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Bom dia.

Bom dia.

Bom dia, José Manuel. E hoje começa oficialmente a campanha para as eleições autárquicas de 12 de outubro. São centenas de eleições diferentes, milhares, se considerarmos as juntas de freguesia. Mas como se costuma dizer, entre elas há umas mais iguais do que outras e é nelas que se deverá centrar a atenção política e se vão retirar ilações na noite eleitoral sobre quem ganhou e quem perdeu. Com muitos presidentes de câmara em fim de mandato e depois do sucesso do Chega nas recentes legislativas, são também umas eleições com muitos aspetos imprevisíveis. E é disso tudo que vamos falar no Contracorrente de hoje, não é, José Manuel? Prognósticos só no fim do jogo?

É daquelas frases que se calhar aplica-se bem a estas eleições e por vários motivos. Primeiro, porque de facto é muito complicado prever o resultado de eleições autárquicas, porque são muito diferentes e a motivação dos eleitores também não é exatamente a mesma de eleições legislativas. É evidente que há pessoas que têm algum humor à camisola, digamos assim, e votam por regra nos mesmos partidos, mas gradualmente, com a própria evolução do poder local, nós fomos verificando que o peso dos candidatos é muito grande. No princípio, isso acontecia sobretudo em municípios pequenos, onde as pessoas conhecem todas umas às outras e pequenos partidos às vezes ficavam com candidatos que se zangavam com os partidos grandes e conseguiam eleger presidentes de câmara. Hoje, isso evoluiu. Nós já temos um número muito significativo de presidentes de câmara que são eleitos por listas independentes. Nas últimas eleições foram 19. Não sei quantas é que sairão destas. Listas independentes já conseguiram eleger presidentes em câmaras muito relevantes, por exemplo, no Porto, quando foi Rui Moreira. Aqui em Sintra, estiveram quase a eleger uma vez, ficaram muito poucos votos da eleição há 12 anos. Portanto, há situações em que isto tem evoluído, muitas vezes evolui surpreendendo os analistas, surpreendendo as empresas de sondagens. Tivemos momentos em que isso aconteceu de forma a deixar-nos de boca aberta, a eleição do Porto em 2002, a eleição de Lisboa há quatro anos, a eleição de Sintra também em 2002, enfim, muitos outros casos um pouco por todo o país. E agora vamos ter umas eleições que eu diria que em muitos aspetos são bastante abertas e reúnem alguma expectativa, talvez mais expectativa do que é habitual. Primeiro que tudo, estamos no fim de um daqueles ciclos de 12 anos. Desde que mudou a lei dos mandatos autárquicos e os presidentes de câmara e a limitação de mandato, os presidentes de câmara não podem fazer mais do que três mandatos consecutivos. Nós mais ou menos de 12 em 12 anos temos muitas mudanças, porque há muitos presidentes de câmara que deixam de ser os incumbentes e, portanto, há corridas mais abertas, por assim dizer, para essas autarquias. Só para te recordar, nós tivemos no final de 2001 aquela famosa eleição com muitas surpresas que acabou por levar à admissão de António Guterres, em que de repente o PS perdeu a maioria que tinha e o PSD ganhou-a. Muitas eleições absolutamente surpreendentes. Lisboa, por exemplo, foi uma delas, em que ganhou Pedro Santana Lopes na altura. Não foi só o Porto, não foi só Sintra, foram muitas câmaras importantes. 12 anos depois, em 2013, o ciclo mudou completamente. O PS reconquistou a Associação Nacional de Municípios, era António Jesús o líder, conseguiu praticamente metade das câmaras nessa altura, aumentou ainda em 2017, aguentou em 2021 e agora tem um desafio grande pela frente. Há quem diga, enfim, estudos de uma empresa de sondagens, a GfK, que o partido enfrenta riscos de forte erosão eleitoral em 79 municípios, é mais de metade do que aqueles que têm hoje a presidência de câmara. Eu não creio que isso vá acontecer. O PS, apesar de tudo, tem uma vantagem grande sobre o segundo partido autárquico, que é o PSD, em número de presidências de câmaras. É isso que determina depois quem vai ser ou não presidente da Associação Nacional de Municípios. Mas além disso, há muitas corridas com que vamos estar atentos, que são aquelas que habitualmente têm as sondagens, têm figuras de primeiro plano dos partidos e, portanto, são relevantes Porto, Lisboa, Gaia, Sintra, Cascais, as capitais de distrito, com destaque desta vez para Braga, para Coimbra, para Aveiro, para Faro. São todos locais onde vamos prestar atenção e, portanto, o destino destas eleições é muito imprevisível. E é muito imprevisível em boa parte porque não se sabe bem o que o Chega vai conseguir fazer. O Chega teve um resultado surpreendente para muitos há apenas alguns meses nas eleições legislativas. Nós sabemos que os resultados do Chega dependem muito de André Ventura. André Ventura está encartazado por todo o país ao lado dos candidatos a presidente da Câmara, mas também estava ao lado do candidato ao Parlamento Europeu e esse candidato teve muito menos votos do que o Chega aqui no ano passado, quando foi a eleição para o Parlamento Europeu. Portanto O candidato vale muito localmente e há mais alguns pontos de interrogação, nomeadamente saber a quem é que o Chega rouba votos ou se o Chega vai, sobretudo, buscar votos à abstenção. Isto é relevante até porque a abstenção nas eleições locais, há um estudo recente que saiu sobre isso, tende a ser maior nos grandes centros urbanos e mais pequena nos municípios pequenos. É muito aí que o Chega tem força e, portanto, não sabemos bem o que vai acontecer a essa gente que foi votar, porventura alguma dela pela primeira vez, nas últimas eleições legislativas, e agora volta às urnas, o que vai fazer. Se vai roubar votos ao PS, se vai roubar votos à CDU, se vai roubar votos às coligações em que está o PSD, é muito difícil de prever. Estas eleições são eleições em que as figuras locais têm muita importância e em que as pessoas têm que votar três vezes, votar para a Câmara, para a Assembleia e para a Junta de Freguesia, e muitas vezes põem cruzinhas em partidos diferentes na mesma votação. Portanto, votam num para um lado, noutro para outro. São eleições muito abertas. Mas vamos falar um pouco disso tudo, recordar o que está em causa, tentar perceber o que podemos prever ou não prever e ter a ajuda de alguns especialistas.

Muito bem, são muito imprevisíveis estas eleições. Até já, José Manuel.

Até já.

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