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Bem-vindos a uma série especial do "Caça ao Voto". Vão ser quatro programas, que são também quatro episódios de podcast. Para não perder nenhum, basta assinar ou subscrever na aplicação de podcast que habitualmente se utiliza, ou também ouvir em direto na Rádio Observador, de hoje até quinta-feira, logo depois do jornal das 11:00 ou mais tarde em observador.pt. Neste "Caça ao Voto", vamos tomar o pulso aos partidos no rescaldo das eleições legislativas. Hoje falamos na geringonça ou no que resta dela. Depois seguem-se os novos partidos no Parlamento. Vamos ainda falar do estado em que se encontra o CDS e encerramos esta ronda com o PSD na quinta-feira, neste "Caça ao Voto" que começa agora. A geringonça morreu na noite de domingo de 6 de outubro, ou talvez dois dias depois, ou talvez as notícias que dão conta da morte da geringonça sejam manifestamente exageradas. Para tentar perceber em que estado se encontra a solução que permitiu a sobrevivência do governo minoritário do PS na última legislatura, chamamos os nossos especialistas em sinais vitais. Temos conosco o Dr. José Manuel Fernandes, o Dr. Miguel Pinheiro, o Dr. Pedro Benevides, o publisher diretor e editor de política do Observador, e contamos ainda com a ajuda do nosso especialista em cuidados intensivos políticos, o Dr. Pedro Santos Guerreiro, que já foi diretor de jornais de renome, é um comentador habitual nas televisões e nas rádios. Antes de começar esta ronda, propunha que colocassem os vossos estetoscópios para ouvir os sinais vitais da geringonça.
Quando o PS forme Governo, inicie a sua governação com perspectiva de estabilidade para o horizonte da legislatura e que mandate para proceder à formação do Governo.
Os acordos da geringonça foram uma garantia de estabilidade na vida das pessoas e o Bloco de Esquerda lamenta a decisão do PS de não continuar este caminho. O Partido Socialista já solicitou ao Bloco de Esquerda uma reunião para iniciar conversações neste novo quadro e essa reunião terá lugar na quinta.
Meus senhores, estamos perante um caso complicado. Abrimos esta conversa com o nosso convidado, Pedro Santos Guerreiro. A geringonça, Pedro, faleceu, está moribunda, ainda tem hipótese de voltar a mexer ou não?
Não é muito fácil encontrar dentro das metáforas médicas que estás a usar, a palavra certa, mas a geringonça extinguiu-se porque se cumpriu. A partir do momento em que o PCP deixou claro que não alinharia para esta legislatura, para a próxima, ficou muito claro que nem o PS pareceu verdadeiramente muito interessado em fazer acordos sem o PCP. Basta ver sinais tais como Carlos César fazer parte do grupo de negociação com o Bloco de Esquerda para se perceber que não havia grande vontade de chegar a acordo. Carlos César sempre foi uma espécie de polícia mau na geringonça. E também pareceu que o Bloco de Esquerda não acreditava muito, embora quisesse, nessa possibilidade, tanto que encontrou ou usou, sobretudo, um pretexto para justificar que não se fizesse, que foi o pretexto da legislação laboral, que obviamente o Governo nunca iria recuar, até porque não é uma legislação recente, mas não é uma legislação propriamente agressora dos direitos dos trabalhadores, muito pelo contrário. Portanto, entramos numa legislatura com condições políticas muito diferentes, sendo que eu suponho que aquilo que vai ditar ou não a estabilidade, e estabilidade não quer só dizer cumprir quatro anos ou não, quer dizer também o que é que se faz em cada um dos dias desses quatro anos, vai ser muito condicionada por fatores econômicos e não apenas por fatores políticos.
Obrigado, Pedro Santos Guerreiro. Chamo também à conversa o publisher do Observador, José Manuel Fernandes. José Manuel, a geringonça ainda respira ou está mesmo arrumada de vez?
Eu penso que a geringonça na fórmula que tinha, acabou. Aliás, ela estava de alguma forma já morta antes destas eleições, porque se percebia claramente pelo desenrolar dos acontecimentos, digamos, no período pré-eleitoral que isso ia acontecer, basicamente porque o Partido Comunista tinha anunciado que não estava disponível para voltar a assinar um acordo. Não estando o Partido Comunista disponível para assinar um acordo, deixava de haver tripé, deixando de haver tripé, não há bipé que se aguente pé, digamos assim. E portanto, o PS sabia que não podia fazer um acordo só com o Bloco de Esquerda E o Bloco de Esquerda sabia que para fazer um acordo também, apesar de o Bloco de Esquerda poder querer muito esse acordo, para o aceitar teria que subir a fasquia muito alta. Aquilo que o Bloco de Esquerda pôs em cima da mesa são coisas que dificilmente o PS poderia aceitar. Recordemos apenas que dos pontos, na semana passada saiu mais um daqueles rankings da posição competitiva da economia portuguesa a nível mundial, Portugal ficou entre o 304º ou 305º lugar, portanto não mudou, mas onde fica no fundo da tabela, os piores pontos de Portugal é a banca, alguns têm a ver com as instituições, mas o grosso deles continua a ver com algumas questões que têm a ver com o mercado de trabalho, com alguma rigidez que continua a existir no mercado de trabalho. Evidente que isto é contestado pelo Bloco de Esquerda, mas nós temos um mercado de trabalho que continua na prática a ter leis que continuam a ser rígidas para todos os efeitos, sobretudo quando se conjugam com a carga fiscal e com outros aspetos. E eu acho que o PS, para todos os efeitos, tem consciência disso e tem consciência que um dos pontos fracos, um dos pontos débeis da anterior legislatura foi se, por um lado, se criaram muitos empregos, criaram-se maus empregos. E isso não pode durar eternamente. Continuar a criar empregos de €600, €700 apenas, €800 no máximo, é um bocado curto, sobretudo porque isso ficou muito evidente quando a gente olha para os dados eleitorais e vemos um Partido Socialista ancorado sobretudo no voto dos velhos e com pouco voto dos novos. Ora, se o Partido Socialista quiser ter votos novos, não pode estar a criar novos empregos apenas perto do salário mínimo ou mesmo perto do salário mediano, que anda nos €800, não chega aos €900.
Vamos agora ouvir a opinião do doutor Miguel Pinheiro. Senhor doutor.
Senhor doutor.
Senhor doutor Miguel Pinheiro, devemos estar preocupados com o estado da geringonça? Acha que ainda tem alguma hipótese de salvação?
A geringonça não é um fim, a geringonça é um instrumento, como todas as-
Grande frase, Miguel Pinheiro
Estava aqui escrita, trouxe o computador, está aqui a letra.
Estiveste a pensar.
Posso dizer-te uma coisa, Ricardo? É a primeira de muitas.
Boa.
Como todas as coligações de governo e no primeiro governo da geringonça, ou talvez o único, o que nós tivemos foi: havia um objetivo de evitar uma coisa, que era a continuação no governo da tenebrosa direita, e havia um objetivo de construção, que era, toda a gente sabe, regredir no sentido de restituir uma série de rendimentos que tinham sido retirados no tempo da Troika, ou restituir de forma mais acelerada, se quisermos levar à letra aquilo que o PSD e o CDS diziam, que também iriam restituir isso, mas que o PS fez de forma mais acelerada. Fez muito mais rapidamente aquilo que estava previsto. Isso era um programa. E se nós quisermos resumir o primeiro governo da geringonça numa frase, e os bons governos são resumíveis numa frase, a frase é essa: restituição dos rendimentos. Qual é o objetivo agora? António Costa sempre teve um problema que é muito semelhante ao que tinha o presidente americano, que era o George Bush pai, que a dada altura perguntavam-lhe muito e ele admitiu que de fato lhe faltava uma coisa que ele chamou de vision thing. Essa coisa da visão política, de explicar às pessoas para onde é que se vai, de haver um rumo. E realmente, se nós olharmos para todas as declarações de António Costa durante a campanha e a fase pré-campanha, não vemos uma visão, não vemos um programa. Vemos o objetivo de continuar a gerir o que está, uma espécie de gestão de condomínio. E quando metemos aí a esquerda, tudo se torna ainda mais problemático, porque de facto, o que é que há para fazer que una estes partidos todos? Muito pouco, porque como vimos, tudo empanca logo à partida, porque obviamente a primeira coisa que o Bloco de Esquerda fala, e o PC também, mas neste caso o Bloco de Esquerda era o que estava aberto para falar, é a legislação laboral. Entra na cabeça de alguém que o PS que acabou de aprovar uma legislação laboral, sabendo que o fez contra os partidos da extrema-esquerda, que agora vai voltar atrás? Ao fim de uns meses iria voltar atrás? Obviamente que já não há mais conversa a partir daí. Digam o que disserem, já não há mais conversa a partir daí. Se o ponto de partida da conversa é de fato a legislação laboral, já não pode haver mais conversa. Por isso, a mim mais preocupante do que saber como é que o governo se vai aguentar, até porque o governo pode-se ir aguentando ao longo dos quatro anos, é para quê? Para fazer o quê? E parece-me que neste momento o PS está num impasse, e se calhar, mais preocupante do que isso, num impasse do qual não tem noção ou com o qual não se inquieta. Parece que o PS sente que não há nada de muito importante para fazer, o país está bem como está e portanto agora é ir gerindo um pouquinho.
A Suécia ou a Finlândia, não sei muito bem como é que está a economia da Suécia e da Finlândia, o Pedro reira deve saber melhor. Mas como se estivesse tudo muito bem e agora fosse ir andando. Pedro Benovides.
Eu gostei muito da primeira frase do Miguel, mas eu já estava a achar que estava a concordar há tempo demais e, portanto, no final não concordo tanto. Eu acho que o PS tem noção dos desafios que tem pela frente, porque, por exemplo, dois casos evidentes que durante os quatro anos da legislatura conseguiram passar relativamente despercebidos com a narrativa do virar a página da austeridade, que é aquilo que se passa na saúde e aquilo que se passa, por exemplo, nos transportes públicos, são casos que vieram a lume e que continuam ainda hoje a fazer o topo da atualidade. Aquilo que se passa nas urgências, a falta de médicos, a falta de condições nos hospitais, etc., são questões que são inadiáveis neste momento. Portanto, qualquer governo que tomasse agora funções não pode esconder ou tapar aquele problema, porque parece bastante evidente e vai ter de ser resolvido. Eu acho que o governo tem noção de que isso vai ter que ser feito. Concordarei contigo achando que isto não é propriamente uma visão para o país, não é uma visão de médio prazo nem de longo prazo para o país, é apenas um problema que tem que ser resolvido. São vários problemas que têm de ser resolvidos, mas o que eu queria dizer é que não concordo que o PS ache que está tudo bem, porque há problemas que é impossível neste momento esconder. Desse ponto de vista, até poderia ter o apoio dos partidos à esquerda, mas a questão do código laboral, por exemplo, da legislação laboral, para mim pareceu-me sempre, já durante a campanha eleitoral, como um impedimento óbvio a que os partidos da esquerda voltassem a juntar-se ao Partido Socialista, porque obviamente António Costa não tinha qualquer condição política para negociar uma revisão de uma legislação que tinha acabado de aprovar, ainda por cima contra os seus parceiros da geringonça. Portanto, eu acho que houve aqui toda uma série de encenações de que está tudo bem e que iríamos todos trabalhar outra vez em conjunto e que iríamos ter uma solução parecida, mas obviamente que isso não aconteceu. O PS rompeu com isso rapidamente, num golpe assim, no próprio dia. Sai de uma reunião e à noite toma uma decisão mais ou menos radical. Depois temos Catarina Martins a fazer um anúncio do fim da geringonça e o PS a dizer que não, senhor, não há fim da geringonça. O que eu acho que vai acontecer agora é o PS estar numa posição relativamente confortável, mas é apenas relativamente confortável, de poder negociar como quiser, dependendo de cada circunstância. E hoje víamos, por exemplo, António Pires de Lima numa entrevista no "Negócios", onde ele já dava aquele sinal de que o CDS vai ter também de conversar com o PS. Uma parte do PSD também acha que é preciso conversar em determinadas áreas, nomeadamente as famosas reformas estruturais que Rui Rio tem sempre falado. Com uma nova liderança do CDS, eu acho que é possível, do ponto de vista da narrativa política, admitir ali alguns pontos de diálogo. E portanto eu acho que a geringonça como a conhecemos, de facto está morta, não há nada a fazer. Podemos tirá-la do bloco operatório e assinar a certidão de óbito, mas acho que há ali qualquer coisa de novo a nascer, que se calhar não é muito novo, é aquilo que já vimos no passado, por exemplo, com o governo de António Guterres, que era um governo minoritário que tinha ali pontos para poder negociar.
E pegando nisso que o Pedro Benovides estava a dizer, Pedro Santos Guerreiro, António Costa ganha sempre? No fim ganha António Costa, porque vai conseguir ao longo dos próximos anos ir gerindo caso a caso com alguma facilidade aquilo que quer fazer?
A situação não lhe é tão difícil porque tendo mais votos do que a direita, precisa das chamadas coligações negativas. E isso é uma conjugação que não é provável e, portanto, dá-lhe margem para negociar ora à esquerda ou à direita. E o Pedro Benovides dizia duas ou três coisas com que eu concordo. Nós vamos ter não apenas menos crescimento económico e tudo mais, isso tem sido bastante falado, embora não tenha a certeza que já seja compreendido o que isso na prática significa. Como vamos ter provavelmente muito mais tensão, eu acho que sobretudo na saúde será cada vez mais uma origem de contestação, porque ao contrário do que o PS diz, não são jornalistas que amplificam três ou quatro casos isolados, pelo contrário. Aliás, é precisamente ou mesmo onde não há muitos jornalistas, ou seja, no interior, há casos dramáticos na saúde e não são apenas listas de espera que crescem, são medicamentos que não se compram, enfim, por aí fora. E isto vai agravar-se, porque mesmo aumentando a despesa na saúde, é impossível, por exemplo, avançar rapidamente para a exclusividade de médicos. Não há dinheiro para isso, porque os médicos e enfermeiros ganham muito mais no privado do que no Estado. E, portanto, o que nós vamos vendo é médicos saírem para o privado e enfermeiros saírem para o estrangeiro. E na saúde é muito provável que a situação se torne socialmente muito mais complicada para o governo. Se depois somarmos a isso questões como o efeito que o crescimento económico vai ter ou o menor crescimento económico. Reparem, esta semana vão sair as previsões do FMI, vão ser as primeiras previsões já da nova vaga, se quisermos. Depois hão de ser as da OCDE, as da Comissão Europeia, por aí fora. E à medida que as previsões forem sendo piores, significa que o orçamento vai ter cada vez menos espaço para aumentos de despesa. E o programa do PS é essencialmente um programa de aumento de despesa. Aliás, a despesa fixa tem aumentado bastante. E se nós pensarmos no seguinte: isto parece que correu tudo bem, não é? Déficit zero, possibilidade até de excedente. E correu tudo bem com uma conjugação quase ótima de fatores. A conjuntura externa, os juros muito baixos, o petróleo muito baixo, por aí fora. Mas mesmo com as condições tão favoráveis Mesmo assim, o que nós tivemos foi falta de investimento, foram muitas restrições que mantiveram a carga fiscal altíssima. Aliás, ela aumentou. Agora imagine-se o que será quando as condições não forem tão grandes. Sem investimento, seja público, seja privado, não há aumento de salários. Portanto, nós caminharemos provavelmente para uma situação mais difícil de gerir à medida que a legislatura avança, por causa das tensões sociais, das dificuldades econômicas e do adiamento ou cancelamento de propostas que foram feitas nas eleições. Não é já, mas muito provavelmente vai acontecer ao longo da legislatura.
José Manuel Fernandes, pegando naquilo que o Pedro Santos Guerreiro estava a dizer, se houver alguma constipação, isto pode correr mal, é isso?
Eu acho que a grande incógnita dos próximos quatro anos é, de facto, a constipação ou a gripe. No fundo, tudo correu bem nestes últimos quatro anos, porque nós tivemos os ventos quase todos a favor. Nada correu mal. Nós tivemos as taxas de juro a descer, nós tivemos uma economia que já vinha balanceada de trás na boa direção, nós tivemos uma economia a nível mundial que desacelerou um bocadinho, mas não chegou bem a desacelerar, portanto, tudo puxou bastante por Portugal. Não houve aqui razão para deslaçar a aliança, para deslaçar este problema. Em nenhuma altura houve previsões econômicas que fossem dramaticamente diferentes do que aquilo que tinham sido feitas em termos, por exemplo, do crescimento econômico, que aqui é uma variante muito importante. Agora, nós estamos ao fim de uma fase de crescimento da economia mundial já bastante longa, mais longa que as anteriores. Se olharmos, por exemplo, para o número de anos de valorização das principais bolsas mundiais, nomeadamente Wall Street, é uma série praticamente recorde. Não sabemos se não será recorde, o Pedro é capaz de saber isto melhor que eu, mas eu penso que é uma quantidade de anos seguidos que é recorde. Portanto, há muita gente a começar a ficar nervosa com isso. Nós temos a incógnita das guerras comerciais, se bem que aquilo que também temos notado é que o presidente Trump avança e recua, avança e recua, vai conseguindo alguma coisa, mas nunca lança verdadeiramente uma guerra comercial de rabinho ao mágico, por assim dizer. Ele ameaça, depois consegue alguma coisa do que quer e depois baixa um bocado outra vez. Há aqui mais um tipo de negociação diferente daquele que estávamos habituados, mas temos, de facto, uma grande incógnita relacionada com o Brexit e temos, sobretudo, um ambiente internacional diferente. Há muitas coisas que estão a mudar e não se sabe bem para onde é que vão.
Não anuncie o Diabo.
Eu não estou a anunciar o Diabo, porque ao mesmo tempo que isto está a suceder, o que é facto é que podemos ver a coisa pelo outro lado. Tem havido um grau de evolução do ponto de vista da tecnologia que tem permitido manter as coisas a desenvolver-se e a aparecerem coisas novas que permitem que a economia continue a crescer. Aqui há uns anos atrás, por exemplo, achava-se extraordinariamente difícil que se criasse emprego. Dizia-se que para criar emprego era preciso que as economias crescessem pelo menos acima de 2%. Aparentemente, não é necessário que isso aconteça. É possível criar emprego com as economias a crescer menos do que isso. Agora, o emprego não tem sido muito bom.
O problema é que emprego, não é?
O problema é que emprego é que estamos a criar, não é? Eu acho que os economistas já não são os melhores previsores do futuro.
Tu achas que num contexto de crise econômica, que o governo não se aguenta, é isso?
Não, não é isso que eu estou a dizer. Acho que se, de repente, houver algo parecido com aquilo que o Sócrates teve que enfrentar e que apareceu de repente, ninguém previa. Não estou a dizer que vai acontecer o mesmo, ninguém previa. Se houver algo tão imprevisível e tão brutal como aquilo que aconteceu na altura, e se houver uma situação parecida como um PECs, eu acho muito difícil os partidos à esquerda encaixarem isso naturalmente. E portanto, vamos ter aí uma situação difícil. Até que ponto é que vão encaixar ou não vão encaixar, não sei. Qual é a margem? A margem de error hoje não é igual.
E há uma questão que é importante, que é a experiência que tiveram precisamente nos anos de Sócrates, onde o posicionamento que tiveram os partidos à esquerda acabou por não lhes correr bem do ponto de vista eleitoral. O governo caiu, de facto, e eles não ganharam necessariamente com isso.
Mas agora há uma questão aqui muito diferente. O grande problema é se, de repente, mudam muito as nossas taxas de juro. Nós estamos com as taxas de juro praticamente a zero. Se elas de repente passam para 2 ou 3%, não é preciso ir para os 7 ou 8 em que estavam no tempo da crise. Se passam para 2 ou 3%...
Esperemos que não. Se isso acontecesse, o efeito não é imediato no Estado, porque são contratos muito longos, mas era um aumento de despesa Que demoraria algum tempo a sentir-se, mas era uma aumento de despesa muito grande. Mas a questão é: mesmo que isso não aconteça, e em princípio não vai acontecer, porque o Banco Central Europeu já sinalizou que por mais dois, três anos as taxas deverão ficar baixas, o que tem muitas perversões, mas adiante, porque não é uma coisa normal. Parece que nos habituamos a isto, mas isto é uma coisa muito anormal.
Tem taxas negativas e muito baixas.
É muito anormal.
Ninguém sabe onde é que isso nos vai levar.
O grande risco europeu é tornar-se no Japão, ou seja, entrar em deflações e entrar em períodos muito longos de baixo crescimento e de falta de investimento e de consumo. É o receio da japonização da Europa. Mas mesmo que isso não aconteça, só as ameaças comerciais, e essas já existem, e não é diabo nenhum, são efeitos económicos. Porque o diabo na altura de Passos Coelho hoje muitas vezes é chamado de crise económica, e não é. Eu estava a falar da possibilidade de uma nova intervenção externa em Portugal. Era isto que era o diabo. E naquela altura, já agora, esse risco existiu de uma maneira diferente por causa da banca, por causa da Caixa aos Depósitos, etc. Mas adiante. Mesmo o efeito de recessões económicas é suficiente para ter um impacto grande em Portugal. Até porque, como dizia o José Manuel, o emprego que foi criado em Portugal foi sobretudo no setor dos serviços. O setor dos serviços, dos três, entre agricultura, indústria e serviços, é sempre aquele que gera menos valor acrescentado, entre aspas. E, portanto, também é aquele que tem menos capacidade de pagar melhor. E nós estamos, portanto, com emprego, e ainda bem que o temos, a taxa de desemprego desceu muito mais do que alguém esperasse, mas com salários relativamente baixos e muito dependente da manutenção e da permanência desses serviços. Portanto, é um emprego relativamente, não vou dizer precário, porque isso quer dizer outra coisa, mas relativamente instável. Portanto, qualquer abanão tem um efeito grande em Portugal e Portugal continua numa situação ainda tão débil, muito menos do que estava, sem dúvida, mas continua numa situação tão débil e tão exposta que isso pode objetivamente comprometer as condições políticas. Eu só também gostava era que nós não limitássemos a análise do que significa este quadro político à estabilidade no sentido do governo aguenta ou não aguenta. E pelo menos até às presidenciais, com certeza que vai aguentar.
Tu achas que vai aguentar?
Até às presidenciais, não tenho dúvida nenhuma. Depois disso depende das condições económicas, mas eu não quero entrar muito nesse totobola. Eu se tivesse que apostar, eu acho que há condições pra que isso não aconteça. Ou seja, pra que o governo não aguente os quatro anos. Mas pode acontecer tanta coisa que não quero entrar muito nessa aleatoria. Mas como dizia, a métrica não deve ser só do aguenta ou não aguenta. A métrica é também o que o governo consegue fazer ao longo destes quatro anos. Que tipo de políticas é que vai conseguir implementar, que tipo de programas é que consegue negociar ora à esquerda ou à direita. E negociar com a esquerda e com a direita, o governo não é um pêndulo, não é um hermafrodita, não é um andrógeno. Isto está-lhe a pedir pra ser quase bissexual, porque vira-se pra esquerda, depois vira-se pra direita. E a coisa não é assim tão simples, até porque as negociações nunca são isoladas. À terça-feira fecha-se com o PSD e à quarta com o Bloco de Esquerda.
Mas tu achas que isso não poderá acontecer ou não vai acontecer?
Pode, só que o grau de abertura para legislações menos conservadoras e mais progressistas, chame-lhe o que quiseres, mas mais arriscadas socialmente, é muito menor.
É mais uma navegação à vista e uma gestão corrente, é isso?
É uma gestão muito condicionada. Se nós precisarmos de cortar despesa, e quando estamos a falar de PECs, é sobretudo corte de despesa. O PEC 3 é o primeiro PEC em que se cortam salários da função pública. Quando é pra cortar despesa, tem que estar o PS e o PSD, como estiveram, aliás, naquela altura.
Até agora o que Centeno fez foi cortar basicamente investimento. Isso penso que não é possível cortar mais do que ele cortou. Portanto, se nós tivermos alguma coisa que fazer à frente, é voltar a fazer aquilo que foi feito antes. Há aqui uma variável também muito importante, que nós nunca falamos dela, mas qualquer variação que possa existir no emprego, é uma variação que tem imediatamente um impacto brutal nas contas da Segurança Social, que tem sido daquilo que mais contribuiu pro nosso balanço destes anos, porque ninguém previu esta evolução do emprego. De facto, ninguém, em contas nenhumas, nem sequer no plano mais otimista do Mário Centeno, havia esta evolução do emprego aquele que ele apresentou no programa do PS em 2015. E, portanto, qualquer variação do emprego, de repente contribuições deixam de entrar e subsídios de desemprego passam a sair. Portanto, a balança passa logo pro outro lado. Eu não quero ser aqui a ave aguarenta, mas tem a ver um bocadinho com estas questões. Por exemplo, basta uma coisa tão simples como isto: de repente, vamos pensar que o Brexit corre mal e se o Brexit corre mal, os turistas ingleses desaparecem ou quase desaparecem. Os turistas ingleses ainda têm muito peso em Portugal e o turismo é uma grande fonte de emprego. Que impacto tem isso no emprego, no turismo? Não faço ideia, não sei dizer. Mas não é seguramente negligenciável.
Ok, há todos esses problemas económicos, mas só voltar aqui à política só por um ponto que eu acho que se está a dar como certo, que é: a esquerda está garantida. Este ponto é o PC está garantido, o Bloco está garantido, tudo está garantido. Só é preciso evitar coligações negativas, que são raríssimas, mas até já tivemos na última legislatura. Mas eu não estou tão certo quanto isso
De que o PC queira isto durante quatro anos.
Mas o PC não chega. O PC junto com a direita não chega.
Certo, está bem. Mas nós vimos hoje aqui na Rádio Observador o PC lançar a campanha das presidenciais. Arménio Carlos veio aqui. Enfim, a CGTP, como sabemos, não tem nada a ver com o PC, atenção, quero deixar isto claro, não tem uma coisa a ver com a outra.
Estamos a falar de organismos completamente independentes.
A CGTP jamais foi correr a transmissão do PC e eles tomam as suas decisões de forma independente, apesar de Arménio Carlos ter assento nos órgãos do PC. Mas hoje Arménio Carlos veio aqui dizer que o governo virou à direita por causa de Marcelo Rebelo de Sousa. Claramente o PC vai aproveitar as presidenciais pra tentar começar a dar a volta a isto. E então se o PS apoiar Marcelo Rebelo de Sousa, isso será maravilhoso para o PC. E eu não tenho a certeza, pelo contrário, tenho muitas dúvidas de que o PC queira ficar nesta situação comatosa durante quatro anos e que, portanto, vá, mesmo sabendo o que aconteceu a seguir ao chumbo do PEC 4, mesmo sabendo que pagou um preço por causa disso, a dada altura eu não sei o que nas contas do PC é pior, se é arriscar ou manter isto durante quatro anos pra a seguir o quê?
Eu gostaria de acrescentar um outro elemento à equação. Nós também não estamos aqui a desconsiderar completamente a direita ou se quisermos desconsiderar o PSD. Eu acho que não é desconsiderar o PSD.
A futura liderança do PSD poderá condicionar a sobrevivência do governo do Partido Socialista?
Eu acho que se Rui Rio continuar no PSD, Rui Rio não vai desistir de querer fazer acordos com António Costa.
Já disse várias vezes que quer, não é?
Ele já disse várias vezes que quer.
Sendo que o plano do Rui Rio implica que o governo não dure os quatro anos da legislatura, precisamente. Dá-lhe ali uns dois anos, mais ou menos, e depois a partir daí...
Isso, pra fazer acordos, alguma coisa terá que negociar. Ele agora tentou fazer acordos sem nada em troca, praticamente. Não sei como é que será na próxima legislatura. Pode ser que alguns acordos, o que ele tem em troca até seja importante pra ele manter a sua posição dentro do próprio PSD, por exemplo, se se traduzirem em lugares pra distribuir pelas suas tropas. Estou a falar de descentralização/regionização. Mas seja lá como for, não vejo um PSD na mesma posição, por exemplo, que estarão os outros partidos que já disseram claramente que não vão colaborar com o governo. Estou a falar do CDS, mas não tem muitos deputados.
Eu tenho a certeza que não vai colaborar, de facto. Como o Pedro Bendito estava a dizer depois do que eu vi hoje do António Costa e Lima, eu sei lá.
E mudando a liderança, fica mais livre, digamos assim, porque o discurso de campanha foi muito associado à Assunção Cristas e, portanto, pode fazê-lo. Agora, eu acho que o Pedro Santos Guerreiro levantou aqui uma questão que é interessante, que é: certo, o governo aguenta-se ou não se aguenta? A questão é: o que vai fazer este governo com estas condições políticas, o que é que vai fazer? Qual é que é o horizonte e quais é que são as medidas que vai efetivamente tomar? Eu não tenho a certeza, e pegando na tua metáfora da bissexualidade do governo, eu não tenho a certeza que António Costa não sei como é que uma pessoa diz isto. Vocês estejam à vontade, vocês estejam perfeitamente à vontade. António Costa não se entregará a essas práticas, e digo isso porquê? Calma, Pedro. Calma. A culpa foi do Pedro Santos Guerreiro. Temos aqui convidados, não os filtramos e depois é esta a conversa hoje. Não, mas a questão é que com uma geringonça que tinha acordos firmados e portanto tinha ali medidas e compromissos muito claros. António Costa conseguiu fazer isso. Conseguiu quando lhe dava jeito negociar, virar-se pra outro lado e negociar pro outro lado. Eu acho que ele agora está mais livre pra fazer isso. A minha questão é: que projeto é que António Costa terá para fazer assim?
Nós não estamos só a definir poder, estamos a definir a oposição também.
Exatamente. Ainda falando da rua.
E essa oposição ainda não é definível, começa a ser. Acho que no PCP já é bastante previsível, no melhor dos sentidos, aquilo que poderá acontecer, mas na direita ainda não. Só o facto de Rio ficar ou não ficar muda completamente o PSD. O CDS, neste momento, não sabe ter rei. O CDS, mesmo Pires de Lima quando diz que o CDS deve ser ouvido, eu acho que é mais o querer colocar o CDS como um elemento minimamente relevante, que neste momento, em função dos resultados eleitorais, não é. Não é um elemento muito relevante no Parlamento e ele quer torná-lo, ou está a propor que ele se torne, encontrar uma forma de ele se tornar relevante. Mas isto pra dizer que a oposição à direita ainda não está definida, porque os dois partidos estão, o CDS a preparar a nova liderança e o PSD sem sabermos ainda se se vai manter ou não a liderança e com cada líder mudam programas políticos. E, portanto, o meu ponto também é esse, é que nós estamos a analisar muito o poder, mas temos que perceber também em que circunstâncias é que fica a oposição, e isso neste momento ainda não é claro.
Nós não nos recordamos, na campanha eleitoral, de António Costa querer dizer: "Quer fazer alguma coisa na ação social? Penso que não. A saúde já aprovou a lei. Educação? Não me recordo de ele ter apresentado na bandeira, a não ser dizer que quer fazer alguma coisa que seja: "Enfim, vou gastar um pouquinho mais de dinheiro, se calhar. Vou fazer alguma coisa na justiça?"
Omisso. Forças Armadas, naquelas questões que às vezes se discute, em serviço militar obrigatório e por aí adiante, nada. Não há aqui uma bandeira. Eu acho que ele vai ter os olhos postos numa coisa que vai preocupar bastante, que é a presidência portuguesa da União Europeia, que é uma coisa que para ele é importante e que para Portugal é sempre muito absorvente.
E é num período onde pode haver precisamente uma grande instabilidade política.
Ele vai estar muito preocupado com isso. Eu acho que ele preocupa-se muito com o palco externo e vamos andar no Parlamento entretido com outras coisas, nomeadamente com coisas como, por exemplo, vai voltar a questão da eutanásia e outras leis parecidas com essas que vão dar para nos entreter um bocadinho durante uns tempos com as boas discussões. E não sei se vamos estar a falar das outras coisas mais pesadas. E o Orçamento de Estado, naturalmente, mas assim ocupa quatro ou cinco meses por ano.
O tempo passa a correr. Chegamos ao fim deste Caça ao Voto especial. Amanhã vamos receber o diretor do Público, Manuel Carvalho, que nos vai ajudar a olhar para os três novos deputados que vão ter assento no Parlamento: Joacine Katar Moreira, do Livre, João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, e André Ventura, do Chega. Hoje foi nosso convidado o Pedro Santos Guerreiro. Vamos terminar com uma canção que foi escolhida pelo Pedro Santos Guerreiro. E a tua escolha, Pedro, vai para Valter Lobo, "Oeste". Queres aí 30 segundos explicar-nos por quê?
Olha, foi escolhido em três segundos quando entrei aqui e quando perguntaste que música queres pôr e eu pensei: bom, um músico português que não seja assim muito conhecido, mas merece. Lembrei-me logo do Valter Lobo, que é uma espécie de fafá. Eu gosto bastante do trabalho dele, é relativamente pouco conhecido. É um lone ranger, trabalha muito sozinho, mas a razão foi só essa, não é propriamente uma das músicas da minha vida, não tem a ver com isso.
Não é para dedicar a ninguém especial.
Não.
Obrigado, Pedro Santos Guerreiro. Este Caça ao Voto termina com Valter Lobo e "Oeste".
No oeste eu não dançava. Foi o som, foi a luz em si. Foi a sorte que eu não contava. Só de te abraçar sinto que a música altera-me e tudo mais. A música altera o meu corpo, altera o mundo, altera-se. Só de ver dançar sinto que a música altera-me e tudo mais. A música altera o meu corpo, altera o mundo, altera-se. Por isso o sol vem, a lua abre o peito no oeste teu. Somos vossa. A miçanga atingiu a preceito. Foi cada cem, um amparo. Só de te abraçar sinto que a música altera-me e tudo mais. A música altera o meu corpo, altera o mundo, altera-se. Só de ver dançar sinto que a música altera-me e tudo mais. A música altera o meu corpo, altera o mundo, altera-se. Ai, meu amor. Só de te abraçar sinto que a música altera-me e tudo mais. A música altera o meu corpo, altera o mundo, altera-se. Só de ver dançar sinto que a música altera-me e tudo mais. A música altera o meu corpo, altera