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Cassete 60.
Eu penso que escrevi muito, que tenho lido sempre ao longo da minha vida, compulsivamente, muito. Sem o verbo da fala não é possível vencer as pessoas.
Hoje falamos de Mário Soares e de um espólio de mais de dois milhões de documentos, entre cartas inéditas, notas, bilhetes e pequenos cadernos. O antigo primeiro-ministro e presidente da República escrevia tudo.
Será por isso um Cassete 60 diferente, no qual vamos mergulhar num acervo a perder de vista e que está agora a ser ordenado, catalogado e que vai sendo publicado ao longo dos próximos anos.
A coordenar estas obras de Mário Soares está José Manuel dos Santos, 20 anos assessor cultural e amigo de quatro décadas, que nos explicou a empreitada em que se meteu e que mostra um Soares menos conhecido do grande público.
A análise deste espólio e aquilo que vai resultar dele, que são as obras de Mário Soares, permite criar outra imagem de Mário Soares. Quase que se dizia que ele não era muito profundo nem muito preparado. E este espólio dá-nos uma imagem completamente diferente disso, até mesmo a imagem contrária, que ele era profundamente estratégico, profundamente preparado, anotava tudo, lia tudo, conhecia tudo.
É sobre esse Mário Soares, que tanta importância dava à leitura como à escrita, que vamos conhecer, nomeadamente a partir de cartas inéditas.
Pois, há mais de 1500 cartas, sem contar com a correspondência internacional. Um maná para investigadores.
Autenticamente.
É uma investigação lenta e que nos vai sempre surpreendendo. Estamos sempre a descobrir coisas novas, daí esta coleção ser verdadeiramente, para usar uma expressão inglesa que ele certamente não gostaria, talvez, é uma work in progress.
A tese de licenciatura de Soares sobre Teófilo Braga deu origem ao volume zero e como todos os livros desta coleção publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, revela anotações inéditas. Quase pronto está o segundo volume sobre o Portugal Amordaçado. Vamos deixar essa vertente mais política de Soares para amanhã, para um Cassete 60 parte dois.
Isto porque há um Soares escritor que esta coleção nos dá a conhecer, diz.
Havia uma espécie de oração dele, matinal, que era escrever. Ele levantava-se cedo para, no silêncio da casa, escrever o que tinha que escrever. Eram textos, eram artigos, eram cartas, eram notas, eram planos e ele fazia isso todos os dias, por isso há milhares e milhares de páginas escritas.
Um ávido escritor que dá origem a este acervo e que achava que havia livros para todas as ocasiões.
Ele achava que havia romances bons para ler quando se tinha gripe. Romances que tivessem calor, romances com paixão. Por exemplo, gostava de ler Camilo nas gripes. Uma vez leu um romance de descendência camiliana da Raquel de Queiroz e ficou também encantado porque achou que esse romance o tinha ajudado a curar a gripe, porque era um romance que tinha emoção, que tinha paixão, que tinha calor.
Eu não sei se vocês concordam, eu concordo com isto. Há livros que nos fazem, de alguma forma, bem à alma e bem à saúde também. E há momentos para ler outro tipo de livros mais densos ou mais complicados. Por esta entrevista a José Manuel dos Santos, percebemos que Soares dava importância sobretudo ao livro e à criação literária, independentemente do escritor. Exemplo disso é uma troca de cartas com José Saramago.
Nessa altura, Saramago é um inimigo, um adversário. Soares não tinha relações com ele desde 75. Houve sempre também uma enorme distância entre eles. E na altura em que sai o "Ano da Morte de Ricardo Reis", que é, creio eu, 84, Soares é primeiro-ministro do governo do Bloco Central, o Partido Comunista Português, ao qual pertencia Saramago, é do mais crítico. Enche os muros da cidade com frases contra Soares. Soares lê o "Ano da Morte de Ricardo Reis" e escreve uma carta a Saramago e diz assim:
"Fiquei verdadeiramente impressionado, embora não surpreendido. Surpreendido fiquei quando li 'Memorial do Convento', que quanto a mim representa um salto qualitativo importantíssimo na sua obra. O livro sobre o Ricardo Reis é uma obra admirável de um grande escritor em plena maturidade. Felicito-o muito, sinceramente. Como você sabe, não tenho nenhuma simpatia pelas suas opções políticas, nem você pelas minhas, presumo, mas isso não tem qualquer importância. Antes, realça a sinceridade do meu entusiasmo."
Bom, eu acho que isto, antes de mais, revela algum fair play. E já vamos voltar às cartas, mas para percebermos Soares, é importante regressar a quem o conhecia bem. E ainda assim, o próprio José Manuel dos Santos ficou admirado com alguma das coisas que encontrou.
Eu sou surpreendido por muitas coisas que não conhecia. Pela extensão, por exemplo, dos apontamentos e das notas. Pela reflexão, por exemplo, introspectiva, ele passa por ser, e é também verdade que é isso, uma figura muito extrovertida, que está sempre com gente e que gosta de viver a vida, etc. Mas tem também uma faceta de grande introspeção Há registos disso também. Certamente que vai haver surpresas. Soares era ainda melhor visto de perto do que visto à distância.
Estas são obras que ajudarão a ter essa visão mais próxima de Soares, assim como irão ajudar a fazer história.
Se pensarmos ou nos lembrarmos de um nome da literatura, das artes plásticas, mas também do espetáculo, atores, e arquitetos, e realizadores de cinema, há cartas dessas pessoas lá. Há cartas de Soares para eles e deles para o Soares. Como em Portugal se publicam muito poucas cartas, é quase possível fazer uma história cultural do século XX e do início do século XXI, a partir destas cartas. É um contributo fundamental para uma história cultural.
Um desses exemplos é uma correspondência trocada com Cesariny, que escreve a Soares a propósito de um convite.
"Venho agradecer-lhe, assim como à sua esposa, o honroso convite que me fizeram para a recepção no Palácio da Ajuda no dia da posse. Não foi por me encontrar ainda algo enviesado de doença que deixou rastos longos e difíceis de debater completamente. Também por não ter fato preto. Vou mandar arranjar."
E Soares responde-lhe isto:
"Meu caro Mário Cesariny, não compre nenhum fato preto, não precisa. Às recepções virá como quiser e ficava-lhe mal, demasiado solene."
Outra das cartas que será posteriormente publicada é uma de Herberto Hélder, que tinha acabado de recusar o Prêmio Pessoa. Mário Soares decide escrever-lhe.
"Caro poeta e amigo, neste dia em que com toda a justiça lhe foi atribuído o Prêmio Pessoa, não queria deixar, apesar da sua recusa, de significar a minha grande admiração por si e pela sua obra, que é das mais originais, autênticas e perduráveis da nossa poesia. Conheço a sua relutância a todas as manifestações de prestígio ou de exibição mundana. Sei que isso é sinal de uma integridade artística, de um valor moral e de uma independência que aprecio profundamente e que tenho respeitado. Peço-lhe, por isso, desculpa por, no dia de hoje, ter quebrado a regra de não o incomodar, para lhe dizer, como presidente da República, o orgulho que temos na sua obra. Aceite os cordiais cumprimentos do seu admirador, Mário Soares." E Herberto Hélder responde:
"Excelentíssimo senhor presidente da República, doutor Mário Soares. Bem melhor do que o prêmio foram as palavras de Vossa Excelência, que essas não as recuso eu. Guardo-as ciosamente."
Escolhemos estas cartas, mas há mais. Vamos deixar também algumas novidades para amanhã. Amanhã falaremos do "Portugal Amordaçado", o livro. Será o próximo volume a ser lançado. Terá anotações, também elas inéditas. E vamos também falar de uma carta de Snob Casis, que estava muito zangada com Mário Soares.
Não temos músicas de Mário Soares? Também havia nesta cena. Se calhar, isso vamos descobrir.
Uma das coisas que José Manuel dos Santos conta é que Soares era duro de ouvido.
Então acho que não vamos descobrir.
Não vamos descobrir.
Talvez um dueto com algum cantor da época, não?
Não, nada. Não há música.
Ainda assim, há mais para descobrir acerca da vida de Mário Soares amanhã, na edição também do C760, depois do Jornal das três.
C760.
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