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Bem-vindos a esta série especial do "Caça ao Voto" na rádio, no site do Observador e também em podcast. Para não perder, basta assinar ou subscrever na aplicação de podcast que utiliza habitualmente. Neste "Caça ao Voto", vamos olhar para os três novos partidos que conseguiram eleger um deputado: o Iniciativa Liberal, o LIVRE e o Chega. Nos próximos dois episódios falamos de CDS e também do PSD. Este "Caça ao Voto" começa agora. Joacine Katar Moreira, João Cotrim Figueiredo, André Ventura, são estes os nomes dos três novos deputados que representam os três partidos que entram pela primeira vez no Parlamento. O equilíbrio político altera-se. No Parlamento há mesmo quem diga que nada mais será igual daqui para frente. É um dos pontos para a conversa, já daqui a pouco, com os nossos especialistas em debutantes. Miguel Pinheiro ficou com medo que eu dissesse especialistas noutra coisa. José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro, Pedro Benvides, do Observador, e o nosso convidado especial, também ele debutante na Rádio Observador, o Manuel Carvalho, director do Público. Antes da conversa, vamos ouvir alguns sons que importa ouvir a esta hora.
Na área desta noite fica também a chegada de novos partidos. São três. O primeiro da noite a saber que tinha ganho um lugar no Parlamento foi o Iniciativa Liberal.
Um partido que há seis meses quase não tinha qualquer cobertura.
Carlos Guimarães Pinto fala numa nova opção ideológica.
E chega aqui porque tem as ideias que o país precisa, as ideias que nos próximos anos irão fazer uma verdadeira oposição ao socialismo no país.
Entenda socialismo por todas as medidas que aumentem o poder do Estado e diminuam o poder das pessoas. E como sabemos que o programa do PS vai nesse sentido, eu não me refugio na resposta protocolar, dou-lhes já a resposta: eu vou votar contra o programa do Governo.
O LIVRE também conseguiu eleger Joacine Katar Moreira. No final da noite eleitoral, o líder que disputava... A esquerda antifascista. A esquerda antirracista. Estava disponível para viabilizar acordos à esquerda. Estamos disponíveis a participar numa união à esquerda que seja uma união multipartidária. Há um novo partido ainda com assento parlamentar, o Chega, André Ventura.
Viemos hoje aqui, depois desta eleição tão difícil, para dizer aos portugueses que agora vão estar representados aqui nesta Casa, que é a Assembleia da República, e que a partir de agora a voz contra este sistema, a voz contra esta política e a voz contra estes governantes que nos roubam há 40 anos nunca mais se vai calar! Nunca mais se vai calar!
Meus senhores, com a entrada destes três novos partidos, o equilíbrio de forças nunca mais virá a ser o mesmo no Parlamento. Damos honras de abertura ao Manuel Carvalho, director do Público, que se junta a nós neste "Caça ao Voto". Bem-vindo, Manuel.
Obrigado, bom dia.
Daqui para a frente, nada mais será igual no equilíbrio de forças em Portugal, tal como o conhecíamos?
Se houver mudanças estruturais, mudanças profundas no cenário parlamentar nos próximos anos, não me parece que seja pelo facto de haver três partidos novos representados no Hemiciclo, cada um deles com um deputado. Enfim, durante os próximos anos, nós não sabemos quantos anos é que vai durar esta legislatura, cada um destes pequenos partidos, cada um destes deputados, se quiserem, vão ter que fazer prova de vida e não a líquido que todos sejam capazes de reunir capital político suficiente para garantir não só uma reeleição nas próximas legislativas, mas também fazer aquele percurso que o PAN fez nos últimos quatro anos, que passou de um deputado para um pequenino grupo parlamentar. Até porque as circunstâncias são adversas. Se na última legislatura o PAN estava sozinho, podia brilhar sozinho, agora vai haver um dispersar.
Tem de partilhar o espaço mediático também.
Exatamente. Nós sabemos que, por outro lado, a mensagem e o programa do PAN é particularmente sedutor para uma geração de eleitores que não se sentia, de facto, representada. E nós temos que reconhecer que, com todos os absurdos que foram ditos pelo seu líder ao longo da campanha, com todos os absurdos que estão inscritos no seu programa, há de facto uma mensagem nova que capta um eleitorado muito específico, principalmente entre a juventude. Isto não é exatamente repetível ou replicável pelos três outros partidos. Eu distinguiria aí, apesar de tudo, o Chega. O Chega tem uma mensagem bastante mais disruptora, mais diferenciada daquilo que é o mainstream da comunicação política em Portugal ou do programa político em Portugal. E portanto, por aí poderemos ter um caso mais similar ao do PAN. Quanto aos outros
Eu pago para ver.
Zé Manuel Fernandes, seguindo já nesta lógica de raciocínio, estes três novos partidos que há aqui duas visões: uma que diz que vai desequilibrar para sempre o que temos no Parlamento, ou pelo menos o status quo que tínhamos no Parlamento com os partidos mais tradicionais; outra diz que se calhar não terá assim tanta influência e depende do desempenho deles. Por qual destas visões é que optas, Zé Manuel?
Bem, eu diria o seguinte: eu acho que obviamente vai depender sempre do desempenho deles. Mas há um aspecto que me parece muito claro. Estes partidos vão, de alguma forma, condicionar os restantes. Mais importante do que saber o tempo que cada um deles vai ter para intervir, eles vão trazer algum discurso diferente. E mesmo o próprio LIVRE vai condicionar, de alguma forma, o discurso à esquerda. E sobretudo o Iniciativa Liberal e o Chega vão condicionar o discurso à direita, vão introduzir temas que não estavam presentes, vão introduzir linguagem que não estava presente, dos dois lados. Já percebemos isso pelas primeiras declarações imediatamente na noite eleitoral e no pós-eleições. Percebemos isto, por exemplo, também num prós e contras que houve imediatamente na segunda-feira a seguir às eleições e, portanto, isso vai obrigar os outros partidos, provavelmente, a terem que afinar o seu tiro e a corrigirem o seu discurso. O que isso pode levar? Eu acho que se calhar vamos ter menos complexos no discurso e vai haver mais separação de águas, por incrível que isso possa parecer. Não sei se vai ocorrer dessa forma ou não, mas o que estes partidos têm é aquilo que, de alguma forma, o Bloco de Esquerda trouxe há muitos anos atrás à esquerda, que foi trazer um discurso que não tem peias, não tem muitos limites e por isso obriga os outros a posicionar-se em função desse discurso com menos limites, com menos tabus e, portanto, naturalmente que vamos ter um campo de debate mais aberto.
A uma radicalização dos discursos?
Pode acontecer uma radicalização dos discursos, pode haver radicalização, pode haver clarificação. A radicalização é má, a clarificação é boa. Portanto, a forma como isso vai ocorrer vai depender bastante da forma como as coisas se processarem no Parlamento. Reparemos que estes discursos não são todos iguais, são discursos diferentes e dirigidos a públicos diferentes, e são sobretudo diferentes do que foram os discursos dos deputados, dos monodeputados, chamemos-lhe assim
Unideputados.
Unideputados. Todos os deputados são únicos, mas há deputados mais únicos que outros . Que houve em legislaturas anteriores, que no fundo não tinham um discurso muito individualizado. Estou-me a lembrar, por exemplo, do Partido dos Reformados, que apareceu e desapareceu, precisamente porque era um discurso que não tinha corpo, era uma coisa que representava uma espécie de interesse particular.
Deixa-me aproveitar essa deixa.
Qualquer um destes partidos traz uma parte de discurso ideológico que não tinha representação no Parlamento. O próprio LIVRE, que parecia que não trazia, Joacine Katá Moreira traz um discurso que não é o discurso do Rui Tavares, é um discurso diferente.
Sim. E isso, Miguel Pinheiro, pode fazer com que a eleição destes três deputados não seja apenas um epifenómeno, algo conjuntural?
Eu citaria um grande pensador.
Como é teu hábito, Miguel Pinheiro.
A prova do pudim é comê-lo.
Um grande pensador chamado Jerónimo de Sousa.
Isso, estava-me a escapar o nome.
Ou a mãe, a mãe do Jerónimo de Sousa.
Era isso ou o Kant. Eu estava aqui na dúvida.
Ele citou a mãe.
Acho que os dois partidos à direita têm maiores desafios do que o partido à esquerda e por razões diferentes. Acho que o Chega tem um problema de alguma incoerência programática, que é o de ser aquele tipo de partido que deveria ser economicamente nacionalista. E é um partido totalmente liberal do ponto de vista econômico. Quando ouvimos André Ventura falar, ele está a dizer as mesmas coisas que o Iniciativa Liberal. E isso não o joga muito bem, porque estes partidos populistas ou de extrema-direita, o que quisermos, neste caso até populistas, deste ponto de vista. Porque se nós formos ver aquilo que é dito no discurso destes partidos ou destes líderes políticos lá fora, existe um nacionalismo cultural e existe um nacionalismo econômico. E aqui, de facto, nós não temos isso. Não sei muito bem como é que isto vai jogar principalmente no eleitorado potencial do Chega.
Eu acho que não é bem um partido nacionalista
Até porque é um bocado até para o próprio.
Não é bem um partido nacionalista.
É o quê? Internacionalista?
Não, no sentido tradicional do termo. Lê-se o programa dele e aquilo não resulta dali o discurso típico de um partido nacionalista.
Vamos ouvir o eleitor de política.
O programa, na verdade, nem era originalmente do Chega. Aparentemente, grande parte do programa foi copiado do programa do partido da Nova Democracia, porque o autor foi o mesmo e explicou que pensa aquilo e, portanto, independentemente do partido, é aquilo que pensa, é aquilo que põe. Partes do programa do Chega eram cópias integrais do programa da Nova Democracia e depois até em Angola acho que foi copiado também por um movimento.
Isso quer dizer que o programa é bom, não é?
Eu acho que quer dizer que o programa era, mas isto é a minha leitura, eu acho que o programa, no contexto desta candidatura do André Ventura e do Chega, era a parte mais irrelevante da candidatura. Acho que pra eles era mais importante o discurso público que faziam e aquele som que nós ouvimos aqui feito à frente da Assembleia da República, toda aquela carga simbólica. "Estes governantes que nos roubam há 40 anos e nós vamos mudar isso." Quer dizer, mesmo os cartazes, aquilo não dizia nada, não tinha nenhuma sustentação programática, nem nenhuma sustentação teórica e coerente.
É um programa de mesa de café, muitas vezes.
Exatamente. Para mim, essa é a explicação para esta incoerência.
De facto, lendo o programa, não resulta dali, praticamente em ponto nenhum, uma coisa que a gente diga: "Epá, está aqui um programa assustador de extrema-direita." Não resulta isso do programa. O que é que resulta? Resulta dali claramente um discurso tipicamente populista anti-elites, portanto, anti-corrupção, anti os gajos que nos roubam.
Anti eles. 100 deputados chegam e sobram. Não é só anti-elites. Aquilo que está no programa sobre os estrangeiros, também é claríssimo que tudo o que seja, aliás, em total contradição com o que diz o programa sobre os portugueses que emigraram lá pra fora e tem um programa de grande defesa dos emigrantes portugueses que foram lá pra fora, esquece que a esmagadora maioria dos emigrantes portugueses que foram lá pra fora há décadas e décadas e que seguramente puxa ao coração de André Ventura, entraram ilegalmente em França. E aquilo que o Chega tem ali é um programa, primeiro, em que tudo que seja imigrantes ilegais, que entraram de forma ilegal em Portugal, devem ter todos os seus direitos retirados, todos, e impossibilitados de qualquer tipo de regularização da sua situação, absolutamente securitário, um programa completamente securitário e dirigido a um nicho eleitoral, que é o das forças de segurança, dos polícias e tudo mais.
Sim, mas isso não é nacionalismo, obrigatoriamente.
Eu estava falando um nacionalismo cultural, não é nacionalismo no sentido de... Quer dizer, é evidente que aquilo é um discurso que tenta recuperar ou copiar pra Portugal o discurso que nós vemos no populismo de Donald Trump, em populismos em vários países europeus, e que depois não tem o outro contrabalanço, que é um bocadinho aquele nacionalismo econômico que nós vemos no PC de ajudar as nossas indústrias e da autossuficiência econômica. Deixa eu mirar ainda aqui ao Pedro Benevides sobre a questão do epifenómeno ou não da eleição destes três novos partidos, Pedro.
Pegando aqui nas palavras e na citação do Miguel, acho que de facto a experiência portuguesa mostra que já tivemos de tudo, partidos que se conseguiram implementar e partidos que desapareceram no ato legislativo seguinte. Eu diria que com três é possível que alguns não vão resistir. Não tenho a certeza de que o LIVRE esteja numa posição mais confortável, na verdade, porque acho que vai ter, depois de passar esta midiatização toda, que é muito virada pra uma personalidade que de facto vingou e se tornou notada, que é a de Joacine Katar Moreira, eu não sei se o LIVRE vai ter condições de mostrar qual é a sua grande diferença relativamente, por exemplo, ao Bloco de Esquerda. Lembro que o Bloco de Esquerda também entrou com outras condições no Parlamento quando entrou pela primeira vez, porque entrou logo com um grupo parlamentar, o que apesar de tudo facilita a ação política, porque têm acesso a mais coisas e podem fazer mais coisas. Diria que o Iniciativa Liberal tem um discurso, de facto, novo no Parlamento e, portanto, isso pode deixar ali algum lastro. Acho que já houve consequências da entrada destes partidos até antes de eles terem sido eleitos. Por exemplo, o CDS eu acho que já sofreu precisamente com isso, porque nas europeias quis adotar um discurso que era muito associado ao Chega ou ao eleitorado a que o Chega queria chegar e sofreu muito com isso.
E correu mal.
Correu mal. Portanto, eu acho que mesmo que não vinguem, já tiveram aqui alguns efeitos no sistema.
E Manuel Carvalho, pego aqui em algo que estávamos a falar já na primeira parte. Há uma necessidade agora dos partidos tradicionais, dos partidos que representam uma grande fatia da população portuguesa, de se adaptarem, ou de adaptarem pelo menos o discurso a estes mais pequenos, mais radicais na forma e no conteúdo, às vezes?
Eu diria que não, porque isso seria, de alguma forma, inverter a ordem natural das coisas. Normalmente, os poderosos é que conseguem ditar as regras de uma forma muito mais fácil e eficaz do que os pequenos. O que não quer dizer que não possa haver alguma contaminação por parte de alguma parte do discurso dos partidos mais pequenos, que esse discurso dos pequenos não possa de alguma forma contaminar o discurso dos grandes. Aliás, isso já aconteceu. Vimos que o programa do PAN contaminou praticamente os programas de todos os partidos.
De repente, toda a gente era verde.
Exatamente.
Eu sou mais verde do que tu.
Exatamente. Era tudo a verde, parecia um campeonato resumido ao Sporting. Eu acho que relativamente a estes três partidos, a capacidade de contágio do Chega será nula, do meu ponto de vista. Acho que o programa do LIVRE, a questão fundamental do antirracismo, o Bloco de Esquerda já tinha essa bandeira. E aquilo que o Iniciativa Liberal vai ter para propor também não é, citando também um filósofo muito importante que o Miguel aqui já citou: "Vinho novo em odre velho". O Jerónimo de Sousa também em tempos disse esta expressão popular que eu acho particularmente interessante. Porque o discurso liberal na economia do Iniciativa Liberal, de alguma forma, o PSD já o teve, o CDS já o teve. E aliás, parece-me que uma das causas principais do desastre, da tragédia do CDS, foi ter deixado este eleitorado completamente abandonado ao longo de quatro anos. Tentou recuperar apenas no momento das eleições e foi tarde demais. Lembremo-nos que em tempos o CDS era o partido dos contribuintes, fazia gala disso. Falamos aqui das inconsistências do programa do Chega. Estou de acordo com aquilo que foi dito sobre essas inconsistências. Podemos também falar de muitas inconsistências do programa do LIVRE. O José Manuel disse, e eu estou de acordo com ele, que este LIVRE é mais radical do que o LIVRE do Rui Tavares. Embora lá está...
O primeiro LIVRE.
O do primeiro LIVRE, que era de alguma forma muito mais social-democrata, portanto seria uma esquerda mais europeia, mais suave. Mas se nós virmos bem, foi o Rui Tavares que redigiu este programa e tem lá, por exemplo, ao nível da economia, algumas medidas que não foram muito discutidas, mas eles defendem 30 dias de férias e 30 horas semanais de trabalho para todos os portugueses.
Têm o meu voto. É tudo o que eu tenho para dizer.
Eu também gostava de votar uma coisa dessas.
E 900 € de salário mínimo, creio.
Exatamente.
Até vão mais longe que o PCP.
E se nós quisermos nos entretermos aqui durante cinco minutos, ainda encontramos aí mais umas bonécias fantásticas. Ainda fazemos um grupo parlamentar com um programa desses. Tem também o lado mais radical da luta antirracismo e do feminismo radical, que depois, foi explicado.
E do verde radical também.
Exatamente. O LIVRE parece que quer ultrapassar o Bloco pela esquerda. Eu não sei, muito sinceramente.
Onde é que achas que eles se vão sentar?
Pois, é uma boa pergunta. Olhando para aquilo que é o seu discurso, atualmente eu sentá-los-ia, uma vez que é que o Bloco agora se diz o partido de contas certas e social-democrata, eles ficariam claramente à esquerda do Bloco, mas não sei se é isso que vai acontecer. Aliás, eu não sei se o Bloco se sentiria muito confortável com esta situação.
Vai ser curioso também ver onde é que se sentam todos.
Sem dúvida. Como é só um, pode ficar ali algures numa zona de transição.
Nunca vão ficar na primeira fila, portanto dá para disfarçar. Como só têm um, não podem ficar na primeira fila.
Mas esse ponto de decoração de interiores é interessante. Não, mas é mesmo interessante. Atenção, é mesmo interessante porque, por exemplo, o Iniciativa Liberal, eu acho que vai ter um problema que é: acho que muita gente votou no Iniciativa Liberal olhando apenas para o lado económico e depois se calhar vai ter uma surpresa quando começarmos a falar dos costumes, porque o Iniciativa Liberal é mesmo liberal. É uma coisa que às vezes não é muito habitual.
É liberal à portuguesa.
O que eu quero dizer com isto é que não é só na economia, ou seja, são a favor da eutanásia e nós vamos ter uma votação muito divisiva na assembleia sobre a eutanásia muito em breve. E se calhar algumas pessoas vão ficar surpreendidas ao ver o deputado da Iniciativa Liberal votar a favor da eutanásia. São a favor da liberalização do cannabis. Se calhar algumas pessoas que terão saído do CDS para votar na Iniciativa Liberal vão ficar surpreendidas a favor da regulação da prostituição, etc. Por aí adiante, são totalmente diferentes.
O Iniciativa Liberal fez uma coisa que muitas pessoas não repararam. O Iniciativa Liberal desfilou na Avenida Liberdade no 25 de Abril e fez gala nisso. Eu não me recordo da última vez que o PSD ou CDS tinham participado nesse desfile.
Mas só para explicar como é que isto se liga com a decoração de interiores, foi por causa disso que eu entrei, Manuel Crespo, porque o deputado da Iniciativa Liberal diz que quer ficar ao centro.
Exatamente.
Quer dizer, ao centro?
Que é onde está o PAN agora.
Quer ficar ao centro. Não quer ficar à direita, recusa as divisões esquerda-direita. Aliás, disse que gostaria de estar numa segunda dimensão, que foi uma coisa que me assustou um pouquinho, eu não percebi muito bem essa coisa da segunda dimensão. Fez-me lembrar a Twilight Zone, que a tradução para Portugal é a quinta dimensão. Mas quer dizer, querem ficar ao centro, o que é muito significativo e eu acho que pode ser muito surpreendente para algum eleitorado que
José Manuel Fernandes, onde é que sentavas o deputado João Cotrim de Figueiredo?
Eu acho que ele sinceramente quer mesmo ficar ao centro. Eu acho que o natural é que o Livre se sente entre o PCP e o PS. Era aquilo que eu diria que seria mais natural. Não sei se isso vai acontecer. Ficará um bocadinho estranho, mas também não é impossível que fique ali entre o PCP e o Bloco. Mas por acaso vai ser uma coreografia interessante de ver. Agora, eu acho que há um outro aspecto que vai ser importante seguir. O discurso destes partidos vai naturalmente ser um discurso também diferente pelas características dos seus protagonistas e partem de uma base igualmente diferente. Estes partidos têm claramente bases eleitorais distintas, que em alguns aspectos se interpenetram, apesar de nós não darmos às vezes suficiente atenção a isso. Nós às vezes temos cabeças muito quadradas no sentido em que arrumamos as pessoas em gavetas e achamos que as pessoas são, por exemplo, de esquerda ou direita e ponto final, parágrafo. E não vemos coisas como, por exemplo: o Chega foi buscar muitos eleitores que habitualmente votavam no PCP. E isso não é surpresa. Primeiro, porque faz um discurso que toca esse eleitorado, depois porque os partidos populistas na Europa e noutros países fizeram o mesmo. E se nós repararmos na base eleitoral, nas freguesias onde teve mais votos, bate certo. Aliás, é uma análise que ontem Daniel Oliveira fazia, bem feita, na sua coluna no Expresso. Mas não é a primeira pessoa a fazer isso, a primeira pessoa a notar isso, ele só que fazia isso de forma mais detalhada. Eu vou dizer uma coisa que se calhar vai chocar muita gente. Eu vi muitas pessoas antes das eleições, pessoas de várias idades e de várias formações, portanto, pessoas jovens, mas pessoas também mais velhas, indecisas entre o Livre e o Iniciativa Liberal. A ideia de que as pessoas têm conceções ideológicas sofisticadas e que decidem muito bem e têm um quadro completo e sabem muito bem o que é o liberalismo, o socialismo, estas coisas todas, não corresponde àquilo que é o eleitor comum. O eleitor comum é capaz de olhar para os programas, agarrar três ou quatro coisas e inclinar-se por um partido ou para o outro, por razões diferentes. E este é um eleitorado urbano, tipicamente urbano. O eleitorado do Livre é ainda mais urbano, no sentido de centro urbano. Por exemplo, aqui em Lisboa é quase só Lisboa e em Lisboa são as freguesias do centro de Lisboa, curiosamente, enquanto o Iniciativa Liberal apanha muito o eleitorado das zonas suburbanas sul, digamos aquelas que são mais ribeirinhas.
Mas é sobretudo zonas mais enriquecidas.
Mais afluentes. Não tem que ser rica.
Exatamente. E em Lisboa ainda vai a Cascais e tal.
Ainda vai a Cascais, Oeiras.
Em Gaia, no Porto.
Cascais, Oeiras. Enquanto o Livre está em Sintra e em Amadora, por exemplo, e Loures e Odivelas, e Franca de Xira. São eleitorados diferentes e cobrem áreas diferentes. Nós não podemos arrumar isto de uma forma tão simples, como isto é esquerda, isto é direita e as coisas arrumam dessa forma, porque há aqui interpenetrações que correspondem a uma rearrumação do espaço político que já vem a ocorrer na Europa antes, em que de repente o eleitorado se move de uma forma mais plástica e mais caótica do que antes se movia e que também aqui está a começar a acontecer em Portugal.
Pedro, achas que isto é o próximo passo?
Apesar de tudo, as grandes tendências na distribuição do voto por esses partidos são mais ou menos claras. Ou seja, o mesmo Livre tem muita presença nas zonas de centro de Lisboa, por exemplo, onde há pessoas instruídas. Há ali depois diferenças nas faixas etárias e o Chega vai muito para as zonas de subúrbios e depois tem muita penetração na zona Sul, que não está diretamente relacionada, por exemplo, com o número de crimes ou fatores desse género. Tendo em conta o discurso securitário, poderiam ter alguma influência, aparentemente não têm.
Mas pode ter ligação à média baixa.
Tem presença de comunidade estrangeira.
E pode ter ligação a uma sensação de abandono, por exemplo.
Eu acho que o que tem acontecido, e pegando aquilo que o José Manuel disse, os novos partidos surgem sempre com algum gancho que agarra determinados eleitores que não se reveem propriamente no discurso das partidos tradicionais. Isso aconteceu com o PAN, claramente, que trouxe a agenda dos animais e da ecologia de uma forma um bocadinho diferente.
Primeiro, os cães e os gatos.
Os cães e os gatos, seguramente, mas é uma perceção, mas eu acho que foi exatamente isso. Era um partido político que trazia uma mensagem muito dirigida à vida das pessoas. Isso aconteceu também, creio eu, por exemplo, com o Bloco de Esquerda, porque nasceu como o partido das causas fraturantes, depois fez um trabalho muito bem feito de recomposição do seu eleitorado e hoje é uma presença forte no Parlamento, mas eu acho que quando nasceu atraiu muitos votos precisamente com um discurso novo de assuntos que não estavam na agenda dos partidos tradicionais e acho que na altura até captou muito eleitorado que não votaria necessariamente à esquerda, sobretudo um eleitorado urbano que se revia naquelas propostas. E eu acho que estes partidos também tiveram isso, incluindo o Chega, naturalmente, que veio com este discurso, como o Manuel dizia, que é muito disruptivo e muito diferente daquele que os outros partidos traziam O que vai acontecer a partir daqui? Vai depender agora da forma como eles conseguem de fato alimentar este discurso. E por exemplo, os partidos, há bocadinho perguntavas onde é que o João Cotrim de Figueiredo se deveria sentar. Eu acho que ele se deveria sentar primeiro na biblioteca da Assembleia da República pra perceber os procedimentos, em vez de já estar a dizer que vai votar contra o programa do governo, que ele não tem hipótese de votar contra o programa do governo pra já, porque não se prevê nenhuma moção de rejeição ou de confiança e ele próprio não tem capacidade de a propor, portanto, acho que ele deveria primeiro sentar-se lá e depois logo tomava lugar no hemiciclo. O próprio Chega pode acontecer aquilo que acontece com outros partidos, com este discurso populista que aconteceu na Europa, que é no momento em que têm de provar perante os seus eleitores o que é que de fato vão fazer pra mudar as coisas, muitas vezes eles acabam por desiludir os eleitores porque fizeram promessas que depois não têm capacidade de as cumprir. Portanto, vamos ver o que é que vai acontecer e vai ser interessante também, e não querendo monopolizar o discurso, ver o que é que nós próprios jornalistas vamos fazer com estes movimentos, porque eu admito que nós tivemos uma grande dificuldade em lidar, por exemplo, com o Chega. Para já não soubemos identificar claramente qual era o poder potencial deste partido em termos eleitorais e temos de fato uma grande dificuldade, que é: damos cobertura e potencialmente estamos a amplificar esta mensagem ou não damos e estamos a ignorar um facto que está a tocar
Excelente pergunta pra o Manuel Carvalho, tinha pensado nisso também. Como é que nós, enquanto jornalistas, também vamos lidar com esta realidade de nove partidos no Parlamento? Nós, jornalistas, pomos sempre aquela linha editorial que é: tratamos com os partidos com assento parlamentar.
Exatamente, mas nós não tratamos coisas diferentes de forma igual. Eu acho que essa pergunta é mais interessante fazer lá a RTP, não é? Como é que vai ser daqui nas próximas eleições legislativas vão ter que fazer os debates, vão ser com nove, portanto, e vai ser uma coisa bastante mais cacofónica. Eu acho que nós não podemos, no caso concreto do Chega, é aquilo que pra nós é uma realidade nova e é a realidade com a qual todos nós temos feito perguntas e enfim, nós devemos designar aquele partido como partido de extrema-direita? Se aquilo é um partido de extrema-direita, de alguma forma não deveríamos designar o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda como de extrema-esquerda? São discussões absolutamente pertinentes e pra os nossos eleitores ou pra os nossos ouvintes, são questões que fazem todo sentido. Mas eu acho que nós não podemos colocar um anátema sobre o Chega. O Chega foi eleito por cidadãos portugueses. Não devemos deixar de criticar, portanto, as suas posições, enfim, de acordo com os estatutos editoriais de cada um dos órgãos de comunicação social, não devemos deixar de criticar quando ele põe o pé fora daquilo de matérias que são absolutamente inaceitáveis, tipo a xenofobia, o discurso ultrassecuritário. Os outros é fácil. Bem, é fácil, não é muito fácil. No caso concreto, muito sinceramente, tenho muito pouca simpatia quando vejo uma deputada eleita pra Assembleia da República dizer que uma das suas missões na Assembleia da República é lutar pela causa do feminismo radical. O que me levou também a ir consultar uns livros pra perceber o que é o feminismo radical, que eu não sei o que é o feminismo radical. Sei o que é o feminismo, acho que enfim, algum do feminismo já é radical, mas acrescentar ao radicalismo natural do feminismo o epíteto radical é algo com o qual nós não sabemos... Quanto à Iniciativa Liberal, eu acho que vai ter muitas dificuldades. Acho que de todos é o partido que vai ter mais dificuldades em fazer-se ouvir. Pode surpreender pelo lado dos costumes, mas muito sinceramente eu acho que naquele programa liberal há muitas inconsistências e vão me desculpar, vou aqui invocar o meu estatuto de homem do Porto ou do Norte. E a grande inconsistência que aquele partido tem é que é o único partido liberal do mundo que não cumpre o princípio fundamental matricial do liberalismo, que é o princípio da subsidiariedade. Quando se fala da desconcentração do Estado, eles vão: "É pá, a gente descentralizar, descentralizar agora..." Dar poder político efetivo às regiões, ou seja, regionalizar, é algo que, enfim, contrariando todo o pensamento liberal desde os Federalist Papers até a atualidade, isso é uma coisa que eles não querem meter. Eu muito sinceramente acho que faz falta um partido liberal em Portugal, como existe um partido liberal com os pergaminhos e com a história do Partido Liberal Britânico ou do Partido Liberal Alemão, que curiosamente se sentam entre os trabalhistas e os democratas cristãos, estão de fato no centro. Mas eu acho que vai ser o partido que vai ter mais dificuldade em fazer-se ouvir, até porque tarde ou cedo o PSD vai querer recuperar essa bandeira, precisamente o Iniciativa Liberal.
Miguel Pinheiro.
Sobre essa questão do jornalismo, acho que a regra é muito simples: os jornalistas fazem jornalismo, não fazem política. Os jornalistas, portanto, devem cobrir.
Exato, fazer notícias quando as houver.
Fazer as notícias, cobrir. Esteja lá um deputado do Chega ou um deputado do Livre ou do que for, e escrutiná-los. Quando disserem coisas que estão erradas, devem dizer que estão erradas. Agora, os jornalistas terem agora uma plataforma política, seja contra quem for, e tomarem opções editoriais para tentar evitar que a política vá pelos caminhos que não lhes agradam, acho que corre sempre mal. Mas atenção, eu não defendi isso.
Eu sei.
Foi de fato uma realidade nova com que nos defrontamos, porque de fato o partido não tinha sido eleito e como é que se cobre este partido e qual é a verdadeira dimensão que ele tem. E nós não conseguimos, acho eu, genericamente perceber logo.
Eu acho que mesmo as sondagens
Não nos davam isso na realidade.
Era o Aliança tinha mais probabilidades nas sondagens do que o André Ventura.
Porque realmente isto foi tudo um fenómeno muito localizado em Lisboa e o mais útil teria sido termos sondagens de Lisboa propriamente do que do país inteiro para conseguirmos perceber isso. Agora vamos ver como é que cada um se safa.
Foi o nosso convidado Manuel Carvalho, director do Público e os comentadores residentes Emanuel Fernandes, Miguel Pinheiro e Pedro Benevides. No próximo Caça ao Voto recebemos a editora executiva da Sábado, a Maria Henrique Espada, que se junta aqui ao Caça ao Voto para analisar o estado do CDS. Terminamos com uma canção escolhida pelo nosso convidado, o Manuel Carvalho. E Manuel, a tua escolha vai para?
Como são os triantos, eu lembrei-me com alguma ironia de um poema muito sarcástico do Sérgio Godinho, de uma canção chamada "Arranja-me um emprego".
Vamos a ela. Obrigado, Manuel.
Obrigado.
Tu precisas tanto de amor e de sossego, eu preciso de um emprego. Se mo arranjares eu dou-te o que é preciso, por exemplo, o paraíso. Ando a testar perdido nestas ruas, vou ser mais sincero, sinto que andas a recuas. Preciso de galgar as escadas do sucesso e por isso é que eu te peço: arranja-me um emprego. Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza, que eu dava conta do recado e para ti era um sossego. Se metes os pés para dentro a partir de agora eu meto-os para fora. Se dizia o que penso eu posso estar atento e pensar para dentro. Se queres que seja duro, muito bem, eu serei duro. Se queres que seja doce, serei doce, isso juro. Eu quero é ser o tal e como tal reconhecido e sem digo tão ouvido: arranja-me um emprego. Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza, que eu dava conta do recado e para ti era um sossego. Sabendo que as minhas intenções são das mais sérias, partamos para as férias. Mas para ter férias é preciso ter emprego, espera aí que eu já lá chego. Agora pensa numa casa com o mar ali ao pé e nós os dois a brindamos com rosé. Esqueço-me de tudo com um pôr do sol assim, chega-te aqui ao pé de mim: arranja-me um emprego. Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza, que eu dava conta do recado e para ti era um sossego. Se mandasse menos os teus trabalhadores seriam uns amores. Greves era só das 18h30 às 19h, em frente ao cassete. 1º de Maio só de 15 em 15 anos, feriado em abril só no dia dos enganos. E reivindicações quanto basta, mas não troco p'ra nada, bebe mais um copo: arranja-me um emprego. Arranja-me um emprego, pode ser na tua empresa com certeza, que eu dava conta do recado e para ti era um sossego. E tu precisas tanto de amor e de sossego, eu preciso de um emprego. Tu precisas tanto de amor e de sossego, eu preciso de um emprego. Tu precisas tanto de amor e de sossego, eu preciso de um emprego. E tu precisas tanto de amor e de sossego