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Bem-vindos a esta série especial do "Caça ao Voto", na rádio, no site e em podcast. Para não perder, basta assinar ou subscrever na aplicação de podcast que utiliza habitualmente. Neste "Caça ao Voto", olhamos para o novo governo socialista. No próximo episódio, vamos falar de CDS e PSD. Mas hoje é o governo que está em destaque neste "Caça ao Voto" que começa agora. É o governo com mais mulheres desde o 25 de Abril, é o que tem mais ministros desde 76, são 19 ministérios, dois novos ministérios, três caras novas. Vão ser cinco as novas caras na reunião do Conselho de Ministros, 14 ministros repetentes. São muitos números, só para dizer assim de rajada, mas são 14 repetentes, cinco novos, 19 ministérios. Siza Vieira sobe a número dois do governo, Mário Centeno mantém-se nas finanças, de pasta na mão. António Costa foi ontem a Belém. O presidente da República disse que sim ao novo elenco governativo. Neste "Caça ao Voto", vamos então tirar as medidas ao novo governo e à arrumação das pastas. Para isso, chamamos os nossos especialistas em arrumações e remodelações, José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro, Pedro Benevides, do Observador, e a nossa convidada especial de hoje, a Maria Henrique Espada da revista "Sábado". Antes da conversa, vamos recuar algumas horas, vamos até à redação do Observador, às 18h52 de terça-feira, 15 de outubro, a hora em que o papel com o novo governo foi afixado no site da presidência. E esse momento foi mais ou menos vivido assim.
Já está na página da presidência. E João Sandra, nesta altura, já é conhecida a formação do governo e vamos em direto para o Palácio de Belém.
Onde está o repórter do Observador, Andreia Maia, neste momento em que na página da Presidência da República já está presente uma nota por parte do chefe de Estado Marcelo Rebelo de Sousa, em que adianta que recebeu o primeiro-ministro indigitado, António Costa.
Já está a falar, sim, e vamos ouvir então o primeiro-ministro.
Creio, por isso, que estão criadas as condições para, concluído amanhã, geralmente, o processo de apuramento dos resultados eleitorais, a Assembleia da República possa iniciar as funções e na próxima semana o senhor presidente da República possa dar a posse e nomear não só os membros do governo os ministros, mas também toda a equipa governamental.
Foi mais ou menos assim que vivemos na redação e na Rádio Observador este momento em que foi conhecido o elenco do novo governo. Maria Henrique Espada, não sei se estavas à espera de um extreme makeover neste governo. Isto, na prática, parece que só se trocaram os cortinados da sala e tudo o resto ficou igual ou estou a ser aqui muito mauzinho?
Eu acho que foi ainda menos do que isso. Acho que nem se lembraram de abrir a janela para entrar assim uma lufadazinha, dar fresco. Eu acho que era expectável haver uma taxa muito razoável de repetição de ministros. Aliás, o próprio António Costa já tinha dado indicações de que seria um governo de continuidade. Portanto, isso era expectável. Agora, que fosse tanto, eu confesso que a mim me espantou um bocadinho a taxa de mesmice do governo, porque mesmo nas novidades, são novidades que vêm de dentro. As três secretárias de Estado que sobem a ministras são secretárias de Estado com quem António Costa já tinha trabalhado, que conhecia, que estavam, de certa forma, dentro do governo, faziam parte da estrutura. Não há aqui grande novidade. Aliás, mesmo nos dois ministérios novos ou mais ou menos novos, também não são muito novos. Temos um Ministério da Coesão, mas já tínhamos antes uma Secretaria de Estado para a Valorização do Interior e também já temos agora o Planeamento. Há aqui o que me parece ser um desdobramento ou uma confusão, mas não lhe chamaria novidade. E temos a Modernização Administrativa como nova ministra, mas que também a ministra não é nova, era secretária de Estado e a pasta eu também não a veria como nova. Ela já vem da presidência com duas ministras anteriores. Depois, temos as mesmas caras de sempre nos principais ministérios.
Acha que faltou aqui uma mão da Marie Kondo? A Marie Kondo podia ter dado aqui uma ajuda.
Aliás, a Marie Kondo, o que faz normalmente é despachar tralha.
Exato.
Sem querer voltar àquela velha expressão que foi usada sobre a tralha guterrista. Não me parece simpático chamar tralha aos ministros, não é essa a questão, mas ninguém sai também. Ninguém sai fora, mesmo ministros que se poderia especular que, não estando nas melhores das graças da opinião pública pudessem sair. Isso não aconteceu com ninguém, não houve ninguém despedido neste governo. Houve só promoções e pronto.
E alguns familiares saíram.
E alguns familiares saíram, mas os familiares saíram também, isso era previsível. António Costa já o tinha dito. E Vieira da Silva, obviamente, iria sair. Ana Paula Vitorino acho que também iria sair e tinha o marido no governo. Portanto, tudo muito previsível.
Faltou aqui uma reforma, parece quase uma remodelação de um governo do que um novo governo, não é?
Mais que uma remodelação, uma mini remodelação. A última remodelação foi mais profunda que esta e foi feita a meio de uma legislatura, não foi na passagem da legislatura. Eu acho que a questão é um pouquinho mais complicada mesmo.
Eu a tentar aligeirar aqui as coisas, Zé Manel, não dá certo.
Não dá certo.
É o nosso Dr. Doom.
Eu acho que há dois ministros que precisavam mesmo de sair, porque os setores que tutelam estão em mau estado e não vejo que eles tenham qualquer capacidade para lhes dar a volta. Estou a falar da Saúde e da Educação. O ministro da Educação verdadeiramente nem foi bem ministro da Educação, esteve muito ausente. Os secretários de Estado tinham muito peso. Saiu uma secretária de Estado. Vamos ver se há alguma mexida na equipe de secretários de Estado. Há quem especule que pelo menos um outro secretário de Estado pode sair por razões de relacionamento com o ministro. Vamos ficar à espera, mas ele não é uma figura que inclusivamente tenha mostrado ter grande empatia com o setor e grande empatia com os problemas da educação, e é uma área onde a evolução não tem sido nada positiva. A Saúde é aquilo que faz viver a comunicação social, deles dizem todos os dias, dão um bocado de alegria a esta casa, permitem-nos fazer reportagens sobre o estado em que as coisas infelizmente vão estando. Mas a ministra, acho que não é necessário dizer muito mais. Em relação a algumas das mudanças, eu já disse isso hoje de manhã, eu acho que, por exemplo, Alexandra Leitão é uma figura que passa por uma pasta importante, mas que tem uma visão que mostrou, designadamente na guerra das camisolas amarelas, que é uma visão de colocar o Estado no centro dos problemas. Ela resolve as coisas todas através do Estado e vai para a reforma do Estado. Portanto, não creio que seja aquilo que o Simplex necessitava mais. Apesar de tudo, penso que Maria Manuel Leitão Marques tinha destes problemas uma visão mais moderna daquilo que deve ser a relação do Estado com os cidadãos e da administração pública com os cidadãos. Mas eu gostava de chamar a atenção pra um nome que ninguém tem falado muito. Ele já estava no governo e agora dá mais um salto, e dá mais um salto pra um lugar que já conhece bem, mas já conhece bem de muito más companhias. Eu estou a falar de Tiago Antunes. Tiago Antunes passa a ter assento no Conselho de Ministros, por via de ser secretário de Estado adjunto do Primeiro-Ministro. Só que ele já foi assistente de dois secretários de Estado adjuntos do Primeiro-ministro de má memória, de muito má memória. Estou a falar de Filipe Batista, que foi secretário de Estado adjunto de José Sócrates no primeiro governo de Sócrates, e de João Almeida Ribeiro, secretário de Estado adjunto de José Sócrates no segundo governo de Sócrates, e que são duas figuras, duas daquelas eminências pardas do socratismo que muito pouca gente conhece, mas que são das que fizeram a rede de poder desse primeiro-ministro. Sendo que a travessia do deserto de Tiago Antunes, por assim dizer, fez no Parlamento Europeu como assistente de Pedro Silva Pereira. Eu acho que isto é o tipo de currículo que não me deixa nada tranquilo sobre quem vai estar ao lado de António Costa e sentado à mesa do Conselho de Ministros.
Miguel Pinheiro, ainda não te ouvimos sobre esta remodelação.
E não falei das suas relações familiares.
Vamos deixar mais pra frente.
Do seu irmão, mas enfim.
Miguel Pinheiro.
Acho que é o governo de quem não quer que o chateiem. Eu acho que António Costa agora está muito preocupado com a presidência da União Europeia, que é sempre de tal forma complicada que leva a alguma paralisia do governo português desde sempre.
Desde Cavaco Silva?
Desde Cavaco Silva, sim. Foi uma coisa que sempre exigiu, um pouquinho como aquelas pessoas que começam a fazer exercício e dieta seis meses antes de chegar o período de praia. Nós temos que começar a ganhar um balanço muito grande pra não estragar aqueles seis meses. O nosso grande objetivo é não estragar a União Europeia nos seis meses em que estamos à frente daquilo, que eu percebo, mas aqui há um problema que é: realmente um governo que queira mudar as coisas, já se sabe, tem os primeiros dois anos pra tentar mudar alguma coisa. Se estes primeiros dois anos são a não ter problemas pra fazer boa figura na presidência da União Europeia, que é uma coisa importante, seguramente, quer dizer que depois disso também não vai ser feito nada. Por isso vamos ter um governo de impasse e de paralisação. Eu não sei se António Costa, de facto, acha que não é preciso fazer nada de especial
E realmente quem o viu na campanha eleitoral, a ideia com que ficava é que não é preciso fazer nada de muito especial. Está tudo bem, está tudo a correr bem, o país está bem, portanto, não é preciso fazer nada. Mesmo que ele não ache isso, acho que já traçou um plano em que, seja como for, as coisas estão para manter como estão até à próxima e depois logo veremos o que acontece daqui a quatro anos.
Pedro Benvides, deixa-me fazer aqui uma pergunta maldosa, maldosa não pra ti. O governo mantém-se, é uma aposta na continuidade, ou António Costa não arranjou quem quisesse ir pra o governo?
Eu vou aproveitar a tua pergunta maldosa para dar aqui um pouquinho de luz a esta sala, que eu estou a sentir aqui um grande negrume e uma grande falta de esperança. O otimista irritante. Exatamente, vou fazer aqui de otimista irritante. Eu não acho que seja necessariamente mau, nem de surpreender a questão da continuidade. Vários aspectos. Primeiro, o Miguel falava aqui de estar tudo na mesma, mantém-se como está, mais ou menos. De facto, foi isso que António Costa prometeu durante a campanha eleitoral. Ele não prometeu nenhuma revolução, nem nenhum refrescamento, nenhuma grande revolução no elenco governativo, que, de resto, começou a ser preparado, se nós formos a pensar, há um ano, quando foi feita a remodelação de outubro, em que António Costa mudou o ministro da Defesa, mudou a ministra da Cultura, mudou a da Saúde, enfim, fez uma série de mudanças. Foi apenas há um ano, portanto, também talvez não fizesse muito sentido que agora, apenas porque houve eleições, mudasse também outra vez os rostos nos quais tinha apostado há um ano. Segundo ponto, em termos de políticas, também não foi isso que ele andou a prometer. Ele prometeu que era preciso reforçar o PS para continuar a fazer aquilo que o governo estava a fazer e aparentemente os portugueses terão concordado porque deram a vitória e reforçaram a votação no Partido Socialista. Portanto, eu não partilho tanto desta ideia, que eu acho que nós jornalistas gostamos sempre de cada vez que há eleições ou cada vez que há uma remodelação, as novas caras, as figuras de fora, as surpresas, as mais mulheres que vieram. E eu percebo isso porque de facto é isso que nos alimenta, é isso que nos dá ânimo no dia a dia. Agora, eu não sei se a falta de experiência política, e às vezes o risco de algumas apostas, como nós já percebemos em experiências que foram feitas nos tempos recentes, são necessariamente uma coisa boa. Portanto, eu não acho que o facto destes ministros terem estas pastas há algum tempo seja necessariamente mau porque têm experiência nesses domínios. Não sei se é para não fazer nada.
Mas é uma lógica de equipe que ganha não se mexe, é isso?
Não sei se a equipe que ganha não se mexe ou se não vale a pena estar a mexer e não estragar o que está feito, apesar de haver aqui desafios pela frente. Eu não acho que António Costa olhe pra isso como não há nada pra fazer. Acho que há problemas, por exemplo, na saúde, que são gravíssimos e que hoje em dia, mais do que no princípio da legislatura, estão cada vez mais visíveis. E não nos esqueçamos que PCP e Bloco agora vão estar em roda livre e, portanto, vão acentuar tudo aquilo que, de certa forma, nos últimos quatro anos deixaram debaixo do tapete. Acho que a questão da educação, é verdade, é uma escolha surpreendente que Tiago Brandão Rodrigues continue, porque ele não deixou uma marca visível, que nós conheçamos o que foi que ele fez e qual foi a sua marca, e ele vai continuar e nunca aconteceu um caso deste gênero. É verdade que há contestação no setor, mas na educação e na saúde são setores onde essa contestação é frequente e eu não me lembro de nenhum ministro nos últimos tempos... Não é normal, de facto. Quanto à ministra da Saúde, eu acho que tem a ver com o fato de ela ter sido posta no lugar há um ano e a verdade é que o verdadeiro ministro da Saúde até agora tem sido Mário Centeno, não tem sido propriamente a ministra da Saúde, por mais discursos inflamados que ela faça. Relativamente ao Tiago Antunes, que o José Manuel Fernandes falava. Eu percebo estas ligações a José Sócrates, mas eu acho que António Costa conseguiu desligar-se da imagem do José Sócrates, portanto, não me parece que ele tenha essa contaminação. O problema não é a imagem. Mas eu acho que estás a insinuar aí ligações ou tens alguma prova de que ele se envolveu em determinadas atividades mais ou menos ilícitas? É uma maneira de atuar que está na forma... Mas não sei se podes atribuir a ele. E já agora, o Tiago Antunes creio que já entrava no Conselho de Ministros como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, já tinha assento lá. Em todo caso, o que eu queria fazer com isto era... Mas era mais um trabalho secretariado. Agora, o secretário de Estado adjunto é muito no coração da coordenação de ministros. E qual é a tua teoria? Achas que vai corromper por dentro o gabinete? Não é uma questão de corromper por dentro. Aquele secretário de Estado adjunto tinha um modus operandi muito particular e muito centralizador. Quem se recorda como é que funcionava o governo Sócrates, era muito típico. Foi a escola dele. Não foi uma boa escola. Se ele agora, de repente, transfigurou-se numa pessoa diferente, não sei. Ainda por cima, como a gente bem falou, ele, inclusivamente, é, se quisermos, o que resta de uma ligação familiar também não muito saudável. Recomendável. Recomendável neste governo, porque ele estava a entrar pro governo anterior e estava a sair por uma outra porta um irmão para ser arguido no caso das rendas da EDP. Nós fizemos referência a isso, aliás, no perfil que fizemos dos vários ministros. Mas pronto, o que eu queria era dar aqui uma visão um pouquinho mais luminosa sobre esta remodelação, que de facto, visto de fora, não foi muito surpreendente, não nos deixou ninguém agarrados à cadeira com os novos nomes. E eu concordo com a Maria Henrique quando fala dos novos ministérios e das novas pastas que foram criadas, que me parece, de facto, mais maquiagem política e mais usar pastas ministeriais e gabinetes ministeriais para fazer política e dizer: "É uma grande aposta que nós temos a modernização administrativa e vamos reformar o Estado, etc. E vamos também dar uma grande ênfase ao território e combater a desertificação e todos esses problemas que estão identificados." Parece mais maquiagem do que propriamente conteúdo político verdadeiro.
Maria Henrique Espada, pegando em algo que o Miguel Pinheiro estava a dizer há pouco, este novo governo com estas quase mesmas caras, 14 ministros repetentes, poucas novidades, e com a questão da presidência portuguesa da União Europeia, indicia que pouco vai ser feito nos próximos quatro anos, vai ser um governo mais para gerir a gestão corrente.
Sim, aliás, pegando naquilo que o Miguel disse, a questão da presidência portuguesa da União Europeia, usar isso como desculpa para fazer um governo num ou noutro sentido, é uma coisa que a mim me faz um bocadinho de confusão. Ainda falta um ano e tal para a presidência. Nós já estamos a falar disto, mas é só em 2021.
Até lá.
Até lá, sabe-se lá o que é que vai acontecer. Se nem é preciso uma nova remodelação. Estar a condicionar a estrutura de um governo a uma coisa que vai acontecer daqui a um ano e tal e que acontece de forma rotineira com todos os países, sem que isso seja um drama na ordem política interna respetiva, sinceramente, parece-me um bocadinho exagerado.
Mas ficamos sempre com aquela ideia que o primeiro-ministro tem depois muita coisa para fazer em Bruxelas e depois não está cá.
Sim, mas há o ministro dos Negócios Estrangeiros, ele não vai emigrar para Bruxelas.
E há uma equipa que já está a preparar isto há muito tempo.
Exatamente.
A presidência já está a ser preparada há muito tempo.
E não é sequer a primeira vez que vamos exercer a presidência.
Mas deixa-me só ser luminoso, que é para não ser só o Pedro, o Rei Sol, aqui nisto. Há uma coisa boa nisto que é: qualquer tentação que pudesse haver na cabeça de alguém, se é que havia, seguramente não há, de poder ceder um milímetro que fosse àquelas derivas antieuropeístas do PC e de outros lados ali da extrema-esquerda para tentar resolver um ou outro problema orçamental, que justiça seja feita, António Costa nunca deu mostras de ceder minimamente a nada disso. Mas mesmo assim, o facto de nós daqui a um ano e meio irmos exercer a presidência da União Europeia, dá-nos a garantia de que Portugal vai fazer tudo para não ter problemas com a União Europeia, tanto em qualquer coisa retórica, como nos orçamentos, nas finanças públicas e tudo mais. E portanto, é mais uma defesa contra eventuais loucuras que pudessem existir. E se a isto somarmos um segundo ponto, que eu, olhando aqui para o governo, o Zé Manel Fernandes teve nos lados negativos e eu agora vou só para um positivo.
Fiz escola, gosto disto. Fiz escola. A luz o invadiu.
Há um positivo, há um antes e um depois. Há mais mulheres.
Eu não ia aí.
Mas lá vamos.
O número dois do governo é Siza Vieira, que é não só ministro da Economia, como alguém que tem uma cabeça que não está, de maneira nenhuma, virada para uma visão estatista do país.
Não é o Pedro Santos.
Isso pode ser um sinal real para a economia, para a sociedade?
É um sinal de que, pelo menos, já sabíamos que era muito ouvido pelo primeiro-ministro.
É o único moicano.
Está bem, mas a verdade é que, apesar de tudo, o último moicano ser o número dois do governo já não é mau de todo. Até porque nós temos que ter em atenção que, como também ficou provada nesta mudança do governo, Mário Centeno vai mesmo sair. Ele fica em número cinco do governo, já é mesmo pô-lo no hall da casa, que é para depois quando sair, os outros convidados já nem darem tanto por isso. E portanto, a saída de Mário Centeno podia provocar algum desequilíbrio na relação de forças do governo, como diria o PCP. E esta subida na hierarquia de Siza Vieira, eu acho que pelo menos mostra que nem todo o governo tem esta visão estatista para que alertava o Zé Manel.
Zé Manel. Sim, é verdade que Pedro Siza Vieira é o último moicano, mas eu também acho que há uma coisa que continua a ser muito característica aqui. Eu acho que não é só deste governo, vem de trás, vem de outros governos. Há uma grande incapacidade que os governos têm mostrado de atrair pessoas diferentes. Portanto, não sei se houve esforço, não sei se houve vontade, mas de facto, Pedro Siza Vieira está no governo porque é amigo do primeiro-ministro, mas fora isso, o que temos são pessoas que têm uma carreira ou na administração pública ou na política, e não têm carreiras fora do Estado. Eu, para todos os efeitos, acho que um governo em que o único ministro que não tem uma carreira feita no Estado é Pedro Siza Vieira, é bom que ele seja o número dois, mas é o único. E eu acho que a cabeça das pessoas que viveu toda a vida dentro do Estado é diferente de quem viveu fora do Estado. Sabe que quem viveu fora do Estado, a vida tem outras complicações que quem está dentro do Estado não entende muito bem. E uma parte dos nossos problemas, uma parte dos problemas que são criados pelos governos e pelo aparato legislativo e pelo aparato público, vem daí, vem de não perceber que há uma vida fora do Estado. E desse ponto de vista, as coisas não melhoraram. Acho que o facto de haver essa promoção, não melhoraram as coisas, porque para todos os efeitos, nós até vamos ter um governo maior do que tivemos desde 1976.
E é aí que eu acho que está o problema quando falamos do aspeto positivo do número de mulheres deste governo. É que de facto há muito mais mulheres do que alguma vez houve, mas dá a ideia que para incluir as mulheres teve que se alargar o governo para uma dimensão só vista há não sei quantos anos. Portanto, continua a permanecer a ideia de que não se substituíram homens por mulheres. Criaram-se novas pastas, puseram-se lá mulheres, mas o governo alargou de uma forma enorme e isso eu acho um bocadinho estranho.
Deixa-me só acrescentar uma coisa.
Enfim, aí deixa-me agora ser eu a fazer o papel de Pedro Costa desta vez. Se isso fosse rigorosamente verdade, totalmente verdade, não era necessário ter promovido a ministro do Planeamento. Portanto, bastava ter ficado como secretário de Estado.
Não, mas é que se tornou essa pasta um ministério para pôr lá uma ministra, percebes o que eu quero dizer?
Não, ficou como ministro. Ficou o ministro Nelson
Sim, mas nós falávamos há pouco das duas pastas: da Coesão Territorial e da Modernização Administrativa. Qualquer uma delas já existia na orgânica do governo, eram Secretarias de Estado e foram promovidas a ministério para esta mensagem política, foram postas lá duas mulheres, o que é bom, mas a minha ideia é essa.
Maria.
Deixa-me só adensar.
José Manuel, vamos ouvir. Deixa falar a única mulher da mesa.
Eu não queria invocar essa questão da cota.
Estás à vontade, Maria Ricardo.
Deixa-me só adensar aqui um pouco esta visão, que eu acho que o António Costa tem um pouco, que é uma visão algo administrativa da política e que se nota de fato nesses dois ministérios, e que tem a ver com aquilo que o José Manuel estava a dizer há pouco, que é a cabeça das pessoas que andaram sempre dentro do Estado. No caso, por exemplo, da Coesão e da Valorização do Interior, isto já tem pergaminhos. António Costa começou o governo criando uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior. No fim do ano e tal, a presidente demitiu-se porque disse basicamente que não conseguia falar sequer com o primeiro-ministro, ninguém a ouvia, não tinha apoio político e, portanto, foi-se embora coerentemente. Helena Freitas. Depois disso, este governo criou uma Secretaria de Estado para a Valorização do Interior, que está sediada em Castelo Branco. Provavelmente os nossos ouvintes estarão neste momento muito espantados ao ouvir que há uma Secretaria de Estado em Castelo Branco. Mas sim, há um secretário de Estado que vive em Castelo Branco para valorizar o interior. Em que isso valorizou o interior, eu sinceramente não dei por nada, mas admito que possa ter estado distraída. E agora é o incremento seguinte, que passamos de Secretaria de Estado para um Ministério da Coesão. Mantemos o do Planeamento.
Se calhar se mudará para Coimbra ou para a Mêda.
Eu não sei para onde é que vai mudar. Sei que um destes dois vai ser um ministério a brincar. Porque ou Planeamento ou Coesão Territorial, há um deles que vai ter os fundos comunitários e as CCDRs, que têm um papel depois também na aplicação desses fundos. Portanto, há um que vai ser o ministério a sério. O que ficar sem isso é um ministério vazio. E, portanto, há aqui uma questão quase só de nomenclatura, que depois em termos de políticas não tem grande tradução. E na Modernização Administrativa, exatamente a mesma coisa, porque nós já tivemos duas ministras com esta pasta, a Maria Manuel Leitão Marques e depois a Mariana Vieira da Silva.
E lá para trás já tivemos até o Alberto Martins.
Exatamente. E ainda por cima, chega-se ao final da legislatura do último governo, e na fase final é quando se percebe que esta área, de fato, correu mal, porque correu mal de forma flagrante com as filas das pessoas tirarem o cartão de cidadão, com os atrasos na atribuição das pensões de reforma, que, aliás, é uma questão que não está completamente resolvida ainda e é uma coisa dramática.
E a parte digital depois fica também para Siza Vieira, não está nesse ministério.
Eu não consigo perceber como é que isto se encaixa. E depois, por exemplo, a Secretaria de Estado da Valorização do Interior estava no Ministério da Economia. Agora temos Planeamento, Coesão, Economia, isto vai para onde?
Fica em Castelo Branco.
Há aqui toda uma confusão administrativa, lá está, que não parece ter tido grandes resultados até agora.
E estavas à espera de mais mulheres no elenco governativo, Ana?
Não sei se estava à espera ou não estava, não foi uma questão que me inquietasse especialmente.
A surpresa tinha sido o primeiro governo que não tinha quase mulheres nenhumas.
Tinha muito poucas. Agora, digamos que houve uma normalização. Ainda não há quotas para o governo, nem me parece que deva haver. Acho positivo que haja mais mulheres. O que acontece neste caso é que todas elas são também do círculo interno do governo ou do PS. Também me parece normal.
Duas são do Secretariado?
Duas são do Secretariado. Aliás, três. A Maria Luísa Albuquerque também. As três novas ministras estão as três no Secretariado.
Maria do Céu.
Exatamente.
Maria Luísa é do partido ao lado.
Peço desculpa. Maria do Céu Albuquerque. Também Albuquerque, mas...
Depois do choque da Secretaria de Estado em Castelo Branco, esse era o segundo choque dos nossos ouvintes, acho que não iam aguentar.
Não vai ser fácil. Maria Luísa Albuquerque, Maria do Céu Albuquerque, não vai ser fácil.
Eu vou tentar dar aqui uma nota positiva.
O Pedro diz assim e vai dar uma nota negativa.
Está a fazer escola.
O PS está a fazer escola.
Ao que isto chegou.
O PS tem desde há algum tempo internamente, antes, aliás, disso ser lei, uma regra de paridade ou de maior representação das mulheres no próprio partido. Eu acho que isso de alguma forma, desta vez, estendeu-se para o governo. Não sei se é um reflexo dessa maior abertura interna. Enfim, estou a tentar ser positiva.
Miguel Pinheiro, continuando nesta onda positiva e olhando com algum otimismo, ontem, aqui na Rádio Observador, entre as 19h30 e as 20h30, salvo erro, tivemos aqui um desfilar de reações por parte de ordens profissionais, sindicatos, toda a gente, até as confederações patronais, também os representantes dos sindicatos, toda a gente numa primeira reação. Eu posso estar muito distraído, mas ainda não ouvi nada da oposição em relação a este novo governo.
Eu também não tenho ideia que não.
Quer dizer, se calhar não é estranho, dado o atual...
Não sei. Primeiro era preciso definir oposição.
Exato.
Não sei exatamente a que é que te estás a referir.
O que é oposição, Miguel Pinheiro?
Porque neste momento o que nós temos é praticamente todos os partidos parlamentares na expectativa de saber se António Costa quer falar com eles e se quer fazer coisas com eles ou não E, portanto, não devem querer estragar essas possibilidades. O Bloco de Esquerda ainda está a perceber para onde é que as coisas vão. O PC ainda deve estar a tentar perceber como é que vai fazer alguma coisa no Parlamento com tão pouca gente. Até no CDS nós já temos pessoas importantes no partido a defenderem que haja uma conversa entre os dois partidos. E no PSD temos uma noção de tempo muito relativa. Se eu bem estou a ver, o PSD vai discutir os resultados eleitorais em novembro? Uma coisa assim.
Acho que é expressa.
Portanto, eu presumo que depois analisem o novo governo lá para dezembro, janeiro, e que aí digam qualquer coisa sobre isto.
José Manuel Fernandes, faz falta aqui a opinião de outros partidos que têm estado em silêncio. Já passaram mais de 12 horas desde que é conhecido o novo elenco governativo.
Eu acho que esse silêncio é significativo do estado em que estão os outros partidos e o estado em que está a oposição. O facto de nós termos tido sobretudo os vários grupos profissionais, as ordens, os sindicatos a reagir e termos os partidos bastante sossegados, de alguma forma é um sinal de que, por um lado, a oposição à direita olha para dentro e a oposição à esquerda está um bocadinho sem saber o que dizer depois de ter sido deixada à porta do altar, por assim dizer.
Eu acho que a oposição, sobretudo à direita, está preocupada com o seu executivo interno, ou seja, vai haver mexidas na direção dos partidos. Não sabemos se Rui Rio vai continuar ou não. Ele ainda não acabou o seu período de reflexão, o seu retiro de silêncio, e portanto vamos continuar à espera que isso aconteça, que se termine. No lado do CDS sabemos que vai haver candidatos à sucessão de Assunção Cristas, embora não tenha havido ainda muitos a chegarem-se à frente. E é normal que ainda não se tenham comprometido com nenhuma mensagem relativamente a este elenco governativo, que na verdade, como nós dizíamos há pouco, é um bocadinho mais do mesmo com algumas surpresas. Eu queria só referir aqui duas coisas da conversa que fomos tendo e se abri a janela para entrar o sol, agora vou apagar a luz, que é: na questão da presidência da União Europeia, eu acho, de facto, concordo com a Marie Vicque, não se percebe porque foi usado este argumento e porque foi reforçado o núcleo central do governo para preparar uma presidência, quando nós já tivemos outras presidências, incluindo no governo do José Sócrates, onde se tratou da questão do Tratado de Lisboa, que era bastante mais complicado, e não me lembro de o primeiro-ministro ter desaparecido de funções para tratar disso. Há equipas com certeza competentes em Bruxelas, em todo lado, a trabalhar a presidência da União Europeia, portanto esse argumento é um bocadinho estranho. Quanto à questão que o Miguel também falou de Mário Centeno, eu acho que isso é talvez a chave deste governo não trazer novidade e de ser um bocadinho uma continuidade, uma nova remodelação daquilo que começou a ser feito há um ano, que é: eu não sei se este governo não está feito para durar dois anos. Este elenco governativo, pelo menos, não estou a dizer que o governo vai cair, mas acho que pode ser precisamente esse momento em que acaba o mandato de Mário Centeno à frente do Eurogrupo e que se procedem a novas remodelações onde eventualmente saia a ministra da Justiça e uma série de ministros que se falava nos corredores que podiam estar de saída nesta nova composição. Já agora uma nota para uma das surpresas, digamos assim, neste elenco governativo, que é Ana Mendes Godinho, que vai herdar uma pasta complicada e que vai seguramente dar lugar a algumas batalhas, que é o trabalho e a segurança social. A sustentabilidade da segurança social e a legislação laboral vão ser seguramente temas de debate político quente e aceso, e estamos a falar de uma ministra que tem tudo para provar nesta área, ao contrário do antecessor.
Em relação à oposição, eu acho que o silêncio chega a ser quase embaraçoso. Os partidos não são só as lideranças. Existem partidos, há uma instituição, uma estrutura, portanto, não se percebe porque é que não há ninguém a dizer nada. Há alguém que está lá aos comandos. Assunção Cristas demitiu-se, mas formalmente ainda está em funções. Ela ainda nem clarificou se vai sair, se não vai, mas se é para estar calada, se calhar mais vale clarificar rapidamente, por exemplo, se sai deputada ou se não sai, coisa que ela também ainda não clarificou. Agora, este silêncio e esta incapacidade de reagir a qualquer coisa tão pouco importante quanto um novo governo, quase dá razão aos eleitores em relação aos resultados que os dois partidos tiveram há pouco. Não têm nada para dizer sobre isto? Até nós estivemos aqui uma hora a conversar e não temos responsabilidades políticas.
Temos mais um minuto para cada um. Miguel, queres terminar esta ronda? Um minuto para cada um.
E os pequenos partidos também não disseram nada.
Esses também não. Já agora, é verdade. Também é muito sintomático, porque eles cresceram e elegeram em função da projeção mediática.
Houve uma reação. Eu recebi uma reação da Iniciativa Liberal nas redes sociais. Mais nada.
Sim, eu gosto muito de redes sociais. Mas acho que o Iniciativa Liberal tem que começar a sair das redes sociais e falar para as pessoas que estão cá fora. E termos três novos partidos que querem mudar a política portuguesa, que querem trazer coisas novas, diferentes, e que não têm nada a dizer sobre... Mas vamos lá ver, o ter qualquer coisa a dizer não é esta coisa de o nome ou o número. Não, é sobre o que isso significa.
A leitura fazem.
Claro, como nós estivemos aqui a ver, isto significa coisas. Coisas que vão ser feitas, coisas que não vão ser feitas. Na saúde significa uma continuidade daquilo que tem sido feito, por exemplo. A Iniciativa Liberal tem alguma coisa a dizer sobre o Pedro Siza Vieira ir para número dois ou sobre o facto de se continuar esta política antiprivados na saúde, quer dizer, o Iniciativa Liberal diz todos os outros, claro.
José Manuel Fernandes.
Eu só quero dizer uma coisa telegráfica. Eu acho que a questão da presidência europeia tem Ainda menos sentido se pensarmos que a presidência dos países hoje em dia tem muito menos que fazer do que tinha antigamente. Temos um presidente do Conselho Europeu, temos uma estrutura europeia muito diferente e as presidências dos países estão hoje em dia muito esvaziadas.
Deixe-me só agora que estão a completar para dizer que eu não sei se o Pedro Sisa Vieira é o último moicano contra o Estado, porque Mário Centeno tem sido o grande agregador de verbas que não foram usadas no Estado. Portanto, não sei se é ele.
Foi a nossa convidada Maria Henrique Espada, editora executiva da Revista Sábado, os nossos comentadores residentes José Manuel Fernandes, Miguel Pinheiro e Pedro Benevides. No próximo Caça ao Voto, o subdiretor de informação da SIC, Bernardo Ferrão, é o nosso convidado. Vamos tentar tomar o pulso precisamente ao PSD e ao CDS. Terminamos, como sempre, com uma canção escolhida pela nossa convidada. E Maria Henrique Espada, a tua escolha vai para Zeca Afonso e traz outro amigo também.
Há várias razões para a escolha.
Não é traz outro primo também.
Não, Zeca Afonso, claramente, mais à esquerda do que aquilo que parece ser este governo. Portanto, vamos aqui colmatar isso. Depois, traz um amigo também, isto é um governo de amigos e conhecidos, não é?
Ficamos com Zeca Afonso no final deste Caça ao Voto.
Amigo, maior que o pensamento. Por essa estrada, amigo, vem. Por essa estrada, amigo, vem. Não percas tempo que o vento é meu amigo também. Não percas tempo que o vento é meu amigo também. Em terras, em todas as fronteiras. Seja bem-vindo quem vier por bem. Seja bem-vindo quem vier por bem. Se alguém houver que não queira, não contigo também. Se alguém houver que não queira, não contigo também.