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José Manuel Fernandes, bom dia. Queres hoje trazer para o Contracorrente muitas dúvidas, porque dizes que estás farto. Farto de quê?

Bom dia. Bom dia. Bom dia para dizer que, para ser franco, estou um pouco farto do medo, dessa histeria do medo, do exagero do medo, da obsessão com o coronavírus. Eu acho que estou farto do exagero, começo a sentir que é um alarmismo a mais, uma necessidade de estar sempre a contabilizar os testes, os doentes, os mortos. E para ser franco, acho que esta contabilidade, no nosso caso concreto, particularmente no caso português, tem cada vez menos significado e começa a assustar mais do que realmente a informar, porque é uma contabilidade que tem alguns aspectos que podem ser enganadores, porque só deixa ver uma parte da realidade.

Como assim? Todos os dias temos os números da Direção Geral de Saúde e tu próprio já exigiste, semanas a fio, que a DGS os divulgasse com a maior transparência.

É verdade, mas também é verdade que há dados desta pandemia que deviam ter sido partilhados desde a primeira hora e que só muito tardiamente o foram, se é que foram todos. Mas há muita coisa que poderíamos ter sabido a tempo e horas e nunca soubemos ou soubemos muito tarde. E por isso é que achei muito interessante dois artigos de duas médicas, que estão por dentro do sistema, Margarida Abreu e Maria Oliveira, que o Observador publicou esta semana. Elas olham para a realidade e normalmente olham para os números com outros olhos, por caminhos muito diferentes, e ambas questionam muito esta forma obsessiva como estamos a olhar para tudo isto. Eu acho que vale a pena olhar e dar atenção para alguns dos seus argumentos.

E queres dar algum exemplo?

Quero. Por exemplo, a Margarida Abreu chama a atenção para uma coisa que eu também já falei, que é para a forma como estamos a contabilizar as vítimas de Covid, porque muitos dos doentes que morrem de Covid tinham outras morbidades e provavelmente teriam morrido na mesma se não tivessem testado positivo para Covid e se não fossem contabilizados por Covid. Portanto, em concreto, diz ela, há quem morra em consequência de uma doença oncológica ou porque teve um enfarte ou porque tem um AVC, e que, no entanto, como teve um teste positivo de Covid, passa a ser contabilizado como uma morte por Covid, quando a verdadeira causa de mortalidade provavelmente foi outra. Ou seja, se calhar, estamos com números inflacionados. Depois, mesmo assim, olhamos para a mortalidade e verificamos, e agora são números exatos, entre 16 de março, que foi o início desta contabilidade, e 31 de maio, que é até onde ela vai, morreram mais 2788 pessoas do que no mesmo período de 2019. Portanto, um período comparável. É um número importante, estamos a falar de um aumento de mortalidade importante. Ora, só metade destes números correspondem oficialmente à Covid. Portanto, se a causa da doença fosse corretamente atribuída, se calhar, nem um terço deste excesso de mortalidade foi por Covid. Então foi por quê? Eu acho que só há uma explicação para isso: foi porque há pessoas a morrer de medo de Covid, que é um tema que eu já tenho falado. Isto é, há mais gente a morrer de medo de Covid do que a morrer de Covid.

Sim, isto não é uma novidade. Mais uma vez, tu mesmo já tinhas falado desse problema aqui no Contracorrente.

Pois tinha, só que o problema mantém-se e aparentemente não está resolvido, porque verdadeiramente o medo mantém-se. Esta médica, aliás, assinala, e aqui interrogo-me se é só o medo, que nós temos hospitais com alas inteiras que estão reservadas para doentes Covid e que estão vazias, literalmente vazias, e depois temos os serviços normais cheios, apesar de não estar a haver a afluência que devia haver. Ela escreve mesmo que numa época de gripe, em dois dias, se internam tantos doentes no hospital central, como agora se internaram em dois meses e meio, o que é espantoso. Isto é, eu acho que há dois meses, quando não se sabia o que vinha aí, eu acho que se compreendia muito bem que se tomassem precauções e se tivéssemos, por assim dizer, montado todo um sistema para não nos acontecer o que aconteceu em Itália ou em Madrid ou em Nova York. Pronto. Não sabíamos o que ia acontecer. Ora, já soubemos o que ia acontecer, a onda, por assim dizer, já passou, e manter essas enfermarias desertas, unidades de cuidados intensivos que têm cada vez menos internados, exige que a gente pelo menos faça perguntas: "Mas por que estamos a fazer isto?" O país mantém-se em estado de calamidade, sem que exija pressão nos serviços hospitalares, porque neste momento isso não está a existir na área de Covid, se calhar está a existir noutras, pelo menos é o que elas dão a entender. Sendo que quando há um vulgar surto de gripe, as urgências rebentam pelas costuras, há macas espalhadas pelos corredores e nunca ninguém se lembrou, nessas alturas, de declarar um estado de calamidade, por exemplo.

O que dizes é que teríamos estados de calamidade todos os anos, se assim fosse.

Exatamente, e felizmente não temos. Agora, o que é feliz é que ninguém se lembra de pôr um travão nisto, quer dizer, pelo menos de questionar isto. Ora, o outro texto, que é o texto de Maria Oliveira, fala dos números da Grande Lisboa e chama a atenção para um aspeto que eu acho que é um aspeto interessante e talvez pouco conhecido. Basicamente, o que ela diz é assim: nós estamos a falar de um tipo de testes Que não é olhar para o microscópio e ver se está lá o vírus. Estamos a falar de testes muito sensíveis, que vão detectar vestígios do material genético do vírus. E detetam pequeníssimos fragmentos desse material genético. Ora, isso significa que podem detetar ruído do material genético do vírus e não o vírus inteiro. Portanto, podem apanhar apenas uma partícula inofensiva. E é por isso que fazer esses testes em massa, fazer testes a pessoas que não têm nenhuns sintomas, apenas fazer porque estiveram próximo ou tiveram na proximidade, é quase que andar à procura desse ruído. E por isso é que aumenta o número de casos, porque vamos apanhar esse ruído, mas aumenta, sobretudo, casos de pessoas que não têm quaisquer sintomas. Quando olhamos para as estatísticas, vemos isso. Vemos mais casos de pessoas assintomáticas e, ao mesmo tempo, não vemos aumentar o número de pessoas internadas, porque de facto, pessoas realmente doentes parecem não estar a aumentar. Pelo contrário, estão a diminuir. Portanto, pergunto-me se isto não será uma reação exagerada, uma reação de pânico.

Mas José Manuel, não achas normal que as pessoas tenham medo e que as autoridades de saúde estejam também assustadas?

Eu acho que isso era tudo normal, sobretudo da parte das autoridades de saúde, em março. Acho que agora, passaram dois meses ou quase três meses já, e começa a deixar de ser normal. Até porque há outros problemas de saúde e há outras preocupações que temos que ter. Porque, por exemplo, uma outra coisa que as outras médicas chamam a atenção, é que estamos num período em que é preciso que as pessoas saiam de casa. Por quê? Nós somos seres vivos e como somos seres vivos, precisamos apanhar outros germes. E esses germes apanhamos muitas vezes durante o verão. Por quê? Porque o nosso sistema imunitário precisa estar constantemente a ser desafiado, por assim dizer, e neste caso, desafiado para se preparar para o próximo inverno, que é um período em que os germes estão mais ativos e nós precisamos estar mais preparados. Ora, uma parte dessa ginástica que temos que fazer já não vai acontecer, sobretudo nas crianças, porque as crianças já não voltaram às escolas. E eu não sei até que ponto é que vamos pagar em mais doenças, isso daqui a uns meses. Mas podemos ainda fazer alguma coisa. Podemos, pelo menos, começar a abrir um pouquinho mais as portas e as janelas. E além de abrir as portas e as janelas, podemos começar a sacudir um bocado este medo, a viver um pouco mais a vida e a tentar retomar mais depressa a normalidade. Por isso é que eu digo, sinto que continua a haver muito exagero nisto tudo e que é preciso dizer, agora, sem medo, que o rei vai nu.

José Manuel Fernandes e o contracorrente das manhãs 360, também disponível no site do Observador, em podcast. Segunda-feira, há nova edição, sempre depois do Jornal das 18.

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