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No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes, bom dia.
Bom dia.
Quero aproveitar para falar um pouco dos temporais e das cheias que marcaram estes últimos dias.
Sim. Apesar desta crônica ser a última antes do Natal, amanhã não estaremos cá.
Sim.
Não venho falar do Papai Noel, eu farei uma conversa amanhã, por acaso, com o Eduardo Sá à tarde, precisamente sobre o Papai Noel. Mas hoje quero falar das chuvas e dessas cheias pra notar que elas foram, no essencial, normais. Encheram um pouco os reservatórios, mas foram normais. Houve alguns prejuízos, talvez que pudessem ser evitados, mas isso é outra conversa.
Mas achas que foi mesmo tudo normal? Ontem, na zona do Mondego, por exemplo, houve diques que rebentaram, povoações que tiveram que ser evacuadas. Isso é normal?
Vamos separar as coisas. Primeiro de tudo: costuma dizer-se que uma das nossas piores memórias é a memória meteorológica, e eu acho que é mesmo verdade. De facto, a única grande novidade mesmo destes últimos anos, eu diria até que das últimas décadas, é termos deixado de ter cheias todos os anos. O Mondego, por exemplo, que foi onde houve mais problemas, era conhecido em Coimbra como o Basófias, que eu acho que já quase ninguém o trata assim. Por quê? Porque o Mondego era um fiozinho d'água no verão, mas literalmente, ficava quase seco, e depois saltava as margens no inverno. Mas sempre. Costuma inundar, por exemplo, a baixa de Coimbra. Todos os nossos rios têm, de resto, um regime como este, sobretudo os rios mais ao sul, porque são rios mediterrânicos. Portanto, ficam quase secos no inverno e depois têm grandes cheias no verão. Ao contrário, perdão.
Sim.
Há uma enorme diferença entre os dois caudais. Hoje em dia, quase nos esquecemos disso. Por quê? Porque existem barragens a regularizar os caudais em quase todos os rios.
Explica lá isso um pouco melhor, das barragens.
Ora bem, o que acontece com as barragens? As barragens servem pra encaixar e guardar a água que cai durante o inverno e depois ir largando a água durante o verão, paulatinamente. Em muitos aspectos, de resto, nós criamos rios quase artificiais. E o Mondego é, talvez, de todos os nossos rios, o mais artificial de todos. As cheias lá praticamente quase desapareceram, como eu disse, sobretudo porque são amortecidas na barragem da Aguieira, a montante. E depois, no baixo Mondego, o rio hoje corre quase todo entre diques. O velho leito é apenas uma memória. Aliás, quando passamos, quem vier de avião do Porto pra Lisboa e olhar, vê às vezes os restos do velho leito, e depois vê um rio muito direitinho e entre diques. A zona de Coimbra, que ficava a seco no verão, aquela zona em frente a Coimbra, hoje em dia está sempre com rio, mas por quê? Porque construiu-se a ponte Açude e tem aquele espelho d'água, que é muito bonito, onde as pessoas até andam de caiaque e de canoa, mas aquilo não era assim habitualmente. Claro, tudo isto tem um custo ambiental. Teve um custo pro povoado de Choupal, teve um custo para todas as zonas ribeirinhas a jusante de Coimbra e também implica constantes obras de manutenção nos diques.
Porque pras povoações podem ocorrer cheias, que são sempre uma catástrofe.
Claro. Esta catástrofe acontece também muito porque nós já nos desabituamos de viver com as cheias. No Tejo e no Douro, e no Mondego, as cheias eram praticamente comuns. Aconteciam todos os anos. Às vezes eram catastróficas e eram, de facto, muito grandes, mas as outras faziam parte da rotina. Eu, aliás, recordo-me, não podia deixar de me recordar, porque uma das primeiras reportagens marcantes que fiz, tinha 21 anos, deve ser, portanto, foi há mais de 40 anos. Eu ainda era um miúdo, posso dizer, foi de umas cheias no Ribatejo. E essas sim foram cheias grandes, foram as cheias de fevereiro de 1979. Foram as maiores desde 1941 e julgo que não houve nenhumas outras tão grandes como essas desde então pra cá. Eu, na altura, fui levado por uns pescadores num barco a remos, uma coisa incrível, até Caneiras. Caneiras é uma povoação que fica perto de Santarém, onde nesse tempo as casas todas ainda estavam construídas em cima de estacas, precisamente pra se protegerem das cheias. Eu tenho ainda muito bem presente as imagens desse dia, ver a campina completamente alagada e também muito bem presente o que era a miséria daquela aldeia. Eu já lá voltei depois e é uma coisa completamente diferente hoje, e já não estão todas as casas em cima de estacas, o que é sinal de que as cheias já não chegam ali com a mesma regularidade. Eu lembro-me do título da reportagem. Lembro, não, ainda ontem o vi novamente. Lembro que era: "As cheias cobriram de água os olhos dos camponeses" e, curiosamente, nesse mesmo jornal, escrevia um outro artigo cujo título acho que podia ter sido escrito outra vez hoje, que é: "Nem um só de chuva se faz uma cheia".
E ainda tens esse jornal?
Por acaso, não tenho. Não tenho, mas tenho pena. Mas posso citar esses títulos porque há uns anos precisei de consultar pra uma outra investigação e guardei umas fotocópias.
E deve ser, de facto, uma memória incrível, porque agora é muito raro acontecerem este tipo de cheias no Ribatejo, principalmente nesta zona.
De facto, não consegui verificar totalmente, mas julgo que as últimas cheias que houve no Ribatejo assim grandes foi em 2001. Um ano em que, de resto, houve cheias em todo o país. Foi o ano em que também houve diques rebentados no Mondego. Sobretudo, foi aquele ano, todos nos lembramos, em que houve As águas do Douro arrasaram a ponte entre os rios. E aí é que eu chego ao meu ponto. Existirem cheias nos grandes rios, com grandes bacias hidrográficas, é normal, porque apesar das barragens, elas não conseguem amortecer todas as águas que às vezes caem.
E então o que é que não é normal aqui?
Aquilo que eu acho que não é normal, ou pelo menos que podia ser evitado, é a degradação das infraestruturas, nomeadamente a degradação dos diques. É a realização também de obras mal feitas e por isso importa, por exemplo, perceber se aconteceram ou não obras mal feitas no desassoreamento do Mondego em Coimbra, como a Quercus acusou e que agora acho que importa perceber. É, por exemplo, não ter construído como devia ter sido construído. A principal linha ferroviária do país devia ter sido feita num plano mais elevado para que ela não tivesse ficado interrompida e ficasse vários dias debaixo da água. Depois há também outros erros. Esquecemos que, por vezes, quando ocorrem cheias, queremos esquecer que não devemos construir em leitos de cheia. Construir em leito de cheia, como muita gente continua a fazer, quer nestas zonas onde as cheias são relativamente lentas, mas sobretudo nas zonas de cheias rápidas, que são as zonas mais urbanas, é criminoso e é um crime em que colaboram muitas autarquias. Isso é tema para uma outra discussão longa. E vá lá que a Elsa e o Fabián foram, apesar de tudo, tempestades relativamente moderadas, se compararmos com outras que já vivemos. Mesmo assim, infelizmente estragaram o Natal a muitas famílias e por isso desejo bom Natal a toda a gente, mas desejo sobretudo bom Natal a estas famílias e deixo a elas o meu voto de solidariedade. Contracorrente com José Manuel Fernandes. À conversa com Miguel Cordeiro, na Rádio Observador, quinta-feira, nova edição, não perder, depois das 20h10. Eu sou o José Manuel Fernandes, obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.