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Começa agora a comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje é nossa convidada, a fadista Cátia Guerreiro. Bem-vinda de novo.

É verdade.

De novo.

É verdade, é uma reprise.

Sabe bem ao que vem. Da última vez que cá esteve vai fazer agora um ano, precisamente. Esteve a 5 de julho do ano passado. Como é possível? Até a mim para ser conhecida há menos tempo.

Eu vou cá ouvir todos os anos?

Não faz mal, pode ser de seis em seis meses. Fez 15 pontos há um ano.

Foi bom.

Foi bom. Mas hoje vai ser ainda melhor.

Vamos ver.

Vamos ver. A Cátia hoje também vem cantar o hino de apoio à nossa seleção, por isso temos de começar pelo futebol. Tem acompanhado o mundial ou não liga nenhuma?

No sábado passado tivemos uma trupe enorme lá em casa, à meia-noite, levantados a cantar o hino e a assistir ao jogo. Claro que estávamos todos à espera de uma vitória, mas também não era fácil. Mas sim, tenho tentado acompanhar. Acredito que hoje vá ser mais difícil conseguir estar acordada à hora do jogo.

E o que é que não pode faltar lá em casa quando joga a seleção?

Cerveja . Cerveja, cascóis e camisolas. E muita gente.

E pensamento positivo.

Sempre a torcer.

Então vamos lá ver se sabe esta. Foi muito comentado nas notícias depois do jogo com o Uzbequistão: quantos gols marcou Ronaldo nos seis mundiais?

Dois.

Nos seis.

Ah, nos seis! Caramba.

É um novo recorde, foi mais um recorde que bateu, é o português com mais gols. Ultrapassou Eusébio.

Nos mundiais.

Seis mundiais.

Seis mundiais. Tem dois dígitos, não tem?

Tem.

E começa com dois. Não, é mais. 18. Ultrapassou o Eusébio. 12.

Podíamos dizer-lhe. Quer uma ajuda?

Quero.

Então 19, 10 ou nove.

Foram 10. Claro, 10.

Claro, tinha nove.

Eu estava naquela coisa, aquela fasquia da maioridade, não sei.

Cátia Guerreiro, aceitou logo o nosso convite para cantar o hino ou isto passou a ser um tema em que é preciso pensar?

Não, aceitei logo.

Não vai o caso parar em tribunal, não.

Eu devo confessar que não tive esse receio. Até porque devo dizer que-

As condições técnicas eram boas

As condições técnicas eram boas. Eram. Eu tinha a garantia de que o observador me ia dar o conforto suficiente para eu fazer uma boa prestação e, portanto, vim com alguma segurança, até porque o hino nacional acho que devia ser conhecido e cantado.

E a Cátia dizia-nos em off que sabe a Portuguesa toda.

É verdade. A culpa não, a responsabilidade disso são os meus filhos, que quando foram para o primeiro estabelecimento de ensino deles, lá ensinavam-lhes A Portuguesa toda. E graças a isso, fiquei a conhecer o resto do poema, da Portuguesa, e devo dizer que gosto mais ainda das duas outras estrofes do que a primeira. Tem coisas muito bonitas, muito poéticas e emotivas. Não tem aquela coisa tão bélica.

Tão bélica.

Verdade.

Tantos canhões. Bom, então vamos acelerar para ouvir o hino.

Claro, sim. Vamos ouvir daqui a pouco.

A Cátia Guerreiro foi mandatária da juventude da candidatura de Cavaco Silva nas presidenciais de 2006, que Cavaco Silva venceu. Com que percentagem?

Ah, foi 50.2 ou 3.

Não vamos aos pontos. 50.64.

Ai, 64. Eu vou vos contar uma coisa que nunca contei. O jornal Ramalhianos, quando foram conhecidos os resultados, chegou ao pé de mim e disse assim: "A Cátia tem de ter noção de que estes 0.64 são responsabilidade sua". Eu disse: "Não, senhor jornal, por amor de Deus, não me dê esse peso, por amor de Deus".

Foram os decisivos.

Foram os decisivos.

Mas é bem plausível que haja ali uma parcela.

Eu dediquei-me. Pelo menos que tenha contribuído.

E um artista deve envolver-se politicamente, assumir-se politicamente, ou isso é uma coisa que dá problemas?

Dá muitos problemas. Tanto é que eu não me voltei a envolver politicamente para nada.

Foi, mas que tipo de problemas?

Traz anticorpos, traz críticas desnecessárias, porque a verdade é que o meu envolvimento nessa candidatura foi pela pessoa e não por nenhum partido político. Eu sou uma mulher livre, eu não estou ligada a nenhum partido político. Nem sequer no Sporting tenho cartão de sócia. Sou uma mulher verdadeiramente livre, tenho muito orgulho e tenho mesmo a sensação de liberdade quando digo isto. Costumo dizer que nem patrão tenho, que é verdade. Chamo o meu empresário, meu querido Alberto Moutinho, chamo-lhe de patrão pra poder dizer isto. Chamo-lhe de patrão, ele chama-me de patroa.

Está aqui a olhar pra nós.

Está aqui a olhar pra nós, ali atrás do vidro. Mas eu tenho esse orgulho e essa honra de dizer que sou verdadeiramente uma mulher livre.

E naquela altura percebeu e achou que era um risco?

Por acreditar muito na pessoa, no sentido de Estado da pessoa, e acho que um presidente da República tem que ter um sentido de Estado superior a qualquer outra pessoa.

Mas é uma pessoa que também tem muitos anticorpos na política.

É verdade, mas ganham sempre as eleições, isso é que é curioso.

Menos uma, a primeira vez que tentou.

Menos uma, menos uma na presidência.

Os anticorpos não são tantos como os corpos.

É verdade. Não, a verdade é que os números depois falam por si.

Perguntava-lhe isto porque dizia que não apoia um partido, apoia uma pessoa, mas é uma pessoa, uma figura que-

Obrigada a um partido, como é evidente

Obrigada a um partido, a uma área política. Acha que foi particularmente sinalizada por isso?

Foi, claro que sim Claro que sim.

Mas com comentários, com rótulos, é isso?

Sim, claro. Chamam-me cavaquista, já me chamaram fascista, inclusive. Aquelas pessoas que gostam muito de escrever coisas. "Essa fascista!"

Sobretudo os artistas que...?

Os artistas que são mais ligados à direita ou pelo menos centro-direita, são sempre muito mais penalizados. Mas eu não tenho problema nenhum com isso. Eu apoiei a candidatura de António Costa à Câmara Municipal, como apoiei a candidatura do Elísio Sumà Viol à Câmara de Mafra, que é Partido Socialista. Portanto, eu sou uma mulher livre e eu apoio e acredito em pessoas, acima de tudo. É nisso que eu acredito, é nas pessoas. Partidos políticos não me interessa nada.

Muito bem, sete pontos, está feito o ponto de ordem política. Cátia Guerreiro, esta é a terceira questão: em que século começou o povoamento dos Açores pelo então reinado de Portugal?

O povoamento começou no século XVI. XV. 1427 foi quando foram descobertos os Açores.

Lá está, logo a seguir.

Para o ano estamos a comemorar 600 anos.

Exatamente, foi logo a seguir.

Começaram pouco mais tarde. Pois é, lá está.

Século XV, ainda no século XV, certíssimo, foi em 1432, dizem. A Cátia Guerreiro aceitou o desafio de comissariar Ponta Delgada, Capital Portuguesa da Cultura, este ano. Como é que está a correr? Houve recentemente notícias sobre algumas divergências.

Foi só ruído.

Foi só ruído. O orçamento aprovado.

O orçamento está aprovado, a meio do ano temos as condições financeiras todas garantidas e agora vocês vão ouvir falar de nós.

Pode começar já.

Posso.

Quais são os próximos passos? De que é que vamos começar a ouvir?

Para já, nós já temos autos de ordens na um. Portanto, quando andarem na um para cima e para baixo, vão levar com Ponta Delgada, Capital Portuguesa da Cultura.

O Paulo amanhã já vai poder comer. É amanhã, não é?

É hoje ainda.

Pronto. Então atenção aos autos na um.

Manda fotos.

Vou estar atento.

Temos uma programação. É importante dizer que o nosso tema é o lugar do amanhã. E nós estamos muito dedicados, efetivamente, a uma programação dedicada às gerações mais novas, porque acreditamos que só conseguimos criar novos públicos se criarmos novos hábitos. E é a partir das idades mais tenras e nós temos projetos educativos, projetos culturais dedicados à infância. Não são infantis, são dedicados à infância, desde as creches, desde os berçários. Temos encomendas de obras, de peças musicais e teatrais, feitas dedicadas à infância e aos jovens. Dedicamo-nos muito também a temas sensíveis, que são muito atuais. Temos uma peça de teatro que nos foi proposta por um agente cultural local, que aborda justamente os temas da violência doméstica, do racismo, da xenofobia, e que tem tido um impacto muito grande nas escolas, com reações muito interessantes por parte dos jovens, que normalmente não são confrontados desta forma e procurando sempre que haja uma participação dos jovens imediata. E as reações são extraordinárias. Para além disso, temos naturalmente uma programação bastante diversificada, que vai ao encontro de todos os gostos. Temos umas leituras dramatizadas num bar que existe em Ponta Delgada, chamado Mercado Negro, que é maravilhoso, em que as pessoas se sentam no chão, cheio de gente, e são só atores locais que pegam em autores açorianos e fazem leituras dramatizadas de textos. Como temos também o Teatro Nacional de São Carlos a ir a Ponta Delgada, coisa que não acontece há mais de três décadas. Temos a Companhia Nacional de Bailado com os Maias, que vai a Ponta Delgada também há mais de 25 anos, que não há possibilidade. Estamos a falar de um lugar que está no meio do Atlântico, ponto número um. E portanto, todos os custos são quatro vezes superiores a produzir qualquer coisa no território continental. Esta oportunidade é uma oportunidade única, não só para incentivar, estimular e apoiar a criação artística local, que é de uma riqueza que vocês não imaginam. Tem sido uma surpresa incrível o talento que existe naquela terra, mas também de promover e proporcionar uma programação que dificilmente chega ao território regional de ilhéu. Tivemos a "Catarina e a beleza de matar fascistas", que foi um enorme sucesso, como tivemos o Vitor Hugo Pontes com a Companhia Maior, com um espetáculo inacreditável, chamado "A esta hora na infância neva", que é uma interação geracional, ou seja, intergeracional, com bailarinos e atores de gerações muito distintas, um grande ator de 90 e tal anos, com crianças de lá, que foram coreografadas lá com nove, 10 anos. Nós temos um pouquinho de tudo, em todas as áreas. Abordamos a área da religiosidade, que é muito forte nos Açores, a arquitetura, a gastronomia e a etnografia, que também tem um peso muito grande na identidade cultural daquela região.

Não tem fim.

É lindo.

Cátia Guerreiro está com 12 pontos. Ainda faltam mais 10 pontos.

Vamos a isso.

Além de fadista, também é médica. E há um osso no corpo humano que nos respeitoca-nos profundamente, que é o rádio. Onde é que fica localizado? Fica no antebraço.

Tem uma antena que é o polegar.

As voltas que a Maria João deu.

A nossa rádio está a celebrar sete anos. A Cátia Guerreiro comora 25 como fadista. E a medicina ficou mesmo de parte? Tem saudades?

Tenho muitas saudades, mas na verdade um médico é sempre um médico.

Ainda bem, porque nós temos aqui uma dor. Estávamos a resolver.

Vem sempre a consultinha. Nos aviões pode acontecer.

Tem acontecido. Já ao longo destes anos todos.

"Há algum médico presente?"

Já me aconteceu várias vezes. Não só nos aviões, como em aeroportos, como em comboios, por aí, por essa Europa fora. Tem acontecido bastante. Eu tenho muitas saudades, como é evidente, eu escolhi medicina por vocação. E porque gosto muito de pessoas e porque gosto muito de ajudar, de tratar. Aliás, eu acho mesmo que a minha missão de vida são os outros. E, portanto Os anos que eu passei a exercer fazem-me falta. Fazem-me falta, deixam-me saudades. Tenho grandes memórias também dos colegas, do companheirismo que havia no ambiente de trabalho, porque tem de haver mesmo um espírito de equipa quando se é médico e se trabalha.

Trabalhava no SNS?

Trabalhei no SNS. Fui prestadora de serviços, tarefeira nas urgências hospitalares. E foi muito importante ter essa experiência, essa bagagem. Cheguei a fazer urgência hospitalar em Viana do Alentejo, em Montemor, sozinha a noite inteira. E era preciso ter estofo para situações que aconteciam bastante difíceis, em que nós não temos um suporte de equipa importante. Aliás, tenho uma história que vou tentar contar muito resumidamente. Na noite em que o Ferr morre no estádio, eu disse a brincar: "Agora vêm os benfiquistas todos com piripacos." E apareceu lá um rapaz, efetivamente benfiquista, a sentir-se mal e eu disse: "Estava a ver o jogo, não é?" Era brincadeira. O senhor estava mesmo a entrar em paragem cardíaca. Eu fiz tudo, não levei a coisa de ânimo leve, como é evidente. Fiz tudo, estabeleci ali todo o protocolo e pus-me em contacto imediato com Évora a avisar que tinha aquele caso. Ajudaram-me a estabilizar o doente e depois mandei vir os bombeiros: "Vocês vão agora a voar e passam por cima de todos os carros", porque eu não podia abandonar, porque estava sozinha a exercer, a fazer urgência. Portanto, o SNS merece todo o respeito.

Cátia Guerreiro, sobre isto: põe a hipótese de regressar ao exercício da medicina?

Eu vou dizer que eu durante muitos anos teimei que nunca ia abandonar a medicina e afinal abandonei. Lá está, nunca digas nunca. E portanto, eu não sei. Eu tenho sempre esta premissa de que nada é garantido na vida e portanto eu tenho o privilégio de ser artista e de andar pelo mundo. Se um dia isto, por algum motivo, tiver de ser interrompido, este meu ciclo bonito na música, claro que ponho a hipótese de voltar à medicina e serei muito feliz.

Muito bem, vamos avançar então para a última pergunta. Cátia Guerreiro, vamos viajar até ao Brasil. Qual foi a primeira capital do Brasil, ainda sob domínio português?

Foi o Rio de Janeiro ou São Paulo. Não sei.

Essa esteve mais próxima.

Então vamos lá, uma ajudinha.

Foi a mais próxima, não foi a última.

Recife, Rio de Janeiro ou Salvador?

Por que eu nunca espero pelas ajudas?

Então, você tem agora a chance.

Estou desesperada. Portanto, Recife, Salvador ou Rio de Janeiro? Não é a resposta. Eu ia apostar em Rio de Janeiro, porque nós tínhamos lá uma embaixada importante. Agora consulado.

Mas já disse há bocado Rio de Janeiro.

Eu disse Rio de Janeiro.

E nós não contaremos nisso.

Não coiso.

Portanto, sobra Salvador e Recife.

Pim, pam, pum. Salvador!

Ia seguir já o Euro Milhões.

O menos óbvio.

Saí daqui direta.

O menos óbvio, claro.

Era menos óbvio.

Mas depois logo a seguir foi o Rio de Janeiro.

Por isso é que eu estava a apostar no Rio de Janeiro, porque aquela embaixada é tão bonita.

Começou por ser em Salvador da Bahia. Nós, portugueses, temos uma ligação especial com o Brasil. A Cátia, também enquanto fadista, tem uma ligação especial com artistas brasileiros, com quem já colaborou. Existe mesmo essa ligação especial entre Portugal, ao nível da cultura e da música, em particular, e o Brasil?

Eu acho que nós vamos manter sempre uma ligação muito forte ao Brasil, seja a que nível for. Acho que a nível da cultura, sim. O brasileiro aprecia muito a literatura portuguesa. Há muitos estudiosos sobre os nossos autores. Acho que na música há uma linha que é muito difícil de ultrapassar. Eles são artistas em todas as esquinas, em todas as pedras da rua. E portanto, eles prestam atenção aos seus artistas e chegam perfeitamente. Há um respeito muito grande por parte da classe artística, do meio artístico brasileiro, pelos artistas portugueses. Eu cantei muito poucas vezes no Brasil.

Mas dizia, qual é a linha que dificulta a entrada dos artistas portugueses?

Eu não posso dizer que é uma barreira linguística.

Mas se calhar é.

Mas se calhar é. Mas eu acho que existe sempre uma ideia errada que o brasileiro tem do português. Eu acho que ainda hoje acham que a mulher portuguesa tem bigode e usa lenço preto.

Somos todos padeiros.

Somos todos padeiros, exatamente. Todos fazemos pão e as senhoras usam lenço preto e ainda têm bigode, porque ainda não descobriram o nome da depilação. E por isso eu acho que há sempre aqui uma distância do público brasileiro com a música. E o fado é aquela coisa triste que fala do António e da Maria.

Que é completamente contrário àquilo que é o espírito brasileiro.

Precisamente, que eles são festivos.

Alguma vez cantou o hino brasileiro?

Não.

Então, vamos continuar assim.

Exato.

Não vai jogar no Euro Milhões, mas e previsões para o ano, prognósticos para Portugal-Croácia?

Estamos a jogar com a Croácia.

E é o tudo ou nada. Ou passamos ou ficamos fora.

É o tudo ou nada. Eu vou ser muito otimista, como aliás é meu apanágio, e portanto, eu acho que nós vamos chegar a um 2 x 1.

2 x 1. Essa agora não é resposta certa nem errada.

Não há pontuação. Com gols do Ronaldo? Eu espero que sim, o rapaz merece.

E agora silêncio, que se vai cantar o hino na voz da Cátia Carreiro.

Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal, levantai hoje de novo o esplendor de Portugal. Entre as brumas da memória, ó Pátria, sente-se a voz, dos teus egrégios avós, que há de guiar-te à vitória. Às armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar. Às armas, às armas, pela Pátria lutar, contra os canhões marchar, marchar. Isto é de arrepiar, que maravilha!

Isto é a melhor maneira de combater o calor. É ouvir a Cátia Carreiro.

E à capela. E à capela, sim. É uma coisa sem rede. Vi sem rede. Fantástico.

Que privilégio. Parabéns, Cátia Carreiro, e obrigada por ter vindo à Rádio Observador.

Obrigada eu, é uma honra. Obrigada.