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E começa agora mais uma conferência de imprensa das manhãs 360. Esta manhã escolhi um artigo que li na Visão. É mais uma história que tem a ver com inteligência artificial. Desta vez sobre uma ferramenta que simula conversas com pessoas que já morreram. Eu já explico, mas céticos ou menos céticos, o certo é que já tem mais de 3 mil utilizadores. Há quem use a inteligência artificial para procurar informações, outros para fazer os trabalhos de casa por si. Neste caso, as pessoas usam para manter a aparência de uma ligação. Pelo menos é esse o objetivo da plataforma Project December, que simula conversas com qualquer pessoa, até as que já não estão entre nós. O primeiro passo é preencher um formulário com as informações sobre a pessoa com quem pretende comunicar, dados como a idade, o relacionamento que tinha, se se tratava por alguma alcunha carinhosa, entre outros traços da personalidade do tal ente querido que já morreu. Todas estas informações dão depois origem a um perfil que simula essa pessoa. Atenção que estou a fazer muitas aspas com os dedos.
Nós confirmamos aqui desse lado.
A ferramenta está treinada para gerar respostas de texto às perguntas que lhe são feitas de uma maneira semelhante à humana e adaptada às características que foram introduzidas no tal formulário inicial. Cada hora de conversa custa $10, pouco mais de €9. O fundador conta que muitas das pessoas que recorrem a este serviço procuram uma forma de lidar com perdas repentinas, querem ter uma espécie de conversa final para poderem seguir em frente, mesmo que seja simulada esta conversa. Mas também reconhece que há quem permaneça como cliente. Ainda assim, recusa a ideia de que estas conversas se possam tornar um vício. Eu tenho as minhas dúvidas e não sou a única. Uma utilizadora que tem usado a ferramenta para conversar, outra vez entre aspas, com a mãe que morreu em 2018, aos 82 anos, encontrou neste Project December uma forma de, diz ela, reduzir a dor. Diz que ficou impressionada com os resultados assustadores que obteve, que houve momentos em que achou que tudo era real, mas também momentos em que sentiu que qualquer pessoa poderia responder daquela forma. Diz que foi uma forma de fazer o luto, mas admite que precisou de ter cuidado para não se envolver demasiado e deixou o alerta para que as pessoas não se apeguem muito a uma coisa destas, porque pode, de fato, ser muito perigoso e em vez de ser construtivo, ser autodestrutivo. Mais sobre este Project December, está na Visão.
Claro.
Muito estranho. Faz-me lembrar um dos episódios daquela série Black Mirror.
O Black Mirror.
O Black Mirror, sim. Que se aproxima disso. Mas não há voz, João. É conversa-
É texto, mas chegaremos rapidamente à voz e à imagem.
Seguramente. Sim. É o próximo passo, não é?
Basta olhar para a forma como está a começar a evoluir tudo que é inteligência artificial no campo da imagem, sobretudo. Da imagem, não só fotografia como vídeo.
E o pior é que depois há pessoas que mantêm isto, alimentam isto, sabe-se Deus bem, a ter aquela sensação, mesmo tendo noção que não é real.
Chegaremos mesmo à construção da pessoa do outro lado com um grau de realismo muito forte. Olha, para uma história mais leve. Há publicações, de fato, nas redes sociais que tomam proporções inesperadas, a começar pelo próprio autor. Esta pequena história é prova disso. A protagonista é Ryan Williams, tem 47 anos, é consultora de marketing e relações públicas no Reino Unido. E no início do ano, num passeio perto de casa, passou por Drayton House, que é uma casa senhorial, um daqueles palácios britânicos, do campo britânico, que serve de cenário a uma grande parte do filme "Saltburn", que foi escrito e dirigido pela realizadora Emerald Fennell, que já foi premiada com o Oscar. A protagonista desta história, não a realizadora, fez ali nesse passeio vários vídeos para o TikTok, e um dos vídeos mostra de fato Ryan Williams na parte de fora da propriedade, com uma legenda: "Quando vives perto da casa de Saltburn". E depois, num segundo vídeo, dá instruções detalhadas para aqueles que gostariam de visitar aquela casa. Ela explica como chegar ali à Drayton House, mostra mapas, mostra pontos de referência e até dá aquela dica muito útil, que indica qual é um bom sítio para estacionar ali perto para deixar o carro. Juntos, estes vídeos dispararam de visualizações, atingiram mais de 5,5 milhões de visualizações e a autora admite, de fato, que não fazia a mínima ideia de que o conteúdo que ela estava ali a colocar fosse tornar-se viral. Consequências disto: o dono do edifício, porque aquela casa tem um dono, já agora, aquele que fica em Northamptonshire, no centro de Inglaterra, deu uma entrevista agora há poucos dias. A visita dela passou-se precisamente no dia 1 de janeiro. Aquele passeio higiênico-
De início de ano
De início de ano e de ressaca.
Andar ar fresco na cara.
Exato. E agora nos últimos dias, o dono da casa deu uma entrevista ao tabloide britânico Daily Mail, onde revela que foi obrigado já a reforçar a segurança à volta da propriedade. Têm sido muitas as multidões que vão por ali a dirigir-se para o local para tirar fotografias, para se filmar à frente da propriedade, para visitarem aquilo, para seguirem o mapa que a senhora Williams decidiu colocar no TikTok. No fundo, o TikTok aqui a fazer aquilo que o cinema não fez, a tornar uma propriedade conhecida famosa. Ela tinha menos de 3 mil seguidores na sua conta quando isto aconteceu. O nome da conta, já agora, engraçado, era Better Be Known, que a tradução é livre: é melhor que seja conhecido. Portanto, ela basicamente fez aqui jus ao nome que deu à sua conta. E é uma pequena história. Já agora, eu não me lembro deste filme, filme protagonizado pelo irlandês Barry Keoghan. No fundo, conta a história de um estudante convidado para passar um verão na propriedade de um colega de curso, que é rico, chamada Saltburn, a propriedade, daí o nome do filme. E numa entrevista à CNN, a realizadora explicou que o filme explora um pouco aquele conceito de casa de campo britânica clássica e erótica. Estão a ver? Inspirada ali no "Brideshead", no "Viver Passado em Brideshead", no "The Help Queen". Aquele campo britânico endinheirado, digamos assim. Uma pequena história que eu li na CNN Portugal, mas vem da CNN internacional.
Mas está viral, como tu dizes.
Está viral.
Está viral. Enfim, nós andamos um bocadinho aqui no mesmo tom, Paulo, porque eu li um
Uma história da Guardian e prendeu-me precisamente por causa do título e tem a ver com a série da Netflix mais estranha do momento, e esta é mesmo estranha. É uma série sul-coreana. Há muita gente agora-
Sim, completamente. Agora já faz algum tempo
Esta chama-se "Chicken Nugget".
Já tenho lá para ver.
Mas tens? Já encontraste?
Ou já encontrei ou apareceu-me no vai estrear. Agora não tenho muita memória, mas já me apareceu.
Já te apareceu, então prepara-te, porque não há nada mais estranho do que esta série, porque conta a história de uma mulher que se transforma num nugget. Consegue imaginar alguma coisa mais estranha?
Meu Deus!
Enfim, o artigo diz que o princípio, pelo menos, lembra um bocadinho "A Mosca", e este filme se calhar nós já vimos todos, de David Cronenberg. Aqui a ação passa-se precisamente numa empresa onde um dia aparece uma máquina estranha, vá se lá saber por quê. Uma das trabalhadoras da empresa entra dentro da máquina e diz alto: "Nugget" e transforma-se num nugget. Pronto, o princípio é este. Agora, de acordo com o artigo, percebe-se que estamos perante uma produção muito barata, com efeitos especiais muito modestos e que provavelmente, perante este início de história, o espectador desiste da série. Diz que não. O autor avisa que isto vai ser um erro, porque a história merece efetivamente ser contada. Há uma cena logo a seguir a esta metamorfose, uma cena em que o pai desta jovem recorda as dificuldades que teve em educá-la, a morte da mãe, e diz que é uma cena, por incrível que pareça, é uma cena muito emotiva.
Vamos passar a olhar para os nuggets de outra maneira, com carinho, até.
Eu sei que passo pelo McDonald's depois disto.
A série fica cada vez melhor a partir deste momento. Fala-se cada vez menos deste fenómeno de metamorfose e mais da relação que se estabelece entre duas pessoas que tentam recuperar o nugget.
Claro, o nugget pai e o nugget filha.
Exatamente. E estabelece uma relação entre o pai desta rapariga e um colega de trabalho que tentam perceber o que aconteceu e como se pode reverter a situação. Há viagens no tempo, aparecem novas personagens. O autor do texto diz que a série fica cada vez mais entusiasmante. Admite que é muito bizarra, mas também garante que é uma ótima opção para quem gosta destas séries. E se ela tivesse os meios que, por exemplo, teve "Squid Game", poderia ter ainda muito mais impacto.
"Squid Game" era uma produção cara.
Era uma produção cara. Foi a terceira série mais vista de sempre da Netflix. Esta, "Chicken Nugget", talvez ainda não seja.
Mas as séries sul-coreanas têm tido imenso sucesso.
Em termos de rentabilidade, claro.
Claro, porque foi baratinha. Não se deve pagar muito a um nugget.
Claro, mas muitas vezes a produção barata é vista também e admirada pelo kitsch que isso representa. Aquilo é tão naïve, muitas vezes, a tentativa de efeitos especiais, que se torna quase um género de série de culto.
É estupendo, não é?
Claramente.
Esta, aparentemente.
Imagina que ela tinha dito salpicão. Era uma vida bem mais difícil. Disse nugget, vá. Correu menos mal.
Ainda não me apareceu. E o link é o da Guardian. Com uma alta recomendação para que insistamos nesta série.
Não desista ao primeiro ou segundo episódio.
Não desista à primeira dentada. Pelo menos o primeiro.