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Bom dia. Tem muito a ver, apesar de à primeira vista não parecer.
Pois.
Como tu disseste, a Páscoa é uma festa móvel que tem a ver com a lua cheia. Basicamente, é o primeiro domingo a seguir à primeira lua cheia, a seguir ao começo da primavera. É assim que se fazem as contas. Ora, isso permite o tal lapso de tempo entre 22 de março e 25 de abril, é até um pouco mais de um mês.
Pois.
Precisamente porque este calendário é determinado pelos ciclos lunares cruzados com os ciclos solares. E acontece que as marés têm uma maior amplitude na lua cheia e na lua nova. Se tivermos um acontecimento, como é o caso da Páscoa, a ocorrer perto de uma lua cheia, e obrigatoriamente tem que estar relativamente perto da lua cheia, este ano até está bastante distante, porque fica quase a uma semana de distância da lua cheia, mas acontece perto da lua cheia, mas a Sexta-feira fica mais perto, por assim dizer, e a Quinta-feira também, a véspera. E portanto, a amplitude é maior do que é habitual. Ora, quando a amplitude é maior, isso quer dizer que na maré baixa há mais rochas descobertas. Havendo mais rochas descobertas, é mais fácil apanhar mexilhão. É esta a época do mexilhão e outra das tradições judaicas e cristãs deste período são os jejuns e, em concreto, nas sextas-feiras não se come carne. Na tradição cristã, sobretudo na Sexta-feira Santa, tem que se comer algo que não seja carne de animais e a possibilidade de comer mexilhão surge como sendo uma das saídas. Se andares por aqui pelas praias de Cascais, a zona de Cascais não tem assim muitas rochas, mas um pouco mais adiante para a caminho do Guincho, já começa a haver rochas. Se andares para essas praias, se fores às praias aqui de Sintra, às praias de Mafra, Ericeira, por exemplo, há muitas praias aí cheias de mexilhão e este fim de semana, ou melhor, eu julgo que hoje, porque amanhã a maré baixa cai já muito em cima da hora de almoço, mas sobretudo hoje, vão estar cheias de pessoas à procura de mexilhão para a refeição de amanhã. Não vamos falar de outras tradições, não vale a pena entrar por elas, que têm mais a ver com questões locais e sociais. Dito isto, tem muito a ver com a ligação com calendários. E tu referiste que de facto a Páscoa é uma festa móvel, o Natal não é. Isso tem a ver com a definição exata do dia de Páscoa. Vê lá, tu, faz este ano 1700 anos. Também há aqui uma coincidência. Foi no Concílio de Niceia, que fica na atual Ásia Menor, na Turquia. Foi um concílio convocado pelo imperador romano que se converteu ao cristianismo, Constantino I, e que, entre outras coisas, definiu algumas divergências teológicas que havia na cristandade nos primeiros anos, designadamente a natureza divina de Jesus, mas também definiu o critério para a Páscoa. E esse critério tornou-se diferente do critério da Páscoa judaica. Por quê? Porque a Páscoa judaica, sendo uma festa móvel no calendário que nós temos hoje, que é o chamado calendário gregoriano, mas vamos falar um bocado melhor disso e explicar. Isto dos calendários é uma grande complicação, digo-te já. Mas sendo uma festa móvel, a Páscoa, no calendário judaico, é uma festa fixa. Decorre entre o dia 15 e o dia 22 do mês hebraico de Nissan. Só que a forma como se organiza o calendário judaico é diferente da forma como se organiza o calendário Católico. E essa organização tem a ver com a questão de como é que nós conjugamos os vários movimentos que permitem fazer um calendário. E quais são esses movimentos? É o movimento da Terra, um dia é um dia. É uma rotação inteira do nosso planeta. Depois, o ano é uma translação do nosso planeta, uma volta completa ao Sol. E temos ainda os meses, que têm a ver com o ciclo lunar. Só que o ciclo lunar tem a ver com a translação da Lua à volta da Terra. E isto desde tempos imemoriais, nos vários calendários. No calendário mais antigo de todos, que é o calendário chinês, estão sempre presentes estes vários movimentos. Estes três movimentos. O problema é que eles não coincidem exatamente. E como é que se fazem acertar ou não esses movimentos foi um problema resolvido de maneira diferente no tempo dos judeus, depois no tempo de Júlio César, e ficou o calendário juliano, que ainda hoje é o calendário que é seguido pela cristandade ortodoxa. Depois nós temos o calendário gregoriano, que é uma coisa relativamente recente, do século XVI, e que acertou uma pequena divergência que havia de dias entre o ciclo solar e o ciclo lunar. Tem a ver com os anos bissextos e com a forma como se calculam os anos bissextos e em que anos é que não há anos bissextos. E depois temos, finalmente, o calendário islâmico, que é um calendário exclusivamente solar. É por isso, por exemplo, que a festa mais conhecida dos muçulmanos, que é o Ramadão, anda por todo o ano. Não é apenas uma festa móvel, dá a volta ao ano todo, anda pelo ano todo. Vamos falar um pouquinho disso tudo e também da origem de outras tradições, até dos ovos da Páscoa, porque é que na Páscoa comemos ovos, que não eram inicialmente de chocolate, como deves imaginar.
Claro.
O chocolate não está presente na história da humanidade desde o princípio.
Mas a comida está, não é?
Pelo menos na história da humanidade ocidental. Temos muita coisa pra falar.
Muito a falar.
Muitas coisas engraçadas.
Até chegar.