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Car7, 60.

É uma das histórias mais apaixonantes a que Portugal assistiu. Em 1992, um rapaz apareceu morto no Funchal. Imediatamente feito suspeito, padre Frederico foi acusado, em pouco tempo, pelo Ministério Público. Teria abusado sexualmente de Luís Miguel e atirado o acólito de uma ribanceira.

Deu-se como inocente desde o início, mas ainda hoje há quem acredite que o assassino continua à solta. Mas também o padre Frederico está em liberdade. Fugiu de Vale de Judeus numa saída precária com passaporte brasileiro, viajou até Espanha e daí foi para o Rio de Janeiro.

A RTP fez há dois anos uma reportagem com o padre no Brasil e recordou esse julgamento que deixou o país preso aos ecrãs. Foi o primeiro julgamento completamente televisionado. Houve reconstituições filmadas e foram ouvidas dezenas de testemunhas.

O juiz que o condenou por convicção, ou seja, sem provas concludentes, recusou falar à RTP, mas outros intervenientes participaram na reportagem.

Um deles foi o advogado Romeu Francês. Defendeu o padre no recurso, diz que foi condenado à partida pelo país, que acompanhou tudo pelos média e pelo juiz, que se recusou a acreditar em alguns dos testemunhos que garantiram que o padre Frederico não estava com Vítor àquela hora em que foi visto perto da arriba, pouco antes de morrer.

A convicção nacional é que ele é culpado.

O primeiro advogado, que acompanhou o padre num primeiro julgamento, garantia que era inocente e que estava tudo feito na cabeça do magistrado para o condenar, independentemente das provas.

Condenam o arguido Frederico Marques da Cunha na pena única de 13 anos de prisão.

Frederico era um padre diferente, usava óculos escuros, daqueles que Simon Le Bon, dos Duran Duran usavam, anéis com caveiras, cintos modernos e deslocava-se num carocha preto. Era conhecido pela população e adorado enquanto pároco.

Foi um caso construído a partir do nada, construído pela PJ e pelo Ministério Público.

Frederico sujeitou-se a um detector de mentiras. Foi, aliás, o primeiro a sentar-se naquela cadeira, preso a uma máquina. Passou com distinção. Mesmo assim, a justiça não acreditava naquele padre estranho.

No primeiro julgamento-espetáculo e na espetacularização da justiça, dava os primeiros passos na televisão nacional e revelou-se um blockbuster de audiência. A RTP saía do seu púlpito de serviços públicos para fazer um serviço público e o que o público queria.

Frederico foi condenado à partida, mesmo sem abrir a boca.

Luís Miguel Correia, de 15 anos, depois de uma ida à praia, resolveu ir até Machico, a casa da avó. No dia dois, o seu pai encontrava o seu corpo aqui nesta ravina, no Caniçal.

O padre afiançava o senso comum e não o bom senso. Cara de pedófilo. E se era homossexual, coisa que nunca desmentiu, também era homicida, que não foi julgado de forma justa, não.

História de um jovem amigo do padre. Tinha acesso a momentos diferentes. Toda a gente sabia que ele era homossexual, dizia-se que era homossexual, e disso havia suspeitas. Frederico já tinha andado em algumas paróquias, sendo transferido, como era normal, mas era mais desajustado. De resto, ninguém tinha queixas sobre o padre, que vivia há muitos anos no Funchal.

Conseguir a absolvição de um arguido neste país, pelo tribunal, depois de ele ter sido condenado pela opinião pública, não é fácil. E foi o que se passou no caso do Padre Frederico.

Luís Miguel Correia desaparece e é encontrado numa ravina no Caniçal. O padre estava ao pé da falésia com Luís Miguel. A senhora tinha a certeza que era o arguido. Alto lá, para o baile. Há um jovem que diz que esteve com o padre, mas a PJ não acreditou. Estamos já nas cenas do tribunal.

O sacerdote teria alegadamente agredido o jovem na cabeça, no interior do seu automóvel, depois de este ter oferecido resistência a contactos íntimos.

A questão da homossexualidade esteve sempre presente no padre. Negou sempre, até ao fim.

Ora, foi o que se passou com o padre Frederico, da memória que tenho e do que andei a ler.

Eu não digo que ele é culpado, nem digo que ele não é culpado. Aquilo, Deus alguém fez.

Supostamente terá agredido o jovem na cabeça, depois de este ter oferecido resistência. Como é que sabemos? Não sabemos, mas nada impediu que a narrativa se construísse assim na opinião pública e na publicada. As capas dos jornais eram dignas de romance de cordel. Também havia citações bíblicas. A criatividade dos jornalistas nas décadas de 80, 90, não só são inacreditáveis, como eram completamente desenfreadas e livres.

Todos os indícios que tendam à volta da acusação são inconsistentes.

Este é José Noite, afilhado do padre, e que afirma ter estado com o sacerdote no mesmo local.

Tem um álibi, não pode. José Noite foi o nome que ficou, e ficou para a história. Era mais ou menos da idade de Luís Miguel, mas era sobrinho e tendo uma ligação familiar para os juízes, estaria a mentir. Descartar provas e evidências foi um prato forte naqueles dias.

Aqui na Madeira temos muita mania de comemorar esse dia com piqueniques fora do Funchal e ali é uma zona conglomeradora e lembro-me que acho que faziam mesmo ali também piqueniques naquela zona. Foi uma verdadeira bomba, um escândalo.

Naturalmente, uma sociedade um pouco fechada como era a Madeira.

Era dia 1 de maio, o jornalista da RTP novíssimo a cobrir um caso inédito.

O padre não era comum, andava sempre de óculos escuros, como já dissemos, o carro tinha uma caveira no espelho e de resto, ele tinha um comportamento estranho.

Roberto Ferreira é subdiretor do Diário de Notícias da Madeira. Na altura, tinha apenas 26 anos. Para ele, o padre Frederico não teve hipótese.

E os juízes eram da fina flor. Neto de Moura, o famoso juiz da Mocaa de Pregos, e o juiz Sírio Sousa, era uma parelha do inferno para o padre Frederico.

Sírio Sousa, que não falou à reportagem da RTP, está no direito de não querer celebrar uma das melhores páginas da sua carreira. Os sons que temos passado aqui são da responsabilidade da jornalista Rita Marrafa de Carvalho, a jornalista que fez uma reportagem muito recentemente, não só recuperando sons daquele tempo, daquela época. A RTP era a única televisão na altura, estávamos no dia albar das televisões privadas, mas estes são sons e são imagens da RTP. À jornalista Romeu Francês, o advogado do padre Frederico, disse agora e tem uma declaração muito forte na reportagem.

Andava sempre de óculos escuros, estivesse dentro ou fora, e usava caveiras nos cintos. O carro tinha uma caveira pendurada no espelho, se não estou em erro. Era uma pessoa com comportamento um bocadinho estranho.

Este era Roberto Ferreira, o tal jornalista que se recorda e descreve como há 30 anos o padre Frederico era encarado no meio pequeno, bem mais fechado do que é hoje.

O juiz principal era o Sírio Sousa, um dos asas era o famoso juiz Neto de Moura, o procurador do Ministério Público, era o doutor Marcos de Freitas.

O Frederico, porventura, julga-se um cidadão acima da lei.

Nesta reportagem, que é o suporte para recuperar os sons da época, como dissemos, fica claro que ninguém viu o rapaz que estava sentado no carro do padre naquele dia.

O senhor é homossexual? Ele disse: "Eu não respondo a essa pergunta". E o juiz terá dito: "Não responde a esta, não responda a mais nenhuma". Considero isso uma ilegalidade monstruosa, porque ninguém tem que estar a coartar a continuidade das perguntas. O arguido tem o direito de responder a parte das perguntas e não responder a outra.

Fomos todos, os jornalistas, juízes, testemunhas, todos para o Miradouro do Caniçal, onde até o próprio carro do padre, um Volkswagen preto, foi reconstituído o momento, o alegado momento da morte do jovem e o próprio juiz Sírio Sousa lá a questionar as testemunhas.

Nesta reportagem, ainda vamos ouvir algumas das testemunhas que, na época, falaram com o tribunal, responderam ao juiz e há momentos que ficarão para a história.

Olhe, esse miúdo lá estava. Pera aí, escuta.

Não.

Certeza absoluta?

Certeza absoluta.

Já levou um bem para a cara. Já levou um bem para a cara dos dois.

Deste não era.

Não é, de certeza?

Certeza absoluta que não era.

Este homem, natural do Caniçal, diz que serviu no dia 1 de maio, uma sandes de polvo e um refrigerante ao Luís Miguel Correia ao fim da tarde. Só que o relatório da autópsia nada indicou nesse sentido.

Eu vendi e tenho mesmo que vendi.

Tem a certeza?

Poxa, vendi a sandes a ele, só lá se ele comeu, se não comeu, se deixou de comer.

O tribunal deu pouco ou nenhum crédito aos depoimentos que ouviu e que contrariavam a teoria da acusação.

Fátima Menezes diz que viu o padre Frederico e o Miguel Noite no dia 1 de maio de 1992, no supermercado do complexo hoteleiro, onde o sacerdote vivia, e aí a acusação duvidou das declarações de Fátima Menezes.

No 1º de Maio, eles disseram só sair um bocado ao fim da tarde.

Mas também, senhor doutor, não pode desconfiar de ninguém.

Eu vou desconfiar de tudo. Vou desconfiar de tanta coisa. Também desconfio de si, pronto. Ouça, não trace linha três, senhora. Ouça lá, não trace linha três.

Impossivelmente, desde que desconfiava de mim. Nossa.

Mas quem é que anda mal é a senhora.

Desculpe, o senhor desde que impossivelmente achava que eu tinha mentido. Obrigada.

O procurador diz o que quer e sobra-lhe tempo, chama mentirosa à senhora, à testemunha, e isto está tudo filmado em direto. A dada altura, quando a senhora diz: "Mas o senhor desconfia de mim?" O procurador do Ministério Público diz: "Olhe, vá-se embora" e manda assim a testemunha. Testemunha essa que dizia que não era Luís Miguel que estava no carro, mas sim José Miguel Noite.

Uma das questões, provavelmente, que mais especulava era se este jovem teria sinais de ter sido violado ou abusado sexualmente.

Eu andei à procura. Água lava. Água lava, mesmo sem sabão, lava. Agora, o que eu encontrei no exame e que disse em tribunal foi que foi um cadáver que estava de braguilha aberta, sem camisola, sem sapatos e sem meias.

Água lava.

É o que eu posso dizer.

Água lava. Lava mesmo sem sabão. Não há nada como ser médico para chegar a esta conclusão. Há indício de abusos? Não, mas que se lixe.

Depois deste momento, a aldeia da Roupa Branca, não havia indícios de violação, fluidos não havia, mas há marcas que não desaparecem com o mar.

Acho que o caso foi mal investigado, porque a nossa investigação funciona cada vez menos, mas ainda funciona, com muitos preconceitos.

Estávamos a ouvir Romeu Francês a falar dos preconceitos da investigação, sobretudo quando havia esta suspeição de que o padre seria homossexual. Bom, uns depoimentos eram melhores do que outros. Os julgamentos por convicção têm esse problema. Muitas vezes a falta de provas faz com que o juiz decida e talvez, neste caso, temos um padre acusado, condenado, mas antes um culpado em liberdade do que um inocente na cadeia.

Se me pergunta sem consciência, se eu penso que o padre é homossexual, aí respondo frontal, diretamente. O padre nada tem a ver com a morte daquele miúdo.

Este foi o primeiro padre, o primeiro padre que tomou conta do caso. Depois, Romeu Francês acabou por ser o advogado que foi a julgamento desde o início e, portanto, falando com a equipa que trabalhou de perto com o padre Frederico, desde o início, que ninguém acreditava na culpabilidade de Frederico.

K7, 60.