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Bem-vindos ao "Caça ao Voto", de segunda a sexta, a campanha eleitoral em destaque ao final da tarde, um programa de rádio na tarde em direto, que é também um podcast. Este é o arranque da nova temporada. Neste "Caça ao Voto", começamos por quem está a ganhar ou perder votos, com o diretor do Observador, Miguel Pinheiro, e Rui Pedro Antunes, editor de política. Vamos também à estrada ouvir de viva voz os jornalistas do Observador que acompanham as caravanas eleitorais, mas há mais. Tentamos ainda perceber o que é verdade ou mentira no discurso político, no fact check com o jornalista Pedro Reino. E vamos ainda regressar a eleições passadas. Hoje propomos um regresso de 44 anos ao verão de 1976 no baú das presidenciais. A segunda temporada do "Caça ao Voto" começa agora. Este arranque de campanha eleitoral fica marcado por uma ausência.
E o fato de haver, por exemplo, até candidatos que se abstêm de fazer campanha, também é bem significativo.
Está a falar de Marcelo Rebelo de Sousa?
Estou a falar de Marcelo Rebelo de Sousa, que nem sequer tempo de antena fez e os tempos de antena dos candidatos têm sido feitos em condições muito difíceis, só se soube dois dias antes que era preciso tê-los prontos. Tem tudo a ver com todas estas circunstâncias, pelo fato de as eleições terem sido marcadas muito tarde.
E perante as formas encontradas pelo governo para facilitar a votação em tempos de pandemia, fica uma suspeita.
Por mim, a questão é que os votos sejam bem contados, que não haja nenhum elemento perturbador das eleições e que sejam todos os mecanismos, estamos a falar do ato mais importante da vida pública portuguesa, que é uma eleição, ainda por cima pra chefe de Estado, que haja garantia que os portugueses possam confiar. Eu não alimento teorias da conspiração, confio muito no nosso sistema eleitoral e confio que as autoridades portuguesas, os delegados, não brincam com uma coisa tão séria.
André Ventura e Ana Gomes a abrir este primeiro episódio desta nova temporada do "Caça ao Voto". Está na hora de chamar Miguel Pinheiro, o diretor do Observador, e Rui Pedro Antunes, o editor de política. Bem-vindos, Miguel, Rui Pedro. Vamos a contas neste primeiro dia, quem ganhou, quem perdeu votos. Vamos começar por quem perdeu. Rui Pedro, Miguel, quem é que quer começar?
Miguel, força.
É tão gentil, muito obrigado. Quem perde votos hoje é Marcelo Rebelo de Sousa, por falta de comparência, em primeiro lugar. Marcelo Rebelo de Sousa deixou-se estar na sua vida. Imagino que haja muitas compras pra fazer. Vem aí o estado de emergência, vem aí um novo confinamento, todos temos que encher a despensa e, portanto, o Marcelo Rebelo de Sousa também precisará deste dia pra pôr essas coisas práticas em dia.
Ele não almoça, é logo metade da despensa.
Sim, logo aí está resolvido, é só uma sandezinha. Marcelo Rebelo de Sousa já ganhou as eleições, já sabemos disso tudo, mas apesar de tudo, irá pagar algum preço político por esta decisão incompreensível de não fazer campanha na primeira semana, nem sequer fazer tempos de antena. Aliás, Marcelo Rebelo de Sousa não se dá ao trabalho de fazer campanha, não se dá ao trabalho de fazer tempos de antena, nem se dá ao trabalho de explicar por que não faz campanha, nem faz tempos de antena. É indiferente, está ganho, pode ir pra casa sem problemas. Mas Ana Gomes faz bem em chamar a atenção pra isso e em colocar Marcelo Rebelo de Sousa numa posição, eu ia dizer difícil, mas sei lá se é difícil.
Complicada.
Nenhuma situação é difícil pra Marcelo Rebelo de Sousa neste momento.
Rui Pedro, quem perdeu votos?
Quem perdeu votos, não vou destoar, porque também concordo com o Miguel. Aliás, quando perguntares quem ganhou votos, perceberás isso.
Não me digas que no primeiro episódio já estão os dois de acordo.
É verdade. Mas no meu caso, é uma questão de manter o meu emprego. No caso do Miguel, não há justificação pra me estar a copiar.
Então vamos lá, senhor editor de política.
Quem perdeu votos foi André Ventura. Isto porque as declarações que acabamos de ouvir de contem bem os votos, ele diz a certa altura, e eu não sei qual é a pergunta prévia, porque nós só ouvimos aqui a resposta, mas diz a certa altura: "Bem, eu não estou aqui pra alimentar teorias da conspiração, mas espero que isto seja bem contadinho. Vamos lá ver se isto corre tudo bem". André Ventura, apesar de ser antissistêmico, uma das grandes vantagens que ele tem em termos até eleitorais é que ele não é completamente antiinstitucional. Aliás, a tal pose de coelhinho que ele terá em Belém é porque ele tem um certo tipo de respeito, menos na assembleia quando está em frente a Ferro Rodrigues, mas tem algum até respeito institucional em alguns momentos-chave. E neste caso, não ouvimos aqui, mas ele fala numa enorme confusão, numa conferência de imprensa bizarra de Eduardo Cabrita. Até aí, tudo bem, ele quer a demissão do ministro, mas depois lança aqui esta suspeição dizendo que não está a lançar, "espero que seja tudo bem contado". Ora, isto dá-lhe margem, como é óbvio, pra se tiver uma votação abaixo da esperada, dizer: "Bom, vamos lá ver, porque eles foram aos lares levar o boletim de voto aos velhinhos" e não sei o quê. E, portanto, parece que está a abrir margem pra isso e isto normalmente parece aquelas pessoas quando o jogo está a correr mal, começam a arranjar desculpas. Eu não sei qual foi a pergunta, volto a dizer, isto é tudo sempre muito em cima e estamos sempre em cima do joelho, mas o que é certo é que dizendo que não levantava suspeição, nem teorias da conspiração, estava a levantá-la mesmo. Espero que seja bem contado.
E daqui a pouco já vamos saber qual foi a pergunta, porque vamos ter a oportunidade de falar com o Miguel Santos Carrapatoso, que está a acompanhar da campanha do André Ventura. Vamos a quem ganhou votos neste primeiro dia útil
Deixa-me só acrescentar aqui que esta frase do André, só acrescentar o óbvio, é a cópia das declarações de Donald Trump. É o nosso Trumpzinho. Donald Trump começou assim e sabemos como é que as coisas acabaram. Para o caso das pessoas estarem a conduzir neste momento e estarem distraídas, só tornar claro. Eu já me tinha percebido nos debates numa coisa engraçada que é: André Ventura está a fazer gestos iguais a Donald Trump. Há ali gestos muito parecidos. Eu não sei se ele anda a ver demasiados vídeos no YouTube, se ele põe lá best of Donald Trump, qualquer coisa assim, mas enfim, acho que está a começar a encarnar demasiado a personagem.
Quem ganhou, Miguel?
Quem ganhou votos? Sempre com pressa, Ricardo.
Sempre.
Temos pressa.
A rádio é dinâmica.
Muito rápido. Quem esteve mais focado naquilo que tem que fazer neste dia foi Ana Gomes, que se concentrou a atacar Marcelo Rebelo de Sousa. Ana Gomes tem que mobilizar voto contra Marcelo Rebelo de Sousa, tem que explicar porque as pessoas devem ir votar no dia 17 ou no dia 24, ou quando for. E ela foi quem acertou mais na mensagem hoje, pareceu.
Rui Pedro?
Quem ganhou votos, curiosamente, foi Ana Gomes. Que diferença. É bom ter painéis diversificados.
Sim, a diversidade é importante.
A realidade é o que é.
Não.
A realidade impõe-se.
E ainda por cima bate em quem perdeu do Miguel, porque eu acho que Ana Gomes o pior do que um erro é insistir nele. Primeiro cancelou a campanha, depois voltou a ela, e de facto acusou Marcelo Rebelo de Sousa de menosprezar eleições e eu acho que ela ganhou aqui votos. Eu recordo aqui uma coisa a propósito disto, porque ela ganha aqui relativamente a Marcelo Rebelo de Sousa. A última vez que Marcelo Rebelo de Sousa se isolou ou autoisou durante 14 dias, sem recomendação das autoridades, por ter recebido uma perigosa turma da Escola Secundária de Felgueiras, que tinha um caso infetado no meio de 40, mas na altura sabia-se muito pouco, era legítimo o presidente fazer o que ele queria. André Ventura colocou um cartaz em frente à Assembleia da República a dizer: "Um verdadeiro português não se esconde." E de facto, estava na cara que ao não aparecer, os candidatos iam começar todos, Ana Gomes foi a primeira, a dizer: "Então, o presidente não aparece?" Isso é o primeiro efeito. Ana Gomes ganhou por isso, foi a primeira a chamar a atenção para isto e a abrir as hostilidades. E eu acho que vem por aí fora. Vamos ver o que há em termos de confinamento, mas vamos ver o que há por aí fora. Mas é sinal. O presidente normalmente não veta, devolve sempre a promulgação. O presidente Marcelo não veta um diploma, devolve sempre a promulgação. Ele não dá a mão ao governo, ele estabiliza. E agora também não está em isolamento, está em semi-isolamento, que é uma coisa meio estranha. E Ana Gomes ganhou votos por isto, porque já está a apontar Marcelo num sítio que ele pensa na estratégia dele que não lhe dói, mas recordando e recuando a março, foi um momento difícil para ele, até com algumas quebras de popularidade nos estudos de opinião, quando decidiu autoisolar-se 14 dias. Ele, aliás, é um produto mediático, estar fora dos palcos midiáticos, eu sei que ele vai ter que aparecer, porque é chefe de Estado, veio o estado de emergência, etc, mas não aparece como candidato.
Rui Pedro Antunes, Miguel Pinheiro, vamos pôr o cinto porque vamos já para a estrada. Todos os dias, até o final da campanha, neste caso ao voto, vamos ao encontro dos jornalistas do Observador que acompanham as caravanas eleitorais. Hoje temos duas paragens, uma na caravana de Ana Gomes, outra na de André Ventura. Ora, começamos pela campanha da embaixadora, que prometia ficar em casa até a reunião de amanhã com os peritos na sede do Infarmed, nos peritos de saúde, mas acabou por sair de casa. Foi à urgência básica de Mem Martins, no Conselho de Sintra. Atenção, o edifício está ainda em obras, só abre em abril. E daqui a pouco vai ter um debate com estudantes de medicina, mas através de uma plataforma digital. A Rita Dinis está na estrada a acompanhar a Ana Gomes, ou melhor, está mais ou menos na estrada a acompanhar a Ana Gomes. Rita, a Ana Gomes encontrou aqui uma brecha para atacar Marcelo Rebelo de Sousa, que desvalorizou a campanha?
Sim, na verdade, a sensação com que ficamos é que a Ana Gomes percebeu que cometeu um erro no domingo ao suspender a campanha e cancelar a agenda que tinha prevista para aquele dia, que era o primeiro dia de campanha, e foi a tempo de o emendar. Portanto, esta segunda-feira manteve a agenda. Não sei se exatamente como estava previsto, porque segundo percebi, havia a hipótese de irem visitar o Hospital Amadora-Sintra, mas acabou por cair por terra devido à saturação em que o hospital está e cancelaram essa parte. Mas a campanha da Ana Gomes acabou por visitar um futuro centro de saúde que, como dizias, agora está em obras, vai ser inaugurado supostamente em abril, para passar um bocadinho essa mensagem de que está no terreno. Aliás, ela disse muito entusiasticamente que quer aproveitar estes últimos dias para estar no terreno onde as pessoas estão, mas depois ficou um bocadinho em aberto o que ela vai fazer quando ou se for decretado o confinamento generalizado.
Exatamente. Como é que foi esta ida à rua em plena época de pandemia, em tempos de pandemia e com a perspectiva de encerramento?
Na verdade, houve aqui uma questão curiosa, que o que estava marcado na agenda para os jornalistas era uma visita ao Centro de Saúde de Algueirão-Mem Martins. E quer dizer, se pusermos no GPS ou se formos à procura desse centro de saúde, vamos dar a um centro de saúde que está em funções, que é o atual centro de saúde, que estava, de facto, com uma fila enorme à porta de utentes que estavam à espera de ser atendidos. Mas não era aí que estava Ana Gomes, era no tal novo centro de saúde que está ainda em obras e que só vai abrir muito mais tarde. Portanto, Ana Gomes fugiu um bocadinho às pessoas que podia ter encontrado ali, aos utentes, aos verdadeiros utentes deste SNS E foi para um sítio onde não encontrou muitas pessoas, apenas trabalhadores da obra, com quem também manteve alguma conversa e falou sobre as condições de trabalho e sobre a obra que estava em curso, nomeadamente com as pessoas que conduziam ali a visita e que explicavam todos os detalhes da obra, mas não houve propriamente aquilo a que se chama pessoas na rua com quem falar e com quem fazer campanha eleitoral como a conhecemos. Portanto, foi um evento de campanha também um bocadinho diferente do que o dito normal.
E Rita Dinis, desculpa interrompi-te. Amanhã Ana Gomes vai participar na reunião do Infarmed?
Sim, Ana Gomes vai participar na reunião do Infarmed, vai participar por videoconferência, como de resto penso que todos os restantes candidatos presidenciais. E só depois disso é que vai reavaliar como é que vai fazer a sua campanha eleitoral. Ela tem feito dessa ida ao Infarmed um ponto de viragem. Portanto, como dizias há pouco, no sábado tinha decidido suspender toda a sua campanha até terça-feira, até à reunião no Infarmed. Hoje mudou um bocadinho de ideias, mas a ideia é que depois dessa reunião possa, de facto, reavaliar toda a estratégia. Hoje ela dizia-nos, durante as declarações que fez aos jornalistas, que se for decretado o confinamento generalizado, pode passar por eventos muito mais online, muito mais no campo digital, mas depois dava a entender que também pode não ser só isso. Ou seja, se as pessoas que estão a trabalhar estão de facto nos seus postos de trabalho, então a candidata presidencial tem que estar onde as pessoas que trabalham estão. Portanto, não rejeitou ir também para a rua, ir também fazer campanha, porque de facto também faz parte do trabalho de um candidato presidencial fazê-lo. Não rejeitou isso, mas vincou muito que vai cumprir rigorosamente todas as regras e todas as medidas que forem decretadas na sequência desta reunião com os especialistas no Infarmed.
Rita, é um clássico deste Caça ao Voto. Contamos quilómetros, desta vez vamos ter um número mais reduzido.
Muito pouquinhos.
Quantos quilómetros temos?
Pelas minhas contas, entre uma entrevista que deu de manhã à RTP, depois essa visita ao Centro de Saúde em Imã Martins e depois uma ida aos estúdios da TVI para ser entrevistada por Manuel Luís Goucha, onde esteve ainda agora, foram 44 quilómetros.
Obrigado.
O resto vai fazer a partir de casa, que é o debate online com os estudantes de medicina. Esses já não vou contar.
Obrigado, Rita Dinis. Nesta que é a primeira campanha eleitoral da Rita Dinis com grande parte no sofá. Ela não está habituada a isto, está habituada a passar 15 dias sem ir a casa. Mais a sul, André Ventura anda taco a taco a discutir o segundo lugar com Ana Gomes. Mais a sul, a candidata e líder do Chega esteve no Algarve e amanhã tem ações de campanha marcadas para Évora. Miguel Santos Carrapatozo, estás a acompanhar a caravana de André Ventura e Miguel, André Ventura quer os votos bem contadinhos, como falávamos aqui há pouco.
É verdade. Antes de irmos aí, só uma nota de desagrado com a recente sintonia entre Rui Pedro Antunes e Miguel Pinheiro.
Exatamente. Fica registado.
Rui Pedro, o lugar de bajulador do diretor é meu, não é teu. Peço desculpa também porque estou na rua e é evidente que se vão ouvindo ruídos de fundo. Peço desculpa aos nossos ouvintes. Indo diretamente à campanha de André Ventura. De facto, é uma nova narrativa a de André Ventura, introduziu-a hoje. Certo que pôs os resultados ou os objetivos em planos estratosféricos. Ventura já não diz que quer ficar apenas à frente de Ana Gomes, quer ter mais votos que os três candidatos de esquerda juntos e quer forçar uma segunda volta. Ora, não há qualquer sondagem que aponte nesse sentido. E portanto, parece que André Ventura está aqui já a ensaiar uma forma de dizer: "Bom, eu não ganhei porque as eleições não correram da forma que deviam ter corrido". É verdade, e vocês há pouco perguntavam se a pergunta foi ou não induzida. Não foi, era uma pergunta sobre o que se vai sabendo sobre a organização das eleições e do ato eleitoral. E Ventura aproveitou sem grande problema para dizer que, de facto, quer os votos bem contados e a pedir a todos que não brinquem com a democracia, não brinquem com este ato eleitoral. E nós já ouvimos, de facto, esta frase noutras paragens.
E Miguel, como é que está a correr a campanha de André Ventura, sobretudo depois do episódio de ontem do Esqueleto em Serpa?
Segundo dia de campanha oficial, segundo dia de manifestações. Desta vez André Ventura foi recebido por um grupo com elementos da comunidade cigana, que gritavam entre outras coisas: "André Ventura fascista, André Ventura racista". Havia uma forte preocupação de segurança, quer da segurança privada que acompanha André Ventura, quer da Polícia Marítima, porque a ação de campanha foi numa lota, na doca de Portimão. A Polícia Marítima também reforçou a segurança, estavam sete elementos da Polícia Marítima. Nada que tivesse atrapalhado muito André Ventura. Aliás, acho que isto no fundo ajuda a mobilizar e ajuda a construir a tese de vitimização que André Ventura tanto aprecia. Aliás, ele usou esse mesmo argumento no discurso que fez já em Faro, dizendo que não há gritos nem insultos que façam parar a máquina de André Ventura e do Chega. Tudo isto, segundo dia de campanha, mais um dia de manifestações, mais um dia de André Ventura a aproveitar tudo o que lhe convém para fazer croquetes e para mostrar que é uma vítima do sistema que o quer derrubar.
E amanhã vai participar na reunião do Infarmed, Miguel?
Vai, sim senhor. Vai participar por videoconferência. E também há uma delegação do Chega que se vai fazer representar presencialmente, composta por Diogo Pacheco Amorim e António Tanger, ambos vice-presidentes do Chega.
Miguel, cuidado com o comboio. Quantos quilómetros temos percorridos já?
Se contarmos com a viagem de ontem até Serpa, já são quase 450 km de André Ventura.
Miguel Santos Carrapatozo, a acompanhar a campanha de André Ventura. Já a seguir vamos ao fact check. Bem-vindo, Pedro Rainho, o coordenador de fact check do Observador.
Olá, Ricardo.
Hoje vamos falar, Pedro, de Fotografias, é isso?
É precisamente isso. Temos vindo a ser bombardeados com uma série de denúncias sobre uma fotografia em que supostamente Marisa Matias, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, surge em trajes menores quando era mais nova e tentamos verificar esta informação. Fizemos uma pesquisa na internet com algumas técnicas, alguns instrumentos que a internet nos permite ir buscar o historial desta imagem e aquilo que percebemos é que esta imagem em concreto, eu vou poupar-vos ao detalhe, se quiserem vejam no site do Observador que o fact-check estará lá, aparece desde 2014 numa série de sites de conteúdos para adultos. Apesar de haver ali algumas semelhanças, podemos considerar isso, entre a personagem, a mulher que aparece nesta imagem e Marisa Matias, não se trata de todo da mesma pessoa e fica claro que o que está aqui em causa é uma campanha de tentativa de difamação da candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, Ricardo.
E assim sendo, Pedro Rainho, e aqui chegados, este conteúdo é?
Este conteúdo está errado.
É obviamente falso. Pedro, como este é o primeiro fact-check desta série do "Caça ao Voto", vamos lá.
Dizes que me vais dar a honra.
É verdade. Dou-te não só a honra do momento como passo-te para a mão o carimbo de falso. Avança, Pedro.
Fantástico, aqui vai.
Já a seguir, um regresso ao passado, vamos ao baú das presidenciais. Estamos em 1976, o ano das primeiras presidenciais em democracia. O single mais vendido em Portugal nesse ano foi este que estamos a ouvir, "Hey Hey Vicky", do genérico da série de animação, uma coprodução alemã, austríaca e japonesa. O nosso herói, Vicky, acompanhava sempre o pai e chefe viking Alvar em aventuras. Estas aventuras ainda a preto e branco e na RTP. E foi também a preto e branco que os quatro candidatos às presidenciais desse ano fizeram um debate na televisão. Ainda chegou a ser pensado um segundo debate, mas teve de ser anulado, como nos conta a Inês Ameixa.
Três milhões de portugueses assistiram ao primeiro debate televisivo entre todos os candidatos presidenciais. António Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Otávio Pato e Pinheiro de Azevedo. Naquela noite de 9 de junho de 1976, surgiam de pernas cruzadas, sentados lado a lado. Na televisão, a palavra confronto escrita em letras bem grandes que marcava o arranque. Um debate que foi moderado pelo jornalista Joaquim Letria.
O que eu me lembro foi o prazer que tive em juntar aquela gente, porque era gente que andava em campanha e de repente estão juntos. Foi a única vez que estiveram.
Joaquim Letria recorda quatro candidatos de muito interesse.
Moderar o debate também foi muito interessante, porque tinha gente ali muito interessante, desde o Ramalho Eanes ao próprio Otávio Pato, que era um homem moderado e discreto na sua forma de estar. Por outro lado, tínhamos o almirante Pinheiro de Azevedo, que era uma figura que recordo com saudade.
O debate ficou marcado pelas declarações de Ramalho Eanes, que afirmou que se Otelo fosse eleito, abandonaria o país. Na resposta, Otelo explicava que o projeto que defendia não apontava para uma ditadura, aliás, nem tinha qualquer feitio para ditador. Ainda assim, Joaquim Letria lembra um debate como hoje em dia já não se vê.
Havia sim debates de ideias e as pessoas de facto preocupavam-se mais com as ideias e acusavam-se de defenderem isso ou aquilo, mas não aquelas picardias que nós assistimos hoje e que é uma tristeza, mas também era gente muito diferente.
Os 110 minutos de debate transformaram-se num compromisso para um segundo, que acabou por não acontecer depois de Pinheiro de Azevedo ter sofrido um ataque cardíaco em plena campanha eleitoral. Joaquim Letria recorda um candidato espantoso e empático que alcançou um resultado muito positivo.
O problema de saúde foi o que motivou realmente não haver o debate. E mesmo assim, eu acho que o almirante Pinheiro de Azevedo teve um resultado fantástico. Todo entubado e ligado às máquinas, como a própria RTP1 mostrou. E mesmo assim teve 14% dos votos. Isso é uma coisa que eu recordo e que acho espantoso.
A 27 de junho de 1976, num dia de verão e muito calor, os portugueses correram às urnas. A contagem de votos e o nome do próximo Presidente da República tardou a saber-se.
Não havia telemóveis, não havia nada. Havia motos e as pessoas à espera e a contarem os votos, o que dava para ficarmos até de quatro da manhã do dia seguinte e ainda com resultados por conhecer.
Seria António Ramalho Eanes a arrumar a questão à primeira volta, com 61% dos votos. Acabaria depois por ser reeleito para um segundo mandato em Belém, cinco anos depois.
Inês Ameixa e a história do debate que ficou por fazer nas presidenciais de 1976, as primeiras em democracia. Setenta e seis, o ano em que em terceiro lugar nos singles portugueses mais vendidos, ficou a Pipi das Meias Altas. O segundo é o do genérico da Heidi e o mais vendido foi o Vicky. A sonorização é do Bernardo Almeida. O Caça ao Voto regressa amanhã.
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