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Este é o Caso ao Voto, o podcast da Rádio Observador dedicado à campanha eleitoral para as eleições europeias do próximo dia 9 de junho. Estamos no nono dia de campanha, ainda muito marcado pelas reações ao plano de ação para as migrações, ontem revelado pelo governo. Marta Temido sugere que a apresentação do plano não é inocente e serve o propósito de corrigir a leitura de que há uma aproximação da AD à extrema-direita. Sebastião Bugalho, o primeiro da lista da Aliança Democrática, rejeita e questiona se estava à espera que o governo suspendesse a atividade durante o período da campanha eleitoral. Catarina Martins, cabeça de lista do Bloco, não gostou de ver o presidente da República promulgar o diploma que obriga os imigrantes que queiram vir para Portugal a terem um contrato de trabalho, pouco tempo depois da proposta ser conhecida. Inês de Sousa Real diz a este propósito que a pressa é inimiga da perfeição. O Chega, André Ventura, é a favor da proibição do uso de burca. João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, que já disse que o plano do governo é equilibrado, expressou hoje a convicção de que é possível eleger dois deputados nas eleições de domingo. E Paulo Raimundo esclarece que não, o PCP não é contra a Europa. Já a seguir fazemos as contas a quem ganhou e perdeu votos com o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes, e a Judite de França, que integra o painel da tarde política da rádio. Ainda vamos até à estrada, ao encontro de duas caravanas, do Chega e do Partido Socialista, e fechamos sempre com uma história que a Judite de França vai buscar ao baú político. O Caso ao Voto começa agora. E vamos começar por saber quem, na tua opinião, Judite França, perdeu votos, se é que há alguém. Há, Judite?
Quem perdeu votos hoje foi o PS. E quem ganhou, pelo contrário, foi Sebastião Bugalho. Aqui pela mesma razão, Cotrim Figueiredo também ganhou, mas por outra razão não relacionada com este plano das migrações. Claro que Sebastião Bugalho diz que a medida foi anunciada para o país e não para a campanha, mas é óbvio que ajuda a campanha. O governo felizmente aprendeu o que de melhor o PS tem quando está no poder, que é um bom marketing, esta ideia dos conselhos de ministros especiais, com pompa e circunstância, com aquelas coisinhas que o governo anterior se preocupava muito, com as plaquinhas à frente, as plaquinhas atrás, os keyboards. Isso tem tudo nome específico, eu não domino a terminologia. Mas era uma coisa que o governo dava muita importância, se o palco era assim, se o tripé era assado. E de fato, isso é importante. É importante o pacote e a forma como está embrulhado. E Montenegro, que se garantia a pés juntos que nunca teria um estado de graça, está agora num tal estado que se tem visto nos estudos de opinião. Porque parece uma abelhinha trabalhadora e as abelhinhas trabalhadoras que mostram muito trabalho, pelo menos, é refrescante em relação ao período que se passou nos últimos meses, antes do governo cair. E entretanto, exatamente pela razão oposta, perde o PS, que por mais que disfarça o embaraço, o PS diz coisas extraordinárias, como ainda ontem a Ana Catarina Mendes aqui na Tarde Política dizia no Direto ao Assunto que quase todas estas medidas estavam na pasta de transição. Pois, mas eu percebo, não estavam à espera que o governo fosse abaixo e, portanto, iam ter mais tempo para implementar várias medidas. A verdade é que a velocidade que o governo tem imprimido é a velocidade de um executivo que está a prazo na fragilidade que vive no Parlamento e o timing de uma maioria absoluta é per se mais relaxado. Não havia necessidade de mostrar trabalho, não era preciso. E portanto, é evidente que o Partido Socialista tenta disfarçar mal, porque Marta Temido volta com essa história da direita e da extrema-direita, que é uma coisa inventada pela esquerda. É uma manobra política e na guerra vale tudo. Vale tudo, menos limpar armas. Mas Marta Temido sabe que isso não existe, que foi uma invenção e que até é uma invenção engraçada, mas a única coisa que Marta Temido tem a dizer a um plano destes é: "Ah, é o PSD a tentar afastar-se da extrema-direita." Quer dizer, podiam ter seguido o exemplo de António Vitorino. A honestidade é uma coisa boa, mesmo na política. Quer dizer, isto é capaz de resultar, o que estava não funcionava, portanto bora lá tentar outra coisa.
Sim, sendo que Marta Temido também deixou ali a porta aberta. Vamos esperar para ver, à partida acho que não vai resolver os problemas, disse Marta Temido, mas vamos esperar para ver.
A questão é que Marta Temido pode dizer que não vai resolver os problemas, que vamos esperar para ver. Ela não tem nada que esperar, nem tem nada para ver, porque esteve lá e nada fez, nem o seu governo nada fez. E esta ideia de que já vinha do SEF. O SEF tinha 200 e tal mil, 300 mil, não tinha meio milhão. São coisas distintas. E podem me dizer que houve um aumento da imigração e isso será com certeza verdade, mas também é verdade que, de fato, o processo de transição correu mal. Não há mal nenhum em assumir. Epá, fizemos isto com toda a boa vontade, mas correu mal. Vamos ver agora se melhora, porque de fato, o que é interessante não é ganharmos esta batalha política, mas é que aquelas pessoas todas que dormem à porta da Igreja dos Anjos não tenham que dormir numa tenda. Enfim, e isto parece-me mais ou menos óbvio e acho que o PS ganhava em ter essa frontalidade, como aliás teve Carlos César. Só Marta Temido é que não quer ter essa frontalidade porque acha que é ficar por baixo de Sebastião Bugalho. Acho que não, acho que essa humildade lhe teria ficado bem.
Quem ganha e quem perde votos, na opinião da Judite de França, perde o PS, ganha Sebastião Bugalho e também João Cotrim Figueiredo. Vamos agora tentar perceber com o Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, que aqui está todos os dias precisamente para fazer estas escolhas. Começo por quem perdeu. Alguém perdeu votos hoje?
Sim, por acaso eu concordo em parte com o que diz, que a partir do momento que estão todos a atacar o PSD e o governo relativamente a esta questão das migrações, em particular o PS, que em alguns pontos também decidiu atacar o Presidente da República, que foi o mesmo que fez o Chega, às vezes quando estou a ver nos oráculos as declarações, quando é para atacar o governo, naturalmente, não sobre outras questões, não percebo muito bem se é uma frase de André Ventura ou se é uma frase de Pedro Nuno Santos, porque eles alinham completamente no discurso, na crítica à AD e na crítica a Marcelo Rebelo de Sousa sobre o posicionamento. Deixa-me dizer que, em sentido inverso, quem ganha é António Costa, mas não propriamente por responsabilidade própria, ou seja, tem a ver mais com o posicionamento do governo. Por quê? Eu acho que António Costa já não vai buscar votos, já o atacaram suficientemente no ponto que deviam ter atirado para ele não ganhar votos. Há alguém que, por exemplo, há aquele voto de esquerda ou voto de centro, completamente defensor dos direitos das mulheres, etc. Independentemente do que ele pense e das liberdades e do aborto, independentemente do que ele pense, esse comboio já passou, ele não consegue ir buscar esses votos, passou a percepção de que ele, por muito que ele tentasse justificar ao não querer o direito ao aborto na Carta dos Direitos Fundamentais, etc, que era uma pessoa que era mais recuada nesses direitos. E, portanto, há outros locais onde votar, outros partidos onde votar, que defendem isso de uma forma mais clara, e ele esse comboio já perdeu. Ou seja, no voto ao centro e centro-esquerda, etc, esse voto está mais ou menos perdido. Há terreno a ganhar no lado mais conservador, em que há outros problemas, nomeadamente a questão da imigração que vai preocupando as pessoas. E aí Luís Montenegro fez, pode ter sido um truque, ele vai dizer que não, foi uma coincidência, que avançou com este plano, que ia fazer qualquer coisa. E repara, a sensação que dá é que o Luís Montenegro é uma espécie de Speedy Gonzalez governativo. Hoje já está com um plano pós-fogos, num dia está a tratar dos polícias ou outros professores, entretanto nas migrações e já está nos incêndios e, portanto, dá um plano de uma velocidade de quem está a fazer muito, mesmo que não seja verdade e depois no fim do dia acabe tudo da mesma forma, mas isso demora tempo a ver. André Ventura pode destruir completamente o governo com propostas mais restritivas da imigração, mas isso já não vai chegar a tempo, estas propostas que ele fala é depois das eleições e, portanto, Luís Montenegro fez aqui uma espécie de um cheque aos outros partidos que António Costa pode aproveitar isto para ir buscar uma parte desse voto. Vamos ver se é eficaz ou não. Deixe-me só duas notas muito rápidas. António Costa disse que Pedro Nuno Santos devia ter mais humildade. Isso é um bocadinho como o Usain Bolt pedir ao Big Well para correr mais devagar, porque em matéria de humildade, eu acho que aí eles têm muito por onde competir. Uma outra nota, e André Ventura está a perder, senão eu próprio não admitia que Marcelo e Montenegro estavam a esvaziar o Chega, continua a vender uma imagem de que o país é um terror e diz que cria um terror em Portugal permitir esta política de portas abertas, para alguém que anda sempre a chamar os outros de frouxos e que não são corajosos e que ele é que é o dono da coragem e que anda sempre rodeado de seguranças, também não sei onde é que ele vê esse terror. Sinceramente, saio à rua em muitos sítios, também vou à Costa Vicentina, como todos vocês, a estes locais que ele vai, eu não vejo as pessoas aterrorizadas. Haverá certamente pessoas que se sentem mais inseguras porque a rua delas mudou, porque é o desconhecido, isso é perfeitamente natural. Agora, terror? Terror não é isto, é outra coisa. Portanto, este clima de medo que o candidato-
Ganha alguma coisa com este discurso, o Chega e André Ventura, ou o fato de ser um discurso, como disse, desfasado da realidade, porventura afastará eleitores?
Sim, quer dizer, no primeiro ponto, deixa-me ir para este ponto, é que apesar de tudo é incoerente que alguém que é tão corajoso se sente tão aterrorizado quando vai a essas ruas e vê pessoas que estão aterrorizadas e depois que são as televisões que não passam as pessoas a queixarem-se e as rádios, nós estamos lá. Quer dizer, parece que é um fenómeno que as pessoas já não andam na rua com medo dos imigrantes. Eu sei que há zonas com uma pressão muito maior e o Conselho de Odimira é um exemplo disso. E é verdade que as pessoas andam na rua e há muita presença de imigrantes e pessoas que se vestem de outras formas, têm culturas diferentes. Mas também não se pode dizer que as pessoas andam aterrorizadas, que deixaram de ir para lá passar férias, que deixaram de viver lá. Algumas terão deixado porque sentiram-se mais inseguras, enfim, mas não é de certeza o terror que André Ventura descreve. Isto parece a história do Pedro e do Lobo. Qualquer dia, se houver mesmo um cenário de terror sobre uma coisa qualquer, as pessoas já não acreditam, porque para André Ventura tudo é terror.
Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador e analisa este nono dia de campanha e quem anda a ganhar e a perder votos. E agora vamos ver por onde andam duas das caravanas dos partidos que concorrem a estas eleições. Está na altura de irmos ao encontro das caravanas do Partido Socialista e do Chega e vamos começar precisamente com a Inês André Figueiredo, que acompanha uma arruada a esta hora do Chega em Aveiro. Inês, o plano de imigração apresentado pelo governo continua a marcar a campanha eleitoral do partido liderado por André Ventura, a que se junta uma publicação nas redes sociais do partido.
É isso mesmo. É o tema mais central da campanha do Chega. Já começou mesmo antes da campanha e continua a ser o foco de toda esta campanha, mais ainda quando, como sabemos, o plano do governo para a imigração foi apresentado ontem. E sobre este tema, André Ventura até disse, antes de ser conhecido o plano e à boleia de algumas notícias que tinham saído, que o governo se tinha aproximado do Chega e dado razões às preocupações do partido, mas acabou por recuar depois da apresentação oficial do plano. André Ventura disse que este é um plano frouxo, pouco eficaz e mal conseguido. Colocou até algumas condições para que as propostas do governo, aquelas que têm, obviamente, de ir à Assembleia da República, fossem aprovadas e focou-se essencialmente em três pontos: na existência de cotas para imigrantes, o que significa haver uma espécie de bolsa com as necessidades dos empresários e dos setores, e os imigrantes servirem para colmatar essas vagas de mercado. A questão dos crimes, em que André Ventura propõe que os imigrantes condenados devem ser mais tarde encaminhados para o seu país de origem, e a questão do fecho das fronteiras, em que os imigrantes que estão em Portugal não devem ser aceites mais imigrantes até que toda a situação esteja regularizada. Sem estas medidas que Ventura disse serem fundamentais, o presidente do Chega veio dizer que o plano para a imigração é um acordo entre Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro, naquilo a que chamou uma tentativa rápida de esvaziar a posição do Chega, que na verdade tem sido o partido mais vocal sobre este tema. Sobre aquilo que falavas, tudo começou da publicação nas redes sociais. Tudo começou ontem, quando o partido partilhou uma publicação nas redes sociais, já agora idêntica a outras já publicadas em Espanha e em Itália por partidos amigos do Chega, e nessa publicação colocava imagens de várias deputadas do Chega, sempre ao lado de uma mulher com burca e deixava uma pergunta: "Que Europa queres?" André Ventura foi obviamente questionado sobre este tipo de propaganda, diz que não incita o ódio a imigrantes e disse que os cartazes não são xenófobos e que não foi o Chega a causar o medo que existe nas ruas portuguesas. André Ventura acredita que a responsabilidade é da política a que chama de portas abertas e que essa, sim, causou, e cito: "O terror nas ruas por causa do caos que se vive atualmente em algumas zonas de Portugal." Mais do que isso, o presidente do Chega acabou por reconhecer que é a favor da abolição da burca por questões de segurança em algumas situações e disse que a burca não devia ser utilizada porque coloca em perigo a segurança das pessoas por não se perceber quem a está a usar. Alertou para exemplos de países como a Bélgica, como a Alemanha, como a França, dizendo que estes cartazes não são de xenofobia, mas sim um alerta daquilo que pode acontecer e que, segundo André Ventura, já aconteceu noutros países da Europa. Agora, o presidente do Chega está em mais uma arruada, desta vez em Aveiro. Tanja Correia, que esteve ausente esta manhã porque marcou presença num programa televisivo, voltou a juntar-se à caravana e já está aqui ao lado do presidente do Chega.
Numa arruada, tem sido um meio de campanha preferencial que tem recorrido o partido liderado por André Ventura, ação de campanha que está a ser acompanhada pela jornalista do Observador, Inês André Figueiredo. E rumamos agora a outra arruada no Norte do país, mais a norte, em Guimarães, na cidade de Berço, arruada do Partido Socialista, uma iniciativa de campanha que está a ser acompanhada pela jornalista Mariana Lima Cunha. Mariana, o tema da imigração, o plano ontem apresentado pelo governo, serviu de pretexto para Marta Temido sugerir que o executivo procurou, de alguma forma, beneficiar a candidatura da Aliança Democrática. Boa tarde.
Boa tarde. Sim, estou aqui neste momento a ver a arruada do PS a passar aqui em Guimarães. Marta Temido ainda esta manhã comentava o plano da imigração do governo, no fundo insinuando que o timing não foi inocente, ela dizia que obviamente não foi. Enfim, é mais uma insinuação de que a apresentação de medidas pelo governo é uma espécie de ferramenta de campanha também para a AD. Aliás, essa sugestão tem sido muito feita aqui do lado do PS. Pedro Nuno Santos, sempre que aparece na campanha, que é quase todos os dias, critica o governo dizendo que há um frenesim de apresentação de medidas, que há Conselhos de Ministros dois em dois dias. No fundo, que há uma espécie de pressa em mostrar que se faz mais do que em tomar medidas de facto eficazes e, portanto, o plano de imigração acabou por ser alvo dessas mesmas críticas. O que também eu diria que é de registo, é que Marta Temido, quando depois tem de comentar o conteúdo do plano em concreto, mostra algumas preocupações, mas acaba por ficar aqui um bocadinho fora de pé quando é questionada pelos jornalistas sobre se afinal, como tem dito a campanha toda, este plano confirma uma aproximação do governo à extrema-direita, e a candidata acaba por dizer que não, que não é isso que verifica e que é até uma tentativa quase de disfarçar ou de fingir que essa aproximação não existe. Nós depois o que tivemos, e de facto o PS tem apostado imenso em arruadas, em contactos de rua, até porque acredita que Marta Temido, esse de facto é o seu forte, não serão tanto os comícios ou os debates, será mesmo o contacto com as ruas e a empatia nas ruas que tem gerado, de facto. Noutras arruadas hoje ao longo do dia, Pedro Nuno Santos e Carlos César, que são uma espécie de artilharia do PS a entrar na campanha, acabaram também a atacar não só este plano. Pedro Nuno Santos diz que vem criar ainda mais problemas, não foi à questão da extrema-direita, centrou-se mesmo
Na discussão do plano, de facto, aquelas soluções não
Estamos aqui com algumas dificuldades para escutar Mariana Lima Cunha, jornalista do Observador, que acompanha esta caravana do Partido Socialista, que nesta altura promove uma arruada na cidade de Guimarães, mas o que ficou o essencial daquilo que foi o discurso de Marta Temido, a cabeça de lista do PS, a propósito do plano de ação para as migrações, com Marta Temido a sugerir que foi uma forma do governo contribuir para afastar a imagem que colava à AD, à extrema-direita. Obrigado, Inês e Mariana. Resta um bom trabalho no que resta desta campanha eleitoral, três dias e mais algumas horas. E agora convido o caro ouvinte a viajar connosco na cápsula do tempo. Está na altura de abrir o baú pela mão de Judite França.
Vamos ser! Apita! Vamos ser! Apita! Vamos ser! Apita! Vamos ser! Vamos ser! Acabou! É campeões, campeões, nós somos campeões, campeões-
Para quem não conhece este excerto do relato magnífico do preciso momento em que o árbitro apita e Portugal ganha o Campeonato Europeu de 2016, já agora feito pela Antena 1, ouça mais um bocadinho.
Campeões, campeões, nós somos campeões. Ganhou a seleção fraquinha, ganhou a seleção nojenta, ganhou a seleção que não joga nada. É assim. Vocês vão para casa e nós vamos para a festa.
Lembras-te disto, Pedro?
Claro, como não? Magnífico relato do Nuno Markl e do Alexandre Foz.
Incrível. Estávamos ali, eu estava ali em cima de cada palavra, estava a ouvir na Antena 1 e a ver na televisão e lembro-me perfeitamente onde é que estava. Claro. Estávamos todos numa ansiedade terrível. Bom, isto é a banda sonora perfeita para falar de política e de futebol, porque quando andam de mãos dadas é sinal de seleção. E assim foi em 2016, num dia decisivo para o futebol português e para as contas nacionais também. Isto porque Mário Centeno, antigo ministro das Finanças, entrou sorridente logo no dia seguinte para a reunião dos ministros da zona euro, acompanhado pelo secretário de Estado adjunto do Tesouro das Finanças, que era Ricardo Mourinho Félix, e da assessora de imprensa do Ministério das Finanças, Rita Tamaini. E podia ser uma entrada normal, mas esta foi claramente triunfante para celebrar a vitória portuguesa frente à França no Campeonato Europeu de Futebol. Centeno entrou na sala com um belo cachecol da seleção por cima do fato e gravata e com um sorriso completamente rasgado. Também te recordas destas imagens?
Claro que sim.
O momento, na altura, foi captado pelas câmaras dos serviços oficiais da Comissão Europeia, mostrou os apertos de mão, os cumprimentos e os agradecimentos daquele momento inicial em que Centeno e Mourinho Félix foram percorrendo a sala. Era o dia em que o Eurogrupo iria discutir o processo de sanções a Portugal e Espanha devido ao défice excessivo, mas nem por isso Centeno deixou de fazer esta entrada a campeão, sendo felicitado pelos participantes e de forma particularmente calorosa por Michel Sapin, grande fair play, o ministro das Finanças francês, que foi o país derrotado na final em Paris. À mesma hora em que os jogadores da seleção portuguesa percorriam de autocarro as ruas de Lisboa com os adeptos em festa pela capital, e não só, foi em várias cidades do país, mas em Lisboa foi uma coisa absolutamente incrível. Lembras-te, Miguel, as ruas completamente cheias a abarrotar? Foi um dia extraordinário. Mas à mesma altura, em Bruxelas, o então ministro das Finanças desfilava envergando as cores nacionais com grande orgulho, num momento de celebração que antecipou uma discussão menos agradável, já que Portugal corria ali o risco de ser penalizado com sanções, caso a Ecofin tivesse decidido seguir a recomendação da Comissão Europeia. Felizmente, não decidiu, nem para nós nem para Espanha. E tivemos sorte ou talento, como no caso da seleção, não foi só sorte, foi talento também.
Afervamos, permitimos, a seleção nacional, nós não, mas a seleção nacional de futebol permite a Joaquim Miranda Sarmento, o atual ministro das Finanças, chegar também a uma reunião do Eurogrupo ou Ecofin de sorriso rasgado no rosto, em mercê de uma vitória da seleção na fase final do Campeonato da Europa, que arranca mais ou menos daqui a duas semanas. Foi o "Caca o Voto" que marca o fecho desta edição. Aliás, foi o baú que marca o fecho desta edição de "Caça ao Voto". Pode ouvir este e todos os episódios em observador.pt. Estamos de regresso amanhã.