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K7, 60.
Na calada da noite, há perigos à espreita e os jornais, em 1987, espelhavam bem isso com breves notícias. À época, os jornalistas iam buscar a informação aos comandos distritais da PSP. Eram as ocorrências do dia. E há de tudo.
Dedicamo-nos a um jornal, o Primeiro de Janeiro, nos dias 30 e 31 de janeiro, na seção Cidade Marginal.
Belíssimo nome para uma informação, sobretudo para a informação que lá vem, e a forma como é escrita é reveladora de que tem alguma antiguidade. Por exemplo, um assalto em série que começa com a frase: "Os estabelecimentos comerciais continuam a estar na mira dos gatunos".
Esses gatunos ou larapios, porque diz o jornal que, por meio de arrombamento, os larapios entraram no estabelecimento de Fernando Alves e Ferreira Ltda, sito na Rua Conselheiro Veloso da Cruz, em Gaia, de onde levaram 70 contos em dinheiro.
A breve agrega vários assaltos. A Casa de Lotarias de Campeão e Companhia, na Rua de Sobreda, ficou sem 10 contos em trocos.
Mas o pior foi para Maria Rita Oliveira, dona de uma mercearia na Rua Nossa Senhora do Bom Despacho, em Ermesinde, que perdeu 31 contos em dinheiro, uma máquina de calcular, tabaco e, veja só, também isqueiros no valor de 50 contos.
O pormenor das vítimas serem identificadas, os locais com o nome das ruas, muito diferente do que acontece hoje. Aliás, hoje isto seria impensável.
Pois nesta altura vinha tudo nos jornais. Por exemplo, o caso da Emília da Conceição Madureira e Silva, de 50 anos. Não bastava sequer o primeiro e último nome, tinha que ser o nome completo, mas dizia: a dona Emília foi atraída por um maço de notas que propunham trocar por uma pulseira de ouro que usava e uma volta também de ouro que trazia ao pescoço.
Diz o jornal, e passo a citar: "Uma vez convencida pelas palavras habituais e insinuantes, que sempre valorizam a troca a favor da vítima, a mulher entregou aos dois desconhecidos a volta e a pulseira e pegou no maço de notas, que afinal não eram mais do que papéis velhos".
A lista continua. Por exemplo, os furtos praticados nos autocarros dos STCP, dada a facilidade de movimentação dos carteiristas. E atenção à carreira 71, que aparentemente tem sido mais visada.
A lista continua. Mil contos de joias. Os marginais aproveitaram a ausência do locatário, escrito assim. E depois nome, morada e idade, claro. Ficamos a saber que forçaram a porta, arrombaram gavetas e levaram tudo.
Em mais um caso, Maria José Soares Sobrinho Pereira foi assaltada por esticão. O homem foi perseguido, mas foi perseguido em vão.
Também há casos mais sérios, como o de um jovem de 17 anos agredido com três tiros de pistola. O agressor tem questões com a vítima. Após os disparos, desapareceu e anda à monte.
Os amigos do alheio, outra expressão muito usada, tiveram uma noite produtiva, também uma expressão usada, porque ainda foram a um outro estabelecimento comercial a coberto das sombras da noite, estou a citar, e surrupiaram, também estou a citar, aparelhos de som.
E há casos em que o descuido pode custar 70 contos. No caso, um rapaz pediu para utilizar o telefone numa garagem, o garagista recusou e foi sozinho para a garagem e deixou o escritório sem ninguém. Ora, o marginal aproveitou e fugiu num táxi que estava a passar com 75 contos no bolso.
Isto é um rolo que não acaba. Há uma briga com sprays de gás. Dois indivíduos de nacionalidade estrangeira brigaram com gases, atingindo-se nos olhos, o que foi presenciado pela PSP.
Depois há o convite da desconhecida, este é o título. Um homem plenamente identificado, esperemos que isso não lhe traga problemas em casa, foi convidado por uma desconhecida para uma hospedaria onde residia, mas lá chegado, foi inopinadamente agredido por dois indivíduos que também o seringaram nos olhos com um spray de gás, acabando por lhe roubar 20 mil escudos.
Seriam os outros estrangeiros com gás.
Não sei, mas o gajo estava na moda.
Seria uma arma de arremesso, não digo, mas pelo menos de borrifação. Não sei se existe. Estes convites podem ser perigosos. Perigoso é dormir embriagado na rua. E foi o que aconteceu ao Pedro, que acabou por ficar sem o casaco de couro, o relógio de pulso e os sapatos, mais o dinheiro que tinha no bolso. A parte com graça é que só acordou quando tinha frio.
E também há os roubos de lotaria. O quiosque Tivoli foi arrombado e como não havia dinheiro, os gatunos levaram lotaria no valor de 60 contos. Não sei se tinha prémio.
Depois não sei, mas devem achar que não são apanhados se aqueles nomes saírem, que é aí que está identificado.
Devem estar a contar com isso.
Querem mais pequenos crimes?
Só mais um.
Então vamos à história de dois vimaranenses que depois de uma festa adormeceram no carro. Foram acordados por dois outros jovens que pediam boleia para irem buscar mais dois amigos e assim irem todos a uma festança. Os incautos vimaranenses aceitaram, os miúdos são muito críveis, e acabaram por ficar sem relógio, dinheiro e um quispo.
Um quispo.
Quando uma pessoa se afeiçoa a um quispo, perdê-lo é muito doloroso.
Sob ameaça de navalha. Por isso, termina hoje a Cidade Marginal de janeiro de 87.
Belíssimas histórias, Judite, desta Cidade Marginal. 1987 foi o ano em que viajámos, um ano que na música também trouxe a história de uma cidade fora da norma. Já vamos perceber por quê. 1987 fica marcado pelo álbum de estreia dos Guns N' Roses, Appetite for Destruction.
E depois da Cidade Marginal, eu voto Welcome to the Jungle.
Ora o meu apreço vai para Sweet Child of Mine e para o Slash, ou como diz o Paulo Futre, o Splash, um estranho marginal de cartola.
Dois belíssimos temas e um indivíduo muito peculiar, tenho que concordar, mas vamos fazer uma viagem de um extremo ao outro. Aproveitamos a Cidade Marginal de que nos falou a Judite para dizer que em 1987, neste caso, os Guns N' Roses nos deram as boas-vindas a uma cidade paradisíaca. "Paradise City", um dos temas célebres do disco de estreia dos Guns N' Roses no K7 60 de hoje. Entre outras coisas, falámos de lutas de sprays. Para já seguimos com uma tinta contra a qual não vale a pena lutar. Uma figura que está tatuada a tinta permanente, diria, na história da música. Em 1987, Whitney Houston lançou o disco homónimo, "Whitney".
Whitney Houston que, na métrica dos discos, rima com números astronómicos.
Com este disco, chegou aos 10 milhões de cópias vendidas só nos Estados Unidos.
Quatro singles lançados, todos chegaram a número um e arrisco-me a dizer que muitos terão sido os pretendentes depois do lançamento deste desejo expresso em forma de música por Whitney Houston, "I Wanna Dance With Somebody". Vamos dançar aqui também um pouco, creio. Grande tema. E no fecho do K7 60 de hoje, e depois de uma vistoria ao segmento de crimes Cidade Marginal, de 31 de janeiro de 1987, fechamos com um dos discos mais aclamados do ano, "Bad", o grande sucessor de "Thriller".
E já que estamos no tema da transgressão, um crime foi o disco ter chegado um ano depois do prometido.
Um dos que também gosto muito, sobretudo ao ouvir esta música, Judite. Tivesse chegado um ano antes, esta canção não teria lugar no K7 60 de hoje.
É verdade.
Mas viajamos até 1987, ano em que Michael Jackson, o Rei da Pop, regressou aos discos com o sétimo disco de estúdio. Sete, o número símbolo da perfeição. E sendo que estivemos a falar sobre delitos, muitos deles suaves, outros não tantos, diria, fechamos este K7 60 com a perfeição possível na interligação entre história e música, ao som desta "Smooth Criminal". Constava do disco "Bad" de Michael Jackson. É o fecho do K7 60.