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Daríamos a chave da nossa casa a um desconhecido? Não, mas damos ainda mais a entidades sem rosto que estão do outro lado da rede. Um em cada quatro portugueses já terá sido vítima de fraude digital. Entre 2022 e 2024, os crimes informáticos cresceram 200% em Portugal. E agora, enquanto soam os sininhos de Natal, será, Helena Matos, bom dia, podemos estar a atingir um pico de fraudes informáticas?

Sim, pelo menos isso é o que avisa e reavisa quem trabalha nesta área. De facto, o Natal é particularmente propício a determinado tipo de fraudes, não só porque as pessoas querem e fazem muitas compras e transferências, mas também porque o próprio espírito de Natal, com aquilo que tem de alguma boa vontade, alguma pressa, faz com que se baixem as poucas barreiras que temos face a este tipo de crime. Nós, individualmente, na verdade, parece, dizem os especialistas, e é disso também que falaremos hoje neste Contracorrente, baixamos muito aquilo que devia ser o nosso espírito de segurança face a este crime. Lembram-se da história das perceções? Pois aqui muitas vezes não temos perceção alguma. É certo que tudo isto tem uma longa história, terá começado, ou talvez não, nós costumamos dizer que no princípio era o e-mail do príncipe da Nigéria. Na verdade, talvez a história do e-mail do burlão da Nigéria, que umas vezes era príncipe, outras não, que pedia dinheiro para um tratamento, para fugir do país porque era perseguido, ou para que pudéssemos receber uma herança, até terá sido precedido, veja-se lá, por um vírus propagado em 15 de agosto de 1986. Não, aqui estou a enganar-me. 15 de agosto de 1986 foi quando a Universidade do Minho enviou um e-mail, e esse está na história. Mas até antes disso teríamos tido um vírus que era distribuído em disquetes, que roubavam os ficheiros de computador. Hoje em dia, é claro que é tudo muito diferente. Estamos a falar de um crime que cresce com percentagens assustadoras. Entre 2022 e 2024, os crimes informáticos cresceram 200% em Portugal. Isto é um número a ter em conta. E quando olhamos, por exemplo, para aquilo que são os dados do relatório de segurança para este tipo de crimes, nós discutimos muito os relatórios de segurança interna para os outros tipos de crime, agressões, homicídios, violações. Curiosamente, sobre este fazemos uma espécie de blackout, não nos interessamos, isso é lá com eles, mas quando começamos a ver a lista é mesmo ficarmos muito preocupados. Sobretudo, e não menosprezando os enormes prejuízos que empresas privadas tiveram, os enormes problemas pessoais que muitas pessoas tiveram, até porque nós temos aqui também um tipo de crime, que é uma espécie de fraude sentimental, muitas vezes associada à fraude económica. Temos também aqueles crimes que incidem, muitas vezes, sobre os mais novos. Aquelas pessoas que são pressionadas a que se despirem para depois serem filmadas e os vídeos são divulgados, cenas sexuais. E não, de modo algum, menosprezando o sofrimento terrível, porque arrasta-se durante anos esse tipo de crime, e a chantagem e a agressividade que isso implica. Quando nós olhamos para os principais incidentes em 2024 em Portugal, percebemos que temos uma administração pública, também ela não só muito exposta, mas com sinais muito graves de vulnerabilidade. Nós no ano passado tivemos, em diferentes meses, o roubo de centenas de credenciais de organismos da administração pública. Isto é muito complicado, porque estamos a falar de administração pública. Tivemos também muitos ataques a serviços de saúde, ao SNS e também a operadores privados. Tivemos mesmo o SNS, por vezes, alguns hospitais com a sua atividade semissuspensa por causa desses ataques. Tivemos também roubos, aqui já na parte privada, de empresas do setor industrial. Portanto, estamos a falar de um crime em que nós entregamos a chave a alguém e, como acontece nesta época do ano, ouvindo sininhos de Natal ao fundo. Portanto, acho que temos muito para falar. É mesmo uma coisa natalícia. Sim, um assunto natalício.

Isso é inesperado, mas natalício. Até já, Helena.

Inesperado, mas natalício. Sim.

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