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K7 60.

Hoje no K7 60 vamos recuar 32 anos, a 1989, e ao dia em que polícias se confrontaram nas ruas de Lisboa.

Ficará para a história como a manifestação dos secos e molhados, mas os jornais ainda não tinham inventado a expressão quando foram publicados a 22 de abril de 1989. Nesse dia, contavam o que aconteceu quando mil polícias saíram de um encontro nacional na Voz do Operário e desceram até à Praça do Comércio, em Lisboa, para entregar uma moção no Ministério da Administração Interna. Seis subiram para se encontrar com o ministro Silveira Godinho. Os restantes concentraram-se na praça, à espera.

E foi aí que essa situação escalou.

"20 minutos para dispersar!"

Os polícias não tinham autorização para fazerem manifestações. Era ilegal e portanto tiveram ordem para dispersar imediatamente, mas não obedeceram. O corpo de intervenção da PSP é chamado a intervir. Os polícias fardados fazem um cordão humano para resistirem aos jatos dos canhões de água e às bastonadas. E de repente, o país vê pela primeira vez um confronto entre elementos da mesma corporação. Atenção que os polícias queriam algo que aos olhos de hoje pode parecer simples: liberdade sindical, possibilidade de se organizarem em sindicatos.

Pois, mas em 1989, Portugal era um outro país.

Era sim. E se há reivindicações que não são muito diferentes desta época, os polícias exigiam uma folga semanal, transparência na justiça disciplinar, melhores vencimentos e condições laborais.

Já não parece assim tão distante da realidade de hoje.

Não é, de facto. Mas o que é curioso é quando se leem os jornais, há uma enorme surpresa, mesmo no contexto da época. A capa do Diário de Notícias diz que nada fazia prever que um desfile de polícias fardados e à paisana terminasse em violência. O jornalista do DN escreve que se nota que o corpo de intervenção está relutante em carregar sobre os colegas, mas aí a confusão instala-se e na segunda carga policial não há distinção entre a multidão. Há pessoas nas paragens do autocarro e do elétrico que são atingidas por jatos de água e bastonadas.

Bateram numa senhora que levava uma criança ao colo. Tivemos que fugir todos. E o senhor assistiu a isto? Eu tive que fugir à frente deles também, senão também levava.

Torres Couto era, na altura, secretário-geral da UGT, tinha estado no encontro nacional da polícia na Voz do Operário e também tinha seguido para a Praça do Comércio. Foi um dos que se queixou de agressão.

Eu acho inqualificável e, como sabe, fui agredido à porta do Ministério da Administração Interna por um subintendente da polícia à paisana, que me insultou com imensas testemunhas e me agrediu. Isto de facto é impróprio, eu acho que isto é uma irresponsabilidade. Nunca pensei que o governo pudesse pôr polícia a combater polícia.

Mas foi precisamente isto que aconteceu em abril de 1989, quando a lei ganhou. Os Clash com "I Fought the Law" parece-me apropriada a esta manifestação de polícias contra polícias, mas olha, Judite, 1989 é de facto um ano incrível para a música. Há estreias discográficas de Nirvana, de Stone Roses, ou por exemplo, de Neneh Cherry, ela que andava a fazer toda a gente dançar com esta "Buffalo Stance".

Em Inglaterra, as Bangles eram nessa semana número um com "Eternal Flame", mas do outro lado do Atlântico, a canção mais ouvida era "Like a Prayer" de Madonna, que foi mesmo um dos discos mais vendidos em todo o mundo em 1989.

1989 é um ano nada mau para a pop, mas também nada mau para o rock. Destaque, por exemplo, para o lançamento de "Disintegration", dos The Cure, para "Doolittle" dos Pixies, que, por exemplo, tinha esta "Here Comes Your Man". Já cerca de dois meses depois dessa manifestação de que falamos aqui no Cassete 60, os corações batiam por Chris Isaak e, já agora, pela modelo Ellen Kristensen, que brilhava e muito no videoclipe desta Wicked Game.

Ora, em português, a Globo estreou a novela Tieta do Agreste, o mundo aprendeu a cantar na nossa língua o megasucesso Lambada e os Da Vinci conquistaram o Festival da Canção.

Era um mundo novo, um sonho de poetas. Ir até ao fim, cantar novas vitórias. E erguer orgulhosas bandeiras, viver aventuras guerreiras. Foram mil epopeias, vidas tão cheias, foram onze anos de amor. Já fui ao Brasil, praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau. Ai, fui até Timor, já fui um conquistador. Era todo um povo, guiado pelos céus. Espalhou-se pelo mundo, seguindo os seus heróis. Elevaram a luz da cultura, semearam laços de ternura. Foram mil epopeias, vidas tão cheias, foram onze anos de amor. Já fui ao Brasil, praia e Bissau, Angola, Moçambique, Goa e Macau. Ai, fui até Timor, já fui um conquistador. Já fui ao Brasil, praia e Bissau