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José Manuel Fernandes, quero hoje falar de respeito e gentileza no Contracorrente. Tens mesmo a certeza, Zé Manuel? É que às vezes parece que respeito e gentileza são temas fora de moda.
Talvez tenhas razão, porque, de fato, respeito e gentileza são capazes de estar fora de moda, mas há alturas em que quem não se dá ao respeito talvez não mereça respeito, e é disso que eu quero falar um pouquinho hoje. Tudo isto a propósito daquilo que na Europa já chamam o Sofá Gate. E talvez não seja caso para menos. Eu estou a falar do que se passou ontem em Ancara, a capital da Turquia, e que, na minha perspectiva, não foi só uma questão de falha no protocolo. Como sabes, o que se passou ontem em Ancara foi grave e, a meu ver, foi um sinal grave de várias coisas, e nenhuma delas é agradável. Talvez comece pela mais pessoal, que, a meu ver, é uma questão de educação e de gentileza.
Pronto, então já estou a ver que queres começar por Charles Michel, o presidente do Conselho Europeu.
Exatamente. Como sabes, os turcos montaram aquilo que eu acho que foi uma armadilha. Para uma cimeira com a União Europeia, é sempre preciso pensar que vão estar presentes dois presidentes, na prática três, neste caso seria o presidente turco. E depois os dois presidentes que vêm da Europa, que é o presidente do Conselho Europeu e o presidente da Comissão Europeia, neste caso, uma presidente. E eles, em vez de disponibilizarem três cadeiras, disponibilizaram duas cadeiras. Se fosse a primeira cimeira entre a Europa e a Turquia, talvez percebesse que podia ser um erro, mas não era. Já houve várias cimeiras e várias com Erdoğan. Elas foram sempre com as três cadeiras. Há várias fotografias que ontem circularam nas redes sociais em que saem os três presidentes sentados e desta vez só havia duas cadeiras. Nos vídeos que circularam ontem vê-se bem os três presidentes a entrar na sala, mais ou menos a par. E então acontece uma coisa extraordinária, que é Charles Michel, quando se apercebe que só há duas cadeiras, quase que corre para ocupar uma delas, o que significou que deixa Ursula von der Leyen sem lugar. Aliás, vê-se bem a surpresa, até vê-se bem a fúria da presidente da Comissão.
Vê-se, e até se ouve uma exclamação dela, não é?
Exatamente. Nesse momento, a minha pergunta é: o que é que devia fazer um cavalheiro, como se dizia antigamente, um senhor bem-educado? Levantava-se e dava o lugar à senhora. Isso digo eu que sou um pouquinho antiquado, como agora se diz. Eu devo ser daquelas pessoas que deixam entrar as pessoas primeiro nos elevadores, que esperam que as senhoras se sentem à mesa para depois se sentarem, isto é, coisas antiquadas. Vamos lá ser sérios. O exercício de Erdoğan em Ancara, como agora se diz, foi um exercício machista. A reação do belga, que preside ao Conselho Europeu, foi uma reação machista. O resto é conversa. E eu acho que devo usar este termo machista porque não é apenas falta de educação, falta de respeito ou falta de gentileza o que se passou.
Pois, mas também há quem considere que essa gentileza também é um gesto machista.
Peço licença para discordar, acho que a boa educação não é machista, porque o que se passou em Ancara foi um puro exercício de poder em que os homens levaram a melhor. Erdoğan sabia ao que ia, porque aquela reunião não era uma reunião qualquer, era para discutir uma decisão política da Turquia e uma decisão antifeminista, antimulheres, uma decisão em que a Turquia saiu do protocolo internacional contra a violência de gênero contra as mulheres. O que ele fez? Ele encenou, no fundo, uma violência de gênero, uma violência para subalternizar a mulher que neste momento preside à Comissão Europeia. É isto que está em causa. E subalternizou, porque a colocou a um nível inferior. Aquilo fez-me lembrar uma célebre fotografia, uma célebre cena em que Mao Tsé-Tung colocou num banquinho pequenino o Zhou Enlai, numa altura em que ele estava mal com Zhou Enlai, e então numa daquelas receções o pôs num banquinho pequenino, também numa foto oportuna daquelas. Aquilo não tinha que ser assim. O Charles Michel podia ter humilhado Erdoğan se tivesse levantado, dado lugar a von der Leyen. A von der Leyen tinha ficado sentada ao lado do Erdoğan e era o Erdoğan que saía humilhado. Mas o Charles Michel não foi capaz de fazer isso. Aquilo foi uma vergonha para todos nós europeus e foi uma vergonha, até porque objetivamente von der Leyen tem mais poder do que Charles Michel.
Mas formalmente não é bem assim.
Formalmente, a União Europeia nestas coisas, desculpa lá dizer-te assim, mas é um pouquinho uma treta. Custa dizê-lo, mas é isso mesmo. Eu não vou discutir quem manda mais. Mas toda gente sabe em Bruxelas que a máquina de Bruxelas responde a von der Leyen, não responde ao presidente do Conselho. Todos sabem isso. Mas o mais importante nem é isso. O mais importante é que a humilhação que a Turquia impôs à Europa foi uma humilhação horrível. E mais uma vez, foi uma humilhação. É bom não esquecermos que ainda há apenas dois meses foi a Rússia a humilhar a Europa e a humilhar aquilo a que propositadamente chamamos o Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, que é um espanhol, neste momento, chamado Josep Borrell, mas que é um cargo que, na verdade, vale muito pouco. Na altura, um número significativo de deputados europeus pediu a demissão de Borrell, depois de ele ter ido a Moscovo e depois, ao lado do ministro Lavrov, ter sido Passado feito uma figura triste. Só que esse pedido de demissão não teve consequência nenhuma, ninguém ligou peva. Ninguém, de resto, liga nenhuma à política externa da União Europeia, porque na prática é como se não existisse. Temos que ser diretos. De facto, há uma política externa alemã, uma política externa francesa, uma política externa espanhola, no limite uma política externa portuguesa, agora política externa da União Europeia é que não existe. Por isso, eu acho que iremos de humilhação em humilhação.
Pelo que dizes, não vejo grande otimismo no que respeita à política externa da União Europeia.
Estás um bocadinho como eu e como o Kissinger. Para quem é que eu ligo ou lá o telefone para que ligue? Não vês nem podias ver. Sabes qual é a conclusão da cimeira de ontem? Dar mais dinheiro a Erdogan, para Erdogan não deixar passar refugiados da Síria para a Europa. Basicamente, o que nós estamos a fazer é pagar a Erdogan para não ver crianças sírias afogadas nos estreitos do Mediterrâneo. Estou a ser um bocadinho cínico, mas é isso. Quer isto dizer que as crianças sírias são tratadas com mais humanidade? Quer isto dizer que os refugiados sírios têm mais esperanças de um futuro digno? Eu tenho as maiores dúvidas. Acho que tudo se passa longe dos nossos olhos, longe da nossa imprensa e por isso não nos incomodamos. Como eu digo, é cinismo puro. E foi isso que ontem se discutiu em Ancara. Ontem em Ancara, Erdogan fez questão de humilhar uma mulher, que até é presidente da Comissão Europeia, e o presidente do Conselho Europeu não foi capaz de estar à altura, não foi capaz de ser um gentleman, não foi capaz de se comportar como um senhor bem-educado. Em vez disso, ontem em Ancara, a Europa foi pedir a Erdogan para continuar a esconder o problema dos refugiados. Sem meias-palavras, sem diplomatices a treta, foi isto que se passou. Sinceramente, acho que ontem a União Europeia, mais uma vez, não se deu ao respeito. Por isso eu pergunto: será que quem sistematicamente não se dá ao respeito, merece respeito? Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.