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É a última semana para convencer os indecisos. Está na hora de tentar perceber quem está a ganhar e a perder votos nesta campanha para as legislativas do próximo domingo. O Caça ao Voto pode ser acompanhado não só por quem nos ouve na rádio, mas também em vídeo, em oobservador.pt e no Facebook e ainda no YouTube.
Estão conosco o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, com Rui Pedro Antunes, editor de política, e o painel das tardes da Rádio Observador, a Judite França e o Bruno Vieira Amaral. Judite, hoje vou começar por ti. Restam cinco dias para o término da campanha. Não há margem de erro.
Não há, e as estratégias têm que estar afinadas. A Aliança Democrática, nos últimos dias, colecionou notáveis e o Partido Socialista, Pedro Nuno Santos contou com António Costa. A presença de António Costa para o espectro político do PS é vantajosa e é vantajosa para Pedro Nuno Santos. Portanto, se a mensagem é de continuidade, de facto Pedro Nuno Santos mantém aquilo que tem sido a sua estratégia. Há aqui alguns pormenores em relação aos pequenos partidos, mas, por exemplo, eu acho que é bom olharmos para o Chega durante esta última semana, porque à medida que os indecisos se vão decidindo, a porcentagem de votos no Chega não sobe. E isso é curioso e provavelmente André Ventura já começou a fazer algo sobre isso, nomeadamente voltando aos seus temas fraturantes, como foi o caso de hoje a falar da prisão perpétua. Agora, na Aliança Democrática, não se pode ter tiros no pé com candidatos a dizerem coisas que não devem e Luís Montenegro ter de vir desdizer. Isso é coisa que não pode acontecer nesta última semana. E no caso do Partido Socialista, era bom que saísse alguma coisa fora da caixa, que alguma coisa saísse agora daí. Não falo de vasos voadores, falo de coisas que fossem simpáticas para a campanha socialista.
Ou vacas voadoras.
Ou vacas voadoras. O comício do Pavilhão Rosa Mota no Porto podia ter sido um comício de fim de campanha, se não tivesse António Costa, claro, porque para fim de campanha com António Costa não é simpático, como não foi muito simpático António Costa a dizer que deixa muita obra feita para Pedro Nuno Santos inaugurar. Não é assim muito simpático, foi um bocadinho mauzinho, mas eu entendo que António Costa, tendo assim a necessidade de exaltar o que fez, é compreensível para quem foi mandado embora a meio do jogo, como diz o próprio. E portanto, há tempo de crescendo para a última semana de campanha, e PSD e PS têm que fazer isso mesmo. Ou seja, têm que aproveitar a última semana e a reta final para fazer esse crescendo. E vamos ver se é isso que acontece.
E falaste na questão da prisão perpétua. André Ventura voltou hoje a insistir nisso. Era o que estavas à espera para esta semana, Miguel Pinheiro, uma radicalização do discurso?
Acho que isso mostra realmente que André Ventura sente que as coisas não estão a correr bem e quer agarrar o eleitorado, quer resistir ao voto útil, e isso é feito, de facto, através desta recuperação da questão da prisão perpétua. Não vale a pena entrarmos na discussão sobre isso, claro. Se penas mais fortes acabassem com o crime nos Estados Unidos, onde há a pena de morte, os Estados Unidos não seriam o sexto país com crimes mais violentos do mundo. Se bastasse isso, penas cada vez mais duras, estava resolvido. E também o inefável deputado Pedro Santos Frazão vem nos explicar que está em curso uma substituição da população portuguesa por imigrantes. Cá fica registado que afinal o Chega acha que virem imigrantes é um problema, porque eles estão a substituir a população portuguesa. Mas pronto, é o desespero de resistir ao voto útil. André Ventura sente que está a perder muitos votos, seguramente, nesta fase.
Rui Pedro Antunes, mesma pergunta: esta radicalização, os temas que são trazidos para esta segunda semana de campanha são um sintoma disso mesmo, a dificuldade do Chega de conseguir caçar mais votos?
Sim, para tentar ser mais ou menos breve. No Chega não só houve uma radicalização, de novo, do discurso, como na verdade tinha duas ações por dia e agora já marcou mais uma arruada que vai existir em Évora, porque já percebeu que não está a controlar bem o tempo midiático. Enquanto os outros estão na rua a aparecer constantemente, com os diretos das televisões, André Ventura fez uma campanha como se só saísse o jornal no dia seguinte. Tem um evento à hora de almoço e outro à hora de jantar. Isto já não se faz com dois eventos por dia, como antes também não se fazia. E portanto, não percebeu que precisava ter essa presença constante. Tanto nas legislativas de 2022 como nas presidenciais de 2021, tudo andou sempre à volta de André Ventura Era a esquerda unida para derrotar Ventura, Marcelo a impor-se para não ir com Ventura a uma segunda volta, Ana Gomes a dar tudo e a capitalizar uma espécie de voto útil para o segundo lugar. Em 2022, António Costa a usar o papão Ventura para derrotar Rui Rio, Rui Rio a ser equívoco relativamente a André Ventura, foi tudo venturocêntrico. E agora não, está tudo a girar em torno da AD, de Luís Montenegro, eventualmente nessa recuperação ou não de Pedro Nuno Santos, e as pessoas estão mais interessadas, e o espaço mediático está mais interessado entre quem fica em primeiro e quem fica em segundo. Isso tem retirado espaço a André Ventura e ele tem que fazer qualquer coisa e voltar a agarrar os seus, voltar a este tipo de temas e voltar eventualmente à rua com uma arruada que já criou e criará outras, certamente, até o final da semana, é uma estratégia para estancar aquilo que parece ser uma descida dos votos. Portanto, quem está a perder votos neste momento é André Ventura.
Bruno Vieira Amaral, e Pedro Nuno Santos precisa de um copiloto para ganhar votos?
Precisa, como se viu agora na intervenção de António Costa. Eu tenho um amigo que costuma dizer que a minha condução é estilo "Driving Miss Daisy", que é para não assustar velhinhos. E António Costa tem esse estilo de condução, e Pedro Nuno Santos é mais piloto de ralis. Mas mesmo um piloto de ralis, para ser bom, precisa de ter ali um copiloto que garanta alguma segurança, que lhe dê boas indicações. É o tipo de copiloto que poderia ser António Costa, só que ele não pode estar lá presente sempre, isso até seria prejudicial a Pedro Nuno Santos. Portanto, Pedro Nuno Santos agora vai ter de guiar sozinho nesta última semana, não vai ter esse apoio, que é importante para recentrar um pouco, para as pessoas não ficarem com medo que haja uma guinada muito forte à esquerda, e tem de conseguir convencer esse eleitorado que estava convencido com António Costa e que continua a apreciar António Costa, mas tem que fazê-lo sem esse apoio, sem ter alguém ao lado permanentemente. Não sei se será capaz disso, mas esse é o desafio para esta última semana para Pedro Nuno Santos.
Faltam cinco dias para o encerramento desta campanha eleitoral. Vamos agora ver onde andam as caravanas partidárias e vamos começar pelo Bloco de Esquerda, não é assim, Vanessa?
Vamos. É uma campanha que está a ser acompanhada pela Mariana Lima Cunha, jornalista do Observador, da seção de política. Mariana, onde é que andas a esta hora?
Olá, Vanessa, andamos aqui em Setúbal. Acabamos agora mesmo uma arruada do Bloco de Esquerda, aqui em terreno favorável, dado que é um dos poucos distritos em que o Bloco de Esquerda conseguiu eleger algum deputado nas últimas eleições. E neste caso, a Mariana Mortágua foi acompanhada pelo Luís Fazenda, um dos fundadores do Bloco de Esquerda, que se junta a esta campanha porque agora aqui na segunda semana a ideia do Bloco é mesmo, por um lado, trazer algumas dessas figuras. Luís Fazenda participou hoje no comício aqui em Setúbal. Teremos Francisco Louçã também esta semana, segundo percebemos, provavelmente em Braga, também num comício à noite. E já este domingo conta com a Catarina Martins e o Pedro Filipe Soares.
Estamos com algumas dificuldades na ligação, mas ouvi-te agora, Mariana.
Dizia que o Bloco de Esquerda nesta segunda semana está a apostar em alguns dos nomes mais conhecidos do partido para a campanha, dos fundadores à Catarina Martins, a Pedro Filipe Soares. E estão todos muito focados numa mensagem concreta que a Mariana Mortágua também acabou agora mesmo aqui de deixar, que são apelos ao voto muito direcionados. É sobretudo a duas faixas, são as mulheres, que o Bloco de Esquerda tem noção pelos estudos de opinião que têm saído, que são a maior fatia dos indecisos e portanto, quer tentar puxar esse voto para si. E, por outro lado, são em grande parte os tais arrependidos da maioria absoluta de quem tanto se fala. A líder do Bloco de Esquerda acabou agora mesmo, no fim da arruada aqui em Setúbal, de dizer precisamente que sabe que há muita gente que teve a experiência das últimas eleições de acordar num dia e perceber que contribuiu para a maioria absoluta do PS e que não quer repeti-la. E portanto, é muito esse eleitorado de esquerda, mas que não quer votar PS a quem se está a dirigir, sempre com a mesma mensagem de explicar ao eleitorado de esquerda que estão à vontade para votar no partido que preferem, ou seja, que o voto útil não só levou a uma maioria absoluta nas últimas eleições, como desta vez, com Pedro Nuno Santos à frente do PS, pode ser menos relevante na medida em que Pedro Nuno Santos está aberto a fazer acordos com a esquerda. E portanto, é muito por aqui que tem ido este apelo ao voto nestas duas frentes. Aconteceu outra vez nesta arruada e muito provavelmente nos comícios com grandes figuras do Bloco de Esquerda durante esta semana.
E Mariana, esta noite, quais é que são as ações que estão previstas?
Esta noite vamos ter um comício em Setúbal com Luís Fazenda, com um dos fundadores do Bloco de Esquerda. Também vai participar Joana Mortágua, que é cabeça de lista por Setúbal e é neste momento a única deputada do Bloco de Esquerda por Setúbal, que é um círculo em que o partido ainda aspira a crescer um bocadinho. Amanhã ainda vamos andar por Lisboa e depois partimos para Santa Maria da Feira, porque a reta final da campanha vai ser feita mais a norte.
Mariana Lima Cunha, jornalista do Observador, que está a acompanhar esta campanha eleitoral do Bloco de Esquerda, os últimos apelos da coordenadora bloquista para que se vote no Bloco de Esquerda nas eleições que estão agendadas para o próximo dia 10 de março.
Tínhamos previsto também ir até ao encontro da caravana da Iniciativa Liberal e já temos conosco o Pedro Jorge Castro, que está a acompanhar esta campanha. Boa tarde, Pedro Rui Rocha. Passou os últimos dois dias a desafiar publicamente Luís Montenegro para uma conversa em público. Hoje houve finalmente desenvolvimentos. Esta tentativa de diálogo com o líder da AD serve para resistir aos apelos ao voto útil?
E não, não é a Vanessa. Não, ainda não é desta que vamos contar com o Pedro Jorge Castro, que tem acompanhado a campanha da Iniciativa Liberal. Ele está em Leiria. Rui Rocha almoçou hoje com empresários em Leiria e desafiou precisamente as entidades patronais a aumentarem salários. É um dos desígnios e um dos objetivos não só da Iniciativa Liberal, mas também dos outros partidos que concorrem a estas eleições. Aumentar salários, a questão é saber como é que se promove esse aumento de salários. E agora sim, Vanessa, acho que já temos o Pedro Castro em linha.
Penso que sim. Pedro Jorge Castro, estávamos aqui a olhar para esses desafios que foram lançados por Rui Rocha a Luís Montenegro para uma conversa em público. Essa tentativa de diálogo com a lider da AD serve para resistir aos apelos ao voto útil?
Sim, é mesmo isso que está aqui em causa. Como toda a gente sabe, tanto a AD como a Iniciativa Liberal já assumiram que querem juntar-se um com o outro depois das eleições, se houver condições para isso. Mas agora estamos na última semana de campanha e cada um vai ter que fazer pela vida para ter força para lá chegar. Neste momento, aquilo a que temos assistido é uma espécie de endurecimento do discurso dos dois lados. Do lado da AD, há um apelo ao voto útil, dizendo que não vale a pena pensar em coligações se a AD não ganhar as eleições, e portanto, para isso todos os votos contam. E do lado da Iniciativa Liberal há esta tentativa de fazer pela vida e de tentarem ter força suficiente e número de deputados para influenciar negociações numa futura coligação de governo. Neste cenário, Rui Rocha começou por fazer desafios públicos a Luís Montenegro, no fundo, pedindo para ele dizer se aceita ou não aceita baixar o IRS em € 100 para as pessoas que ganham um salário médio de € 1.500 brutos. Esteve dois dias a fazer este apelo, chegou a fazê-lo quatro vezes, isto já estava a tornar-se até um pouco constrangedor. Hoje, finalmente, há resposta de Luís Montenegro, não a este assunto, mas a outro. Decididamente, respondeu à questão da chantagem e ao sistema eleitoral. E Rui Rocha começou por dizer precisamente que achava muito saudável que Luís Montenegro tivesse aceite fazer esta conversa em público para a AD e a Iniciativa Liberal poderem apresentar as suas propostas aos portugueses. No entanto, acaba por discordar da solução proposta por Luís Montenegro, porque implica uma revisão constitucional e ele acha que isso é a melhor forma de não resolver este problema. No fundo, o que está em causa aqui são cerca de 700 mil votos que são desperdiçados, que não permitem eleger deputado nenhum, porque são votos nos partidos mais pequenos que não elegem nos distritos que têm menos representantes na Assembleia da República. Eu creio que ainda vamos assistir aqui a um endurecimento destas posições até domingo, até sexta-feira, até ao fim da campanha. Mas ambas as partes já admitiram que depois, consoante os votos que cada um tiver, consoante o cenário eleitoral, se verá como é que voltam a juntar-se para encontrar pontos em comum no programa.
É uma relação difícil, como de resto também está patente num artigo que assinas, Pedro Jorge Castro, com o Miguel Santos Carrapatoso, esta relação entre a AD e a Iniciativa Liberal, apesar de haver aqui pontes e conversas pós-eleitorais no horizonte. Reportagem do Pedro Jorge Castro, que está a acompanhar a caravana da Iniciativa Liberal.