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Dia quatro da campanha eleitoral, quem está a conseguir caçar mais votos pode acompanhar esta edição em vídeo no nosso site, em observador.pt e também nas plataformas Facebook e YouTube. Há dois temas que entraram hoje na campanha: o clima, a propósito da tinta que foi lançada por jovens contra a cabeça de Luís Montenegro, e ainda o tema do aborto.
Partimos para a análise antes de irmos até à estrada, ao encontro das caravanas da AD e da Iniciativa Liberal. Estão conosco neste Caça ao Voto o Bruno Vieira Amaral, também o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, e o Rui Pedro Antunes, editor de política.
Rui Pedro, Luís Montenegro pode ganhar votos com este episódio da tinta verde, já que está no papel de vítima?
Sim, ia dizer isso precisamente. Quem ganhou votos hoje foi o Luís Montenegro e quando até tinha alguma perspectiva de poder perder alguns, não por culpa do PSD, da parte que o faz liderar a coligação, mas talvez por culpa do CDS.
Por causa das declarações de Paulo Núncio sobre o aborto.
Sim, acho que é uma questão que está resolvida mesmo na cabeça do PSD neste momento, não estou a dizer que há oito ou nove anos não estaria, mas que está resolvida na cabeça das pessoas. Quando o líder do Chega, André Ventura, vem dizer que enquanto ele estiver à frente do Chega, esse referendo nunca acontecerá, e é ele a defender essa descriminalização de algo que estava bem resolvido na sociedade portuguesa, é estranho vir da AD. Mas Luís Montenegro, com este ataque, o rapaz chama-se Vicente, não me lembro agora do apelido, podia ser da JSD, porque de facto se calhar fez mais por Luís Montenegro do que os jotas que o andam a acompanhar na campanha, porque ninguém gosta de ver aquela imagem. O Luís Montenegro também baixou um bocadinho a cabeça, não demonstrou falta de coragem física, não foi diminuído na sua imagem por ter tinta verde na cabeça. Acho que terá o efeito inverso. Hoje não estive atento, mas já devem ter existido várias pessoas a falar da chapada da Marinha Grande, porque qualquer ato que possa ser mais agressivo às vezes tem o efeito contrário. Mas também já vi Vital Moreira a ser apertado numa ação de campanha das europeias e isso não lhe valeu votos. Depende muito das circunstâncias. Neste caso, acho que para Luís Montenegro é algo que ninguém gosta de ver. E mais do que isso, nunca esperei, num dia como hoje, em que Luís Montenegro mais uma vez ia ser atacado pela esquerda em uníssono, como tem sido nos últimos dias, ou por Passos Coelho, ou pelas pensões, ou pelo que quer que seja, que ia ser atacado mais uma vez com o alto patrocínio de Paulo Núncio, acabou por ter todos os partidos a defenderem-no neste caso e a condenarem ou a lamentarem a ação, e isso é algo que foi dado a Luís Montenegro. Portanto, acho que aquilo não o diminuiu nada e ganhou votos por isso. Acho que deve ter perdido alguns por esta confusão na AD, uma pessoa a dizer uma coisa, outra outra. Não é a primeira vez, já tinha acontecido com Nuno Melo sobre a viabilização de um governo PS. Tudo isso podia perder votos. Neste caso, eu acho que ganhou. Não foi uma coisa que procurou ativamente, e isto pode parecer uma coisa até um bocadinho benigna, mas Luís Montenegro não visitou a BTL, saltou uma ação em Almada que ia ter e foi Nuno Melo representá-lo na BTL. Portanto, qualquer ato externo que implique acabar com uma ação de campanha de quem quer que seja, e também critiquei aqui os polícias, porque ia haver declarações à saída do PS e do PSD, o líder do PS e o líder do PSD no dia do debate, e já não houve. Houve uma ação externa a condicionar um ato legítimo que estava agendado e de forma democrática durante uma eleição, uma campanha ou pré-campanha eleitoral. Isso é inadmissível, e aquele rapaz impediu isso. Portanto, nesse caso, teve um efeito prático, tem que ser devidamente sancionado, porque nós vivemos numa sociedade que tem regras, eu também gostava muitas vezes de ser anarquista, mas a vida não é assim, não funciona assim. E só para dizer isso, que Luís Montenegro, no fim do dia, num dia que até podia ser complicado para o eleitorado mais ao centro, acabou por ir recuperar e até se calhar ganhar votos com este ato.
Miguel Pinheiro, ganha votos com o episódio de tinta e perde votos com o episódio do aborto?
Sim, ganha votos por ter apresentado queixa. Para mim, mais do que a questão da tinta, é ter apresentado queixa.
Porque inicialmente desvalorizou um pouco.
Sim, exato. Percebo que uma pessoa quando está toda suja de tinta verde, a fazer uma figura um bocadinho humilhante, não tenha o discernimento para reagir logo, mas realmente é preciso ser absolutamente inflexível com isto. Gostava de perceber um bocadinho melhor o que se passou. Sabemos que a PSP apanhou quatro das pessoas do grupo e houve uma que escapou. Não sei se não percebeu que havia uma quinta pessoa, não alertou alguém, reforçou o número de pessoas à volta de Luís Montenegro pra tentar evitar isso, quer dizer, agiu competentemente ou não? Estamos a falar de alguém que apesar destes membros destas associações receberem aulas de como fazer este tipo de ações, a polícia é suposto saber mais do que eles. Acho que é preciso explicações. Uma coisa é haver uma surpresa completa, outra coisa é a polícia ter apanhado quatro e mesmo assim isto poder existir. Não estou a dizer que a polícia deixou que existisse. Estou só a tentar perceber se tudo foi feito competentemente. E ao apresentar a queixa, acho que Luís Montenegro mostra que leva isto a sério. Agora, independentemente disso, é mais um dia
Em que a AD não consegue controlar a narrativa, não consegue falar sobre aquilo que lhe interessa. Se não fosse a questão da tinta, teríamos tido aborto o dia inteiro. Essa foi outra razão pela qual não fez tanto o Luís Montenegro ganhar votos, fez com que ele não perdesse, porque pelo menos o tema foi um bocadinho abafado. Não entendo como é que se comete um erro tão amador como este. Atenção, o CDS pode defender, naturalmente, um novo referendo sobre o aborto, pode defender o não ao aborto nesse referendo, como é óbvio. O ponto não é esse. O ponto é que não podemos ter um partido júnior de uma coligação a fazer declarações que comprometem inevitavelmente a coligação inteira. E se o Paulo Núncio não percebeu o que estava a fazer, então ainda é pior, porque é sinal de que se pode ter.
Tem que ter consciência disso, certo.
Bruno Vieira Amaral, muito rapidamente antes de irmos até à estrada, alguém ganha votos com isto? E já agora, esta ideia de António Costa disponibilizar segurança aos líderes partidários.
Não, houve uma falha de segurança, isso é óbvio, porque se já sabiam que havia ativistas e conseguiram até interceptar quatro deles naquele momento, sabendo que poderia haver mais um, a segurança tinha de ser obrigatoriamente reforçada. Não sei se ganha votos, Luís Montenegro, sei que conquista alguma simpatia, até mais ao centro, porque ninguém gosta de ver um político, seja ele de que partido for, numa situação daquelas. E ganha votos ou então não perde votos, porque de facto veio pôr em segundo plano aquele que seria o tema do dia, o do aborto, e que foi trazido com grande infelicidade para o primeiro plano por Paulo Núncio.
Bruno Vieira Amaral, e está agora na altura de seguirmos em direto ao encontro de duas das caravanas dos diferentes partidos que concorrem a estas eleições. Vamos começar em Évora, pela comitiva da Aliança Democrática, onde está o Miguel Santos Carrapatoso a acompanhar a campanha da AD. Boa tarde, Miguel. Um balde de tinta foi o suficiente para alterar a agenda de hoje de Luís Montenegro.
Foi, alterou a agenda e alterou também o que seria a narrativa do dia depois de Paulo Núncio ter introduzido um tema, no caso o aborto, na campanha, um tema esse que Luís Montenegro tentou rapidamente afastar. Estamos aqui em Évora, estou com vista privilegiada para o Templo de Diana. Vamos iniciar agora uma arruada. A surpresa do dia é a presença de Carlos Moedas no comício de hoje, esperada com grande expectativa. Vamos ver o que terá Carlos Moedas para dizer, sendo que nas últimas intervenções que foi fazendo, quer no Congresso de 25 de novembro, quer em ocasiões anteriores, Carlos Moedas tem feito sempre discursos muito duros em relação ao Partido Socialista. Vamos ver se é o presidente da Câmara Municipal de Lisboa a assumir a despesa desse combate mais corpo a corpo com Pedro Nuno Santos, sendo que Luís Montenegro tem evitado entrar por aí, tem tentado marcar a diferença em relação ao PS e a Pedro Nuno Santos, dizendo ou alegando que vai preferindo ter uma campanha pela positiva, focada numa mensagem para o país e não para a politiquice, palavras de Luís Montenegro, para tentar marcar um contraste em relação ao Partido Socialista. Portanto, vamos ver se hoje a estratégia se mantém, mas a verdade é que foi um dia um bocadinho atípico. Começa com uma polêmica artificial criada por Paulo Núncio, um tiro no pé, um erro autoinfligido, e acaba ou tem pelo meio um ataque a Luís Montenegro que mudou toda a dinâmica do dia de campanha. Portanto, vamos ver qual é o tom que vai ser usado neste comício, sendo que Carlos Moedas, em teoria, assumirá essas despesas do combate mais direto ao Partido Socialista.
Cá estarás para nos contar todos os detalhes deste comício, Miguel Santos Carrapatoso, que acompanha a caravana da Aliança Democrática.
E de Évora subimos até Oeiras, onde esteve esta tarde a caravana da Iniciativa Liberal, acompanhada pelo Pedro Jorge Castro. Pedro, boa tarde. Ontem descrevias aqui uma campanha da Iniciativa Liberal quase desperdiçada no sul do país, com muitas reuniões em gabinetes à porta fechada. Hoje, Rui Rocha andou por Lisboa em contacto com a população. Como é que correu esse contraste?
Muito diferente, claro. Muito mais gente da própria Iniciativa Liberal, não só simpatizantes, cerca de 70, com as suas camisolas azuis e com as bandeiras azuis a percorrer Lisboa entre o Campo Pequeno e o Marquês de Pombal, mas também com pesos pesados do partido. Obviamente, está o cabeça de lista por Lisboa, Bernardo Blanco, mas está também João Cotrim Figueiredo, o antigo líder da Iniciativa Liberal. Isso dá logo todo um novo élan a uma iniciativa de campanha, mobiliza mais gente, há mais pessoas a reagirem às abordagens e, obviamente, não estão a falar em gabinetes fechados e pelo menos estão em contacto direto com os eleitores e estão a ser vistos, o que é muito diferente. Mesmo assim, houve duas reuniões à porta fechada hoje também durante o dia, de manhã com as misericórdias, agora à tarde aqui em Oeiras na Business Round Table com Vasco Mel, sobre as propostas para as grandes empresas. Mas sim, há contraste muito grande em relação àquilo que aconteceu a sul do país. A Iniciativa Liberal tem um objetivo ambicioso de aumentar de oito para 12 deputados. Em Lisboa elegeu quatro, isso significa que teriam que passar a ter seis deputados. É o distrito onde elegeram mais candidatos. Mas sim, nota-se esse efeito na rua, muito diferente da recepividade que tiveram a sul, onde havia muito menos gente e onde Rui Rocha era quase um desconhecido.
E ainda há vários dias de campanha pela frente. Este é só o quarto dia. Reportagem do Pedro Jorge Castro está a acompanhar a caravana da Iniciativa Liberal. O Caso ao Voto fica por aqui. Vamos amanhã ter uma nova edição.