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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta terça-feira. Depois, para entrar em direto, só tem de ligar para o 91 002 41 85, número que também pode usar para nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, se preferir. Também pode deixar os seus comentários nas redes sociais ou através do site do Observador. Carla.
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer demitiu-se ontem sob pressão do partido e aparentemente para abrir caminho a Andy Burnham, antigo presidente de câmara de Manchester e que também ontem regressou ao Parlamento de Westminster depois de ganhar uma eleição intercalar. Starmer é assim o sexto primeiro-ministro a demitir-se em menos de 10 anos depois de David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak. Uma sequência sem precedentes na história recente do Reino Unido, uma instabilidade que aproxima uma democracia conhecida pela sua estabilidade da inconstância de uma Itália, isto quando a Itália até dá sinais de constância. No Contracorrente de hoje vamos tentar perceber se o falhanço de Starmer é fruto das suas próprias limitações ou se esta sequência de falhanços e demissões é antes um sinal da crescente ingovernabilidade das democracias modernas neste tempo de informação instantânea e de redes sociais. José Manuel, bom dia.
Bom dia.
Achas que têm razão aqueles que dizem que os ministros devem deixar de estar sempre a olhar para os telemóveis?
Boa pergunta, Carla. É uma das coisas que se diz agora na imprensa britânica é que os ministros faziam melhor em não passar a vida a olhar para os telemóveis, mesmo que não fossem a pensar nos TikToks, como agora acabámos de resto de ouvir no-
Exatamente. No Momentos de Glória
... Momentos de Glória. A questão tem muito a ver com a instantaneidade da política hoje, com a falta de tempo para, entre outras coisas, preparar que as medidas funcionem. E um dos paradoxos, ou das questões que se levantam depois desta demissão, é que nós tivemos destes seis primeiros-ministros, sete primeiros-ministros já com o Starmer, que tu referiste, alguns não tinham legitimidade eleitoral. Foi o caso de Theresa May, que chegou a primeira-ministra sem ter, depois fez uma eleição, correu-lhe mal. Foi o caso também de Liz Truss, foi o caso também de Rishi Sunak. Mas tivemos dois que tiveram grandes sucessos eleitorais e a quem as coisas depois correram muito mal. Tivemos Boris Johnson, que na altura até se dizia que tinha desfeito o Red Wall, o muro vermelho do norte de Inglaterra, precisamente. E agora tivemos Keir Starmer, que tem um dos resultados mais desequilibrados em termos de maiorias parlamentares do último século. É evidente que a votação em si foi das mais baixas. Teve apenas um terço dos votos, mas com isso elegeu dois terços dos deputados. Mas isso tem a ver com o sistema político inglês. O sistema político inglês é maioritário, isto é, cada círculo eleitoral elege um deputado, e esse deputado é o que tiver mais votos. Portanto, pode ser eleito com 20%, 22%. Só vai, por exemplo, quatro deputados ou cinco deputados a disputar fortemente aquele lugar, e isso acontece muitas vezes. Isso permite que se tenha uma enorme maioria, mas essa enorme maioria, os primeiros-ministros não conseguem às vezes geri-las, porque ao mesmo tempo que temos essas grandes maiorias, temos também a legitimidade própria de cada deputado, que responde perante os seus eleitores, que sabe que tem que prestar contas aos seus eleitores e de resto, a maior parte deles têm escritórios locais em cada círculo onde vai receber os eleitores todas as semanas. O sistema é muito diferente dos outros, mas habitualmente era um sistema que funcionava no sentido da estabilidade, porque proporcionava maiorias mais fáceis. Isto começou a dificultar-se nas eleições mais recentes, até porque começaram a aparecer partidos regionais com um peso muito grande e que dificultavam a constituição de maiorias sólidas. Estou a falar designadamente do Partido Nacional Escocês, o SNP, Scottish National Party. Mas o que agora temos é que mesmo com estas maiorias, os governos não se aguentam. E isso acontece em parte, não podemos atribuir só à inabilidade dos primeiros-ministros, se bem que alguns deles deram sinais de alguma inabilidade. E o próprio Keir Starmer era um político relativamente recente, a maior parte da vida dele ele foi advogado do Ministério Público, não era um político de carreira desde o princípio, e nunca conseguiu dominar completamente a linguagem da política, designadamente a forma de dirigir e controlar o seu grupo parlamentar. Mas independentemente disso, há outros problemas. Eu tenho ouvido muito, até porque agora faz 10 anos do Brexit, falar de como as coisas correram mal em Inglaterra por causa do Brexit. As coisas não correram bem, obviamente, sete primeiros-ministros é uma loucura. Mas o Brexit não conseguiu entregar aos eleitores ingleses, e esse é um dos grandes problemas e uma das razões da crise, aquilo que o Brexit de alguma forma prometia, que era o controle sobre as suas vidas. E muitos aspetos são uma sociedade globalizada, por definição, muito difíceis de controlar localmente. Mas mesmo assim, eu quando olho, por exemplo, para os números da riqueza por habitante, que é o valor mais significativo de três países europeus, a Inglaterra, ou melhor, o Reino Unido, a Alemanha e a França, apesar do Brexit, o Reino Unido foi o que enriqueceu mais. Não enriqueceu de forma homogênea, porque há uma grande diferença entre Londres e o resto do país, ou grande parte do resto do país, mas foi o que enriqueceu mais. Depois quando olhamos para a crise do sistema político, será que não há crise em França? Será que não há crise na Alemanha? Portanto, eu acho que esta ideia de de repente a culpa é toda do Brexit, é uma ideia que precisa no mínimo de ser revisitada, porque entre outras coisas, para fazer uma análise do que foram os impactos do Brexit, era preciso que não tivesse acontecido a Covid, que baralhou e desorganizou tudo. Tivemos dois anos completamente fora da mãe. E temos outro fator que parece ser determinante, mesmo assim, não só para o Starmer, apesar de Starmer finalmente começar a ver resultados de uma política que de resto começou com os conservadores, mas também eles não conseguiram ter resultados a tempo, que é o controle dos fluxos migratórios. E esse é, porventura, um dos temas mais difíceis de qualquer governo que aí venha para o Reino Unido, porque não é só o controle das migrações, é o problema da integração. O modelo dito multicultural do Reino Unido tem sido posto à prova nos últimos anos e em algumas regiões com um grau de tensão brutal, sobretudo precisamente no norte, de onde vem Andy Burnham, mas não precisamente em Manchester, é mais noutras regiões, designadamente Birmingham. Vamos tentar falar um pouco disto tudo, com a ajuda também de alguns especialistas, para tentar perceber até que ponto é que esta crise no Reino Unido é uma crise apenas do Reino Unido ou uma crise das democracias contemporâneas que têm dificuldade em lidar com uma coisa tão simples que é conseguir governar de forma consensual, de forma aceite pelos seus concidadãos.
Como estamos a ver em tantos países. Até já, José Manuel.
Exatamente.