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Está na hora de tentar perceber quem está a ganhar e a perder votos depois do debate entre os candidatos a primeiro-ministro, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro. "Caco ao Voto" hoje com o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro, e com Rui Pedro Antunes, editor de política, sempre também com o Bruno Vieira Amaral e a Judite França. Pode acompanhar-nos em streaming no nosso site, em observador.pt, no Facebook e também no YouTube.
E vamos começar por ti, Miguel Pinheiro. De acordo com a tua avaliação, Pedro Nuno Santos esteve melhor, não por uma grande diferença. Foi um debate decisivo para captar o voto dos indecisos?
Foi importante. Eu realmente acho que Pedro Nuno Santos saiu-se melhor no debate. Está a sair-se pior no pós-debate. Há sempre esta pulsão JS em Pedro Nuno Santos. Ele ainda hoje esteve a fazer uma ação de rua e disse aos jornalistas que o Luís Montenegro deve estar a juntar os cacos do debate que não lhe correu bem. Isto é uma coisa tão juvenil.
Mas ele já ontem no debate tinha tido essa atitude quando não está a correr bem.
Eu já tinha apanhado assessores do PS nas redes sociais com coisas do gênero: "Aceita que dói menos". Eu acho que aquelas pessoas perdem a cabeça. Mas no debate, de facto, acho que Pedro Nuno Santos saiu-se melhor, conseguiu ter uma mensagem mais coerente e que manteve ao longo do debate todo. Luís Montenegro esteve um bocadinho perdido. E agora vai haver dois debates em que eles vão estar, o debate a oito nas televisões e o último debate de todos, o derradeiro debate, o mais importante de todos, o principal debate que ninguém pode perder, que é o debate da rádio com a Rádio Renascença, com a Antena Um, com a TSF e com a Rádio Observador.
Próxima segunda-feira, das 10h da manhã.
Segunda-feira, dia 26, entre as 10h e o meio-dia. Desmarquem tudo que têm nas agendas. Eles ainda vão estar juntos. Claro que são debates com outras pessoas, vamos ter outros protagonistas a tentarem passar as suas mensagens, mas vai ser interessante perceber também como é que eles se comportam nesse ambiente menos controlado. E Luís Montenegro vai ter a oportunidade de tentar recuperar e Pedro Nuno Santos vai ter a oportunidade de mostrar que não foi uma vez um debate que lhe correu bem e que realmente entrou numa nova fase. Agora, tal como os Açores ajudaram Luís Montenegro, a eleição dos Açores ajudou o Luís Montenegro a entrar numa nova fase de maior confiança, o debate de ontem fez o mesmo para Pedro Nuno Santos. Vamos ver quanto tempo dura, porque vamos ter ainda três semanas de campanha.
Rui Pedro Antunes, atribuíste a mesma nota que o Miguel Pinheiro. Discutíamos, de resto, aqui há pouco, quem é que atribuiu primeiro as notas, se o Miguel Pinheiro, se tu. Rui Pedro Antunes, foi uma oportunidade perdida para Luís Montenegro.
Sim, foi uma oportunidade perdida para continuar aquela boa prestação que vinha tendo nos debates, tirando o debate com o PAN, que lhe correu um bocadinho pior por aquilo que foram os temas debatidos e também em algum momento ter escapado ali o controle total que teve sempre em todos os outros debates. Isso não aconteceu desta vez e, portanto, nós sabemos que o debate não foi visto por tanta gente como aconteceu nas legislativas de 2022, mas foram mais de 2 milhões de pessoas e é obviamente um momento marcante. Nós depois temos dificuldade em analisar o que é que os eleitores em casa percepcionam. Porque aqui dou um bocadinho de razão às vezes aos políticos, que uma coisa é a nossa percepção de bolha, outra é a percepção que as pessoas têm, que isso nós não sabemos. Sabemos que as pessoas não gostam de posturas arrogantes, tendem a simpatizar às vezes mais com o slam dog do que o ultraconfiante. Mas dito isso, nós só podemos analisar a forma mais objetiva possível, mesmo dentro da subjetividade, que é dar uma nota. E aí, sem dúvida que Pedro Nuno Santos esteve melhor, quer fosse com aqueles apartes Ventura style, estar sempre ali a interromper e: "Pois, pois. Sim, sim, fizeram muito vocês e o tu e o Passos Coelho, ó Luís Montenegro, ó Luís". Isso resulta porque desconcentra e a certa altura parecia que Pedro Nuno Santos tinha ganho uma nova vitalidade e o Luís Montenegro estava só zangado, que a pior imagem que ele tem é quando parece estar zangado. E tudo isso passou dessa maneira. E Luís Montenegro, em temas em que devia ter, de alguma forma, até liderado, a certa altura, por exemplo, quando ele fala da questão dos hospitais, que foram zero públicos construídos e foram várias dezenas de hospitais privados durante estes anos de governação socialista, era um bom ponto para pegar. Mas mesmo isso, o Luís Montenegro nunca conseguiu totalmente descolar no debate. E outro ponto fundamental, que continua a ser um bocadinho mau nesta gestão da AD, teve a questão da polícia. Nos Açores, na noite eleitoral, antes de saber o resultado, o Luís Montenegro, no Hotel Vila Galé, eu estava lá presencialmente, marcou uma conferência de imprensa para dar um puxão de orelhas monumental aos polícias. Num Estado de direito, ninguém está acima da lei, os agentes têm como função cumprir a lei. Eu estou a ler o discurso escrito que a assessoria de imprensa entregou na altura. É bom, espero que terminem as ameaças e haja bom senso. Não se pode brincar com coisas sérias.
E foi elogiado por isso, não é?
Foi altamente duro. A partir dali, a certa altura, no debate, decidiu não fazer isso. Não sei, ele diz que não foi minimamente condicionado, mas decidiu que era bom uma postura mais suave. E foi Pedro Nuno Santos a ter a maior Postura de Estado e a dizer: "Não, isto não pode acontecer, não é suposto acontecer desta maneira. E portanto, a lei é para cumprir." E a própria Direção Nacional da PSP veio dizer que a lei não foi cumprida. Não é uma questão de interpretação jurídica. E neste dia, mais uma vez, Nuno Melo, na mesma arrolada que Luís Montenegro, no mesmo dia de campanha, vem dizer que os polícias estiveram mal e a seguir vem o líder da AD dizer que não se sentiu nada condicionado e que não há problema nenhum.
Sendo que as duas coisas não são absolutamente incompatíveis. Luís Montenegro pode não ter se sentido condicionado e ao mesmo tempo achar que os polícias não deviam ter marcado presença ali na capital.
Luís Montenegro está a olhar para isto como uma questão PS-PSD. E como o PS está a dizer que se sentiu muito condicionado e muito intimidado e até está a carregar de uma maneira até exagerada, a dramatizar demasiado, o Luís Montenegro está a apostar no contrário, quando ele diz: "Não, não me senti nada condicionado. Isto é uma injustiça que o António Costa fez e eles têm todo o direito." Quando está a dizer isto, está a desvalorizar e portanto não está a dizer precisamente que não o incomoda. E portanto, nesse aspecto acho que também esteve mal, mesmo no pós-debate, também não estão a correr bem as coisas que correram mal no debate ao Luís Montenegro.
E isso no debate foi logo no início. Pedro Nuno Santos marcou logo pontos de início, esteve melhor?
Sim, nessa parte esteve melhor. Eu acho que foi um debate mauzinho, sofrível, e com uma vitória para Pedro Nuno Santos por duas razões: esteve mais enérgico e mais aguerrido do que esteve nos outros debates, portanto, beneficiou disso, e conseguiu com essa atitude agradar à esquerda, à esquerda dentro do PS e fora do PS, e ao centro do PS. E aqui temos de falar do tal fato, o fato que se disse que não estava ajustado ao Pedro Nuno Santos. O fato foi o mesmo dos outros debates, a cor é que foi diferente. Tivemos aqui um Pedro Nuno Santos a carregar no estilo, e é um estilo que agrada aos discípulos, à esquerda em geral, àquele estilo malhar na direita, mas mantendo-se rigorosamente ao centro no discurso. Não é por acaso que Paulo Raimundo disse no outro dia que Pedro Nuno Santos parecia um liberal, e ontem Montenegro disse que aquilo ali parecia socialista. No futebol nós temos o extremo-direito, o extremo-esquerdo e agora na política temos o extremo-centro, que é uma nova posição inventada por Pedro Nuno Santos, que é um perigoso radical do centro. Já não cola aquela ideia do perigoso radical, mas é um perigoso radical do centro. E ele pode fazer isto porque diga o que disser, sabe que pode contar com a esquerda, que está para os ouvidos ao discurso mais centrista, e a esquerda gosta ou não do discurso, sabe que é com ele que poderá contar para ter alguma influência no governo. Luís Montenegro também vestiu um fato ontem, foi o do líder de bancada parlamentar, voltou a esses tempos. Acho que foi poucochinho da parte dos dois. Pedro Nuno Santos com essas apartes e alguma arrogância.
Deixa só eu dizer sobre essa questão socialista, que a certa altura está o Luís Montenegro a dizer que quer dar apoios do Estado para as casas e garantias bancárias, e está o Pedro Nuno Santos a dizer o BCE e a citar o Mário Centeno e o Banco de Portugal.
Sim, nessa altura também foi um bocadinho assim.
Bruno, muito rapidamente, mais um minuto para darmos aqui a Judite.
Vou acabar. Acho que o pior de Luís Montenegro foi na questão das pensões. Ele tem de evitar este discurso: que Portugal é que nós vamos deixar aos nossos pensionistas? Acho que tem sido o pior e ontem foi o pior de Luís Montenegro.
Judite.
Eu acho que Pedro Nuno Santos ganhou, sem dúvida, e eu vinha com a tal história do fato, mas era para meter ali com o Bruno Vieira Amaral, porque eu acho que finalmente libertou-se e vestiu o tal fato que falávamos aqui já algumas vezes. O fundamental foi que mostrou que estava preparado em alguns dossiês e que tinha essa garra. Nem tudo lhe correu bem, é evidente. Teve que ouvir sobre o aeroporto, também ouviu sobre o Serviço Nacional de Saúde, sobre a educação, mas a verdade é que Luís Montenegro saiu de lá menos confiante do que entrou, porque vinha com um histórico de confiança nos debates e saiu de certeza menos confiante, porque teve que fazer o papel de estou muito irritado com o fato de estar sempre a ser interrompido. Luís Montenegro não se conseguiu impor, a expectativa sobre Pedro Nuno Santos era baixa e portanto acaba no fim de contas por sair a ganhar.
Sendo que as avaliações também decorrem um bocadinho das expectativas em torno do desempenho de cada um dos candidatos. Foi o caso ao voto. Lembrar que mais logo há um debate entre os partidos sem assento parlamentar, está agendado para as 9 da noite.