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Este é o Som da Comissão de Inquérito, da Rádio Observador. Esta manhã é nosso convidado o antigo jogador e treinador de futebol Álvaro Magalhães. Bom dia, bem-vindo. Já sei que foi uma aventura chegar aqui, não é?
Bom dia.
É trânsito, é normal. Agora estão de férias, mas alguns ainda estão a trabalhar.
Pois é, como nós. São cinco perguntas, Álvaro. Cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir ajuda, damos-lhe três hipóteses. Se acertar, recebe dois. Portanto, ao todo são 25 pontos que estão aqui em causa.
Vamos lá.
Vamos a isto? Sabe ao que vem e está com ar desconfiado. Vamos lá. Os primeiros jogos dos Mundiais são sempre cheios de nervos. Recordemos, por exemplo, o Mundial de 1990, Itália. A Argentina era uma das favoritas e teve um deslize histórico logo no arranque. Frente a uma seleção africana, perderam por 1 x 0. Lembra-se contra quem?
Não.
Não lembra?
Já não me lembro.
1990. Que idade tinha o Álvaro Magalhães?
Tinha 18.
Foi depois do México.
Tenho 65.
É fazer as contas.
Tinha 30.
30 e poucos.
Sim.
Já não me lembro.
Então vou dar-lhe três hipóteses: Nigéria, Marrocos ou Camarões. Perderam por 1 x 0.
Acho que foi Marrocos.
Foram os Camarões.
Marrocos foi contra nós.
Foi quatro anos antes.
Foi o que ficou na memória. O Álvaro sabe bem o que é a pressão de um jogo de estreia no Mundial. Esteve no México em 86, onde começámos até por ganhar à Inglaterra, mas depois as coisas descambaram fora do campo, no famoso caso Salto. Já vamos falar sobre isso, mas hoje queremos é falar da estreia da seleção. Estará Portugal a sacrificar mais o Mundial por causa de Cristiano Ronaldo? Hoje não se fala de outra coisa.
É com muita tristeza que eu vi e li hoje de manhã e ontem também. Redes sociais são uma complicação para todos nós. É muito complicado e penso que o Cristiano, são 40 anos.
É altura de se retirar?
Estava na hora de se despedir em beleza. Penso que a carreira dele é uma carreira enorme e penso que não vale a pena estar a sobrecarregar ainda mais tudo aquilo que tem feito ao longo desses anos todos. Está a criar uma imagem que não é a melhor, mas ele quer bater recordes.
E ele é que manda na seleção?
Penso que não.
Ou é o treinador?
Às vezes, nós temos sempre maus políticos. Às vezes, quem fala a verdade é complicado.
No Mundial de 86, por exemplo, também havia vacas sagradas no balneário? Havia aqueles jogadores que tinham um estatuto particular, um pouco acima dos outros, ou era mais democrático?
Quem tinha esse estatuto, também tínhamos que retirar esse estatuto. Penso que havia jogadores de várias equipes, portanto, do Porto, Benfica, Sporting. Muitas das vezes, a maioria dos jogadores era do Porto, outras vezes era do Benfica. Cada um era um líder natural, uns melhores que outros, mas o ambiente era diferente.
Nesse tempo, o futebol também era diferente.
Sim.
A todos os níveis.
Diferente só nas condições de trabalho.
Claro, os ordenados não eram o que são agora.
Exatamente, porque a qualidade dos jogadores não havia grande diferença. O valor desses jogadores tem o seu valor, nós também o tínhamos. Éramos jogadores de grande qualidade, representávamos as melhores equipes de Portugal e não saíamos era de Portugal para o estrangeiro. Agora, um jogador que aparece, passado um, dois meses, já está a ser cobiçado por equipes da Europa e há mais facilidade de saída.
Mas, por exemplo, em 1986, falou-se muito sobre a possível titularidade do Paulo Futre, que ainda era muito jovem, mas já era uma estrela, ou pelo menos uma estrela em ascensão. Na altura, ele não foi titular nesse primeiro jogo. Tinha que ver com esses estatutos dentro da seleção ou era uma escolha técnica perfeitamente legítima?
Eu senti isso também. É evidente que quando aparece um jogador jovem, muitas das vezes o mais velho, há uma grande pressão para não entrar na equipe, porque eu quando era titular do Benfica também. Aliás, depois eu tive que chamar a atenção a um dos selecionadores, ao Toni, ele era adjunto do Benfica, que sendo titular do Benfica também tem que representar a seleção. "É tempo, é jovem." É evidente que o Futre também tinha jogadores que estavam em forma, era jovem e tinha que respeitar também.
A hierarquia.
A hierarquia, exatamente.
Muito bem, vamos à segunda questão. Álvaro Magalhães, vamos agora olhar mesmo para o jogo de ontem e a pergunta é: qual foi o jogador que ontem marcou o gol a Portugal?
O João Neves.
Não, o gol a Portugal. Contra Portugal, o gol do Congo.
Não sei o nome dele.
Esta foi difícil.
É difícil?
Eu normalmente-
O Bruno saberá
... por acaso não sei se tinha assim na memória.
Eu normalmente preocupo-me mais com a nossa seleção do que com os outros.
Do que com os outros. Eu percebo, claro.
Nós respeitamos o adversário, mas queremos lá saber se chama Manel, António. Foi outro.
Para mim é difícil perceber até que ponto é que um especialista em futebol sabe estas coisas ou não.
Não me preocupei com a constituição da equipe.
Mas posso lhe dar três hipóteses? E arrisca o Yoane Wissa.
Eu não vinha preparado para isto. Se não, via aquilo.
Tinha que ir estudar. O Yoane Wissa, o Cedric Bakambu ou o Edo Kenbé.
Bakambu. Acho que é Bakambu.
Espera. Não.
Ou o Edo Kenbé.
Como é que disseste o primeiro?
Yoane Wissa.
Yoane Wissa? Acho que foi esse.
Então, pronto. Esse não foi.
Foi esse aí. Bom, mas ficou um empate.
Um bom cabeceador.
Bom cabeceador, como se viu ontem.
Para nossa tristeza. São fortes.
Isto será sempre recuperável, como é evidente. Aliás, o futebol é uma caixinha de surpresas.
Sem dúvida.
Mas um arranque desses.
Eu não diria melhor.
Eu também sei aquela do 11 contra 11 e depois no fim ganha.
Já não ganha a Alemanha, mas pronto. 11 contra 11, vamos ver quem ganha.
Vamos ver quem ganha. Dá-se a volta ao ânimo de uma equipe assim ou não? Consegue-se dar a volta?
Eu penso que sim. Penso que estes jogadores são jogadores com experiência internacional, jogam nas melhores equipes. Eu acho que é nesses momentos que se veem quem são os campeões. Quando se ganha, é tudo muito bonito, mas quando se perde, aí é que temos que ter uma força psicológica. A parte psicológica é fundamental nos grandes jogadores e penso que estes jogadores representam as melhores equipes da Europa, têm a obrigação de dar a volta a este resultado, que para Portugal é negativo. É evidente não perdeu, é um empate, mas que-
A questão da expectativa é muito importante
É importante.
Mas por que continuamos com esta sensação de que o futebol da seleção fica aquém do valor dos jogadores individualmente?
É verdade. Nós olhamos para o valor individual da nossa seleção, tem valor de grande nível, grande qualidade. Evidentemente que jogar num clube é diferente, porque trabalhas todos os dias, conhecemos os colegas e acaba por ser mais fácil o entrosamento e melhorar o rendimento de cada um.
Mas há ali alguns jogadores que se conhecem já há muitos anos e que jogam juntos até nos clubes.
Na seleção, é preciso controlar o ego destes jogadores.
Todos querem brilhar.
Todos querem brilhar. Eles já são ricos. Falta-lhes ambição. Acha que isso adormeça um pouco, o fato de já terem conquistado tudo e de jogarem nos maiores clubes pode arrefecer um pouco a ambição. E essa ambição muitas das vezes vem de fora para dentro. Penso que há uma grande confiança. Nós começamos, antes de se iniciar um Campeonato do Mundo, um Campeonato da Europa, uma grande competição: "Nós somos os melhores. Em Portugal, os portugueses são os melhores."
Tragam a taça.
Eu olho para o futebol inglês, para o futebol italiano, para o futebol alemão, e eu acho que esse futebol é melhor que o nosso. É evidente que estes jogadores jogam nas melhores equipes da Europa. Só que um joga no Manchester, dois jogam no Liverpool ou na Arábia. Treinar uma equipe todos os dias é mais fácil. E penso que depois é controlar o ego. Há jogadores que também têm qualidade para jogar e ficam chateados.
Ficam com azia.
Azia. E nós normalmente quando tem azia, tem que se dar pastilhas Rennie para a azia. Eles têm que compreender também as opções do treinador. Agora, o trabalho que é feito na seleção é que é importante.
Fecho bem aqui. Álvaro, vamos para mais uma pergunta. Lá vamos nós voltar ao caso Saltilho, mas agora é para lhe perguntar como é que se chama o podcast do Observador que conta a história do Mundial de 1986. Que título é que tem o podcast?
Eu tenho aqui. Não tenho que me dar três mil hipóteses.
Tenho? Então vamos lá. O Escândalo que Destruiu a Seleção, O Plano Inclinado, A Revolta da Seleção.
Acho que é O Escândalo.
É isso mesmo. Foi um escândalo, não é? E o que acontece, não sei se concorda com isto, mas desde então, sempre que as coisas não correm bem à seleção, o caso Saltilho aparece. Aconteceu no Mundial do Japão e da Coreia. Ontem à noite já estamos a ver fotografias dos jogadores em calções de banho, na praia, e aquela associação de que as coisas não estão a correr bem, e o fantasma de Saltilho. Ficou o fantasma.
Quando vi aquelas imagens na praia, disse:
Também se lembrou.
"Vão voltar outra vez, vão falar de Saltilho, que andavam de calções, estavam na piscina".
No vosso caso era na piscina, não era na praia, não tinham praia.
Eu disse aqui, até fui aqui no Observador, eu estava sempre com dois colegas, que já não estão cá entre nós, que era o Bento e o Demas, que eram extraordinários. Sentadinhos, eu a tomar o cafezinho e eles de vez em quando, depois do almoço, gostavam de beber o seu-
Com cheirinho.
Aquela chave do café. Depois do almoço, eles bebiam sempre um uísquezinho. É normal.
Mas essas imagens dos jogadores na praia-
Começam logo a pensar que vamos ter outro caso O resultado já foi negativo, já estão a pensar em ir para a praia, estão descontraídos, não estão concentrados. Mas muitas das vezes até faz bem descontrair um pouco. Aliás, é um treino de recuperação, se não abusarem. Não podem estar ali ao sol.
Mas a própria equipe técnica, a federação, não devia perceber que essas imagens podem não ser boas para a opinião pública?
Quando os resultados são negativos.
Exato.
Quando os resultados são positivos.
Vale tudo.
Eu ouvi comentários de várias pessoas, várias TVs, uns dizem que é normal, outros criticaram, mas cada um tem a sua opinião.
Mas, por exemplo, no outro dia vimos um assessor da seleção nacional repreender um jogador por ir falar junto dos adeptos quando o autocarro chegou perto do hotel ou quando estava a sair do aeroporto. Se há esse nível de controle, também não deveria haver esse cuidado em não deixar passar certas imagens que depois, em caso de resultados negativos, são usados contra a seleção?
Isso era fundamental. Fechar mais o grupo. Numa situação destas, deviam fazer as coisas, não dar conhecimento, porque há sempre pessoas que têm a sua opinião e que vão criticar. Mas isto não faz parte do plano do treinador também? Não foi por causa de terem ido à praia que Portugal deixou de jogar bem. Aquilo foi só uma voltinha, foram à água, até a água fria. Fria não, a água devia estar um pouco quente. Eu fiz essa pergunta ontem a um colega meu, um grande senhor, professor José Neto. Não sei se conhecem o professor José Neto. Que é um craque na matéria. Ele ligou-me e eu perguntei a ele: "Professor, ir à praia, se for água fria, mesmo fria?". Mas ele também aprovou, que dar uma voltinha na areia não faz mal. Até descalço. Aliás, para se recuperar uma equipa de um desgaste, andar descalço, não na areia, mas na relva, no campo. Andar ali descalço, andar a dar umas voltinhas e daqui a 15 ou 20 minutos fazer os alongamentos, é o melhor treino para recuperar um jogador do desgaste.
Claro.
Vamos em frente. Álvaro Magalhães, quem é para já o melhor marcador deste mundial? Esta é fácil.
Não é fácil, não.
Do que que eles têm falado mais entre ontem e hoje?
O nosso Messi.
O nosso.
O nosso.
Para mim é o nosso Ronaldo, mas é o nosso Messi. São dois jogadores.
Mas faz sentido continuar a comparar Messi e Ronaldo?
Não, não faz sentido. Aliás, para mim nunca fez. O Messi é o Messi e o Ronaldo é o Ronaldo. Cada um tem as suas características, são dois grandes jogadores, dois grandes talentos, mas é evidente que um está melhor que o outro, porque o baixinho não precisa. O baixinho treina ainda bocado, falei isso com um colega meu, também vínhamos a falar que o Messi não precisa treinar muito. Aliás, ele nunca usou muito ginásio.
E mesmo em campo, ele poupa muito a energia, corre só quando deve correr.
Enquanto que o Ronaldo se preparou, teve que preparar o seu físico, ele não precisava disso, porque ele é um génio.
É mais habilidoso.
É mais habilidoso.
Mas também é preciso estar em forma.
É diferente, são diferentes, são dois jogadores diferentes, as características são diferentes.
Também é muito trabalho mesmo a nível físico de Messi, porque, por exemplo, é um jogador que também não teve muitas lesões ao longo da carreira, exemplo do Ronaldo.
Mas o Ronaldo tem uma estrutura diferente, é mais alto, fisicamente é um jogador mais forte e ele é mais baixinho. Por isso é que muitas das vezes dizíamos que o Chalana não precisava muito de treinar. Mesmo que estivesse mal fisicamente, ele tecnicamente era muito evoluído. Era evoluído. O Chalana fazia coisas, era um génio. O Messi é a mesma coisa tecnicamente, pega na bola.
Na história do futebol português, é o jogador mais parecido com o Messi que encontra Chalana ou houve outros?
Não, Chalana. Chalana era um génio, era um jogador parecido. Evidente que são diferentes, mas é classe, é qualidade, é técnica.
Aquele talento inato.
Exatamente. Porque há três qualidades de jogadores que estou a falar: há os jogadores muito bons, há os craques e os génios. Esses são génios. São génios como foi o Zé e o Pelé.
Ficam num patamar à parte.
Exatamente.
Muito bem. Álvaro Magalhães, vamos à última pergunta. Esta também eu acho que é fácil. Se pensar um pouquinho, vai descobrir logo a resposta.
Já está a pedir ter aceitado o convite.
Vai acertar nesta. Quantas vezes uma seleção ganhou o Campeonato do Mundo orientada por um treinador estrangeiro? Ou seja, um treinador que não é daquele país. Quantas vezes isso aconteceu?
Isto é em rastara, não é?
Mais ou menos. Será que aconteceu alguma vez?
Estrangeiro?
Um estrangeiro.
No Campeonato da Europa, sim.
Os nossos melhores resultados enquanto seleção foi com treinadores estrangeiros, os dois brasileiros, Otto Glória e Scolari. Mas será que alguma vez um treinador a orientar uma seleção de outro país foi campeão do mundo?
Está a vir algum nome, Álvaro?
Não.
Não?
Então é não, a resposta.
É não.
Nunca. É um daqueles factos curiosos, é que nunca nenhum treinador a orientar uma seleção de outro país sagrou campeão do mundo. Roberto Martinez já se sabe que vai sair da seleção nacional no final do mundial, independentemente do resultado, quem é que deve ser o próximo selecionador?
Sim, português. Está nas mãos do presidente da federação. Ainda há pouco falava com o seu colega sobre isso. Não sei se o Jesus vai gostar muito de ser treinador da seleção, porque ele gosta de estar sempre todos os dias no campo.
Mas podia conseguir fazer aquilo que nós temos dito muitas vezes que a seleção não consegue, que é fazer a seleção jogar como uma equipa.
Exatamente. E tem que ser assim. Tem que se preparar uma seleção é já como equipa. E saber controlar os egos desses grandes jogadores é complicado. Se me disser: "Jesus, final de carreira, seleção. Se fosse um jovem treinador?" Eu apostaria no Abel.
No Abel Ferreira.
Apostaria no Abel.
Portanto, caso não fosse Jorge Jesus, poria Jorge Jesus em primeiro lugar e Abel Ferreira como alternativa.
Sim, porque é uma nova geração de jogadores e penso que fazia sentido ter um treinador mais jovem. Mas é evidente que se for Jorge Jesus ficaria satisfeito também.
Muito bem.
Álvaro Magalhães, sai daqui com 14 pontos.
14 pontos em?
Em 25. É bom, é positivo.
Em 25 já está ali no meio da tabela.
Não desce de divisão. Muito melhor do que a seleção.
Então e prognósticos para o próximo jogo com o Uzbequistão?
Só no final do jogo. Mas não, eu penso que temos de ganhar.
Temos de ganhar, mas vamos ganhar.
Vamos ganhar.
Mas ontem também se dizia isso contra o Congo.
Sim, mas eu estava desconfiado.
Por quê? Muita confiança, excesso de confiança?
Confiança e não estavam a dar valor ao Congo, porque o Congo tem jogadores a jogar nas melhores equipas da Europa.
Mas não é a primeira vez que a seleção portuguesa começa mal um campeonato destes e depois até corre bem.
Aliás, em 86 aconteceu o contrário. Começámos muito bem e acabou muito mal.
Isso que é bom.
Mas isso já lá vai. São outros tempos.
Também as condições agora são diferentes.
Estes relvados são mais direitinhos.
Já não há campos inclinados.
Álvaro Magalhães, muito obrigada por ter vindo à "Comissão de Queixas".
Eu que agradeço.
O gosto é nosso. Um bom dia para si.
Fui surpreendido. Muito obrigado.
Obrigada.
Sempre disponível.