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Bem-vindos ao "Caça ao Voto", de segunda a sexta, a campanha eleitoral em destaque ao final da tarde. Um programa de rádio na tarde em direto que é também um podcast. No "Caça ao Voto", começamos por quem está a ganhar ou a perder votos. Ainda vamos à estrada, ou melhor, à redação e ao sofá, porque a campanha está praticamente parada, e tentamos ainda perceber o que é verdade ou mentira no discurso político, no fact check com o jornalista Pedro Rainho. Ainda temos tempo para dar um salto ao passado. Voltamos a 1976, às primeiras eleições presidenciais em democracia, quando a música de intervenção estava no auge e um grupo de artistas pró-comunista entrou num comício do CDS. O "Caça ao Voto" começa agora. E já não há dúvidas, há debate com todos. A RTP confirma que esta noite, às 21h55, os candidatos vão estar juntos num estúdio preparado para este debate. O delegado de saúde da região de Lisboa considerou não existir qualquer perigo de contágio, desde que se respeitem as distâncias de segurança e as restantes regras sanitárias entre os vários candidatos. Entretanto, e perante o que ouviu hoje dos especialistas reunidos no Infarmed, Ana Gomes diz que não o deseja, mas aceita um eventual adiamento das eleições.

Penso que o senhor Presidente da República deve tirar consequências do que ouviu aos especialistas. Cabe ao Presidente da República e à Assembleia da República, democraticamente, tirar consequências políticas desta situação. Imagino que devam ponderar a possibilidade de adiamento do ato eleitoral. Eu não o desejo, mas desde já declaro que não me oporei.

Ana Gomes, num vídeo publicado nas redes sociais esta tarde. Neste "Caça ao Voto", está na hora de chamar Miguel Pinheiro, diretor do Observador, e Rui Pedro Antunes, o editor de política. Bem-vindos, Miguel, Rui Pedro. Vamos às contas. Quem ganhou, quem perdeu votos neste dia muito estranho de campanha eleitoral. Não me recordo de termos vivido um dia semelhante. Vamos começar por quem perdeu, Miguel.

Quem perdeu foi Tiago Maia Gonçalves. Tiago Maia Gonçalves falou depois da reunião do Infarmed e tudo aquilo é uma enorme confusão. Nós já tínhamos sentido uma grande dificuldade do candidato à Iniciativa Liberal em explicar aquilo que achava que devia ser feito em relação ao confinamento e este aumento de casos. Ele sempre teve uma enorme dificuldade em explicar-se. Tinha aquela frase feita do fechar atividades em vez de fechar pessoas. Não sabemos muito bem o que isso é. Nós precisamos, de facto, de fechar as pessoas. As pessoas é que transmitem os vírus, não são as atividades. E além disso, tem também esta posição um pouco complicada de dizer: "Ok, então fechem tudo, mas paguem". Ora, um dos nossos problemas é que nós não temos dinheiro. E o que nós havemos de fazer sem dinheiro?

Onde é que está o dinheiro?

Exato. Show me the money, como com o Tom Cruise. Ele dá o exemplo da Alemanha. Claro, a Alemanha tem dinheiro, nós não temos. É um problema. E Tiago Maia Gonçalves exige soluções perfeitas onde nós só temos imperfeições, realmente.

Rui Pedro Antunes, não tens aí uns trocos que nos ajudem?

Não, eu diria que Maia Gonçalves é um lobo de Wall Street, não lhe peçam para guardar as galinhas. A Iniciativa Liberal tem essa posição de ser contra o estado de emergência, portanto, neste momento fica sempre numa posição complicada. Mas para mim, quem perdeu votos foi a Ana Gomes. Só para discordar. Isto quando o Miguel não está aqui ao meu lado, não dá para se estar a copiar. Foi a Ana Gomes porque este som que ouvimos de um vídeo que ela gravou a dizer que não deseja, mas não se opõe a sugerir o adiamento do ato eleitoral. Este vídeo esteve cinco minutos no Twitter, depois foi retirado, depois voltou a ser colocado. Parece só mais uma das várias trapalhadas da campanha de Ana Gomes que têm vindo a acontecer. Ontem já não apanhou o nosso "Caça ao Voto", mas para dar um exemplo de que isto não foi um ato isolado, esta coisa de meter o vídeo, tirar, uma coisa pouco assertiva, mas que há mesmo dificuldades nesta campanha e eu acho que isso faz perder votos, porque é a imagem que fica. Ontem houve uma coisa que passou um pouco despercebida. Quer dizer, não passou porque o Observador noticiou, que a Ana Gomes tinha marcado um debate às 19h, via Zoom, com estudantes de medicina. Depois a candidatura disse à Rita Diniz, que é a jornalista que está a acompanhar, que já não se realizava por questões técnicas do lado dos estudantes de medicina. Ora, na verdade, não foi nada assim. Não houve nenhum problema técnico do lado dos estudantes de medicina, simplesmente disseram que queriam só uma reunião de trabalho, que, como sempre disseram, não seria gravada. A equipa da Ana Gomes insistiu para que essa reunião fosse gravada, e como não foi gravada, Ana Gomes simplesmente já não se encontrou e já não reuniu com essa associação de estudantes de medicina. O que isto prova? Que se não é filmado, se não dá para eu ter palco mediático e se eu não vou usar para isso, então já não vou. Ora, a candidata que concorreu porque recebeu uma carta do Pedro Limões de 18 anos, que é pela juventude, que é por ouvir os outros, ainda por cima estudantes de medicina, que um dia vão combater esta pandemia ou outras, não se percebe.

Outras, não, Rui Pedro. Vamos nos atirar já com mais pandemias para cima. Deixa lá acabar isto.

Ainda há muitas letras. Temos o Covid-19, daqui a uns anos.

Boa, que negatividade.

Não sei se isto pode parar por aqui.

Olha, vamos a quem ganhou, Miguel e Rui.

Eu, apesar de tudo e por manter a discordância, acho que independentemente das trapalhadas e destas histórias mal contadas da campanha de Ana Gomes, a verdade é que ela tem razão. Esta campanha está transformada num misto de filme de suspense com aqueles episódios do ER especialmente agitados. Isto já não é uma campanha eleitoral. Já ninguém está a falar das ideias dos candidatos, ninguém está a falar de política, ninguém está a falar do próximo mandato presidencial. Já estamos todos com a cabeça noutro lado e no dia 24 será preciso um enorme heroísmo cívico para as pessoas saírem de casa para irem votar.

Miguel, como dizia o outro: não se esqueça do que estava a dizer, porque quero voltar a isso já já a seguir. Deixa-me só ouvir aqui do Rui Pedro Antunes quem ganhou.

Para mim não foi Ana Gomes. Para mim, quem ganhou votos foi, em primeiro lugar, o Carlos Daniel, porque vai haver debate hoje à noite. Em segundo lugar, eu acho que foi Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas o Carlos Daniel ainda não é candidato, Rui Pedro.

Não é. Mas eu sei que isto é daquelas séries que a segunda temporada é melhor que a primeira.

Estás a lançar a candidatura de Carlos Daniel.

Terem aldrabado algumas vezes e darem quem ganhou votos Mário Centeno, que também não era candidato, e coisas desse gênero. Portanto, essa tina aqui em cima de mim . Mas eu diria que foi Marcelo Rebelo de Sousa, porque estes testes negativos permitem-lhe, de alguma forma, pelo menos não ficar isolado até o fim da campanha. E por muito que pareça que ele quer isso, eu acho que ele tem mesmo preparado para o final da campanha umas idas ao Porto, a Celorico, uma parte mais apoteótica e mais humana da campanha com mais presença, não sei se na rua, mas com alguns eventos que ele ainda há de preparar, e isto podia lhe atrapalhar isso. E a ausência total também não é bom para Marcelo Rebelo de Sousa e para o resultado que ele quer ter. E portanto, eu acho que ao voltar ao jogo, e mesmo hoje participando no debate, tudo isto o favorece, apesar de tudo. Mesmo que ele pareça ter pouca vontade para a campanha, uma coisa é ter pouca vontade, uma coisa é desaparecer completamente do plano midiático. E por isso eu acho que foi ele que ganhou votos.

Deixa-me pegar aqui naquilo que o Miguel Pinheiro estava a dizer e perguntar-te diretamente: seria prudente adiar estas eleições?

Eu acho muito difícil adiar as eleições nesta altura, mas mesmo aí há um ponto que é: Ana Gomes ou quer adiar ou não quer. E eu acho que mesmo aí, sendo uma coisa tão difícil, porque parece que os outros candidatos não estão para aí virados, eu acho que ela tinha que ser assertiva e não devia ter medo. Pôr um vídeo, tirá-lo cinco minutos depois, não sei se foi essa a razão, se foi outra vez uma razão técnica. Azar dos Távoras. Agora já não dá para culpar os estudantes de medicina desse erro técnico do vídeo, não sei se a culpa também será deles, mas há aqui um outro ponto que é: ela diz a certa altura: "Não desejo, mas não me oporei". A única pessoa que defende o adiamento das eleições, o único candidato diz que não o deseja, então pelo menos que fosse mais assertiva. E por isso eu acho que neste ponto, sim, seria desejável adiar as eleições. Sim, ainda bem que há alguém que diz qualquer coisa sobre isso, mas mesmo assim não o diz de uma forma assertiva.

Miguel Pinheiro.

André Ventura também já disse que não se oporia. Aliás, até está convencido de que quanto mais tarde forem as eleições, mais votos terá. Por isso já vamos em dois.

Mas o André Ventura não disse bem isso. Disse basicamente: "Adie, quanto mais adiarem, mais eu ganho. Adiem, à vontade." Foi um bocado com soberba e com fanfarronice. Não foi uma coisa de andar a pedir.

Foi mais mazofia.

Foi.

Foi mais mazofia. Não, atenção, e eu acho que isso não vai acontecer. Não vai acontecer, até porque à medida que o tempo passa, este domingo não nos devemos esquecer que já vamos ter uns quantos milhares de portugueses a votar por antecipação. E então a partir do momento em que tivermos votos depositados em urna, torna-se muito mais complicado haver um adiamento das eleições. O facto de Marcelo Rebelo de Sousa, entretanto, pelos vistos já estar livre para fazer campanha, também retirou alguma pressão. Portanto, eu suspeito dos sinais que nós estamos a ouvir que não vai haver adiamento. Agora, que estamos num momento de anormalidade democrática, estamos, isso não haja dúvidas.

Miguel Pinheiro, diretor do Observador e Rui Pedro Antunes, editor de política, aqui com o balanço de quem ganhou e perdeu votos. Já a seguir vamos para a estrada, ou melhor, para a redação, ou até mesmo para o sofá, porque estamos definitivamente numa telecampanha. E neste caça ao voto, vamos ao encontro dos jornalistas do Observador que acompanham as caravanas eleitorais. Próxima paragem, o sofá da Inês. É mesmo assim, o sofá da Inês. A Inês André Figueiredo, que está a acompanhar a campanha de Marisa Matias, que hoje participou na reunião do Infarmed, gravou um vídeo e vai ao debate porque está negativa. Inês, antes de tudo, estás confortável no teu sofá?

É isso mesmo, Ricardo. Estou sim, estou muito confortável no meu sofá. Marisa Matias realmente já tinha reunido todas as condições para estar presente neste debate. Testou negativa à Covid-19 e não foi considerada um contacto de risco. Por isso, só faltava mesmo esta decisão do delegado de saúde e agora sabe-se que esta noite haverá mesmo o debate com todos os candidatos a Belém. Antes disso, hoje, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda assistiu virtualmente a essa reunião do Infarmed, para a qual António Costa convidou os candidatos presidenciais, mas assistiu também ela, de casa, no seu sofá, e não na biblioteca do Palácio Galveias, como estava inicialmente previsto. No fim, não falou aos jornalistas, como também chegou a estar marcado na agenda para esta terça-feira. Por que todas estas mudanças de última hora? Porque a campanha de Marisa Matias esteve suspensa durante todo o dia, depois de se saber do teste positivo de ontem à noite ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com quem Marisa Matias esteve no debate no passado dia 2 de janeiro. Logo que soube desta notícia, a candidata ligou para a linha de Saúde 24, falou com as autoridades de saúde e não foi, de facto, considerada um contacto de risco. A candidata diz nesse mesmo vídeo, que divulgou esta tarde, que teve a informação de que, passo a citar: "Pode continuar com a vida normal".

Ou seja, Inês, com este OK, a campanha continua.

É isso mesmo. O teste negativo faz com que Marisa regresse à estrada já amanhã e logo com um dia bem cheio para Marisa Matias. Aliás, nem é pela estrada, é mesmo de avião, porque Marisa Matias tem duas iniciativas de manhã na Madeira, uma à tarde nos Açores e no final do dia ainda tem uma entrevista à RTP Açores. O teste que Marisa Matias fez ontem à noite, aliás, ainda antes da notícia de Marcelo, foi mesmo para ter autorização para fazer estas viagens às ilhas.

Inês, estamos sempre a contar quilômetros aqui neste caso ao voto. Não quero saber qual é a distância entre o teu sofá e a cozinha, mas quantos quilômetros já percorreste nesta campanha?

Pois, realmente hoje o conta quilômetros não aumentou nada. Marisa Matias parece que estava a prever isto, porque logo no primeiro dia fez quase 40 km em poucas horas. Começou de manhã em Almada, foi até Abrantes e ainda regressou a Lisboa no mesmo dia. Feitas as contas, só nesta viagem para estar com ambientalistas no distrito de Santarém, foram quase 150 km para cada lado.

Obrigado, Inês. Inês André Figueiredo, jornalista do Observador, que está a acompanhar a campanha de Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda. Paramos agora na redação do Observador, ou melhor, no estúdio dois da Rádio Observador, onde está o Gonçalo Correia, jornalista aqui do Observador, que está a acompanhar a campanha de Tiago Mayan Gonçalves. Gonçalo, podemos dizer que o candidato da Iniciativa Liberal está a apostar numa campanha cirúrgica?

Olá, Ricardo. Eu acho que cirúrgica talvez seja até eufemismo. Acho que o fato de eu estar no estúdio dois da Rádio Observador e do Observador diz muita coisa sobre este início de campanha. Na verdade, a campanha começou há um dia, começou esta segunda-feira, e aquilo que nós tivemos durante dois dias foi: no primeiro dia foi apresentado um cartaz, que é uma ação de campanha também sui generis, mas que marcou uma espécie de início oficial da campanha. Tivemos Tiago Mayan Gonçalves e o líder do partido que apoia Tiago Mayan Gonçalves e do qual é fundador, da Iniciativa Liberal. O líder é João Cotrim de Figueiredo, que falaram aos jornalistas, tentaram explicar aquilo que a campanha defende, aquilo que têm sido as bandeiras principais da campanha. E depois seguimos para o dia de hoje, onde tivemos uma ação que durou aproximadamente dois minutos e 56 segundos, qualquer coisa como isto, que foram declarações de Tiago Mayan Gonçalves sobre a reunião que aconteceu no Infarmed, que começou durante a manhã, com especialistas de saúde e numa declaração com direito a muito poucas perguntas, supostamente não teria sequer direito a qualquer pergunta. O candidato ainda respondeu a uma ou outra coisa assim meio de chofre e rapidamente deu por terminada a ação, que foi estas declarações foram prestadas junto ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém. Mas, de facto, este movimento, a questão do liberalismo de que Tiago Mayan Gonçalves tem defendido aqui nesta sua campanha, como a Iniciativa Liberal defende como partido, foi muitas vezes tratado como direita de Twitter e direita de internet e da blogosfera, nos tempos em que os blogs ainda eram uma coisa viva. Mas realmente não será bem isto, mas talvez por os debates também terem supostamente começado bem para Tiago Mayan Gonçalves, a verdade é que não tem havido ações de campanha muito extensas nestes primeiros dias.

Ó Gonçalo, deixa-me aproveitar essa deixa. Vai continuar a ser assim? É este o registo? Campanha em menos de três minutos?

Esperemos que não. Ainda não sabemos bem, porque o Tiago Mayan Gonçalves, o candidato da Iniciativa Liberal, disse uma frase num dos debates e que tem reafirmado e a qual ficou um bocadinho colado, que é: "Não vamos fazer nada que não seja permitido ao comum dos cidadãos". Ora, nós não ficamos a perceber ainda se Tiago Mayan Gonçalves se refere ao cidadão que vai ficar em casa confinado, inteiramente confinado em teletrabalho ou sem poder sair de todo, ou se está a falar do cidadão comum que vai continuar a ter de sair porque trabalha numa fábrica, ou trabalha num supermercado, ou trabalha num serviço essencial.

Vamos ter de esperar pelos próximos dias. Vamos aos quilômetros, Gonçalo.

Ricardo, eu contei os quilómetros entre a redação do Observador e os locais onde aconteceram.

Também podem ser viagens de metro.

Exato. Onde aconteceram estas duas ações, segunda-feira e terça-feira, e temos a portentosa quantia soma de 28,8 km.

Menos de 30 km, menos de três minutos. Gonçalo Correia, jornalista do Observador, que está a acompanhar a campanha de Tiago Maian Gonçalves. Já a seguir, fact-check e o regresso ao confinamento e logo depois do fact-check, a história dos cantores de intervenção que se enganaram e foram parar a um comício do CDS em 1976. Bem-vindo, Pedro Rainho.

Olá, tudo bem?

O coordenador de fact-check do Observador. E hoje, Pedro, vamos falar de uma declaração de Tiago Maian Gonçalves sobre o regresso do confinamento generalizado. E a pergunta é: é verdade que o primeiro-ministro e o presidente da República defenderam que o país não pode voltar a um confinamento semelhante àquele que tivemos em março?

Isso foi o que Tiago Maian Gonçalves disse logo no primeiro dia de campanha. O argumento dele é de que não foi o único a defender que o país não aguentava precisamente esse confinamento e que também o primeiro-ministro e o presidente da República defenderam essa ideia. Ora, para verificar esta informação, obriga-nos a puxar a fita do tempo atrás, começando, por exemplo, em julho do ano passado. É verdade que encontramos sucessivas declarações tanto do presidente da República como do primeiro-ministro a defender precisamente essa ideia. Um desses momentos é em julho do ano passado, quando o primeiro-ministro diz que não poderíamos voltar a viver uma situação como aquela que tínhamos vivido a partir de março e, portanto, do encerramento total. O António Costa dizia que era preciso assegurar a continuidade do funcionamento da sociedade, designadamente das escolas, das empresas e dos serviços da administração pública. E há aqui uma referência engraçada, que é quando ele diz que tem que se assegurar esse funcionamento mesmo numa condição tão ou mais adversa como aquela que vivemos em março. Em agosto, essa ideia também é partilhada por António Costa, em setembro, em novembro, sucessivas vezes o primeiro-ministro vai defendendo que não podemos regressar a março. E Marcelo também terá dito, no mesmo dia, em julho do ano passado, dia 15 de julho, quando António Costa defendia essa ideia, Marcelo vinha alinhar a sua posição com a do primeiro-ministro e dizia que seria muito difícil voltar a repetir o confinamento e, portanto, era preciso encontrar fórmulas para seguirmos um caminho diferente. Avançamos um bocadinho, em novembro, o que Marcelo dizia era que a sociedade estava fatigada e, nota importante, que não havia consenso político à volta desta ideia de voltarmos a fechar. Portanto, Ricardo, acho que já percebemos que sim, está certo Tiago Maian Gonçalves quando diz que tanto o primeiro-ministro como o presidente da República defenderam esta ideia.

Ou seja, Pedro, aqui chegados, este fact-check é verdadeiro por isso. E como estás confinado também, estás em casa. O carimbo verde tem sido muito pouco usado. Toma lá o carimbo para este fact-check.

Muito obrigado. Eu vou usá-lo com muita cautela. Permites-me?

Vamos a isso.

Aqui está.

E já a seguir, um regresso ao passado. Vamos ao baú das presidenciais, a uma história de um engano. Estamos em 1976, o ano das primeiras presidenciais em democracia. O single estrangeiro mais vendido em Portugal nesse ano foi Fernando, do Zaba. A canção é uma conversa entre dois revolucionários, veteranos da guerra entre o Texas e o México. Em Portugal, nos comícios no verão de 76, a música também era sobre revolucionários, mas era muito diferente desta. A jornalista Inês Ameixa leva-nos à candidatura do comunista Octávio Pato e ao dia em que os cantores revolucionários se enganaram e entraram num comício do CDS.

A cantiga é uma arma, e era uma arma poderosa em 1976. Políticos, poetas, cantores e músicos como José Jorge Letria davam as mãos em tempos ainda marcados pela revolução. O empenho era tal que um dia os artistas de esquerda acabaram por bater à porta de um comício do centro-direita.

Entrávamos num cine teatro e com a rapidez e com a pressa, com a falta de condições, e quando entrávamos do recinto da sala, percebemos que havia ali uma iniciativa ligada ao CDS e rapidamente saímos antes de sermos agredidos ou de haver um confronto que nesta altura era quase uma inevitabilidade. As pessoas estavam muito radicalizadas politicamente.

José Jorge Letria, poeta, escritor e jornalista, lembra a importância dos artistas nas campanhas dos candidatos à presidência.

Não se pode contar essa história, nem a história da transição da ditadura pra democracia, da consolidação da democracia, sem se falar do papel dos cantores.

E nesse ano de 1976, houve um momento de especial união entre os cantores de intervenção e a política. A 12 de junho desse ano, milhares de apoiantes do comunista Octávio Pato marcaram presença num comício em que se defendia a ideia do voto útil. Quem esteve na Alameda Afonso Henriques, nesse verão, assistiu a palavras de ordem e a um concerto de canto livre com Fernando Tordo, Carlos Mendes e José Jorge Letria.

E recordo-me perfeitamente dessa sessão e desse comício, no meio dos outros em que estive presente, a canção como instrumento de combate político e ideológico estava presente em todas estas atividades, comícios e fora dos comícios.

José Jorge Letria é o autor desta "A Vitória é Difícil, mas é Nossa", uma das canções mais populares dos comícios desses anos.

Em 1976, Ramalho Eanes venceu as eleições presidenciais à primeira volta com 61,6% dos votos. Octávio Pato ficou em quarto e último lugar com 7,6% dos votos. Em 1976, a canção estrangeira mais ouvida em Portugal foi esta, "Fernando", do Zaba. A sonorização é do Bernardo Almeida e da Beatriz Martelo Garcia. O "Caça ao Voto" regressa amanhã.

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