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Está na hora de caça ao voto, ou melhor, na estrada as caravanas partidárias dedicam todas as horas a isso mesmo. Neste espaço da tarde política fazemos análise de quem está a ganhar e a perder votos com o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, também com o editor de política Rui Pedro Antunes e com o Bruno Vieira Amaral, que faz parte do painel da tarde política.
Rui, vamos começar por ti. O Livre admite entendimentos pós-eleitorais à direita, impõe, no entanto, como condição que o Chega fique de fora. Rui Tavares diz que há questões sobre as quais é possível dialogar com a direita democrática. Uma novidade face ao discurso de Rui Tavares e isto dá votos ao Livre?
Vocês conhecem aquele jogo que havia antes nos centros comerciais, que aparecia o crocodilo com a cabeça de fora e havia uma marreta para dar no crocodilo?
Sim.
O problema do crocodilo Rui Tavares é que está a crescer mais que aquilo que era suposto e que se esperava à esquerda. Então a própria esquerda já veio em parte cair-lhe em cima. Ainda não é uma coisa muito assumida, mas já pelo Twitter, o próprio Daniel Oliveira já vai cair em cima. O Daniel Oliveira é aquele que o tal que não faz chorar, é o mais duro.
Às vezes faz.
Às vezes faz. Depende do espírito com que se lê os tweets. Talvez Rui Tavares tenha vertido uma lágrima depois de ler este tweet. E então o que é que se passou? O Rui Tavares tem tido uma teoria, que até podemos achar que não faz muito sentido do ponto de vista aritmético, que é o seguinte: já que ninguém conta com o Chega, exclui-se o Chega. Vamos imaginar que o Parlamento tem 230 deputados. O Chega tem 40, então vamos contar só com 190. E desses 190, o bloco que sobrar à esquerda ou à direita que for maioritário, o outro deve se predispor para o ajudar a governar e a aprovar documentos estratégicos. E Rui Tavares sempre disse isto. Aliás, disse isto de uma forma mais clara, se quisermos, no debate da rádio, querendo forçar que a outra parte desse uma reciprocidade nesta matéria, garantindo que, no caso de isto acontecer, se a esquerda tivesse mais do que a AD e a Iniciativa Liberal juntos, que a AD e a Iniciativa Liberal iam ajudar e iam tentar viabilizar e não se contava com o Chega. O que Rui Tavares vem dizer hoje não é muito diferente. Pode talvez verbalizar mais um bocadinho em que diz que a própria direita democrática tem que ter alguém com quem dialogar quando não existe o Chega e quando não existe essa predisposição para negociar com o Chega. Isto não é muito diferente, mas o Bloco de Esquerda já percebeu que está a perder votos para o Livre e caiu imediatamente em cima e acabou por modificar ou reinterpretar as palavras de Rui Tavares à maneira que lhe dá mais jeito. Isto chama-se política, não há nada de mal nisto. Só que normalmente não costuma fazer isto entre eles. Costuma fazer isto mais da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. E foi isso que aconteceu. Mas se nós formos honestos nisto, o próprio Pedro Nuno Santos desobriga, a partir do momento que diz que viabiliza um governo do PSD, em caso de maioria de direita, desobriga o PSD, ou melhor, que não vote a favor da moção de rejeição do programa de governo, permite ao PSD que não vá falar com o Chega. E, portanto, isso já está. Essa parte. Rui Tavares tem dito, tem falado várias vezes, que tem essa predisposição para acordos de regime com a direita democrática. O que disse hoje é o que tem vindo a dizer. Não foge muito da linha. Se foi aproveitado e está a ser aproveitado pelos partidos à sua esquerda? Sem dúvida. Pedro Nuno Santos, por exemplo, aproveitou agora para dizer esta ideia destes dois blocos excluindo o Chega, o que é a mesma coisa que dizer que o Chega não conta de um bloco de direita, é uma espécie de bloco neutro ou extra, que não conta, e depois a partir daí é que se vai ver qual é a contagem da direita. Não faz muito sentido, a meu ver, esta perspectiva, porque tem que se contar com os votos do Chega, porque houve eleitores que votaram no Chega e eles estão lá. Depois pode-se ou não negociar, mas não faz muito sentido. E portanto, agora, o Rui Tavares está, no fundo, a provar uma estratégia que ele muitas vezes também utiliza, que é fazer uma interpretação criativa das palavras de outros, que normalmente chama-se isto acho que política.
Miguel Pinheiro, o que dizes desta estratégia do Livre, que afinal não é assim tão nova, quem é que ganha e quem perde votos?
Estava cheio de medo que fizesse essa pergunta. Porque neste caso não é ainda bem que faz essa pergunta, tenho pena que me faça essa pergunta. Não faço a mais pequena ideia. Olhe, eu estava a ouvir o Rui e não consigo chegar lá. Não consigo entender o que é que Rui Tavares quer dizer com isso. Estava aqui à procura de mais informação, porque vi só algumas declarações. Não percebo do que é que ele está a falar. Isto é sobre o quê? O que ele quer negociar com a direita? Eu não consigo perceber. Vou tentar perceber nas próximas horas.
Mas há uma simetria ideológica assim tão grande que impeça o Livre de poder apoiar em algumas matérias um eventual governo da AD?
Se um governo da AD quiser aprovar uma lei a dizer que o céu é azul e que o sol queima, eu imagino que o Livre possa aprovar, mas honestamente não vejo muito bem. Pelo menos alguma coisa que seja suficientemente relevante para ser referido numa campanha eleitoral. Não entendo onde é que ele quer chegar com isso. E também não entendo este raciocínio de Pedro Nuno Santos. Pedro Nuno Santos esteve a fazer as contas e chegou à conclusão que o PS nas sondagens aparece numa posição desgraçada. A esquerda aparece numa posição desgraçada e o que ele faz, das contas que ele faz é: "Bom, vamos tirar daqui um partido que nas sondagens aparece com um valor entre 15% e 20% e fazer as contas a partir daí". E ele faz estas contas pra dizer que ganha. Portanto, o que ele diz é: "Eu estou a ganhar estas eleições porque os partidos de esquerda juntos têm mais votos do que a AD e a Iniciativa Liberal Já agora pode tirar a Iniciativa Liberal. Ele até está sempre a dizer que a Iniciativa Liberal é tão radical que é tão perigosa como o Chega, então porque não tira a Iniciativa Liberal? E já agora, tira o PPM também, claro, boas razões para isso. Tira o CDS, os antiaborto do CDS, tira também o CDS, fica o PSD. Já agora, tira no PSD as pessoas que gostam do Passos Coelho. Pronto, sobram ali três ou quatro desgraçados. E então o PS e os partidos de esquerda têm mais votos do que os poucos desgraçados do PSD que sobram. Que contas são estas? Que maluqueira! Eu acho que está tudo maluco, perdeu tudo a cabeça. Isto é para dizer que ganha? "Eu ganho, porque eu tenho mais votos." Olhem, não entendo. Peço desculpa, eu gostava de ser mais esclarecedor. Eu sei que este programa existe para esclarecer quem nos ouve, existe para sermos pedagógicos e assertivos, mas eu estou a zeros. Esta gente está muito à frente.
E ainda só vamos no quinto dia de campanha.
Uma coisa muito rápida, é que entretanto o Livre, através de fontes oficiais, os assessores, vieram esclarecer que Rui Tavares não se referia, e só o facto de vir esclarecer nota que ele pode ter levantado uma dúvida com as declarações, dando o tal brinde aos que eu estava a referir há pouco. Vieram esclarecer que não se trata de um apoio tácito, nem de um apoio de maioria, nem de um apoio para governação. Trata-se de, estando na oposição, ir viabilizando documentos que sejam estratégicos, revisões constitucionais.
Acordos parlamentares pontuais.
Senta-se à mesa, obviamente, com o PSD e com a Iniciativa Liberal, que é chamado de direita democrática.
Sabes o que isto me faz lembrar? Nós já tivemos em tempos um ministro das Finanças, Jorge Braga de Macedo, que era conhecido por o adiantado mental, porque era um tipo brilhante, tão brilhante que estava lá em Marte. E eu acho que esta campanha é só adiantados mentais, é só pessoas que pensam no cenário do cenário. Agora Rui Tavares está a pensar no cenário do cenário. Agora há um governo de direita e há uma revisão constitucional ou há uma coisa qualquer, e então ele quer anunciar ao país que se senta à mesa para negociar, mesmo que não aprove. Que não está entrincheirado. Está tudo doido.
Bruno Vieira Amaral, estás mais esclarecido ou mais baralhado?
Eu estou mais esclarecido. Aliás, o que eu estranhava era Rui Tavares ainda não ter dito isto, porque eu não vejo como tão surpreendente a posição de Rui Tavares disponibilizando-se para entendimentos com a direita. Não digo em todas as matérias, nem digo num acordo de governo. Estava aqui a olhar para os dados desta última sondagem. Há aqui, entre os eleitores do Livre em 2022, 9% que dizem que agora vão votar na Iniciativa Liberal. Portanto, deixando de parte os programas eleitorais e as linhas vermelhas, há de facto alguma porosidade entre este eleitorado de alguns partidos, os partidos urbanos, intelectuais, modernos, sejam de esquerda ou de direita. Também estive a ver na sondagem que, na melhor das hipóteses, um bloco AD, Iniciativa Liberal e Livre conseguiria 110 deputados. Não dava para a maioria, mas havendo uma maioria destes três partidos, eu não acho assim tão estranho.
AD, Iniciativa Liberal e Livre?
Não acho assim tão estranho.
Faz-me lembrar aquelas pessoas cuja bebida preferida é o tango, que é cerveja com groselha, que é uma coisa totalmente improvável, mas há quem goste.
Pois é, há quem goste e a questão é olhar para o eleitorado, não olhar tanto para as linhas vermelhas.
Podia-se chamar à geringonça Cuba Livre. Era um grande cocktail.
Bruno, mas entendes esta declaração de Rui Tavares como um piscar de olho a esse eleitorado mais volátil, que tanto vota à direita como à esquerda?
Sim, porque também há alguma transferência de voto.
Mas repara, essa transferência acontece muito porque o que une o Livre e a Iniciativa Liberal é, por um lado, o progressismo nos costumes. São dois partidos liberais nos costumes e é de facto essa raiz urbana. São pessoas que não há aquele peso ideológico na economia, essa não é tanta a preocupação. E são partidos europeístas. Agora, daí para uma aliança, uma coligação no governo, já é impossível.
Ele também não disse que estava disponível para isso.
E o Rui veio agora esclarecer esta posição das fontes do Livre, acordos pontuais em sede de governação.
Mas entre aquilo que se diz, em 1976 o PS e o CDS uniram-se.
Como é que deve estar a pensar agora: "Eu já o vi com tinta verde, ainda tenho que o ver com a esquerda verde."
Não acho que seja uma solução assim tão disparatada. Vamos ver como é que correm as eleições, porque isto vai depender da força relativa de cada um. Mas sinceramente, os partidos à esquerda, e vou excluir desta contabilidade o PAN, eu vejo impossível qualquer tipo de acordo com o Bloco de Esquerda e com o PCP, mas não com o Livre.
Temos de atalhar, temos só dois minutos. Rui, apesar de a Iniciativa Liberal aparecer na sondagem mais recente da Católica com os mesmos 6%, Rui Rocha vem pedir uma maioria clara pela AD e pela Iniciativa Liberal. É uma boa estratégia para ganhar votos? Quem é que pode ganhar mais votos à direita?
Eu hoje estou surpreendido por serem notícias coisas que eu já sabia há um mês. É que Rui Rocha nunca disse outra coisa que não fosse o objetivo, e o principal objetivo é que a AD, em conjunto com a Iniciativa Liberal, tenha maioria para poder haver um governo.
Mas fazê-lo hoje, quando há uma sondagem que dá exactamente a mesma coisa para a Iniciativa Liberal.
A questão da maioria clara, por exemplo, havia muito uma ideia quando António Costa pedia uma maioria, a maioria, que o termo maioria, que os portugueses não gostavam e que havia uma má relação com a maioria. Ele quando está a dizer uma maioria clara, não é uma maioria clara, ele está a dizer é que uma força e outra se juntem numa coligação pós-eleitoral e que os dois juntos tenham mais um deputado que o resto dos outros todos no Parlamento. No fundo, isso é o objetivo estratégico da AD e da Iniciativa Liberal para esta campanha, desde o início. Tudo o resto, precisão do Chega.
Miguel Pinheiro, hoje Assunção Cristas vai juntar-se à campanha da AD, um activo importante para fazer esquecer a escorregadela com o CDS por causa das declarações de Paulo Núncio?
Não me parece.
Não ajuda a ganhar votos a AD?
Não me parece.
Não te parece que seja esse o objetivo da presença ou que a presença de Assunção Cristas não sirva para a AD ganhar votos?
Já estou baralhado, mas não me parece que Assunção Cristas, com toda a simpatia, ajude a ganhar votos. Acho que o aparecimento de Assunção Cristas hoje só vai servir para a esquerda em uníssono gritar: "Lei Cristas. Querem trazer de volta a lei Cristas, querem despejar os velhinhos, querem voltar a fazer malfeitorias na habitação. Já não basta os problemas de habitação, eles querem a selvageria nas rendas." Não vale a pena. Já sei todos os argumentos para defender a lei Cristas. Conheço todos. Não vale a pena.
Ou seja, há o risco de reentrar na campanha.
Ainda por cima para não ganhar muito, porque enquanto Passos Coelho tem um peso político próprio e continua a ser alguém que consegue apelar a um certo eleitorado, Assunção Cristas, não.
Dez segundos, Bruno.
Em relação a Assunção Cristas, o PS pode lhe agradecer o crescimento económico, o bom desempenho da economia, porque foi fundamental para o turismo, que foi o grande motor da economia nos últimos anos. Em relação à Iniciativa Liberal, está num dilema que é: ou quer crescer, mas não se importa que o seu companheiro, o seu parceiro preferencial, que será a AD, tenha uma vitória gorda. Está nesse dilema, que é o dilema próximo do BE à esquerda.
Os dilemas e o esclarecimento possível no caso ao voto.