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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das Manhãs 360. Hoje é nosso convidado o escritor, autor, cronista e editor, eu podia estar aqui a manhã toda, Manuel Alegre Fonseca. Bom dia, bem-vindo, Manuel.

Bom dia. Muito obrigado.

Muito bom ter-te conosco. São cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedires ajuda e acertar, recebes dois.

Estou aterrado.

É caso para isso, ainda bem.

É caso para isso. Vamos começar com uma relativamente simples: como se chama o restaurante da Cinemateca Portuguesa? Tem o nome de um dos filmes de Hitchcock, muito requisitado na Cinemateca.

Deixa-me pensar, vê se eu consigo.

Vê se a senhora chega lá.

Vê se eu consigo chegar lá.

Esta foi de graça, Manuel.

"39 Graus".

Não dá aquele insight.

Eu tinha aqui os "Pássaros", "Janela Indiscreta".

Não, aqui não há suspense.

Não é fácil, porque o restaurante já foi feito depois da minha saída da Cinemateca há muitos anos, e eu não sou frequentador. Portanto, foi um esforço intelectual bastante exigente.

Seis pontos. O problema é que sem intenção não há audiência, como bem sabes, lamentavelmente.

Trabalhaste na Cinemateca, também foste produtor de cinema na Valentina de Carvalho. O cinema português está a passar por uma boa fase, Manuel?

Não faço a mínima ideia. Eu lamento imenso. As pessoas devem estar informadas e quando vêm aqui devem dizer coisas sensatas, mas a verdade é que não tenho ideia. Estou divorciado há muito tempo da produção cinematográfica em Portugal. A sensação que eu tenho é que se continua no mesmo ramram, ou seja, numa monotonia de produção que não consegue sair da subsidiodependência, em parte, grande esforço, certamente, de muitos dos pequenos produtores e novos produtores, mas na verdade, um divórcio total entre aquilo que é a produção, os objetivos de conquista de público e a criação de um imaginário. Pode haver até obras extremamente interessantes, minoritárias, possivelmente, mas a verdade é que não há aquilo que se constitui como um imaginário. Isto é, não há milhares de pessoas a ir às salas de cinema ver filmes portugueses. Um milhão de pessoas. Não há. E não havendo, realmente, as personagens, as histórias não entram dentro daquilo que nós chamamos o imaginário, não criam o imaginário.

Como é que isso se explica? Que Portugal seja, eu não tenho a certeza, será o país europeu em que menos espectadores veem filmes nacionais, mas se não é, o país anda lá perto. Como é que isso se explica?

Eu acho que tem a ver com o modelo de produção que nós estabelecemos, sem ser marxista e ter a ver com os meios de produção. A verdade é que tem a ver com o modelo de produção que se encontrou, que é um modelo que tem uma tendência dirigista, porque é preciso fazer as histórias, os guiões, os argumentos, eles têm que ser preparados para passarem por um crivo. E esse crivo é um crivo de mais ou menos ilustres decisores, que depois não têm nenhuma relação específica com aquilo que são as tendências do público. Ou seja, não há uma conquista do público.

Falas do ICA.

Falo do processo do ICA. E depois o divórcio que houve sempre entre os potenciais produtores, que deviam ser as televisões. Mesmo hoje, com a fragmentação televisiva que existe, com centenas de canais, esses canais estrangeiros que estão em Portugal deviam ter uma participação mínima e deviam fazer parte de um processo de produção que lhes interessasse e que se convertesse até em audiências para eles próprios. E há um divórcio, houve um divórcio total.

Nos anos 90 parecia ter havido um momento em que se tinham juntado as sinergias entre as televisões, algumas estrelas portuguesas, para criar sucessos de público de uma forma mais regular. Não sei se ainda estavas na SIC nessa altura, da produção de telefilmes.

Fui eu que os produzi.

Pronto.

Foram 21 telefilmes. Eu estive ligado à SIC. Houve um momento, no caso do cinema, sobretudo a SIC, com o Emídio Rangel e comigo, estávamos os dois juntos, ele era diretor de programas e eu era diretor adjunto, e realmente desenvolvemos uma relação específica com o cinema português, quer com o Tino Navarro, como produtor, quer com realizadores como António Pedro Vasconcelos.

Joaquim Leitão.

Joaquim Leitão. E depois criamos realmente uma unidade especial que durante três anos produziu 21 telefilmes, onde se descobriram novos talentos de guionistas, novos realizadores, atores, equipas, que trabalharam e que rodaram. E realmente esse podia ter sido o embrião, mas esse embrião, como todas as coisas, houve um momento em que a SIC perdeu a liderança das audiências, houve uma reestruturação e os meios internos não eram suficientes para continuar esse projeto. Acabou aí e morreu o que poderia ter sido realmente o embrião de uma modificação e de um casamento que é muito importante. Não tenho nada de contrário quanto à experimentação e à criação de obras herméticas e difíceis.

O cinema de autor.

São necessárias e é preciso que elas existam, como existem, por exemplo, no cinema americano independente, ou existiam no cinema americano independente há muitos anos.

Que também se transformou bastante.

Também se transformou bastante. Esse modelo também mudou. Agora, era preciso que tivéssemos criado um cinema que tivesse gerado o imaginário que, por exemplo, aqui ao lado, em Espanha, o cinema espanhol tem para o público espanhol e o que tem o cinema francês em França para os franceses. Não estou só a falar do cinema americano, esmagador, imperial e triunfante. Estou a falar também de outros países onde era possível.

Muito bem. Manuel Alegre Fonseca, vamos agora do país para o mundo. Mas continuamos a falar de cinema. Qual o filme com a maior receita de bilheteira de sempre?

Não é assim tão antigo.

Não é para ser muito antigo. As receitas são medidas e depois são revistas em função da evolução da moeda e do que é hoje atual.

São ajustados à inflação.

Ajustados à inflação e tudo isso.

Eu acho que este é consensual.

Esse é consensual.

O Manuel está a pensar: "Não só me fazem perguntas sobre cinema."

Não, calma.

Já vamos ao entretenimento.

Eu vou.

Queres as três opções?

Quero as três opções.

Então "O Rei Leão", "Titanic" ou "Avatar"?

É o "Avatar".

Certíssimo. Aliás, estive a ver isto precisamente para fazer esta pergunta, e James Cameron tem três filmes nas quatro primeiras posições.

É o "Avatar" e o "Titanic".

Os "Avatars" e o "Titanic". É uma máquina de fazer dinheiro aquele homem.

É uma coisa maravilhosa e assim arruinou a sua vida. Acabei de ler há dias um título, eu não li a entrevista, mas só vi o título da entrevista em que ele dizia: "Dei cabo da minha vida, da minha família, do meu casamento e tudo isso." Portanto, é realmente uma conquista maravilhosa, mas o facto é que ao mesmo tempo pagou uma fatura tremenda por ter o "Avatar" em primeiro lugar.

Mas o filme é de 2009, são quase 3000 milhões de dólares de receita, uma coisa brutal. Estávamos a falar de cinema português e o cinema em termos globais, o grande ecrã vai desaparecer e vai ser transferido cada vez mais para pequenos ecrãs ou não?

Eu penso que eu vou desaparecer primeiro. Vou dar o exemplo e tentar fazer um paralelo com os livros. Há 10 anos, há 11 anos, talvez pelas dificuldades da minha editora, que tinha passado por uma situação muito difícil de uma insolvência de um distribuidor e tudo isso, a minha sensação era que era impossível os livros resistirem. Havia um consumo tão intenso de ecrãs à nossa volta, nos telemóveis, na rua quando passamos, enfim, tudo. Havia ecrãs por todo lado e portanto era impossível que alguém tivesse sequer tempo para poder ler livros em papel, que era uma coisa em vias de extinção. A verdade é que nos últimos 10 anos, em todo o mundo, não só em Portugal, em todo o mundo o livro se reimpos como um valor, como um fator de entretenimento, como um fator de conhecimento, seja o que for.

Pessoas como tu terem apostado em editoras, a Guerra e Paz, por exemplo.

Essa é a razão pela qual hoje continuo. Pensei muitas vezes que não valia a pena e que ia parar. E não, hoje em dia. Se este tipo de processo se passará com o cinema, se é possível voltar-se a ter esse encanto que constituiu esse desafio e essa sedução que era entrar no escuro e nesse escuro participar de uma experiência psicológica intensíssima, que é a de identificação com rostos de sete metros por 10. Não sei se se repetirá ou não. Não faço ideia. Era bom que não se perdesse. Não sei se é possível também, quando se olha para a decadência hoje de Hollywood, que foi sempre o grande centro de referência.

De produção desse imaginário de que falávamos há bocado.

Tal como Platão é referência para toda a filosofia e todos acabam por falar de Platão nalgum momento, todas as cinematografias das africanas às asiáticas têm que se defrontar com esse monstro que se chamava Hollywood. E Hollywood está numa decadência total hoje em dia, e esse é um problema sério para o futuro do cinema.

Vamos ver se a morte é manifestamente exagerada ou não, mas vamos continuar com grandes referências, agora da televisão. Manuel Alegre Fonseca, como é que se chama o concorrente vencedor do primeiro Big Brother transmitido pela TVI?

Esta foi tão difícil como a primeira. Há coisas que nós sofremos na pele. Nós à altura estávamos na SIC e éramos a estação número um e liderávamos e de repente perdemos a liderança.

E foi nesse momento.

Exatamente. E lembramos de quem nos fez sofrer, a José Maria.

Pois é, o José Maria. Foi uma grande mudança aqui na lógica nacional também. E o futuro da televisão generalista, como é que vai ser?

Vocês estão a fazer um inventário dos mortos.

O que está aí escrito de inscrição.

Não sei se por acaso isto tem a ver com o aquecimento global ou não, a verdade é que não está fácil no futuro para as televisões generalistas também. Têm que se reinventar. Mais uma vez, não faço ideia. Estou afastado da televisão há 20 anos, seria de uma pretensão muito grande ter soluções. Agora, a perceção de que há um mundo totalmente diferente, mesmo a própria ideia de uma grelha de programação, de constituir uma grelha e ter um espectador sentado a ver essa grelha, é uma ilusão total. Hoje em dia, o domínio e o controle do aparelho está na mão, na voz do espectador. E as televisões generalistas confrontam-se com uma fragmentação total, com uma oferta pluralíssima, diversificada, dirigida a todos os públicos, que obviamente os divide. A televisão generalista era um negócio baseado na publicidade É tão simples quanto isso. É isso que era, sempre foi, não há outra ilusão. Depois faziam-se coisas maravilhosas, com certeza que sim, ou não, e coisas também terríveis. Mas tudo se baseava num princípio claro, e o princípio claro era o de que havia publicidade e havia consumidores pra essa publicidade, milhões de consumidores que estavam ali metidos no sofá a assistir. Essa receita acabou. Essa receita não existe hoje em dia.

Mas nesta época de dispersão e até dispersão da atenção, a televisão generalista não continua a ser o grande agregador, porque temos programas que mesmo assim têm um alcance de mais de um milhão de espectadores. Num tempo de tanta dispersão, nenhum outro meio consegue o mesmo.

É um pequeno agregador, porque já não se atingem os milhões que se atingiam, a não ser em dois ou três momentos muito especiais.

O futebol continua a ser sempre o líder de audiência.

Um deles é o futebol, outro serão situações de emergência, como quando fazem a guerra em direto.

Desde que não haja um apagão.

Desde que não haja um apagão.

Aí tem que ser a rádio.

Fazer a guerra em direto, quando é possível a televisão acompanhar e tudo, e a rádio substitui noutros momentos, é um parceiro completamente diferente. Mas sim, é necessário e é forçoso que exista essa possibilidade. Agora, essa possibilidade pode existir com todo tipo de canais. É possível encontrar-se soluções de comunicação, se for necessário fazer comunicação e juntar pessoas, através da televisão. Nos Estados Unidos, quando é necessário haver uma comunicação do presidente, os canais fazem todos uma paragem das suas programações para que seja feita aquela comunicação. É necessário, mas são momentos excepcionais. Deixou de haver a capacidade de ter o público SIC, o público TVI, esses públicos não existem dessa maneira.

E não há canais a mais em Portugal?

Isso não faço ideia. O mercado é livre e existirão todos os canais que encontram. Se houver canais de caçadores e de pescadores, e há muitos caçadores e pescadores, é natural que possa existir um canal e que eles existam. Desde que exista público.

Desde que exista público e modelo de negócio.

E modelo de negócio, não vejo por que é que hão de ser inibidos. Eu sou contra inibir canais? É que não.

Agora vamos para outro continente.

Sim.

Para outro continente. Não é bem mudar de assunto, mas voltar ao cinema. Só depois na pergunta. Como se chamava um dos cinés esplanadas em Luanda, na zona do Bungo, com vista pra Ilha de Luanda e perto da Marginal? Devia haver se calhar mais do que um, mas este era o mais famoso.

Esse...

Agora sim, estás a puxar pela cabeça.

Não, esse cinés esplanada, perto do Bungo, é o do Ferroviário. Não é o Miramar, o Miramar é lá em cima.

Então não é o Miramar.

Já acertaste.

O Miramar está localizado lá em cima.

Eu a fazer perguntas a especialistas.

Cá embaixo havia uma esplanada, que era a do Ferroviário. Não tinha era vista para a ilha. Tinha vista, mas má.

Sim, mas era o Miramar.

Andei lá alguns fins de ano, na esplanada. Agora, lá em cima, aquela que tinha a vista é o Miramar.

É o Miramar. E era esse que queria perguntar.

É um dos mais espetaculares cinemas do mundo. Luanda tinha duas ou três coisas. Infelizmente, já não tem o Miramar, ou seja, já está em decadência total.

Que já foi vendido.

Já foi vendido e será provavelmente um projeto imobiliário incrível. Agora, era um cinema fantástico. É uma coisa de sonho, é impossível descrever, porque às 18h caía a noite em Luanda, 18h15, e a partir daí havia projeções e estava-se a ver. Havia as luzes do Porto, Luanda, do caminho de ferro embaixo, a ilha depois a seguir, e o mar não se vê de noite, porque o mar é escuro. Mas havia essa visão toda que era possível partilhar com o ecrã quando os filmes não eram assim tão interessantes.

Tens saudades desses tempos?

Eu tenho uma nostalgia que eu considero ser positiva relativamente a Luanda. Adoro Angola, adoro o povo angolano, adoro os caluandas, adoro a cultura específica de Luanda, que vivi intensamente. Eu fiquei na independência, sou daqueles jovens que acreditaram que havia um futuro e uma nação nova que ia nascer no 11 de novembro de 1975. E portanto fiquei, acreditei e lutei. Adoro o modo de vida que tive na minha infância e adolescência, que é uma espécie de casulo que eu gosto de ter. Vou lá de vez em quando, tiro o bicho da seda e depois volto a pôr. Mas adoro isso como uma forma de me alimentar. Não tenho qualquer ilusão quanto à percepção de que isso, neste momento, é uma construção mental, que só existe já na minha cabeça e que não tem reprodução no terreno, na realidade.

Não teres ficado em Angola é uma mágoa?

É uma mágoa, não tanto pessoalmente, mas é uma mágoa a razão pela qual não fiquei em Angola. Isso sim, é uma mágoa. A mágoa de ver uma nação tornar-se pior do que aquilo que era, aquilo que se combatia, é uma coisa que nos dói bastante quando acreditamos e quando nos batemos para que uma coisa acontecesse. Isso se modificasse. Isso sim. Agora, pessoalmente, não. Pessoalmente, eu sair faz parte das minhas aventuras.

Saíste com que idade?

Vim para cá aos 23.

Vinte e três.

Vinte e três pra 24.

Claro, ainda foi uma boa parte da vida lá.

Para mim, saindo uma vida lá. Para mim foi importantíssimo sair, e acho importante que as pessoas saiam em qualquer país, em qualquer momento, porque é preciso conhecer coisas diferentes. Precisava também de me formar, eu vim estudar filosofia, acabei por estudar filosofia, que é uma coisa que não ia estudar, certamente, em Luanda naquele momento e naquelas condições. E portanto, tudo isso, do ponto de vista pessoal, foi positivo. Agora, o que é negativo e é mágoa, é ver uma nação ficar. A única coisa que sobrou daquilo que nós acreditamos é a dignidade de haver independência, não digo liberdade, independência. É a única coisa que sobrou, não sobrou mais nada, e isso é uma mágoa.

Faltou essa outra dimensão. Manuel Alessio Fonseca, vamos à literatura? Era a altura também disso.

Faltava a caixinha.

Faltava a caixinha. Qual foi o último romance de José Saramago publicado em vida? José Saramago morreu em 2010. O último romance dele foi em 2009.

2009. Quais são as hipóteses?

"A Viagem do Elefante", "Caim", "Claraboia".

"A Viagem do Elefante" não é, porque é uma coisa publicada anteriormente.

Não muito antes.

Não muito antes. Mas o "Caim" é o último.

Pois é, "Claraboia" já foi publicado depois, um romance que tinha sido rejeitado no início da carreira de Saramago. Estávamos aqui a falar-

Eu não sou especialista.

Pois não, não é editado pela Guerra e Paz.

Mesmo assim, a Guerra e Paz editou dois romances de Saramago.

Foi.

Num acordo com a Porto Editora, o Vasco Teixeira, o presidente da Porto Editora, foi suficientemente generoso para nos permitir uma edição, é uma história curiosa, que o José Saramago deixou em vida entregue a um editor, que é o José Cruz dos Santos, do Porto, que é um editor comunista, muito convicto das suas coisas e com uma grande relação pessoal com o José Saramago. José Saramago, nos dois romances que ele fez, "O Muralho do Convento" e o "Ensaio sobre a Cegueira", convidou dois pintores a ilustrarem esses livros. E o João Abel Manta fez 20 e picos ilustrações para "O Muralho do Convento" e o Rogério-

Rodrigues?

Rodrigues fez cerca de 12 para o "Ensaio". E isso foi uma coisa que ele deixou entregue ao cuidado do José Cruz dos Santos. O José Cruz Santos, não sei por quê, teve a simpatia de dizer que já não estava em condições de publicar, tinha muitas dificuldades, e trouxe-me e pediu-me, e eu publiquei, na verdade, o mérito é todo dele, mas eu publiquei em capa dura esses dois romances.

Que lindo!

Em edições limitadas.

Já não há à venda.

O Vasco Teixeira foi muito generoso.

Já estava a gente toda a pensar nisso.

Não suficientemente generoso para me deixar fazer edições alargadas, de modo que as edições foram curtas e obviamente estão esgotadas.

Estão esgotadas. Que pena.

Que pena.

Isto era uma ótima promoção. Mas estávamos aqui há pouco a falar da falta de um imaginário no cinema português. A literatura portuguesa tem um imaginário.

A literatura portuguesa, apesar de tudo, tem um imaginário. Criou, efetivamente, um imaginário. Há romances que desde o século XIX até hoje criam imaginário. Autores como Eça, Camilo, mas não só, "Os Cir daios de Fogo" do Jorge Sena marcou gerações. O Cardoso Pires marcou gerações. Saramago está hoje e marcou, goste-se muito ou goste-se pouco, marcou, de verdade. António Lobo Antunes é um autor cujos romances marcaram gerações.

E muito lidos, coisa que hoje parece já não acontecer tanto.

É que é mais difícil.

Houve ali nos anos 80 um período, quase diria a idade de ouro do romance português, em que autores como Lobo Antunes, José Saramago, Agustina Bessa Luís, mesmo Vergílio Ferreira, vendiam muitos livros, eram muito lidos.

Vendiam na ordem dos 50 e 100 mil exemplares, o que é uma coisa extraordinária. Hoje vendem-se 3000, 4000, quando se vendem 5000, 10000, é um bocadinho mais.

Quase nada.

Mas também se vendem menos nalguns casos.

Mas hoje edita-se muito mais do que se editava, não é?

O número de títulos que hoje se publicam anda na ordem dos 14 mil títulos anuais.

Que é bastante.

Embora, vamos lá ver, se eu editar uma nova edição d'Os Maias, é um título também, como é evidente. E estamos a falar de ficção, não ficção, não são tudo romances, mas sim, é mais difícil. Eu dou um exemplo, e agora não é para fazer publicidade, mas tenho uma trilogia sobre a guerra colonial de um autor meu, que é um grande camuniano e ao mesmo tempo tinha sido comando em Angola, que é o Rui das Neves Teixeira. A trilogia dele chama-se "Elogio da Dureza", "O Longo e Sereno Rio". São três romances que publicou comigo, todos sobre a guerra colonial. Que eu acho que deviam ser muito lidos, porque são vivências diretas que ele tem da sua experiência de oficial de comandos na guerra em Angola. E curiosamente, já não temos o mesmo tipo de público que se teve para os romances, por exemplo, de guerra, que o António Lobo Antunes escreveu e que outros autores publicaram.

O que as pessoas procuram mais? Romance, ficção, ensaio, autoajuda?

Não, autoajuda não. Mas ontem recebi a informação habitual que existe uma entidade que se chama GfK, que faz mede.

Trata das audiências de televisão, por exemplo.

No caso do livro, mede com base no sell out em cerca de 90% das livrarias portuguesas.

E depois faz uma estimativa para as restantes.

Não faz estimativas, é mesmo esses números que nos dá. Dá-nos o sell out. Aquilo que temos lá é mesmo os que foram vendidos.

Mas para as restantes livrarias, não.

Não, nós fazemos.

90% é quase tudo.

90% é muito, portanto, podemos pensar em 10%, estamos mais ou menos representados. E aí, por exemplo, o domínio do infantil tem um peso muito grande.

O que significa que se oferece livros às crianças, é uma boa ideia.

Dão os livros às crianças, os pais querem ler com elas. Eu tenho um neto de quatro anos, ele não lê, mas a mãe e os avós leem. É um consumidor. Ele diz que já sabe ler e depois já decorou um livro inteiro e diz o livro inteiro.

Está no bom caminho.

Está no bom caminho. Mas há um crescimento, aquilo que eu disse no início do programa. A verdade é que os livros cresceram muito. Todos os anos, o livro tem crescido. Neste momento, em relação ao ano passado, já tinha crescido em relação ao outro ano, desde a pandemia, o crescimento anda nos 7, 8, 9, 10% por ano. Neste momento, vamos com 9%, creio eu, de crescimento no valor e 7% em unidades de vendas. E uma das áreas que mais impulsionou as vendas é a do chamado New Adult. São os romances para o público mais jovem feminino.

Ali na transição.

Feminino.

Feminino, sobretudo, que é uma coisa impressionante. Curiosamente, eu acho que ainda tem mais crescimento, porque nesta medida em que nós estamos aqui a falar da GfK, não estão incluídas as vendas online, quer da plataforma Wook, quer dos editores, não estão lá. E muito desse romance é comprado online. Isso é que me assusta um bocadinho e me preocupa, essa mole humana interessantíssima de novo público que compra esses romances, não vai às livrarias.

Compra online.

Compra online.

Aliás, edições internacionais, às vezes.

E outro dos problemas que os editores portugueses estão a sentir, e é um problema que começa a ser preocupante, é a compra em língua inglesa neste momento. Tem um crescimento, a GfK também mede, e o crescimento é muito significativo. E isso é uma preocupação grande, porque inibe, nalguns casos, o editor português de publicar, porque uma parte dos livros estão vendidos 500, 600, 700 exemplares, qual é a expectativa que ele tem de vender a seguir a edição portuguesa seis meses depois, quatro meses depois? É difícil, não é fácil. Mas sim, é um universo em crescimento, com uma renovação de público e de público jovem. Quer dizer que há uma promessa de continuidade, sendo que vai ser preciso encontrar quais são os meios exatos de chegar a essas pessoas, e talvez não seja a livraria clássica, ou então a livraria clássica tem que encontrar formas de diretamente levar o livro e criar clientes nessas pessoas, numa relação que não é a da ida da pessoa à livraria.

Têm que ser apresentados aos vossos atlas, que são ótimos.

Manuel Leça Fonseca, gostámos muito de te ter aqui na Comissão de Inquérito. Foi um gosto. 19 Fontes.

Nós que vos agradecemos.

Obrigada, Manuel.