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José Manuel Fernandes, neste editorial da Rádio Observador. Muito bom dia, José Manuel Fernandes. Hoje quer dedicar o seu contracorrente a Hong Kong e à China. No meio desta crise, é importante falar de Hong Kong, José Manuel?
Eu acho que sim. Acho que é importante falar de Hong Kong, porque estamos a viver esta crise, mas enquanto o mundo se vira muito para o Covid-19, a verdade é que o futuro do mundo não é só Covid-19, o futuro da humanidade não passa apenas por esta pandemia. E a razão por que eu quero falar de Hong Kong é precisamente porque a China está a aproveitar esta crise, de alguma forma, para acabar com o que resta de liberdade e democracia naquele antigo território que esteve muitos anos sob a administração do Reino Unido. Enquanto estamos a olhar pro lado, digamos assim, enquanto estamos preocupados com o vírus, os comunistas chineses estão, na prática, a substituir o Estado de direito por aquilo que eu posso chamar o Estado do medo. Aliás, hoje a revista The Economist tem uma expressão que eu acho muito feliz, que é: estão a substituir "the rule of law for the rule of fear". Esta expressão é bonita. É aterrorizadora, também. Estamos também a ver quebrar a espinha ao movimento democrático, porque o movimento democrático, naturalmente, com as regras do confinamento, não consegue fazer as suas manifestações e, portanto, está também ele confinado. Estamos a assistir a uma espécie de golpe de Estado por via da lei, por via da legislação.
José Manuel Fernandes, temos falado e muito da situação em Hong Kong nas notícias, vamos falando disso, dos protestos, das reações, mas afinal de contas, em concreto, o que é que a China quer fazer em Hong Kong?
O que a China está a fazer em Hong Kong é, segundo aquilo que se percebe, impor uma nova lei de segurança, uma lei naturalmente escrita em Pequim. É uma lei que introduz no quadro de Hong Kong dois novos conceitos, o conceito de subversão e o conceito de secessão, que não estavam atualmente nas leis do território. Ora, estes dois crimes são exatamente os crimes que o regime comunista usa para perseguir, por exemplo, os tibetanos, os uigures, mas também usa contra todos os dissidentes. Portanto, é um tipo de crime que cobre muita coisa, tem uma moldura muito alargada e que, no fundo, permite meter tudo lá dentro. Eu talvez fizesse uma espécie de comparação, diria que era aquele tipo de crimes contra a segurança do Estado que a PIDE usava para perseguir quem ela queria em Portugal. Só que, na China, o regime comunista é muitíssimo mais duro, muito mais severo, muito mais violento do que era a nossa PIDE. A leitura que todos estão a fazer desta lei é que com ela a autonomia de Hong Kong praticamente fica ferida de morte. No fundo, é o fim da ideia "um país, dois sistemas", que era uma ideia que vinha do tempo de Deng Xiaoping e que agora com Xi Jinping, no fundo, morre, porque Xi Jinping já se julga suficientemente forte para impor a lei do partido sem disfarces, porque ele, sobretudo, não quer que a China saia a perder desta crise.
Sim, e vimos muitos comentários e comentadores, até de renome internacional, dizer que esta pandemia poderia funcionar como uma espécie de desastre de Chernobyl, estar para Pequim como o desastre de Chernobyl esteve para Moscovo.
Sim, eu acho que isso foi uma ideia que houve ao princípio, mas acho que ninguém hoje em dia tem essa ideia. Acho que é até um bocado ao contrário. Neste momento, aquilo a que assistimos é antes a uma campanha de propaganda dos chineses sem precedentes, nunca se viu nada assim. Os chineses e Pequim estão a mobilizar todos os recursos que podem. Por exemplo, o vírus apareceu em Wuhan, como todos sabemos, mas já houve embaixadores chineses a sugerir que se investigassem laboratórios nos Estados Unidos. Não foram jornais, foram embaixadores. A esta agressividade verbal correspondem as ações como Hong Kong, mas, por exemplo, manobras militares. Eu até devia talvez falar de provocações militares. Por exemplo, esta semana houve centenas de militares chineses que ocuparam nos Himalaias um troço de fronteira que está em disputa com a Índia, assim como quem não quer a coisa. Estamos todos a olhar para o vírus, mas a China está a olhar muito claramente para outros objetivos.
Mas estás a falar aqui de uma distração da comunidade internacional ou de alguma condescendência com Pequim?
Eu acho que pode haver distração. Acho que no caso da Europa talvez haja condescendência, porque recentemente, por exemplo, no início deste mês, houve uma situação que eu acho inacreditável, pois os embaixadores dos 27 aceitaram que um jornal chinês censurasse uma carta que eles próprios tinham escrito. E não tinham escrito nada de especial, quer dizer, a única coisa que eles tinham feito era colocar numa carta, aliás, uma carta laudatória, congratulatória de uma efeméride, uma referência a que o Covid-19 tinha tido origem na China, apenas. Ora, nem isso puderam escrever, como se não fosse um facto objetivo. O pior pra mim foi que eles obedeceram aos censores chineses, o que é uma vergonha absoluta, mas é assim que a Europa está. Eu suspeito que neste momento a Europa já depende tanto da China que já não consegue manter a espinha direita.
Isso é uma acusação grave, José Manuel.
Eu acho que é só uma suspeita, por enquanto não é uma acusação, mas basta olhar, por exemplo, à volta e basta olhar para o que se passa em Portugal. Deixamos ver até que ponto nos hipotecamos a empresas chinesas, algumas delas do Estado chinês. É EDP, a REN, o BCP, são seguradoras, são investimentos imobiliários, é participação na indústria farmacêutica, na saúde, telecomunicações, quer dizer, é um mundo que nunca mais acaba. É verdade, nós fomos à bancarrota, nós estávamos arruinados. Nós fomos obrigados a andar de mão estendida e, portanto, foi no que deu. O resultado está à vista. Eu sei que mesmo assim muitos encolhem os ombros, dizem que são investidores, são investidores como outros quaisquer, até nalguns aspetos são melhores, porque são investidores de longo prazo, não vêm aqui só para especular e ir-se embora.
E o capital não tem pátria.
E o capital não tem pátria. Só que neste caso não tem pátria, mas tem cor. Este capital tem cor. Portanto, eu acho que é melhor nós nos desenganarmos, porque eu vou olhar para Hong Kong e olhar para as promessas violadas em Hong Kong e tentar perceber que estas empresas podem ser privadas e, portanto, não ter pátria, mas que no fim do dia, quem manda nelas é o Partido Comunista Chinês. E portanto, eu acho que é melhor desenganarmos, porque acho que vamos ter um dia que fazer escolhas difíceis.
E que escolhas são, José Manuel?
Eu acho que as escolhas é que se quisermos garantir a nossa liberdade, se calhar vamos ter que abdicar de alguma prosperidade que de alguma forma está relacionada com o fato de haver muita integração com a economia chinesa e muita integração com o dinheiro chinês. Por outras palavras, vamos ter que dispensar o dinheiro chinês, muitos financiamentos chineses, e se calhar vamos ter que barrar a entrada a muitas empresas chinesas na Europa. Isso já está a ser feito por muitos países europeus, pelo menos pelos que podem. Pondo as coisas de outra forma, se calhar de uma forma que as pessoas entendem melhor. Se não quisermos ficar nas mãos dos decisores de Pequim, como de alguma forma ficámos já nesta crise, basta ver como ficámos dependentes para alguns fornecimentos, vamos ter muito provavelmente, e se calhar não daqui a muito tempo, de pagar mais caro, por exemplo, pelos nossos iPhones ou pelos nossos Huaweis, que são fabricados na China, porque como dizia o outro, não há almoços grátis. E a nossa liberdade também não é um almoço grátis.
José Manuel Fernandes. E o Contracorrente de hoje está nas manhãs 360, de segunda a sexta, depois do jornal das 08h00. Podem também sempre escutá-lo em podcast. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.