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Bem-vindos a esta série especial do "Caça ao Voto" na rádio e também em podcast em observador.pt. Este é o último programa desta pequena série dedicada a tomar o pulso aos partidos e ao governo, no rescaldo das eleições legislativas de 6 de outubro. Hoje vamos olhar para o CDS e para o PSD, neste "Caça ao Voto" que começa agora. O CDS procura novo líder e no PSD Rui Rio fica ou talvez não. A incerteza apoderou-se dos maiores partidos do centro-direita na sequência das eleições. Os dois partidos parecem estar sem rumo, por isso chamamos os nossos peritos em navegação, o nosso grumete José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro e Pedro Benavides, do Observador, e o nosso convidado especial, o capitão de fragata Bernardo Ferrão, que acabou de ser promovido, que não está no mar.

Um pouco exagerado.

Exato. Não está no mar, é subdiretor da SIC nas horas vagas, quando não está no mar. Sugiro que primeiro escutemos o que se vai passando no CDS, num filme sonoro que é uma espécie de ponto de situação.

Perante este resultado, pedirei a convocação do Conselho Nacional do CDS, com vista à realização de um congresso antecipado. Da minha parte, entendo que dei o meu melhor durante quatro anos, mas em face dos resultados, tomei a decisão de não me recandidatar.

Com a saída de Assunção Cristas do CDS, começam a surgir nomes para a sucessão.

Filipe Lobo d'Ávila é um desses exemplos. Não coloca de parte a hipótese de avançar para a liderança do CDS.

Não excluo neste momento nenhuma possibilidade, até porque verdadeiramente também nunca disse que não ao CDS.

Também João Almeida, deputado eleito pelo CDS, pelo círculo de Aveiro, pode ser um dos nomes para a sucessão de Assunção Cristas.

Estou ciente da responsabilidade que tenho, como outros colegas estão. Estou numa fase em que estou mais preocupado e concentrado em pensar naquilo que pode ser o futuro do partido e como é que se consegue reverter esta situação.

A corrida à liderança do CDS tem menos possíveis candidatos. Adolfo Mesquita Nunes e Pires de Lima afastaram a hipótese de suceder Assunção Cristas.

Não serei candidato à liderança do CDS. Eu tenho esperança que mais cedo ou mais tarde, e se pudesse ser mais cedo do que tarde, tanto melhor, o talento do Adolfo Mesquita Nunes, que é imenso, possa ser posto à prova numa função de liderança.

Adolfo Mesquita Nunes não vai ser candidato à liderança do CDS. Mesquita Nunes junta-se a Cecília Meireles e também a António Pires de Lima. São três figuras do CDS que até o momento já se colocaram à margem do futuro do partido.

Telmo Correia anunciou hoje que não será candidato. Não, não sou candidato à liderança do CDS. Não é agora ou não vai ser? Não sou, nem vou ser.

Ouvimos aqui este filme sonoro do estado das coisas no CDS, com sons aqui da Rádio Observador, também da RTP, da Antena Um e da SIC. Bernardo Ferrão, bem-vindo ao "Caça ao Voto".

Obrigado.

Temos vários potenciais candidatos, mas só temos um assumido: é Abel Matos Santos. Ninguém quer pegar no CDS nesta altura?

Pelo menos é o que parece. Olhando para os últimos dias, temos visto um carrossel que não abona nada a favor do CDS de nãos, muita gente a dizer não em conferências de imprensa, na praça pública e, portanto, isto não é, de facto, muito simpático para o CDS, que não atravessa um momento nada fácil, depois de tudo o que aconteceu, quer nas europeias, quer nas legislativas e, sobretudo, num partido que, de certa forma, ficou insuflado com as autárquicas, o que levou mesmo a líder do CDS a dizer que estava preparada para liderar a direita e até, quem sabe, ser primeira-ministra. E esse também foi um erro que Assunção Cristas cometeu. Agora, eu ontem à noite ouvi Adolfo Mesquita Nunes, na circulação do quadrado, dizer algo que eu acho que é importante, que é: nós temos muitas vezes a tentação de precipitar tudo e de declarar logo certidão de óbito a muita coisa. E acho que o CDS está a passar por uma má fase, mas não quer dizer que a fase seja terminal e leve à morte.

Hoje, no "Observador", Ribeiro Castro apontava para essa possibilidade, que é uma possibilidade da dissolução do CDS.

Não sei. Acho que as ameaças são maiores neste momento, sobretudo pela chegada de uma iniciativa liberal e do Chega ao Parlamento. Mas também nos lembramos do que aconteceu ao Bloco de Esquerda quando decidiu Deitar o governo abaixo de José Sócrates, quando o Bloco de Esquerda decidiu não ir às reuniões da Troika, foi fortemente castigado e teve uma bancada parlamentar muito diminuta, criou-se aquela liderança bicéfala e hoje o Bloco de Esquerda veio e implantou-se como a terceira força política. Portanto, estas coisas dão muitas voltas e acho que é cedo para dizermos que o CDS morreu.

José Manuel Fernandes, bem-vindo a mais um "Cação Voto". Que diagnóstico fazes do atual estado do CDS à procura de novo líder?

Eu penso que o CDS está numa encruzilhada muito difícil, porque o CDS tem alguns problemas que diria que são quase genéticos e outros têm a ver com o que se passou nos últimos anos. Os que são genéticos vêm praticamente desde a natureza do partido. É um partido que é formado um pouco depois do PSD e que quando chega ao terreno já lá estava o PSD e, portanto, nunca consegue ter uma implantação territorial correspondente àquilo que seria natural num partido com aquelas características. Ficou sempre como o segundo partido naquela área política e sempre a perder militantes, quadros para o maior partido. Isso sucedeu muitas vezes e num quadro de falta de grande solidez ideológica, designadamente, isso aconteceu não apenas para o PSD, como mais tarde também aconteceu para o PS. Chegou a haver figuras importantes do partido que estiveram em bancadas do Partido Socialista e houve muitos autarcas, por exemplo, que foram para o Partido Socialista. Recordo, por exemplo, o cabeça de lista em Leiria era um antigo autarca do CDS na batalha. Portanto, há aqui muitas coisas que foram fazendo o CDS minguar, porque é um partido com pouco aparelho, digamos assim. O que por si é uma vantagem, mas no caso, a falta de implantação territorial é um grande defeito. Ao mesmo tempo que isto sucede, é um partido que tem muitas sensibilidades sem ser uma federação de sensibilidades. É um partido em que as sensibilidades se assumem achando que o CDS deve ser um partido ideológico, quando ele se calhar nunca foi nem poderá ser. E por isso temos os liberais, os democratas cristãos, os conservadores puros e duros a lutar por um lugar ao sol, de uma forma às vezes quase muito ácida e atirarem-se uns aos outros, como vimos praticamente durante os últimos meses, em plena campanha eleitoral, com registos muito diferentes.

E que agora podem encontrar soluções noutros partidos?

Não sei se vão encontrar soluções noutros partidos, não sei se é fácil, porque aquilo são às vezes quase grupos de poucas pessoas. São grupos de poucas pessoas. Não sei até que ponto é que isso depois tem correspondência no eleitorado. A maior de todas estas dificuldades é que nós olhamos para as figuras do CDS e não encontramos ninguém que seja facilmente federador. Ou vem uma figura federadora, alguém que seja capaz de emergir como figura federadora e, francamente, todas aquelas que apareceram não me parecem ter essas características, ou o CDS tem realmente um problema pela frente. A solução do Bloco, na altura, foi resolver esse problema com uma solução bicéfala.

Que correu mal.

Que correu mais ou menos. Não correu tão mal como isso, porque apesar de tudo, da solução bicéfala saiu depois uma líder com mais facilidade do que se previa, até por circunstâncias da própria vida. Porque um outro co-líder ficou doente e a coisa ocorreu quase naturalmente. Não se deseja a ninguém a repetição de uma experiência dessas. Mas mesmo aqui não se vê que a própria natureza daquela força política seja favorável a uma solução bicéfala. Apesar de o CDS, curiosamente, já ter tido uma espécie de liderança bicéfala com Adolfo Marquês da Costa e Freitas do Amaral.

Miguel Pinheiro?

Sim, acho que este é o ponto. O CDS está a ter um enorme problema em lidar com a pluralidade. E eu nem sequer percebo por quê, porque um mesmo partido juntar pessoas que estão mais preocupadas com o ênfase numa economia mais liberal e pessoas que estão mais preocupadas com o conservadorismo cultural, é uma coisa que se encontra em muitos sítios. E aliás, de tal maneira que até os adversários desses partidos cunharam uma frase com alguma graça que é: "Eles querem ter um Estado tão pequeno, que até cabe na nossa cama." Aquela coisa de, por um lado, querem dar liberdade às pessoas, por outro lado, querem se meter na sua vida íntima. Portanto, isto não tem dificuldade nenhuma ou melhor, não deveria ter dificuldade nenhuma, porque existe uma rede que deveria juntar estas pessoas todas. Mais ainda quando o CDS resolveu um problema que tinha no início da democracia portuguesa, de facto, que era de alguma forma estar fora do poder. E realmente nos últimos anos tornou-se evidente que o PSD só irá para o poder com o CDS e, portanto, aquele problema de ser um voto completamente inútil e apenas por convicção, que depois tem dificuldade em aplicar as suas ideias, está relativamente ultrapassado. Mas se calhar esse também foi o problema da Assunção Cristas. Por que o Paulo Portas conseguiu unir esta gente toda sem problemas? Porque era um líder especialmente brilhante, porque era uma pessoa especialmente inteligente Tudo isso, mas também porque deu poder ao partido. E Assunção Cristas, de facto, liderou o partido num momento de impasse em que não conseguiu abrir vias de diálogo com o PSD e não conseguiu que o PSD assumisse de forma completa. Uma coisa é aquelas coisas que se dizem nas entrevistas, uma frase de circunstância. É assumir com convicção que os dois partidos estavam juntos, de alguma forma até na oposição, mas que estariam juntos, sem dúvida nenhuma, no poder. E isto fez com que Assunção Cristas não tivesse um mapa para o regresso do CDS ao poder. Não teria que ser agora, poderia ser mais daqui a uns anos. E se calhar foi isso que tornou mais difícil a domesticação do partido e que levou a esta fragmentação.

Pedro Benevides.

Já agora, pegando nisso que estás a dizer, eu diria que houve também um problema até de controle da mensagem por parte de Assunção Cristas, porque a candidata que nós vimos nas autárquicas em Lisboa, que aproveitou uma falta de presença do PSD, digamos assim, não soube liderar o partido depois, quer nas europeias, quer depois nas legislativas, onde tentou fazer um volte face já muito em cima da hora. Mas eu acho que Assunção Cristas deixou que o discurso do CDS para os eleitores fosse um pouco capturado por aquilo que era a vontade, por exemplo, de Nuno Melo ou até de Mota Soares, que também entrou muito nessa narrativa, e que foi aquele erro que muitos partidos nesta área da democracia cristã cometeram na Europa, cometeram em Espanha, por exemplo, também, que é com o receio da chegada de partidos como o Chega, tentaram limitar o crescimento desses partidos adotando uma parte desse discurso. Isso fez com que a campanha das europeias, por exemplo, tivéssemos um CDS muito a falar à direita, quase a colar à extrema-direita quando falou da imigração, questões de segurança, etc. E eu acho que Assunção Cristas falhou como líder nessa matéria. Ou seja, não era o discurso dela, necessariamente, que os eleitores viam representado na narrativa do CDS, mas era essa que passava e era essa que andava a pedir votos. E acho que isso causou danos muito graves ao partido, com outros erros que foram cometidos já no Parlamento, nomeadamente a questão dos professores, etc. Portanto, eu acho que foi um fim de mandato de Assunção Cristas onde ela perdeu um bocadinho o pé.

Deixa-me só dizer aqui uma coisa, que acho que o CDS também foi vítima de tudo o que aconteceu no PSD, porque o CDS anda numa espécie de sidecar ali com o PSD.

Mas Assunção Cristas, a certa altura, era quase o rosto da oposição e também se apagou nessa...

Primeiro, tivemos um ciclo parlamentar em que, se quiseres, o CDS era quase o único partido da oposição, o que fazia frente a António Costa, porque com a geringonça e com o PSD muito apagado, Assunção Cristas assumiu muito essas dores e pelos vistos não foram assim tão bem compreendidas. E depois acho que ela foi claramente, ou o partido foi claramente vítima do PSD, numa primeira fase com Pedro Passos Coelho e numa segunda fase com Rui Rio, em que as coisas não corriam bem ao PSD e, portanto, por arrasto, o CDS foi indo também na água do banho e portanto acho que esse foi também um problema do partido Cristas.

Miguel, e olhando aqui também para a questão dos novos partidos, achas que o CDS não terá outro remédio senão entrar nesse discurso também? Até por aquilo que o José Manuel estava a dizer, por causa das várias sensibilidades lá dentro. Ou, por outro lado, a solução seria afirmar-se como um outro tipo de partido que não encaixa naqueles pequenos partidos.

Há uma célebre expressão, uma célebre teoria na política portuguesa que foi criada por Adelino Amaro da Costa, que era a teoria da bossa do camelo, cujo objetivo era entalar o PSD entre as duas bossas do camelo, uma seria o PS, a outra seria o CDS, e dessa forma conseguir domesticar e diminuir o PSD, ficando os espaços à esquerda para o PS e os espaços à direita para o CDS. Agora essa teoria virou-se contra o CDS, porque o CDS está no meio de duas bossas do camelo potenciais. Num lado, a iniciativa liberal, que faz política de uma forma mais inesperada, mais arejada e, portanto, conseguiu seduzir os liberais do CDS. E depois, do outro lado, a outra bossa do Chega, que pode seduzir os conservadores culturais do CDS que sentirem que o partido não os representa, os eleitores podem eventualmente procurar refúgio ali. Portanto, o CDS tem que ter muito cuidado, porque se optar de forma declarada por uma das bossas do camelo, deixa a outra crescer. E, portanto, tem que conseguir gerir estas duas coisas. Agora, acho que realmente aqui o grande ponto é quem, porque nós não vemos ninguém com autoridade suficiente, já nem falo do resto, com autoridade suficiente pra tomar conta do partido agora. E se nós tivermos uma liderança provisória durante uns dois anos, em dois anos muita coisa muda, muita coisa pode acontecer.

Bernardo, e voltando aqui ao quem, achas que há alguém ou não? Tem de haver, não é?

Para já, a única pessoa que se perspetiva é João Almeida, que é uma espécie de herdeiro do portismo, mas não sei, de facto, não sei se ele é esse tal federador, parece-me que não. Mas não vejo grandes hipóteses no CDS para essa tal liderança que é necessária para fazer frente a esses novos partidos, ao Chega, à Iniciativa Liberal e a toda uma nova legislatura que trará muitas ameaças ao partido.

Agora vamos olhar para o atual estado do PSD e se já ouvimos um filme sonoro sobre o estado do CDS, vamos agora ouvir o filme sonoro relativo ao PSD.

Não há uma grande derrota. Grande derrota era o que estavam a prosseguir. Não houve.

Em declarações à TDM Macau, Miguel Relvas lança duras críticas a Rui Rio e defende outra liderança para o PSD.

O doutor Rui Rio cometeu um grande erro: ele desuniu o PSD. Há um problema real, ele não gosta do PSD. Tem esse problema. É líder do partido que ele não gosta e cria uma conflitualidade.

Mas há também quem afirme que este não é o momento de pensar em mudar a liderança do PSD.

Exemplo disso é Ângelo Correia, histórico dirigente do partido que diz que Rui Rio deve sair o quanto antes.

Deve dizer essa semana, rapidamente, que é líder e quer continuar. E não deve dizer na outra semana. É esta, já, o mais pressa possível.

Essa pergunta que me está a fazer vai merecer ponderação, serenidade, ouvir as pessoas, porque é assim que a maturidade manda fazer e é assim que nós demonstramos que estamos aptos ou não a governar. PSD!

Luís Montenegro assume que é candidato à liderança do PSD em entrevista à SIC.

Eu serei candidato nas próximas eleições diretas que hão de ser convocadas nas próximas semanas, por uma questão de coerência e por uma questão de convicção.

Quando é que tu gostavas?

E gostava muito, já agora, que o doutor Rui também pudesse ser candidato.

Essa grande derrota não existiu. Existiu, naturalmente, uma derrota na medida em que um ganhou e o outro não ganhou, mas não é a grande derrota que previam e que alguns desejavam.

Pedro Duarte não vai avançar. À Agência Lusa, o social-democrata afasta essa possibilidade.

Eu não tenho ambições, nunca tive ambições pessoais dentro da vida política e, portanto, neste cenário, eu não coloco a hipótese de me candidatar à liderança do PSD.

Luís Marques Mendes, muito boa noite.

Olá. Boa noite.

E a recandidatura de Rui Rio, acredita que vai mesmo avançar?

Sim, eu acho que sim. Eu fui a primeira pessoa aqui a dizer que acho que a clarificação é positiva. E acho que ele vai avançar. E até lhe digo mais, eu acho que ele vai acumular com o líder parlamentar. Eu acho que ele vai querer ser líder parlamentar. Enquanto isso, já está a preparar os planos de organização e de campanha nesse sentido, parece-me óbvio.

Com sucesso vai o secretário-geral do PSD explicar que a decisão de apoiar uma recandidatura de Rui Rio com o presidente dos social-democratas ainda não está tomada.

Eu nem acredito, nem desacredito. A única coisa que posso te dizer é a minha opinião. Eu gostava que ele se recandidatasse. Agora, se vai candidatar ou não vai candidatar, isso é da vontade exclusiva dele, no timing que ele entender. Ele decidirá quando entender, da forma que entender, porque o nosso líder é assim, é genuíno e decidido.

Espero que não faça agora uma crônica muito grande sobre o tabu do Rui Rio, que não disse hoje se continua ou não. O Rui Rio pondera. Não há tabu só porque não responde ali ao fim de um minuto ou dois. Calma.

Sons aqui da Rádio Observador, também da TDM Macau, Lusa e SIC. Calma, mais de um mês depois das eleições, Bernardo Ferrão, calma, ainda vamos a tempo para analisar os resultados no Conselho Nacional?

Calma ou qual é a pressa?

Qual é a pressa?

Que agora também já usam essa.

Estava a reservar essa pra outro partido.

Essa célebre frase que foi usada por António Gesser. Eu acho que Rui Rio, neste momento, o que se espera, está a gerir aqui calendários, está a tentar perceber como é que as coisas vão correr, se há ou não novos candidatos. Está, sobretudo, a deixar baixar a fervura do pós domingo de eleições, dos resultados eleitorais, que, ao contrário do que ele diz, não foi nenhuma derrota. Foi, obviamente, uma derrota, não foi um bom resultado do PSD. Outra coisa seria discutir se lá estivesse outra pessoa, se lá estivesse outro líder, se faria melhor ou se faria pior. Eu tenho dúvidas que fizesse muito melhor, mas de facto Rui Rio não teve um bom resultado nas eleições legislativas. E eu acho interessante esta ideia de Rui Rio ser líder parlamentar do PSD. Eu sei que é uma coisa nova no PSD, mas acho que do ponto de vista político, para Rui Rio faz algum sentido, porque ele pode, dessa forma, assumir quase que o rosto do combate quinzenal com António Costa. E já percebemos que ele espicaçado funciona melhor. Não se percebeu isso durante quase todo o seu tempo de liderança, só se percebeu nas últimas duas semanas de campanha e aí se viu o que é o verdadeiro Rui Rio. Mas acho que o Rui Rio faz bem em fazer isso, em assumir a liderança parlamentar. E dito isto, acho que o Rui Rio vai ser candidato nas diretas. É difícil dizer se não tenho dúvidas, mas acho que todos os sinais indicam. E acho que isso vai ser positivo para o PSD, porque de uma vez por todas vai se perceber exatamente qual é que é o caminho. Ou é o caminho defendido por Luís Montenegro, que é um caminho que ele diluiu agora em campanha, de que não quer mais nada com o PS, embora isso para mim pareça meio impossível, porque o PSD e o PS sempre tiveram relações e sempre que houve acordos mais significativos para o país, eles tiveram que se entender. Ou então ganha a via de Rui Rio, que foi uma via que o partido não gostou, que é um PSD demasiado próximo do Partido Socialista, um PSD demasiado pactuante, que faz acordos, quando devia estar a fazer o contrário, na opinião de muitos.

José Manuel Fernandes, calma?

Bem, eu acho que o Rui Rio está, de facto, como diz o Bernardo, a gerir os tempos. Ele tem a vantagem de ser um incumbente, portanto, tem o calendário a jogar pro seu lado. Eu não sei se ele tem muita vantagem em Em ser líder parlamentar. Ele pode fazer os combates com o primeiro-ministro no Parlamento sem ser líder parlamentar.

Sim, Pedro Passos Coelho também o fazia.

Pedro Passos Coelho fazia, o António Costa faziam.

Mas controla melhor a bancada parlamentar, parece-me.

Sim, mas ocupa mais tempo no Parlamento também, tem menos tempo pra fazer outras coisas. Eu acho que isso tem mais a ver com outro-

Eu não sei se há muita coisa pra fazer, a não ser ganhar as diretas pra Rui Rio

Poderá ter a ver, sobretudo, com esse problema de ganhar as diretas e o problema de Rui Rio é uma pessoa que desde que ganhou as primeiras eleições, numa eleição em uma associação de estudantes na Faculdade de Economia do Porto, é alguém que quando se chega a um lugar é muito difícil tirá-lo de lá, porque ele arranja todas as formas e efetivos de não sair de onde está. Isso já me foi contado por alguém que conheceu na altura e que testemunhou que ele não saía, mesmo podendo eventualmente não estar em condições de se manter à frente da associação, ninguém o conseguiu tirar de lá até que ele deixou de ser estudante da Faculdade de Economia. Aqui é diferente, ele não vai deixar de ser político de um dia pro outro. Ninguém o vai tirar do PSD facilmente. Eu acho que ele vai muito provavelmente continuar a ser o líder do PSD, seja quem for que lhe surja pela frente. E provavelmente uma das formas mais seguras de garantir isso, um dos caminhos que ele está a fazer pra garantir isso é ser líder parlamentar, porque armadilha o caminho ao seu sucessor.

E tem uma mensagem que é uma zona onde ele pode mostrar, de facto, poder sobre o PSD, que aquela bancada, apesar de tudo, controla pelo menos os dois terços dela, seguramente são fiéis a Rui Rio.

Exatamente. É uma das formas dele exercer o poder. Depois, eu acho que há uma outra coisa que também é importante. Hoje o PSD, como aliás o PS, e eu acho que em menor grau o CDS, mas também muito o PCP, em menor grau o Bloco, são partidos onde a militância é cada vez mais pessoas que de uma forma ou outra dependem dos partidos e dependem da rede de empregos que os partidos gerem. Isso é tema hoje em dia, não tô a dizer que são as 100 e tal mil pessoas, 80 mil ou 90 mil pessoas que esses partidos têm, mas é uma parte muito substancial delas. E esta massa de gente que está ou esteve, ou aspira estar, de alguma forma, em empregos ligados ao poder, seja central, local ou outro, no caso do PSD, pode ter alguma esperança que com as negociações que venham da descentralização existam mais lugares. E pelo que já me disseram, Rui Rio poderá jogar com isso, nomeadamente porque há muitos autarcas do PSD que já não vão poder recandidatar-se e vão ficar, como costumo dizer, pendurados. Mas a não ser que venha aí outra coisa qualquer, mais uns lugarzinhos políticos criados do nada em outras funções que resultem da tal grande reforma do Estado de que ele tanto fala, de que necessita dos dois grandes partidos.

Mas Zé Manuel, Rui Rio não ia acabar com isso? Com essa forma de olhar para o partido, agência de emprego?

Rui Rio disse isso muitas vezes, mas eu acho que esses partidos são o que são. Repara, quando nós saímos de Lisboa, do Porto, dos grandes centros, e vamos pra conselhos mais pequenos, nesses conselhos o que é que existe? Existe a câmara municipal, que muitas vezes é o maior empregador. A seguir à câmara municipal, há as empresas municipais. Depois das empresas municipais, há os bombeiros, que também já são empregadores. Depois há a misericórdia. E há uma rede que acaba por ter dezenas, centenas de empregos. Isso é muito importante pra estes partidos, sobretudo pro PS e pro PSD e também pro PCP.

Mas não bastam esses partidos, Zé Manuel. E acho que se é isso que está na cabeça de Rui Rio, não sei se é ou não, se é, tá se a esquecer de um pequeno ponto: é que o Presidente da República não vai permitir isso. O atual presidente da República, que será o futuro presidente da República, fará tudo pra impedir isso.

Mas ele prometer, pode prometer sempre.

Certo, não vai permitir uma coisa dessas. Se esse é o grande plano dele, entregar ao partido uma regionalização do país.

Uma descentralização com mais lugares.

Pode dar-lhe os nomes.

Quer dizer, eu penso que ele nem precisará tanto disso, porque eu acho que a luta vai fazer-se mais em quem é que controla as principais distritais e quem é que controla as concelhias e de facto há ainda algumas Câmaras Municipais nas mãos do PSD e de alguns fiéis de Rui Rio. E eu penso que a batalha, a contagem de espingardas vai passar mais por aí, por aquilo que já existe do que aquilo que potencialmente virá a existir, até porque neste momento o PS é que está no poder. Portanto, esses lugares irão mais para socialistas do que para sociais-democratas.

Mas há um problema a prazo.

Ele tava a falar de um cenário em que o Rui Rio já ganha e já está na negociação direta.

Exato. Mas há aqui um problema a prazo que é: o que nós temos agora não é normal. Nós estamos a caminho de ter um governo que não tem oposição. Isso podemos dar as voltas que nós quisermos, podemos ir pra onde nós quisermos. Isso não é normal. E se caminharmos nesse sentido, alguma coisa vai acontecer, porque obviamente nós não vamos

O sistema não aguenta um governo sem oposição. Estávamos a falar disso a propósito do CDS e no PSD é a mesma coisa. Esta divisão entre duas correntes sempre existiu, desde o primeiro dia da fundação do PSD, entre as pessoas que entendiam que o PSD devia trabalhar para ser um partido autônomo e dominante, e uma outra corrente que achava que o PSD devia conformar-se em ser uma espécie de adjunto do PS no poder. Isso provocou duas cisões gigantescas no partido, gigantescas a nível de dirigentes, mas irrelevantes a nível de eleitores, e o partido sempre conseguiu absorver isso. Portanto, aqui não há nenhuma novidade. A acrescer a isso, há um outro ponto que eu gosto sempre de lembrar, agora indo contra o que estou a dizer, que é sempre bom uma pessoa às vezes entrar em contradição, que é: Rui Rio não enganou ninguém no PSD. Ele disse que ia fazer isto. Aliás, Pedro Santana Lopes, que concorreu contra ele nas diretas, invocou precisamente esta história do PSD para dizer: "Está finalmente a ganhar. Preparemo-nos para quem é corrente que nos quer subordinados ao PS." E Rui Rio sempre disse isto, e os militantes do PSD acharam muito bem, concordaram. E aliás, o desgosto para Santana Lopes foi tão grande, que ao fim de décadas no PPD, saiu para formar um outro partido.

O objectivo do Rui Rio era tirar a maioria absoluta do PS, tirar a geringonça, acabar com a geringonça, aproximar-se o mais possível do PS e nesse sentido, o roteiro traçado até está a correr bem a Rui Rio.

Os resultados pelo menos dão lhe o caminho aberto pra estratégia que ele foi anunciando na campanha, que era a questão que ele falava do interesse nacional, se lhe será útil para o interesse nacional e que passará necessariamente por esses entendimentos com o PS em determinadas matérias. De facto, é verdade.

E há outra questão fundamental, que é que o Rui Rio verbalizou no congresso em que toma posse. Ele aponta já nessa altura para a importância das autárquicas em 2021 e a questão das autárquicas, de facto, pode ser muito importante para o PSD, caso Rui Rio chegue lá.

E na noite eleitoral voltou a falar nisso também.

Sim, porque o calendário, neste momento, parece-me que é mais favorável ao PSD do que ao Partido Socialista, porque o Partido Socialista teve um resultado muito bom nas últimas autárquicas, portanto haverá uma tendência natural para descer, até porque o PS vai governar sem maioria absoluta e, portanto, pode ser mais castigado. E aí, Rui Rio, se conseguir chegar até às autárquicas, eu acho que as coisas lhe podem correr bem a seguir. E eu não dou aqui propriamente cenários muito fechados, nem acho que Rui Rio não possa ganhar as eleições internas. Está muito dependente do jogo que se vai fazer, mas também Rui Rio mudou as regras internas dentro do PSD. Aquela questão que nós víamos muito do pagamento das quotas, etc. É um processo que neste momento está mais dificultado, porque Rui Rio dificultou esse processo. A liderança tem mais acesso às fichas de militantes do que quem está de fora.

Tudo isso poderá contribuir para que Rui Rio se apresente e que ganhe as diretas de janeiro?

E esta gestão de calendário também, porque há aqui um fator que o Rui Rio conseguiu impor, que foi silenciar os críticos, que falaram todos logo a seguir ao resultado eleitoral. E este silêncio, que pareceu estranho numa fase inicial, teve agora efeitos positivos para as ambições do Rui Rio. É que os próprios críticos, neste momento, estão calados e ninguém vem a público.

Agora vão fazer uns jantares durante os fins de semana e pronto.

Exatamente.

Pedro Benevides, segue-me neste raciocínio. Vê lá se isto tem alguma base, alguma possibilidade. Vamos imaginar que Rui Rio se candidata mesmo à presidência da bancada parlamentar e é o presidente da bancada. E que perde as diretas. Isto é possível?

É possível porque a votação pra liderança da bancada vai ser anterior às diretas. Esse cenário é possível. E é possível também porque ele tem uma maioria dos deputados que são gente dele.

E segundo o José Manuel Fernandes, temos aqui um líder carrapato, a expressão é minha.

Aí acho que ele não fica. Não, mas atenção, mesmo que ele ganhe as diretas, eu não tenho a certeza absoluta que ele permaneça neste cenário. Estamos aqui a falar apenas de hipóteses, porque nada disso está confirmado.

Claro.

Se ele ganhar as diretas, vai passar a pasta a outro líder parlamentar.

Exatamente. Portanto, eu acho que uma coisa não está dependente da outra. Ele tem todas as condições para ser eleito líder da bancada.

Eu acho que a bancada parlamentar é instrumental neste momento, até chegar às diretas.

Acho que a liderança da bancada parlamentar é mais para consumo interno, para que o partido o veja como um desafiador de António Costa e um opositor de facto a António Costa, para tentar esvaziar uma parte do argumento de Luís Montenegro, que diz que o PSD de Rui Rio é precisamente este PSD, é uma espécie de PS dois, um PSD subordinado aos socialistas.

Sim, é a cópia.

Depois de resolvido esse problema, ele não precisa de ser líder da bancada, nem faz muito sentido que permaneça lá. Miguel, temos Montenegro a assumir-se como candidato e cadê os outros?

Haverá pelo menos mais um, que é Pinto Luz. Não sabemos se Miguel Morgado avançará.

Quantos mais avançar, é mais fácil tem a vida para Rui Rio.

Sim, talvez, não sei.

Depende. Vai ser por uma segunda volta, não é?

Sim.

Depende pra onde é que vão os votos.

Os apoios dos outros. Não sei muito bem essas contas. Portanto, não há falta de pessoas, mas não são nomes avassaladores. Não há ali nenhum nome que faça com que o povo se ajoelhe à sua passagem.

Nem estamos a ver isso. Depois do que o Pedro Benevides dizia, daquela primeira semana com muita conversa, muitas reações.

Não há ninguém que agregue toda a oposição a Rui Rio, por um lado, e por outro, não há ninguém que talvez mobilize um presidente de junta em Carrazeda de Ansiães, é possível, mas não vejo nas ruas os eleitores expectantes. Esse é o grande problema da direita, a falta de lideranças que agreguem, de facto. Sim. E que mobilizem.

Foi o nosso convidado Bernardo Ferrão, subdiretor da SIC e os nossos comentadores residentes José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro e Pedro Benevides. Terminamos, como sempre, com uma canção escolhida pelo nosso convidado e Bernardo, hoje viraste-te para um clássico do punk rock, The Clash.

Sim, The Clash, "Should I Stay or Should I Go", que é dedicado a Rui Rio, embora eu ache que ele vai optar pelo Should I Stay, nunca se sabe se vai fazer o Should I Go.

Ficamos com The Clash no final deste Caça ao Voto.