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K7 60.
No mesmo tempo que representantes dos estudantes reuniam lá dentro com grupos parlamentares, cá fora começavam a exaltar-se os ânimos. E em pouco tempo, milhares de estudantes passaram as grades e invadiram o cordão policial, ocupando as escadarias de acesso ao Parlamento. Foi aí que a polícia de choque, que há algum tempo se encontrava a guardar, começou a avançar. Em menos de um minuto, os estudantes não pouparam nem polícia nem jornalistas para atingir os seus meios. Pedras, garrafas, tudo valeu.
Isto que estão a ouvir são palavras de ordem de milhares de estudantes de liceu gravadas pela TVI a 5 de Maio de 1994, quando milhares de alunos decidiram manifestar-se em frente à Assembleia da República contra a realização da prova global que entrava em vigor para os alunos do 10º ano.
São desta manifestação os famosos rabos ao léu?
É verdade.
É desta altura.
Exatamente. Houve mais nesta fase. Houve uns contra as propinas, que foram virados contra o Ministro da Educação.
Estava calor também.
Na altura foi contra o Ministro da Educação. Foi um ano antes, em 93, estes é que foram contra as provas globais, os outros eram contra as propinas. Também houve protestos contra a prova global de acesso, a PGA, em 92, mas foi nesta manifestação, numa quarta-feira de Maio de 1994, que deu origem a uma expressão que dura há mais de 27 anos e que presumo vai continuar a durar.
Estás a falar da famosa expressão geração rasca.
Exatamente. Escrita na primeira página do jornal Público, que foi para as bancas dia 6 de Maio, remetia para um editorial escrito por Vicente Jorge Silva, à época director do jornal, escrevia que as manifestações converteram-se em expressões de má criação, estupidez e alarvidade, que o hooliganismo do futebol se tinha transferido para as escolas e para a rua e questionava se estaríamos a assistir ao nascimento de uma geração rasca. Era na altura Manuela Ferreira Leite, que tinha a pasta da Educação e que apesar dos protestos violentos e da quase unanimidade de estudantes e também de professores, deixou claro aos deputados que nunca iria deixar de implementar as provas globais.
Eu poderei não fazer muito mais no sistema de ensino, mas vou seguramente fazer alguma coisa no ensino secundário. Estou mais uma vez convicta de que neste momento eu estou a prestar um bom serviço aos atuais jovens, que evidentemente hoje estão a gritar na rua, mas que daqui a uns anos, quando chegar a altura de serem os filhos deles a gritar na rua, talvez eles percebam que nós estamos a trabalhar no bom sentido para eles.
Os estudantes conseguiram negociar com Manuela Ferreira Leite. As provas passaram a ter duas horas, em vez de 50 minutos, com intervalo de um dia entre as provas e uma semana entre o fim do ano letivo e o início dos exames. Foram tudo reivindicações acolhidas pelo Ministério da Educação. O que não mudou foi o peso do exame na nota final, uma valoração de 25%. Essa manteve-se.
Mas este barulho todo já serviu para alguma coisa.
Sim, serviu para estas condições que os estudantes pediam, mas a mancha que Vicente Jorge Silva lançou sobre os alunos ficará para sempre quando se fala nessa geração, a mesma que em 2013, no tempo do governo Passos Coelho e da intervenção da Troika, foi para as ruas reivindicar mais e melhor emprego e para protestar que agora, na idade adulta, é de uma geração que não tem remuneração.
Sou da geração sem remuneração. E nem me incomoda esta condição.
Cá está. E esta foi então nesta fase apelidada de geração à rasca.
É verdade. Que os Deolinda cantam para os que não conseguem um trabalho condigno e que estão a recibos verdes. Situação precária, de resto.
Pronto, e por isso que de geração rasca passamos a geração à rasca.
Que parva que eu sou. E fico a pensar. Que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.
"Que Parva que eu Sou" dos Deolinda, uma canção que tem só esta versão ao vivo, acabou por nunca ser editada em disco por parte da banda portuguesa. Mas no K7 60 fazemos sempre um zoom out ao ano que estamos a olhar neste dia e hoje em 1994, olhamos também para a cultura pop desse ano.
Sim, e vale a pena, porque é um ano que tem de tudo, do bom e do mau. Senão vejamos, só entre abril e maio, Michael Jackson casou com Lisa Marie Presley.
Coitada.
Kurt Cobain faleceu. Coitado também.
Estava-me a rir, viste? Era da anterior.
Ainda era da anterior. A sequência estava um bocado, exatamente. E os Blur editaram o disco Parklife.
Nada mal.
Nada mal. Até é bem bom.
Este foi o primeiro número um da banda britânica, este "Parklife". Sempre em fato de treino.
Cantava isto no SingStar. Sim, sempre em fato de treino e com o cabelo sempre todo cuspidinho para a frente.
Verdade.
É obrigatório.
Não sei se sabiam—
É da humidade que eles têm lá Inglaterra.
É. Em junho desse ano, 1994, os Aerosmith tornaram-se a primeira banda a estrear uma canção na internet. Ainda nesse verão, saíram também dois discos essenciais: o "Grace", do Jeff Buckley, e o "Ill Communication" dos Beastie Boys, que tem a "Sabotage" e o seu belo vídeo realizado por Spike Jonze.
Precisamente. Agora, 6 de maio de 1994, a canção número um nos Estados Unidos era "The Sign", dos Ace of Base, enquanto em Inglaterra o top era liderado por esta balada de Prince.
O Prince já tinha montes de sucessos, mas esta ainda assim foi das músicas que mais vendeu.
O que é extraordinário neste Cassete 60 é que há sempre uma boa música de Prince para passar.
Isso é porque eu escolho.
Não, espera. Mas há sempre Prince para passar e tu, Nelson, escolhes, porque eu de repente pensei: "Vai ser Ace of Base", mas não.
Podia ser, mas não lances já foguetes.
Olá. Bom, no cinema os recordistas de box office são "O Rei Leão" e "Forrest Gump". Por cá, o Festival da Canção foi ganho por um poema de Rosa Lobato Faria. Até aqui nada de novo, mas o impressionante é que "Chamar a Música", cantado por Sara Tavares, teve pontuação máxima de todos os elementos dos júris distritais.
Impressionante. E em 1994, também um dos discos mais vendidos em Portugal foi "The Cross of Changes", dos Enigma, muito por culpa daquela "Return to Innocence".
Eu avisei.
Era a isto que o Nelson se referia. Pois é.
Por quê? Ai, ai, por quê?
Tinha que recordar isto. Aqui está, eu disse que este ano tinha tudo de bom e de mau.
É verdade.
Bem, ainda assim, 1994 tem um vencedor, e o vencedor é Pedro Brilhosa e o seu disco de estreia, "Viagens". Seguramente é um dos discos mais importantes da música nacional desse ano.
É um fantástico disco.
Provavelmente dessa década, diria. Se calhar, de sempre. Talvez?
Do Pedro Brilhosa?
Não, da música nacional mesmo. O "Viagens" vendeu que se fartou.
Ok.
É um grande álbum.
É sim, senhor, é um bom álbum.
Fechamos com ele. Em 1994, o disco "Viagens", de Pedro Brilhosa, aqui ainda com os Bandemonium.
Tu és a fonte do meu desejo, minha heroína, meu ensejo. Barco no Douro à deriva, sem vento, sem guinada, nem ferros para lançar. Eu sou o que mais tu podes querer. Sou Apolo, sou Adonis, sultão entre os sultões, sem rainha nem mulher. Há quanto tempo isto está para acontecer, mais dia menos dia, vou ter que te dizer: não posso mais viver assim, olhar para ti sem te ter perto de mim. Não posso mais viver tentado, pensar em ti e quer te ter sempre ao meu lado. Tu és a minha louca fantasia, noites brancas de magia. És prosa do poeta na cauda de um cometa, tango dançado ao luar. Eu sou herói de banda desenhada. Errol Flynn de capa e espada, tiro tudo, não dou nada, ninguém me vai à guerra. Há quanto tempo isto está para acontecer, mais dia menos dia, vou ter que te dizer: não posso mais viver assim, olhar para ti sem te ter perto de mim. Não posso mais viver tentado, pensar em ti e quer te ter sempre ao meu lado. I'm the arsenal, I got artillery lyrics, Obama rhymes rhythm, then I'm a give a piano. Bring a bulletproof vest, nothing ricochet. Ready, aim at the brain, now what the trick say. Triple, trifle, felt like a rifle. Messages and melodies might go right through. Simultaneously I confuse you, nothing confuse me. Lyrics light up the ladies say boom. Tu és o meu sonho mais atrevido. Olho e tiro o teu vestido, dizes: "Este é o teu filme, tu fazes de mim a tua heroína". Vamos para casa experimentar o Kamasutra. Eu sou a sombra do teu destino. Sobres louco e repentino e dizes aquilo que eu há muito te quero ouvir.
Cassete 60.