Um quarto das crianças moçambicanas nunca recebeu qualquer vacina, mas uma plataforma de inteligência artificial está a apoiar a identificação de zonas de risco no país, orientando decisões para reforçar a cobertura vacinal.

A plataforma Advanced Data Analytics Platform (PAAD), desenvolvida pela Zenysis Technologies, em parceria com o Ministério da Saúde de Moçambique e apoiada pela Gavi (Aliança para as Vacinas), está a ser expandida para mais de 80 distritos em seis províncias, depois de já ser utilizada aos níveis nacional e provincial em todo o país.

Segundo um artigo publicado esta semana pela Gavi, consultado este domingo pela Lusa, a ferramenta utiliza inteligência artificial e análise avançada de dados para integrar informação proveniente de mais de uma dezena de sistemas de saúde, permitindo às autoridades reunir num único local indicadores sobre vacinação, disponibilidade de vacinas e desempenho dos serviços.

O reforço da utilização da plataforma surge num contexto em que 24% das crianças moçambicanas são consideradas de “dose zero”, ou seja, nunca receberam qualquer vacina de rotina, de acordo com dados do Inquérito Demográfico e de Saúde de 2022-2023 citados pela publicação.

“Quando se tem dados espalhados por diferentes sistemas, é muito difícil compreender rapidamente o que está a acontecer”, afirmou Gabriel Risk Martins, diretor de parcerias da Zenysis, citado no artigo, acrescentando: “A PAAD dá às equipas uma visão mais clara da atividade de vacinação, disponibilidade de vacinas e outros indicadores num único local.”

Segundo a publicação, a plataforma ajuda as equipas de saúde a identificar áreas com baixa cobertura vacinal, detetar inconsistências nos dados e localizar comunidades onde existem lacunas na vacinação, reduzindo igualmente o tempo necessário para consolidar e analisar informação.

Na província da Zambézia, o responsável provincial de imunização, Alberto Jacenau, afirmou, citado na mesma publicação, que a utilização da ferramenta simplificou o trabalho de análise dos dados.

“A PAAD tornou o meu trabalho muito mais fácil; agora consigo concluir várias análises numa fração do tempo que antes levava mais de um dia utilizando o Excel”, explicou.

Os avanços tecnológicos coincidem com uma recuperação dos indicadores de vacinação e dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados pela publicação indicam que a cobertura da terceira dose da vacina contra difteria, tétano e tosse convulsa (DTP3) aumentou de 55% em 2022 para 70% em 2023.

O artigo recorda ainda que a tecnologia foi inicialmente utilizada durante a resposta ao ciclone Idai, em 2019. Após a integração de dados relacionados com um surto de cólera numa sala virtual de operações de emergência, os casos na província de Sofala passaram de cerca de 400 por dia para zero em menos de um mês.

Para Bertrand Pedersen, responsável interino de parcerias e inovação da Gavi, a experiência demonstra o potencial da utilização de inteligência artificial e análise de dados na saúde pública. “Quando a INFUSE [iniciativa da Aliança] selecionou a Zenysis há quase uma década, ninguém falava de IA para imunização. O que vimos foi a solução para um problema recorrente: os países tinham muitos dados que não podiam ser utilizados em conjunto”, afirmou.

Em setembro, Moçambique anunciou a expansão da PAAD dos anteriores 15 distritos para mais de 80 distritos em seis províncias, mantendo simultaneamente a utilização da plataforma aos níveis nacional e provincial nas 11 províncias do país.