra. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo já está o José Augusto Matos. Bem-vindo, José. Estamos, de facto, a chegar às horas críticas desta missão, não é?

Sim, é verdade, Miguel. Olá. De facto, hoje é o grande dia, é o dia do regresso. E, portanto, como há pouquinho estavas a referir, à hora portuguesa, à hora de verão portuguesa, de facto, a amaragem está prevista para a 1h07. Nós depois iremos acompanhar em direto, mas de facto é um dia de grande expectativa, porque é o dia em que a nave regressa e vai passar atmosfera, que é sempre uma parte crítica da missão.

Nós já vamos falar desses detalhes da reentrada. Antes, vamos apenas falar da segunda correção de rota desta viagem. Aconteceu nas últimas horas. Foi uma correção mínima. Vamos escutar o momento em que isso foi comunicado.

"This is Artemis Mission Control in Houston, Texas, and we do have that confirmation that the recent return trajectory correction burn was completed and it was a good burn. Teams on the ground assessing the details, but it was expected to be a 9.41 second burn for a 5.37 foot per second delta velocity. Again, these return trajectory correction burns help us find"-

Como estamos a escutar esta mensagem, é do posto de controle no planeta Terra, está a transmitir para a nave que a correção da rota foi feita e que tudo está agora certo para o momento da reentrada. José, isto é importante, não é? Porque a nave vai ter de entrar com o ângulo certo e também porque a NASA quer garantir que a amaragem acontece no local que está definido.

Exatamente. Portanto, aqui há um aspecto sempre muito importante na reentrada, que é essa parte. Ela tem, de facto, que entrar com o ângulo certo. Como nós ontem falávamos, não pode ser um ângulo nem muito inclinado, nem muito raso, portanto, tem um valor específico. E depois, ela também, em termos da própria amaragem, tem que cair na área alvo que está digamos escolhida, a uma certa distância de San Diego, em que ela tem que ir nessa zona, porque é aí que está o barco à espera e estão as equipas de resgate à espera também. E, portanto, é isso que acontece. Mas eu quanto a isso penso que não haverá grandes desvios, digamos assim, e de facto ela irá pousar no sítio que nós queremos, porque a trajetória é realmente muito certinha. Portanto, a ideia é mesmo ir parar àquele local.

Sim. E no momento da reentrada, a nave vai voltar a perder peso, vai voltar a deixar material para trás.

Uhum. É verdade.

Quando estiverem próximos da Terra, cerca de 20 minutos antes de atingir a atmosfera, o módulo de serviço da cabine Orion, da nave Orion, vai ser descartado.

É verdade, está previsto aqui na nossa hora portuguesa que ocorra à 00h33, portanto cerca de meia hora justamente antes da amaragem. E vai ser descartado por quê? Porque este módulo já não é mais necessário. Foi o módulo que garantiu, obviamente, todos os aspectos vitais da nave durante toda a viagem. Mas a partir deste momento, quando a nave já está muito próxima da nossa atmosfera, ele já não é mais necessário, ele será descartado. A nave depois irá manobrar, obviamente, para não haver qualquer colisão com o módulo de serviço e ele depois irá cair na atmosfera também, mas irá cair de forma descontrolada e vai incinerar-se completamente. Portanto, é algo que é mesmo para queimar. Ele foi fabricado cá na nossa Europa e, portanto, é o nosso contributo para a nave Orion, que vai arder hoje na atmosfera.

Vai arder nas próximas horas.

Exatamente.

A nave, a ideia é que não lhe aconteça o mesmo, mas vai atingir aqui temperaturas muito elevadas, 2700 °C, praticamente metade da temperatura do sol. Nós já falámos sobre isto ontem. Há aqui um escudo de proteção e vamos falar deste escudo, porque esta questão das temperaturas é muito importante também de analisar depois da missão. Na Artemis 1 houve pequenos problemas neste escudo de proteção. As análises pós-missão mostraram que o material do escudo térmico sofreu uma erosão de forma diferente do que estava prevista nos modelos de computador. A NASA corrigiu o que tinha a corrigir para esta missão, mas a verdade é que só hoje é que vai saber se está tudo certo. É o primeiro teste a essas correções.

Exatamente, é verdade. Ele hoje vai ser experimentado. Agora, há uma certa confiança, obviamente, e como estavas a referir, ele já tinha tido problemas quando foi da primeira reentrada em 2022, e esses problemas foram corrigidos. A estrutura do escudo é complexa, aquilo são 186 blocos de material resistente ao calor. Tem um nome curioso, chama-se Avcoat. Aquilo é uma resina muito resistente, uma resina epóxi com fibras de sílica misturadas, mas é de facto um material que é capaz de aguentar os 2700 graus. E depois tem um aspecto também muito curioso, que podemos falar, que é um material consumível, ou seja, à medida que ela vai passando a atmosfera e que vai atingindo aquelas temperaturas, esse material vai se desgastando. Digamos que é um material que acaba por desaparecer durante a própria reentrada. Além dessa questão, ontem já falamos disso por causa da temperatura interior. Toda ela está protegida contra o calor. Ou seja, no resto da parte cônica, à volta da fuselagem, tem telhas térmicas cerâmicas muito resistentes ao calor, que são capazes de aguentar 1.800 graus de temperatura e que também vão proteger para que dentro da própria cápsula a temperatura nunca passe dos 26, 27 graus. Todo esse sistema de isolamento térmico permite isso. O escudo, esperemos que agora não apresente os problemas que apresentou em 2022 e que funcione bem, a expectativa é essa. Mas é um escudo muito curioso, porque é um escudo que se desgasta durante a própria reentrada também.

E depois da entrada na atmosfera, a nave vai sentir uma força extrema. A tripulação deve enfrentar forças de até 3,9 vezes a gravidade da Terra. Os astronautas têm que estar preparados para isso, naturalmente. Vamos ter a velocidade, o calor, este peso da gravidade todo sobre a nave e depois, para controlar tudo isso, temos paraquedas, porque a cápsula Orion inicia a abertura de paraquedas por etapas. Vamos ao primeiro: vai soltar um paraquedas de estabilização. Acontece mais ou menos a sete ou oito quilômetros de altitude. Para que servem estes paraquedas em concreto de estabilização?

Exatamente, como tu estavas a referir, ela depois tem uma sequência de paraquedas. Há uma sequência tripla, vamos assim dizer. Este primeiro, que ela vai abrir ali pelos 7.600 metros de altitude, ela realmente entra com 38.410 km, é a velocidade que está estimada, e ela quando chegar já às baixas camadas, aos 7.000 metros de altitude, é quando ela vai começar a abrir os paraquedas. Mas ela nessa altura já vem com uma velocidade muito menor do que aquela em que entrou na atmosfera, porque a atmosfera vai ter um efeito de travão. Mesmo assim, é essa altitude, quando ela abrir esses dois primeiros, que servem para estabilizar a cápsula e para ela não balançar muito. Mas esses primeiros não vão estar sempre presentes até o final. Depois haverá uma sequência de outros paraquedas que vão sendo abertos. Todos eles, o que é que vão proporcionar? Vão proporcionar ainda mais redução de velocidade, até que ela, quando chegar à superfície, como nós ontem contávamos, tem que estar ali nos 27, 28 km/h. É esse papel que eles desempenham até ela tocar no oceano.

E chega quase à velocidade de uma bicicleta, por exemplo.

É verdade, exatamente.

Chegada a nave, o que acontece ali naqueles minutos seguintes? Os astronautas têm que ficar onde estão e esperar que alguém chegue para abrir a nave, para os retirar.

Exatamente. Essa parte será uma parte também um pouco aborrecida e podemos agora aqui explanar um pouco, que é: ela vai chegar ao Pacífico, acerca de 100, 150 milhas de San Diego. E depois, a parte seguinte é uma parte um pouquinho mais demorada, por quê? Porque o barco que vai fazer a recuperação é um barco da Marinha norte-americana, é um barco de doca inundável, tem uma doca interna que é inundável, e ele vai estar ali na operação de resgate. Os mergulhadores da Marinha são os primeiros a chegar perto da nave. Eles vão instalar os cabos de reboque e vão também pôr uma cinta de flutuação à volta da nave para ela se manter estável e na vertical. E depois, são eles que vão rebocar a nave até ao navio da Marinha. A nave vai entrar na doca inundável, que estará inundável naquela altura. E depois a doca vai ser seca, e a nave vai ser colocada num suporte também. E só depois de a água secar ali dentro da doca é que será possível extrair os astronautas da cápsula. Esta operação calcula-se que dure entre uma hora e meia a duas horas, no máximo. Só depois de toda esta operação realizada é que eles serão retirados. Isto é interessante porque contrasta um pouco com o que acontecia no tempo das missões Apollo, em que não havia este navio com doca inundável, nem nada que se pareça. Eles eram resgatados automaticamente, ou seja, o barco pneumático com os mergulhadores chegava, eles vestiam os fatos de isolamento, principalmente nas primeiras missões, saíam e estavam dentro do barco pneumático. Isto acabou, por quê? Porque era um processo um bocadinho, eu diria, mais violento de resgatar os astronautas no meio do mar. Andavam por ali a balançar ao sabor das ondas. E este não, é um processo mais suave, e embora seja mais demorado, mas eles então vêm para dentro do barco, que tem a tal doca inundável, e depois de tudo seco é que eles são retirados pela equipe médica que estará lá para os retirar, porque eles obviamente estarão exaustos com a reentrada e com toda a viagem. Mas terá lá a equipe médica para os retirar e será assim que vai decorrer. Nós logo a partir de 1h da manhã. Depois teremos ali um período que será longo até os vermos cá fora, digamos assim.

Naturalmente. Mas esse momento da reentrada vai ser acompanhado em direto aqui na Rádio Observador. Temos uma emissão especial à 1h da manhã para acompanhar precisamente essa reentrada da nave Integrity. José Augusto Matos, muito obrigado por mais esta participação no podcast.

De nada, foi um gosto.

"Cabeça na Lua". Logo, à 1h da manhã, vamos ter o momento da reentrada da Integrity, a nave da missão da Artemis 2. Será o momento mais crítico desta missão. É para acompanhar tudo na Rádio Observador. Até lá, fique a par das novidades sobre a missão Artemis 2 em observador.pt e na Rádio Observador. Pode sempre garantir assim que não fica com a cabeça na Lua. Para fechar, vamos escutar Jeremy Hansen, o astronauta canadiano, que é a primeira vez que foi ao espaço e divulgou uma mensagem que explica aquilo que mais lhe marcou nesta missão e nesta estreia no espaço.

Vimos coisas extraordinárias, coisas que eu imaginava que veríamos. Eram semelhantes ao que eu pensava que seriam e outras que eu jamais tinha imaginado ver. E essas foram as perspectivas diferentes de onde vimos essas coisas. Mas devo dizer que isso não mudou a minha perspectiva, nem a perspectiva com a qual eu comecei esta missão. A perspectiva com a qual eu comecei esta missão era de que vivíamos num planeta frágil, no vácuo, no espaço. Sabemos disso pela ciência, mas somos muito sortudos por poder viver no planeta Terra. Outra perspectiva que aprendi com outras pessoas ao longo da vida é que o nosso propósito no planeta, como humanos, é encontrar alegria, encontrar felicidade e estarmos prontos para criar soluções em conjunto, em vez de destruirmos a Terra. E quando vemos isso daqui de cima, isso não muda, apenas reforça isso mesmo.